SÊNECA

CARTAS DE UM ESTOICO

UM GUIA PARA A VIDA FELIZ

VOLUME I - CARTAS 1 A

"ESTOU TRABALHANDO PARA GERAÇÕES

POSTERIORES, ESCREVENDO ALGUMAS IDEIAS

QUE PODEM SER DE AJUDA PARA ELAS.

APONTO OUTROS HOMENS PARA O CAMINHO

CERTO, QUE EU ENCONTREI TARDE NA VIDA,

QUANDO CANSADO DE VAGAR.

”

SÊNECA, CARTA VIII, 2-

Tradução, introdução e notas de

ALEXANDRE PIRES VIEIRA

©2021 Copyright Montecristo Editora - versão 10/02/

SÊNECA CARTAS DE UM ESTOICO

UM GUIA PARA A VIDA FELIZ

2° Edição Revisada

Ad Lucilium Epistulae Morales

Lucius Annaeus Sêneca

Supervisão de Editoração/Capa

Montecristo Editora

Tradução

Alexandre Pires Vieira

Revisão

Renata Russo Blazek

Imagem da Capa

Busto de Sêneca no Museo del Prado por Jean-Pol Grandmont

ISBN:

978-1-61965-119-7 – Edição Digital

978-1-61965-231-6 – Edição Papel

Montecristo Editora Ltda.

e-mail: editora@montecristoeditora.com.br

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) SÊNECA

Cartas de um Estoico, Volume I - Um guia para a Vida Feliz / Sêneca;

introdução, tradução e notas de Alexandre Pires Vieira – São Paulo/SP :

Montecristo Editora, 2021.

Título original: Ad Lucilium Epistulae Morales

1. Ética política 2. Filosofia antiga 3. Sêneca

Crítica e interpretação I. Pires Vieira, Alexandre I . Título.

16-03288 CDD-

Índices para catálogo sistemático:

1. Sêneca : Filosofia

SUMÁRIO

CARTAS DE UM ESTOICO

VOLUME I - CARTAS 1 A

Louvor

Prefácio da segunda edição

Introdução

Sobre a tradução

Sobre o autor I. Sobre aproveitar o tempo

II. Sobre a falta de foco na leitura

III.

Sobre a verdadeira e a falsa amizade

IV. Sobre os terrores da morte

V. Sobre a virtude do filósofo

VI. Sobre compartilhar conhecimento

VII.

Sobre multidões

VIII.

Sobre o isolamento do filósofo

IX. Sobre filosofia e amizade

X. Sobre viver para si mesmo

XI. Sobre o rubor da modéstia

XII.

Sobre a velhice

XIII.

Sobre medos infundados

XIV.

Sobre as razões para se retirar do mundo

XV. Sobre força bruta e cérebros

XVI.

Sobre filosofia, o guia da vida

XVII.

Sobre filosofia e riquezas

XVIII.

Sobre festivais e jejum

XIX.

Sobre materialismo e retiro

XX. Sobre praticar o que se prega XXI.

Sobre o reconhecimento que meus escritos lhe trarão

XXII.

Sobre a futilidade de meias medidas

XXIII.

Sobre a verdadeira alegria que vem da filosofia

XXIV.

Sobre o desprezo pela morte

XXV.

Sobre a mudança

XXVI.

Sobre a velhice e a morte

XXVII.

Sobre o bem que permanece

XXVIII.

Sobre viajar como cura para o descontentamento

XXIX.

Sobre evitar ajudar os não interessados

XXX.

Sobre conquistar o conquistador (a morte)

XXXI.

Sobre o canto da sereia

XXXII.

Sobre progresso

XXXIII.

Sobre a futilidade de aprender axiomas

XXXIV.

Sobre um aluno promissor

XXXV.

Sobre a amizade entre mentes semelhantes

XXXVI.

Sobre o valor da aposentadoria

XXXVII.

Sobre a lealdade à virtude

XXXVIII.

Sobre o ensinamento tranquilo

XXXIX.

Sobre aspirações nobres

XL. Sobre o estilo apropriado para o discurso de um filósofo XLI.

Sobre o Deus dentro de nós

XLII.

Sobre valores

XLIII.

Sobre a relatividade da fama

XLIV.

Sobre filosofia e pedigrees

XLV.

Sobre argumentação sofística

XLVI.

Sobre um novo livro de Lucílio.

XLVII.

Sobre mestre e escravo

XLVIII.

Sobre trocadilhos como indignos ao filósofo

XLIX.

Sobre a brevidade da vida

L. Sobre nossa cegueira e sua cura

LI. Sobre Baiae e a moral

LII.

Escolhendo nossos professores

LIII.

Sobre as falhas do espírito

LIV.

Sobre asma e morte

LV. Sobre a Vila de Vácia

LVI.

Sobre silêncio e estudo

LVII.

Sobre as provações de viagem

LVIII.

Sobre ser, existir e eutanásia

LIX.

Sobre prazer e alegria

LX. Sobre orações prejudiciais LXI.

Sobre encontrar a morte alegremente

LXII.

Sobre boa companhia

LXIII.

Sobre sofrimento por amigos perdidos

LXIV.

Sobre a tarefa do Filósofo

LXV.

Sobre a primeira causa (Deus/Logos)

Bônus

LXVI.

Sobre vários aspectos da virtude

Louvor

“Os conselhos de Sêneca podem nos ajudar a desenvolver a

coragem necessária para encarar a realidade e para lidar com ela

da melhor maneira possível; podem servir-nos como remédios

contra a ignorância, ou ferramentas para acessar o real: não só

para resistir às adversidades, mas para crescer no meio delas,

conservando a alma sempre serena e resoluta.” – Aldo Dinucci,

doutor em filosofia, professor da Universidade Federal de Sergipe

“Cartas a Lucílio é um livro que mudou minha vida inúmeras vezes.

Se você estudar Seneca, você estará em boa companhia.

Ele era

popular entre a elite educada do Império Greco-Romano, mas

Thomas Jefferson também tinha Sêneca em sua mesa de cabeceira.” – Tim Ferriss, escritor empresário, investidor anjo e

palestrante.

Autor do bestsel er Trabalhe 4 Horas por Semana

“Seu pensamento permanece como uma fonte de inspiração e um

guia para a consciência moral.

O psicólogo Albert Ellis utilizou-se

de Sêneca para formular sua escola de terapia comportamental, e

décadas mais tarde, Michel Foucault usou a prática de Sêneca de

introspecção diária como modelo.

O estoicismo antigo tem papel

salutar a cumprir no mundo moderno.” – James Romm, autor e

professor de filosofia clássica no Bard Col ege, NY.

“Cartas são a contribuição filosófica mais significativa de Sêneca e,

ao mesmo tempo, seu empreendimento mais inovador em

composição literária.

Em sua pretensão de beneficiar um grande

número de pessoas através de sua escrita, Sêneca oferece

resposta a problemas há muito debatido entre os filósofos.” – A. A.

Long, professor emérito na Universidade da Califórnia, Berkeley e

Margaret Graver, professora da Universidade de Princeton.

Prefácio da segunda edição

Após a publicação da primeira edição no final de 2017, criei o website O Estoico1 e também uma página no Facebook2 para divulgar o estoicismo e as cartas de Sêneca.

Neste espaço venho

colocando textos dos filósofos estoicos, principalmente Sêneca, e

comentando brevemente cada carta e obra de Sêneca.

Nos dois últimos anos, 2019 e 2020, traduzi todas as outras obras

filosóficas de Sêneca bem como sua biografia por Francis Hol and.

Com esse exercício e com ajuda dos debates com internautas,

acabei aprofundando meu entendimento do estoicismo e percebendo

várias interpretações imperfeitas contidas na primeira edição.

Esta

nova tradução é o resultado de três anos de análise e estudo do

estoicismo.

Sêneca tem uma retórica dramática e maravilhosa.

Não só prende a

atenção, mas eleva o espírito do leitor.

As cartas são alívios que

curam a alma de ignorâncias e medos infundados.

Este livro não tem

outro objetivo senão o de ajudá-lo nisto.

Escritas no auge de uma

das maiores civilizações da história, as cartas a Lucílio são

consideradas a obra mais importante de Sêneca, já que foram

produzidas na última fase de sua vida e refletem, portanto, a forma

mais amadurecida do seu pensamento.

Após a morte do imperador Cláudio e o acesso de Nero ao poder, Sêneca, que era seu preceptor, passou a orientar a política romana

como conselheiro do jovem imperador, provavelmente porque pensou

ter nas mãos uma oportunidade única de agir, através da política,

sobre a vida moral de Roma.

O quinquennium neronis, 4 – os cinco primeiros anos do principado de Nero, que foram marcados por

grande desenvolvimento econômico e social – teria sido influenciado

por Sêneca.

Só que as realidades do poder e o idealismo da filosofia

uma vez mais se mostraram inconciliáveis, e o resultado foi Sêneca

ter de acabar por afastar-se do exercício de um poder que cada vez

mais lhe escapava.

Daí que ele tenha afirmado no seu breve ensaio

Sobre o ócio, 5 em resposta precisamente a uma objeção de Lucílio, que estranhava vê-lo contrariando os princípios da escola estoica ao

defender o afastamento do sábio da vida pública: segundo Sêneca o

sábio só deve participar na vida política se o puder fazer dentro da

maior dignidade e se a sua ação tiver possibilidade de ser benéfica

para a comunidade; se, pelo contrário, as condições forem tais que o

sábio só possa estar na política com o abandono da moral, então

deverá retirar-se. Tais condições impuseram o afastamento de

Sêneca e constituíram o cenário em que escreveu estas cartas.

Não

há, pois, contradição, apenas a necessidade de salvaguardar a independência e a dignidade moral ameaçadas.

Além disso pela própria amplitude dos temas abordados, as cartas

expõem uma soma de reflexões sobre enorme variedade de

problemas, num quadro teórico perfeitamente delimitado e coerente,

e ainda mais, que se revestem de um carácter extremamente

prático, isto é, que constituem uma análise de situações concretas e

de apreciações de grande agudeza sobre a natureza e o

comportamento humanos.

O leitor saberá avivar a sabedoria de Sêneca com uma chama nova

que brotará de sua própria consciência.

Por si só, um texto não é

nada.

Faz-se necessária uma alma para concatenar seus méritos às

frases do texto.

O efeito de um livro depende de cada um de nós.

A

última etapa definitivamente não é o texto que sai da pena do autor

(ou do computador do tradutor), mas o verbo mental que o próprio

leitor elabora.

Aí está o motivo pelo qual reeditei este trabalho.

Gostaria muito que

a obra de Sêneca se difundisse em outros lugares e épocas, bem

longe daquela de onde veio ao mundo.

Alexandre Pires Vieira

Viena, Carnaval de Notas:

1 http://estoico.com.br

2 http://www.facebook.com/Oestoico

3 Ver Francis Hol and, “Sêneca, Vida e Filosofia ”

4 Quinquennium neronis, Ver Klain Belchior, Ygor, Faversani, Fábio: “O papel da clemência senequiana na narrativa dos annales de publius cornelius tacitus” .

Revista Archai.

2009: “A primeira parte de seu governo, nomeada por muitos historiadores como quinquennium neronis, teria sido positiva, já que os vícios do Princeps e os excessos de sua mãe foram controlados por Sêneca e Burro.

A mudança de qualidade do governo ocorre com a morte de Burro e a afastamento

de Sêneca do poder, levando ao período considerado como um mau governo, quando Nero teria sua administração voltada aos vícios por sua própria vontade e

pela influência negativa de Tigelino”.

5 Ver Sêneca, “Sobre o ócio”

Introdução

CARTAS DE UM ESTOICO

VOLUME I - CARTAS 1 A

Poucos de nós nos consideramos filósofos.

"Filosofia" costuma remeter a imagens de livros didáticos densos e discussões

acadêmicas sem aplicação na vida real.

Talvez possa ser divertido

para catedráticos, mas seria certamente uma perda de tempo para o

resto de nós.

Eu também me senti assim por décadas.

Então eu

encontrei o trabalho de Lucius Annaeus Seneca, mais conhecido

como “Sêneca, o Jovem” ou simplesmente " Sêneca". Nascido em

a.C. na atual Espanha e criado em Roma, Sêneca foi

simultaneamente dramaturgo de sucesso, uma das pessoas mais

ricas de Roma, estadista famoso e conselheiro do imperador Nero.

Ele teve que negociar, persuadir e planejar seu caminho pela vida.

Ao

invés de filosofar da segurança da cátedra de uma universidade, ele

teve que lidar constantemente com pessoas não cooperativas e

poderosas e enfrentar o desastre, o exílio, a saúde frágil e a

condenação à morte tanto por Calígula como por Nero (esse último

com sucesso). Sêneca correu riscos e teve grandes feitos.

Sua principal filosofia, o estoicismo, foi fundada em torno de 300 a.C.

em Atenas e pode ser encarada como um sistema para prosperar

em ambientes de alto estresse.

Em seu núcleo, ensina como separar

o que você pode controlar do que não pode e o treina para se

concentrar exclusivamente na primeira categoria.

O estoicismo foi projetado para os realizadores, e você estará bem acompanhado

como estudante.

Thomas Jefferson tinha Sêneca na mesa de

cabeceira.

Michel de Montaigne tinha uma citação de Epicteto

esculpida no teto de sua casa para que ele a visse constantemente.

O imperador Marco Aurélio, maior exemplo de rei-filósofo, é grande

expoente do estoicismo e suas memórias constituem no texto estoico

mais lido na atualidade.

Mas longe de se limitar a superar o negativo, o estoicismo também

pode ser usado para maximizar o positivo.

A filosofia de Sêneca aborda a busca da felicidade, a preparação

para a morte, as desilusões, a amizade e levanta uma das principais

questões humanas: como conjugar qualidade de vida e tempo

escasso.

Leitores do século XXI serão surpreendidos por lições

como: “A duração de minha vida não depende de mim.

O que

depende é que eu não percorra de forma pouco nobre as fases

dessa vida; devo governá-la, e não por ela ser levado”; “Pobre não

é o homem que tem pouco, mas o homem que anseia por mais”;

“Qual é o limite adequado para a riqueza? É, primeiro, ter o que é

necessário e, segundo, ter o que é suficiente”. Ou ainda: “Não deixemos nada para mais tarde.

Acertemos nossas contas com a

vida dia após dia”.

Eis a essência em alguns trechos:

“reserve um certo número de dias, durante os quais você se

contentará com a alimentação mais barata e escassa, com

vestes grosseiras e ásperas, dizendo a si mesmo: "É esta a

situação que eu temia?" É precisamente em tempos

despreocupados que a alma deve endurecer-se de antemão

para ocasiões de maior estresse e é enquanto a Fortuna é

amável, que se deve fortalecer contra violência.

Em dias de

paz, o soldado executa manobras, lança obras de

terraplenagem sem inimigo à vista e se exercita, a fim de se

tornar indiferente à labuta inevitável.

Se você não quer que

um homem recue quando a crise chegar, treine-o antes que

ela chegue.

...

Deixe a cama de palha ser real e o manto grosseiro; deixe o

pão ser duro e sujo.

Resista a tudo isso por três ou quatro dias

por vez, às vezes por mais, para que possa ser um teste de si mesmo em vez de um mero passatempo.

Então, asseguro-

lhe, meu querido Lucílio, que saltará de alegria quando obtiver

uma migalha de comida, e compreenderá que a paz de

espírito de um homem não depende da Fortuna; pois, mesmo

quando irritada ela concede o suficiente para as nossas

necessidades.”

Carta 18 – Sobre festivais e jejum

As cartas de Sêneca podem ser interpretadas como um guia prático

para a frugalidade e como contentar-se com o suficiente.

A

prática do estoicismo torna você menos emocionalmente reativo,

mais consciente do presente e mais resiliente.

À medida que você

navega na vida, esse tipo de treinamento de força mental também

facilita as decisões difíceis, seja desistir de um emprego, fundar uma

empresa, convidar alguém para sair, terminar um relacionamento ou

qualquer outra coisa.

Então, por onde começar? Existem muitas grandes mentes no

panteão estoico, incluindo Marco Aurélio, Epicteto e Catão.

Penso,

porém, que Sêneca se destaca como fácil de ler, memorável e

surpreendentemente prático.

Ele aborda aspectos específicos que vão desde como agir frente à calúnia e à traição, até o jejum, o

exercício, a riqueza e a morte.

Principalmente a morte e como se

preparar para ela.

Sugiro que você se aproxime desse livro da maneira como me

aproximei: faça de Sêneca parte da sua rotina diária.

Reserve quinze

minutos por dia e leia uma carta.

Seja pela manhã no café, antes de

dormir, ou em algum lugar intermediário, tente digerir uma carta

diariamente.

As primeiras cartas são introdutórias e mais simples.

As

finais, principalmente as do volume III, são mais profundas,

abordando pontos filosóficos complexos.

Sinta-se à vontade para

saltar e retornar as cartas.

Três das minhas favoritas neste volume

podem ajudá-lo a começar: Carta 13 – Sobre Medos infundados,

Carta 18 – Sobre festivais e jejum e Carta 47 – Sobre mestre e escravo.

...

Sobre a tradução

Meu interesse pelo estoicismo em geral, e por Sêneca em particular,

foi despertado ao ler Antifrágil por Nassim Nicholas Taleb, onde o

badalado autor cita Sêneca inúmeras vezes e usa seu nome em dois capítulos do livro6. Posteriormente notei referências a Sêneca em vários outros autores modernos, indo de acadêmicos renomados,

passando por podcasters de finanças pessoais e até por gurus de

autoajuda.

Decidi então ler as 124 cartas de Sêneca a Lucílio – considerada a

principal obra de Sêneca.

São cartas destinadas ao seu amigo

Lucílio, com o propósito explícito de orientar sua formação espiritual

segundo os preceitos e princípios do estoicismo.

Porém,

surpreendentemente, em 2016 somente havia disponível no mercado

duas obras incompletas em português: “Sêneca - Aprendendo A

Viver” 7 uma coletânea de 24 cartas selecionadas pela L&PM e

“Edificar-se para a morte.

Das cartas morais a Lucílio” 8 coletânea de 22 cartas selecionadas pela editora Vozes.

A disponibilidade de apenas poucas cartas em português foi para

mim inaceitável, o que me motivou a fazer a tradução completa das

124 epístolas.

Sêneca diz na carta 33 que nenhum trecho pode ser

retirado das grandes obras sem que haja uma perda da

compreensão:

...desista de acreditar que possa desnatar, por meio de

resumos, a sabedoria de homens ilustres.

Olhe para a sabedoria como um todo; estude-a como um todo.

Ela elabora

um plano coesamente tecido, linha a linha, uma obra-prima,

da qual nada pode ser tirado sem ferir o todo.

Examine as

partes separadas, se quiser, desde que você as examine

como partes do próprio homem.

Aquela não é uma bela

mulher cujo tornozelo ou braço é elogiado, mas cuja

aparência geral faz você esquecer de admirar atributos

únicos.

A tradução foi baseada em várias versões em inglês, todas

fundamentadas no trabalho de Otto Hense.

A leitura das seguintes

obras foi fundamental para a conclusão deste trabalho: 1. “Moral

Letters to Lucilius by Seneca” por Richard Mott Gummere fonte

principal da tradução.

2. Reading Seneca: Stoic Philosophy at

Rome por Brad Inwood, 3. A Guide to the Good Life: The Ancient

Art of Stoic Joy por Wil iam Braxton Irvine; 4. Seneca - Selected

Letters por Elaine Fantham.

Poucas observações sobre a tradução são necessárias.

No latim, o uso da segunda pessoa é natural para expressar a

relação de proximidade e familiaridade.

Nas traduções em português geralmente usa-se a segunda pessoa (tu). Contudo, no português

atual do Brasil, o uso da terceira pessoa (você) me parece mais

adequado à intenção de Sêneca, que ensinava filosofia a um amigo.

Assim, toda a tradução foi feita em terceira pessoa.

As cartas são ilustradas por inúmeras citações literárias de Virgílio,

também são citados outros poetas e autores latinos.

Sempre que

possível foi colocado o original em Latim, bem como uma tradução

bastante livre vertida do inglês.

Desde já peço perdão aos leitores

pela falta de poesia nas versões.

Algumas escolhas lexicais devem ser esclarecidas.

“fortuna/fortunae”, para o autor latino, se assemelha à nossa “sorte”

ou “destino”, mas era também uma divindade: o nome comum e o

nome próprio são dificilmente distinguíveis nas cartas, portanto,

decidi usar sempre “Fortuna”. O termo latino “anima/aninus”

costuma ser traduzido por “alma” em português.

Nesta tradução

segui o termo usado em inglês e o traduzi por “mente” ou “força

vital”.

Todas as cartas iniciam com a “Seneca Lvcilio svo salvtem”,

Saudações de Sêneca a Lucílio e terminam com “Vale” que muito

frequentemente é traduzido como “Adeus”. Talvez fosse melhor traduzido de outras maneiras, e minha forma favorita é: Mantenha-

se forte.

Que este livro sirva como amigo, professor e companheiro no

caminho.

Espero que gostem do passeio tanto quanto eu,

Alexandre Pires Vieira

Viena, Novembro de

Notas:

6 Ver “Antifrágil: Coisas que se beneficiam com o caos” , por Nassim Nicholas Taleb

- Capítulo 10 e 11: “As vantagens e desvantagens de Sêneca” e “A estratégia Barbel de Sêneca”

7 Ver “Sêneca - Aprendendo A Viver” L&PM, tradução de Lúcia Rebel o e El en Vranas.

8 Ver “Edificar-se para a morte.

Das cartas morais a Lucílio” , Editora Vozes, tradução de Renata de Freitas.

Sobre o autor

Lúcio Aneu Sêneca, em latim: Lucius Annaeus Seneca, é

conhecido também como Sêneca, o jovem ou o filósofo.

Nasceu em

Córdoba, aproximadamente em 4 a.C. Era de família abastada, que se transferiu para Roma quando ele ainda era criança.

Muito jovem,

Sêneca estudou com o estoico Átalo e com os neopitagóricos Sótion

de Alexandria e Papírio Fabiano, discípulos do filósofo romano

Quinto Séxtio.

Provavelmente por motivos de saúde, Sêneca mudou-se, por volta

de 20 d.C., para Alexandria, no Egito, de onde retornou a Roma em

31. Aos quarenta anos iniciou carreira como orador e político, tendo

rapidamente sido eleito para o senado.

Em Roma, estabeleceu

vínculos com as irmãs do imperador Calígula: Livila, Drusila e

Agripina Menor, mãe do futuro imperador Nero.

Sendo figura

destacada no senado e no ambiente palaciano, foi envolvido numa

conjuração contra Calígula.

Sêneca diz que se livrou da condenação à morte por sofrer de uma

doença pulmonar (provavelmente asma). Assim, por intercessão de

aliados, Calígula foi convencido que ele estaria condenado a uma

morte natural iminente.

Com o assassinato de Calígula em 41, Sêneca tornou-se alvo de

Messalina, esposa do imperador Cláudio, num confronto entre esta e

as irmãs de Calígula.

Acusado de manter relações adúlteras com

Livila, foi condenado à morte pelo Senado.

Por intervenção do próprio imperador, a pena foi comutada em exílio na ilha de Córsega.

O exílio durou oito anos, período em que o filósofo se dedicou aos

estudos e à composição de inúmeras obras.

Em 49 d.C. Agripina, então a nova esposa do imperador Cláudio,

possibilitou o retorno de Sêneca e o instituiu como preceptor de seu

filho Nero, então com doze anos.

Após a morte de Cláudio em 54,

Nero foi nomeado seu sucessor e Sêneca tornou-se o principal

conselheiro do jovem imperador.

No entanto, o conflito de interesses

envolvendo, de um lado, Agripina e seus aliados e de outro,

conselheiros de Nero, os quais, por sua vez, se opunham a Sêneca,

levou a uma crise que resultou na morte de Agripina e no gradual

enfraquecimento político de Sêneca.

Em 62, Sêneca solicitou a Nero para se afastar totalmente das

funções públicas, contudo o pedido foi negado.

De toda forma,

alegando saúde precária, Sêneca passou a se dedicar ao ócio, ou

seja, à leitura e à escrita.

Sua relação com Nero deteriorou-se

principalmente pelo prestígio do filósofo no meio político e intelectual,

onde era visto como um possível governante ideal.

No início de 65,

foi envolvido em uma conjuração para derrubar o imperador e foi

condenado à morte por suicídio, morreu em 19 de abril.

Sêneca foi simultaneamente dramaturgo de sucesso, uma das

pessoas mais ricas de Roma, estadista famoso e conselheiro do

imperador.

Sêneca teve que negociar, persuadir e planejar seu

caminho pela vida.

Ao invés de filosofar da segurança da cátedra de

uma universidade, ele teve que lidar constantemente com pessoas

não cooperativas e poderosas e enfrentar o desastre, o exílio, a

saúde frágil e a condenação à morte.

Sêneca correu riscos e teve

grandes feitos.

A biografia de Sêneca por Francis Hol and, 9 também de minha tradução, apresenta um retrato fascinante do prolífico mas

misterioso estadista e filósofo romano.

Nesta obrar, os seguidores

modernos do estoicismo, colherão novos conhecimentos sobre as

influências e eventos que moldaram a mente de Sêneca ao tomar

conhecimento dos desmandos e abusos do imperadores Calígula,

Cláudio e Nero, bem como dos costumes da Roma Antiga que

serviram de pano de fundo aos seus ensinamentos.

Obras filosóficas de Sêneca:

Cartas de um Estoico, Vol I ( Epistulae morales ad Lucilium)

Cartas de um Estoico, Vol II

Cartas de um Estoico, Vol III Sobre a Ira ( De Ira)

Consolação a Márcia ( Ad Marciam, De consolatione)

Consolação a Minha Mãe Hélvia ( Ad Helviam matrem, De consolatione)

Consolação a Políbio ( De Consolatione ad Polybium)

Sobre a Brevidade da vida( De Brevitate Vitae)

Da Clemência ( De Clementia)

Sobre Constância do sábio ( De Constantia Sapientis)

A Vida Feliz ( De Vita Beata)

Sobre os Benefícios ( De Beneficiis)

Sobre a Tranquilidade da alma ( De Tranquillitate Animi)

Sobre o Ócio ( De Otio)

Sobre a Providência Divina ( De Providentia) Sobre a Superstição ( De Superstitione) perdida, citada por

Santo Agostinho.

Além de filosofia, Sêneca escreveu também Tragédias e peças de

teatro, bastante populares em sua época:

Hércules furioso ( Hercules furens)

As Troianas ( Troades) As Fenícias ( Phoenissae)

Medeia ( Medea)

Fedra ( Phaedra)

Édipo ( Oedipus)

Agamemnon

Tiestes ( Thyestes)

Hércules no Eta ( Hercules Oetaeus)

Notas:

9 Ver Francis Hol and, “Sêneca, Vida e Filosofia ”

CARTAS DE UM ESTOICO

VOLUME I - CARTAS 1 A

I. Sobre aproveitar o tempo

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Continue a agir assim, meu querido Lucílio: liberte-se por conta

própria; poupe e aproveite seu tempo, que até recentemente tem

sido retirado a força de você ou furtado ou simplesmente escapado

de suas mãos.

Faça-se acreditar na verdade de minhas palavras:

que certos momentos são arrancados de nós, que alguns são

removidos suavemente e que outros fogem além de nosso alcance.

O tipo mais desgraçado de perda, no entanto, é aquele devido ao

descuido.

Ademais, se você prestar atenção ao problema, você verá

que a maior parte de nossa vida passa enquanto estamos fazendo

coisas desagradáveis, uma boa parte enquanto não estamos fazendo

nada e tudo isso enquanto estamos fazendo o que não deveríamos

fazer.

2. Qual homem você pode me mostrar que coloca algum valor em

seu tempo, que dá o devido valor a cada dia, que entende que está

morrendo diariamente? Pois estamos equivocados quando pensamos

que a morte é coisa do futuro; a maior parte da morte já passou.

Quaisquer anos atrás de nós já estão nas mãos da morte.

Portanto,

Lucílio, faça como você me escreve que você está fazendo:

mantenha cada hora ao seu alcance.

Agarre a tarefa de hoje e você

não precisará depender tanto do amanhã.

Enquanto estamos

postergando, a vida corre.

3. Nada, Lucílio, é nosso, exceto o tempo.

A natureza nos deu o

privilégio desta única coisa, tão fugaz e escorregadia que

qualquer um pode esbulhar tal posse.

Que tolos esses mortais

são! Eles permitem que as coisas mais baratas e inúteis, que podem

ser facilmente substituídas, sejam contabilizadas depois de terem sido adquiridas; mas nunca se consideram em dívida quando

recebem parte dessa preciosa mercadoria, o tempo! E, no entanto, o

tempo é o único empréstimo que nem o mais agradecido destinatário

pode pagar.

4. Você pode desejar saber como eu, que prego a você, estou

praticando.

Confesso francamente: meu saldo em conta corrente é

como o esperado de alguém generoso mas cuidadoso.

Não posso

vangloriar-me de não desperdiçar nada, mas pelo menos posso lhe

dizer o que estou desperdiçando, a causa e a maneira de

desperdício; posso lhe dar as razões pelas quais sou um homem

pobre.

Minha situação, no entanto, é a mesma de muitos que são

reduzidos a miséria sem culpa própria: todos os perdoam, mas

ninguém vem em seu socorro.

5. Qual é o estado das coisas, então? É isto: eu não considero um

homem como pobre, se o pouco que lhe resta o é suficiente.

Contudo, aconselho-o a preservar o que é realmente seu; e nunca é

cedo demais para começar.

Pois, como acreditavam os nossos

antepassados, é demasiado tarde para gastarmos quando chegarmos à raspa do tacho.

10 Daquilo que permanece no fundo, a

quantidade é pouca e a qualidade é vil.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

10 Tradução, por Sêneca, de frase célebre de Hesíodo

II. Sobre a falta de foco na

leitura

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Julgando pelo que você me escreve e pelo que eu ouço, eu estou

formando uma boa opinião a respeito de seu futuro.

Você não corre

para cá e para lá e se distrai mudando sua morada; pois tal

inquietação é o sinal de um espírito desordenado.

A principal

indicação, na minha opinião, de uma mente bem ordenada é a

habilidade de um homem em permanecer em seu lugar e ficar bem

em sua própria companhia.

2. Tenha cuidado, no entanto, porque esta leitura de muitos autores e

livros de qualquer espécie tendem a torná-lo dispersivo e instável.

Você deve permanecer entre um número limitado de mestres

pensadores e digerir suas obras, para que construa ideias firmes em

sua mente.

Estar em todo lugar significa também estar em lugar nenhum.

Quando uma pessoa gasta todo o seu tempo em viagens ao

estrangeiro, ela termina por ter muitos conhecidos, mas nenhum

amigo.

E a mesma coisa deve ser válida para os homens que não

procuram o conhecimento íntimo de um único autor, mas visitam

todos de uma maneira precipitada e apressada.

3. O alimento não faz bem e não é assimilado pelo corpo se ele

deixa o estômago assim que é comido; nada impede uma cura tanto

quanto a mudança frequente de medicamento; nenhuma ferida

cicatrizará quando for tentado um bálsamo após outro; uma planta

que é movida frequentemente nunca pode crescer forte.

Não há nada

tão eficaz que possa ser útil enquanto está sendo deslocado.

E na

leitura de muitos livros há distração.

Por conseguinte, uma vez que

não é possível ler todos os livros que você pode possuir, é suficiente

possuir apenas tantos livros quanto você pode ler.

4. “Mas”, você responde, “eu desejo mergulhar primeiramente em

um livro e então em outro”. Eu lhe digo que é o sinal de gula brincar

com muitos pratos; pois quando são múltiplos e variados, eles

enfastiam, mas não alimentam.

Então você deve sempre ler autores de qualidade; e quando você anseia por uma mudança, retroceda

àqueles que você leu antes.

Cada dia adquira algo que o fortaleça

contra a pobreza, contra a morte e contra outros infortúnios; e

depois de ter examinado muitos pensamentos, selecione um para ser

completamente digerido naquele dia.

5. Esta é minha própria prática; das muitas coisas que eu li, eu

reivindico uma parte para mim.

A reflexão para hoje é uma que eu

descobri em Epicuro.

Isso porque eu sou acostumado a entrar até

mesmo no campo do inimigo, 11 não como um desertor, mas como um

batedor.

6. Ele diz: “É um bem desejável conservar a alegria em plena

pobreza.

” 12 Na verdade, se estiver satisfeito, não é pobreza.

Não é o homem que tem pouco, mas o homem que anseia por mais,

quem é pobre.

De que importa o que um homem tem guardado em

seu cofre, ou em seu armazém, quão grandes são os seus rebanhos

e quão gordos são os seus dividendos, se ele cobiça a propriedade

do seu vizinho e não conta os seus ganhos passados, mas as suas

esperanças de ganhos vindouros? Você pergunta qual é o limite

adequado para a riqueza? É, primeiro, ter o que é necessário e, segundo, ter o que é suficiente.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

11 NT: Estoicismo em oposição ao Epicurismo.

12 NT: Ver Epicuro, Cartas e Princípios

III.

Sobre a verdadeira e a falsa

amizade

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você enviou uma carta para mim através de um “amigo nosso”,

como você o chama.

E na frase seguinte você me adverte para não

discutir com ele todos os assuntos que lhe dizem respeito, dizendo

que você mesmo não está acostumado a fazer isto; em outras

palavras, você, na mesma carta afirmou e negou que ele seja seu

amigo.

2. Agora, se você usou esta palavra no sentido popular e o chamou

de “amigo” da mesma maneira que chamamos todos os candidatos

nas eleições de “senhores honoráveis” ou que saudamos como “meu

caro senhor” a todos os homens que encontramos casualmente e

cujos nomes nos faltam por um momento, assim seja.

Mas se você

considera qualquer homem em quem você não confia como você confia em si mesmo como sendo um amigo, você está muito

enganado e você não entende o suficiente o que significa verdadeira

amizade.

Na verdade, gostaria que discutisse tudo com um amigo,

mas antes de tudo discuta o próprio homem.

Quando a amizade é

estabelecida, você deve confiar; antes que a amizade seja formada,

você deve julgar.

Essas pessoas, de fato, invertem essa ordem e

confundem seus deveres, pois, violando as regras de Teofrasto,

julgam um homem depois de terem feito dele seu amigo, em vez de

torná-lo seu amigo depois de o julgarem.

Pondere por muito tempo

se você deve admitir uma pessoa ao seu círculo de amizade; mas

quando você decide admiti-la, acolha-a com todo o seu coração e

alma.

Fale tão abertamente com ela quanto com você mesmo.

3. Quanto a você mesmo, embora você deva viver de tal maneira que

confie a si mesmo todos assuntos, uma vez que certas questões

convencionalmente são mantidas secretas, você deve compartilhar

com um amigo pelo menos todas suas preocupações e reflexões.

Considere-o como leal e você o fará leal.

Alguns, por exemplo,

temendo ser enganados, ensinaram os homens a enganar.

Por suas suspeitas deram a seu amigo o direito de suspeitar.

Por

que preciso reter alguma palavra na presença do meu amigo? Por

que não me considerar sozinho quando em sua companhia?

4. Há uma classe de homens que comunicam, a quem eles

encontram, assuntos que devem ser revelados aos amigos apenas e

descarregam sobre o ouvinte tudo o que os aborrece.

Outros, mais

uma vez, temem confiar em seus mais íntimos amigos e se fosse

possível, não confiariam nem sequer em si próprios, enterrando seus

segredos no fundo de seus corações.

Mas não devemos fazer nem

uma coisa nem outra.

É igualmente falho confiar em todos e não

confiar em ninguém.

No entanto, a primeira falha é, eu diria, a mais

ingênua, a segunda, a mais segura.

5. Do mesmo modo, você deveria repreender estes dois tipos de

homens, tanto os que sempre carecem de repouso, como os que

estão sempre em repouso.

Porque o amor ao agito não é diligência,

é apenas a inquietação de uma alma sobrexcitada.

E a verdadeira

tranquilidade não consiste em condenar todo o movimento como

mero aborrecimento, esse tipo de conforto é preguiça e inércia.

6. Portanto, você deve observar o seguinte ditado, tirado da minha

leitura de Pompônio14: “alguns homens se refugiam na escuridão com a ideia de que tudo quanto está em plena luz é marcado pela

confusão.

” Não, os homens devem combinar estas tendências e

quem descansa deve agir e quem age deve descansar.

Discuta o

problema com a natureza: ela lhe dirá que criou dia e noite.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

13 NT: Teofrasto (372 a.C. – 287 a.C.) foi um filósofo da Grécia Antiga, sucessor de Aristóteles na escola peripatética.

Aristóteles, em seu testamento, nomeou-o como tutor dos filhos, legando-lhe a biblioteca e os originais dos trabalhos e designando-o como sucessor no Liceu.

14 Possivelmente Pompônio Segundo, um general e poeta trágico romano que viveu durante o reinado de Tibério, Calígula e Cláudio.

IV. Sobre os terrores da morte

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Mantenha-se como você começou e se apresse a fazer o que é

possível, de modo que você possa ter o prazer de uma alma

aperfeiçoada que esteja em paz consigo mesma.

Sem dúvida, você

vai auferir prazer durante o tempo em que você estiver melhorando a

sua mente e estará em paz consigo mesmo, mas é bem superior o

prazer que vem da contemplação quando a alma está tão limpa que

brilha.

2. Você se lembra, é claro, que alegria você sentiu quando deixou de

lado as vestes de infância e vestiu a toga viril15 e foi escoltado ao fórum; no entanto, você pode ansiar a uma alegria maior quando

você deixar de lado a mente da infância e quando a sabedoria lhe

tiver inscrito entre os homens.

Porque não é a infância que ainda

permanece em nós, mas algo pior, a infantilidade e esta condição é

tanto mais séria quando possuímos a autoridade da velhice em

conjunto com a insensatez da infância, sim, até mesmo as tolices da

infância.

Os meninos temem coisas sem importância, as crianças

temem sombras, nós tememos ambos.

3. Tudo que você precisa fazer é avançar.

Compreenderá que

algumas coisas são menos temíveis, precisamente porque elas nos

estimulam com grande medo.

Nenhum mal é tão grande, quanto o

último mal de todos.

A morte chega; seria uma coisa a temer, se

pudesse ficar com você.

Mas a morte não deve vir, ou então deve vir

e passar.

4. “É difícil, entretanto, ” você diz, “trazer a mente a um ponto onde

pode menosprezar a vida.” Mas você não vê que razões

insignificantes impelem os homens a desprezar a vida? Um homem

enforca-se diante da porta de sua amante; outro se atira da casa para não mais ser obrigado a suportar as provocações de um mestre

mal-humorado; um terceiro, para ser salvo da prisão, enfia uma

espada em seus órgãos vitais.

Você não acha que a virtude será tão

eficaz quanto o medo excessivo? Nenhum homem pode ter uma vida

pacífica quando pensa demais em alongá-la, quando acredita que

viver por muitas atribuições é uma grande bênção ou quando

considera entre os bens mais preciosos um grande número de anos.

5. Repasse este pensamento todos os dias, para que você possa

sair da vida contente; pois muitos homens se apegam e agarraram-

se à vida, assim como aqueles que são levados por uma correnteza

e se apegam e agarram-se a pedras afiadas.

A maioria dos homens

anda a deriva e flui em miséria entre o medo da morte e as

dificuldades da vida; eles não estão dispostos a viver e ainda não

sabem como morrer.

6. Por esta razão, torne a vida como um todo agradável para si

mesmo, banindo dela todas as preocupações.

Nenhuma coisa boa

torna seu possuidor feliz, a menos que sua mente esteja

harmonizada com a possibilidade da perda; nada, contudo, se perde

com menos desconforto do que aquilo que, quando perdido, não se

dá falta.

Portanto, encoraje e endureça seu espírito contra os percalços que afligem até os mais poderosos.

7. Por exemplo, o destino de Pompeu foi estabelecido por um menino

e um eunuco, o de Crasso, por um Parto cruel e insolente.

Gaio

César16 ordenou Lépido17 a desnudar seu pescoço para o machado de Dexter; e ele mesmo ofereceu sua própria garganta a Cássio

Quereia.

18 Nenhum homem jamais foi tão guiado pela fortuna que ela não o ameaçou tão grandemente como ela o havia favorecido

anteriormente.

Não confie na aparência de calma, em um momento o

mar se agita até suas profundezas.

No mesmo dia em que os navios

fizeram uma exibição valente nos jogos, eles foram engolidos.

8. Reflita que um bandido ou um inimigo pode cortar sua garganta e,

embora não seja seu senhor, cada escravo exerce o poder da vida e

da morte sobre você.

Portanto, eu lhe declaro: é senhor de sua vida

aquele que a despreza.

Pense naqueles que morreram por meio de

conspiração em sua própria casa, mortos abertamente ou por

artimanha.

Você perceberá que tantos foram mortos por escravos

raivosos como por reis irados.

O que importa, portanto, quão

poderoso é quem você teme, quando cada pessoa possui o poder

que inspira o seu medo? 9. “Mas,” você dirá, “se você acaso cair nas mãos do inimigo, o

conquistador ordenará que você seja levado”, sim, para onde você

já estava sendo conduzido.

Por que você voluntariamente se engana

e exige que lhe digam agora pela primeira vez qual é o destino que

há muito tempo o aguarda? Acredite em mim: desde que você

nasceu você está sendo conduzido para lá. Devemos refletir sobre

esse pensamento, ou outros pensamentos similares, se desejamos

ter calma enquanto aguardamos esta última hora, o medo dela faz

todas as horas anteriores desconfortáveis.

10. Mas preciso terminar minha carta.

Deixe-me compartilhar com

você o provérbio que me agradou hoje.

Ele também é selecionado do

jardim de outro homem:19 “Pobreza colocada em conformidade

com a lei da natureza, é grande riqueza” . 20 Você sabe quais os limites que a lei da natureza ordena para nós? Apenas evitar a fome,

a sede e o frio.

A fim de banir a fome e a sede, não é necessário

para você cortejar às portas dos ricos ou submeter-se ao olhar

severo ou à bondade que humilha; nem é necessário para você

percorrer os mares ou ir à guerra; as necessidades da natureza são

facilmente fornecidas e estão sempre à mão.

11. São supérfluas as coisas pelas quais os homens labutam, as coisas supérfluas que desgastam nossas togas a farrapos, que nos

obrigam a envelhecer no acampamento militar, que nos levam às

costas estrangeiras.

O que é suficiente está pronto e ao alcance das

nossas mãos.

Aquele que fez um justo pacto com a pobreza é rico.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

15 A toga pretexta, com uma faixa púrpura, era substituída pela toga viril, inteiramente branca, aos 16 anos, quando o jovem era apresentado à vida pública

no fórum e ficava reconhecida a sua maioridade e sua capacidade de administrar todos os direitos plenos de um cidadão.

Aqui, a substituição da toga pretexta pela

toga viril é um símbolo de maturidade.

16 NT: nome de Calígula.

17 NT: Marcus Aemilius Lepidus (6-39) casado com a irmã mais nova do futuro imperador Calígula, Julia Drusil a.

18 NT: Cássio Quereia existem relatos que afirmam que o imperador Calígula constantemente o humilhava por suas maneiras supostamente afeminadas.

Como

vingança, juntamente com seu colega de tribuna Cornélio Sabino, ele conspirou contra o imperador e em janeiro de 41, fez suas vítimas; assassinando também a

mulher de Calígula.

19 O Jardim de Epicuro.

20 NT: Ver Epicuro, Cartas e Princípios.

A mesma citação é repetida na carta 27, neste volume, e também na carta 119. Ver Cartas de um Estoico, Volume III.

V. Sobre a virtude do filósofo

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Eu o elogio e me encho de contentamento pelo fato de você ser

persistente em seus estudos e que, colocando tudo de lado, você a

cada dia se esforça para se tornar um homem melhor.

Não me limito

a exortá-lo a continuar, eu realmente imploro que você faça isso.

Advirto-o, no entanto, a não agir de acordo com a moda daqueles

que desejam ser notáveis em vez de melhorar, fazendo coisas que

despertarão comentários sobre suas vestes ou seu estilo geral de

vida.

2. Devem ser evitados trajes repulsivos, cabelos desgrenhados,

barba desleixada, desprezo aberto ao uso de talheres e quaisquer

outras formas pervertidas de auto exibição.

O mero conceito de

filosofia, ainda que silenciosamente perseguido, é objeto de

suficiente desprezo.

E o que aconteceria se começássemos a nos

afastar dos costumes de nossos semelhantes? Internamente,

devemos ser diferentes em todos os aspectos, mas nosso exterior deve estar em conformidade com a sociedade.

3. Não se vista demasiadamente elegante, nem ainda

demasiadamente desleixado.

Não se precisa de peitoral de prata,

incrustado e gravado em ouro maciço; mas não devemos acreditar

que a falta de prata e ouro seja prova de uma vida simples.

Procuremos manter um padrão de vida mais elevado do que o da

multidão, mas não um padrão contrário, caso contrário,

assustaremos e repeliremos as mesmas pessoas que estamos

tentando melhorar.

Temos que compreender que eles estão

relutantes a nos imitar em qualquer coisa, porque eles têm medo de

que eles sejam compelidos a imitar-nos em tudo.

4. A primeira coisa que a filosofia se compromete a dar é o senso

comum, a humanidade, o companheirismo entre todos os homens;

em outras palavras, simpatia e sociabilidade.

Nós nos diferenciamos

se nós somos diferentes dos outros homens.

Devemos velar para

que os meios pelos quais desejamos atrair admiração não sejam

absurdos e odiosos.

Nosso lema, como você sabe, é “Viva de

acordo com a Natureza”, 21 mas é bastante contrário à natureza torturar o corpo, odiar a elegância espontânea, ser sujo de

propósito, tomar comida que não é somente simples, mas repugnante e desagradável.

5. Assim como é um sinal de luxo procurar finas iguarias, é loucura

evitar o que é habitual e pode ser comprado razoavelmente sem

grande dispêndio.

Filosofia exige vida simples, mas não de penitência

e podemos perfeitamente ser simples e asseados ao mesmo tempo.

Este é o meio que eu sanciono.

Nossa vida deve se guiar entre os

caminhos de um sábio e os caminhos do mundo em geral, todos os

homens devem admirá-la, mas devem compreendê-la também.

6. “Bem, então, agiremos como os outros homens? Não haverá

distinção entre nós e eles todos? ” Sim, distinção muito grande.

Os

homens descobrirão que somos diferentes do rebanho comum se

olharem de perto.

Se eles nos visitam em casa, eles devem nos

admirar, ao invés de admirar nossas mobílias.

É um grande

homem quem usa pratos de barro como se fossem de prata; mas é

igualmente grande quem usa prataria como se de barro fosse.

É o

sinal de uma alma instável não poder tolerar riquezas.

7. Mas desejo compartilhar com você o saldo positivo de hoje

também.

Encontro nos escritos de nosso Hecato22 que a limitação

dos desejos ajuda também a curar medos: “De ixe de ter esperança”, diz ele, “e deixará de temer”. Mas como, você vai responder, “coisas

tão diferentes podem ir lado a lado?” Deste modo, meu caro Lucílio:

embora pareçam divergentes estão, contudo, realmente unidas.

Assim como a mesma cadeia prende o prisioneiro e o carcereiro que

o guarda, também a esperança e o medo, por mais dissimilares que

sejam, caminham juntas; à esperança segue sempre o medo.

8. Não me surpreende que procedam dessa maneira.

Ambos

conceitos pertencem a uma mente que está incerta, uma mente que

está preocupada aguardando com ansiedade o futuro.

Mas a causa

principal de ambos os males é que não nos adaptamos ao presente,

mas enviamos nossos pensamentos a um futuro distante.

E assim a

capacidade de prever, a mais bela benção da raça humana, torna-se

pervertida.

9. Animais evitam os perigos que veem e quando escapam estão

livres de preocupação; mas nós homens nos atormentamos sobre o

que há de vir, assim como sobre o que é passado.

Muitas de nossas

bênçãos trazem a nós desgraça, pois a memória recorda as torturas

do medo, enquanto a previsão as antecipa.

O presente sozinho não faz nenhum homem infeliz.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

21 Lema da escola estoica.

22 NT: Hecato de Rodes foi um filósofo estoico, discípulo de Panécio de Rodes.

Não se conhecem outros detalhes da sua vida, mas era um filósofo eminente entre

os estoicos deste período.

Era um escritor prolífico, ainda que não tenha chegado

nenhum escrito até aos nossos dias.

Diógenes Laércio menciona seis tratados de

sua autoria.

VI. Sobre compartilhar

conhecimento

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Sinto, meu caro Lucílio, que não só estou me corrigindo; além

disso, me estou transfigurando.

Entretanto, ainda não me asseguro,

nem concedo a esperança de que não haja em mim elementos que

precisem ser mudados.

Claro que há muitos que devem ser feitos

mais consistentes ou mais afiados ou serem conduzidos a maior destaque.

E, realmente, esse mesmo fato é prova de que meu

espírito está transformado em algo melhor, que ele pode ver suas

próprias falhas, das quais antes era ignorante.

Em certos casos, os

doentes são parabenizados apenas porque eles perceberam que

estão doentes.

2. Desejo, portanto, comunicar-lhe esta repentina mudança em mim:

eu deveria então começar a depositar uma confiança mais segura

em nossa amizade, a verdadeira amizade que a esperança, o medo

e o interesse próprio não podem romper, a amizade em que e para a

qual os homens podem encontrar a morte.

3. Eu posso mostrar-lhe muitos a quem têm faltado não um amigo,

mas uma amizade; isso, no entanto, não pode acontecer quando as

almas são unidas por inclinações idênticas em uma aliança de

desejos honestos.

E por que não pode acontecer? Porque em tais

casos os homens sabem que têm todas as coisas em comum,

especialmente suas aflições.

Você não pode conceber o nítido

progresso que eu percebo que cada dia me traz.

4. E quando diz: “Dá-me também uma parte destes dons que acha

tão úteis”, respondo que estou ansioso para empilhar todos estes

privilégios sobre você e que estou feliz em aprender para que eu possa ensinar.

Nada me agradará, não importa o quão excelente ou

benéfico, se eu dever manter tal conhecimento exclusivo para mim.

E

se a sabedoria me for dada, sob a condição expressa de que ela

deva ser mantida escondida e não pronunciada, eu deveria recusá-la.

Nenhuma coisa boa é agradável de possuir sem amigos para

compartilhá-la.

5. Vou, portanto, enviar-lhe os livros que utilizei e, para que não

perca tempo procurando aqui e ali por tópicos proveitosos, vou

marcar certas passagens, para que você possa voltar-se

imediatamente para aquelas que eu aprovo e admiro.

Naturalmente,

porém, a voz viva e a intimidade de uma vida comum ajudarão você

mais do que a palavra escrita.

Você deve ir para o cenário da ação,

primeiro, porque os homens colocam mais fé em seus olhos do que

em seus ouvidos e segundo, porque o caminho é longo se alguém

segue conselhos, mas curto e útil, se segue exemplos.

6. Cleantes23 não poderia ter sido a imagem expressa de Zenão se

ele tivesse apenas ouvido suas palestras; não, ele compartilhou sua

vida, viu em seus propósitos ocultos e observou-o para ver se ele vivia de acordo com suas próprias regras.

Platão, Aristóteles e toda

a multidão de sábios que estavam destinados a seguir cada um o

seu caminho diferente, tiraram mais proveito do caráter do que das

palavras de Sócrates.

Não era a sala de aula de Epicuro, mas viver

juntos sob o mesmo teto, que fez grandes homens de Metrodoro,

Hermarco e Polieno.

Portanto, eu lhe insisto, não apenas para que

aufira benefícios, mas para que conceda benefícios, pois

podemos auxiliar-nos mutuamente.

7. Entrementes, estou em dívida da minha pequena contribuição

diária; direi o que me agradou hoje nos escritos de Hecato.

São

estas palavras: “que progresso, você pergunta, eu fiz? Eu comecei

a ser um amigo de mim próprio.

” Isso foi realmente um grande

auxílio! Tal pessoa nunca pode estar sozinha.

Você pode ter certeza

de que esse homem é amigo de toda a humanidade, toda a gente o

pode ter.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

23 NT: Cleantes de Assos (ca. 330 a.C. – ca. 230 a.C.), foi um filósofo estoico, discípulo e continuador de Zenão de Cítio.

Tendo iniciado o estudo da filosofia aos 50 anos de idade, depois de ter sido atleta e apesar de viver na pobreza, seguiu as

lições de Zenão e após a morte deste, no ano 262 a.C., assumiu a liderança da escola, cargo que manteria por 32 anos, preservando e aprofundando as doutrinas

do seu mestre e antecessor.

VII.

Sobre multidões

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você me pergunta o que você deve considerar evitar em especial?

Eu digo, multidões; Porque ainda não pode confiar em si com

segurança.

Admito, de qualquer maneira, minha própria fraqueza

porque eu nunca trago de volta para casa o mesmo caráter que eu

levei para fora comigo.

Algo do que eu tenho forçado a ficar em paz

dentro de mim é perturbado, alguns dos inimigos que eu havia

eliminado voltam novamente.

Assim como o homem doente, que tem

estado fraco há muito tempo, está em tal condição que não pode ser

tirado de casa sem sofrer uma recaída, então nós mesmos somos

afetados quando nossas almas estão se recuperando de uma

doença prolongada.

2. Ligar-se à multidão é prejudicial.

Não há ninguém que não torne

algum vício cativante para nós, nem o escancare sobre nós, nem nos manche inconscientemente com ele.

Certamente, quanto maior a

multidão com que nos misturamos, maior o perigo.

Mas nada é tão

prejudicial ao bom caráter como o hábito de frequentar algum

espetáculo, pois é lá que o vício penetra sutilmente por uma avenida

de prazer.

3. O que você acha que eu quero dizer? Quero dizer que volto para

casa mais ganancioso, mais ambicioso, mais voluptuoso e ainda mais

cruel e desumano.

Isso porque eu estive entre os seres humanos.

Por acaso, eu assisti a uma apresentação matutina, esperando um

pouco de diversão, sagacidade e relaxamento, uma exposição na

qual os olhos dos homens têm descanso do massacre de seus

semelhantes.

Mas foi exatamente o contrário.

Antigamente esses

combates eram a essência da compaixão, mas agora todo o trivial é

posto de lado e resta apenas puro assassinato.

Os homens não têm

armadura defensiva.

24 Eles estão expostos a golpes em todos os

pontos e ninguém nunca desfere golpes em vão.

4. Muitas pessoas preferem este programa aos duelos habituais e

combates “a pedido”. Claro que sim; não há capacete ou escudo

para desviar o golpe.

Qual é a necessidade de armadura defensiva

ou de habilidade? Tudo isso significa adiar a morte.

Pela manhã lançam homens aos leões e aos ursos, ao meio-dia, os jogam aos

espectadores.

Os espectadores exigem que o assassino encare o

homem que vai matá-lo e eles sempre reservam o último vitorioso

para outro massacre.

O resultado de cada luta é a morte e os meios

são fogo e espada.

Esse tipo de coisa continua enquanto a arena

está vazia para o intervalo.

5. Você pode replicar: “Mas ele era um ladrão de estrada, ele matou

um homem! ” E dai? Admitido que, como assassino, merecia este

castigo.

Mas e você? Que crime você cometeu, pobre colega, que

mereça sentar-se e ver este espetáculo? Pela manhã, eles

clamaram: “Mate-o, açoite-o, queime-o, por que ele usa a espada

de uma maneira tão covarde, por que ele bate tão debilmente, por

que ele não morre no jogo, chicoteie-o para arder suas feridas!

Deixe-o receber golpe por golpe, com peitos nus e expostos ao

ataque!” E quando os jogos param para o intervalo, eles anunciam:

“Um pouco de gargantas sendo cortadas, para que possa haver

algo acontecendo! ” Convenhamos, você25 não entende sequer esta verdade, que um mau exemplo retorna contra o agente? Agradeça

aos deuses imortais que você está ensinando crueldade a uma

pessoa que não pode aprender por si a ser cruel.

6. O jovem caráter, que não consegue se manter íntegro, deve ser

resgatado da multidão: é muito fácil tomar o partido da maioria.

Mesmo Sócrates, Catão e Lélio poderiam ter sido abalados em sua

força moral por uma multidão que era diferente deles.

Tão

verdadeiro é que nenhum de nós, por mais que cultivemos nossas

habilidades, pode resistir ao choque de falhas que se acercam, por

assim dizer, de tão grande séquito.

7. Muito dano é feito por um único caso de indulgência ou ganância:

o amigo da família, se ele é luxuoso, nos enfraquece e suaviza

imperceptivelmente; o vizinho, se for rico, desperta nossa cobiça; o

colega, se ele for calunioso, dissipa algo de seu bolor em cima de

nós, mesmo que nós sejamos impecáveis e sinceros.

Qual então

você acha que será o efeito sobre o caráter, quando o mundo em

geral o assalta? Você deve imitar ou abominar o mundo.

8. Mas ambos os cursos devem ser evitados; você não deve copiar o

mau, simplesmente porque eles são muitos, nem deve odiar os

muitos, porque eles são diferentes de você.

Concentre-se em si

mesmo, tanto quanto puder.

Associe-se com aqueles que irão lhe

fazer um homem melhor.

Dê boas-vindas àqueles que podem fazer

você melhorar.

O processo é mútuo pois os homens aprendem enquanto ensinam.

9. O vão orgulho em divulgar suas habilidades não deve induzi-lo

para a notoriedade, de modo a faze-lo desejar recitar ou discursar

frente ao público.

É claro que deveria estar disposto a fazê-lo se

você tivesse uma habilidade que se adequasse a tal multidão; mas

como ela é, não há um homem entre eles que possa lhe entender.

Um ou dois indivíduos talvez aceitem sua maneira, mas mesmo estes

terão que ser moldados e treinados por você de modo a

compreende-lo. Você pode dizer: “Com que propósito eu aprendi

todas essas coisas?” Mas você não precisa recear ter desperdiçado

seus esforços.

Foi por si mesmo que você aprendeu.

10. No entanto, para que eu não tenha hoje aprendido

exclusivamente para mim, compartilharei com você três excelentes

ditados, do mesmo sentido geral, que me chamaram a atenção.

Esta

carta lhe dará um deles como pagamento da minha dívida; os outros

dois você pode aceitar como um adiantamento.

Demócrito26 diz: “Um homem significa tanto para mim como uma multidão e uma

multidão apenas tanto como um homem.

”

11. O seguinte também foi nobremente falado por ele ou outro, pois

é duvidoso quem foi o autor.

Eles perguntaram-lhe qual era o objeto de todo este estudo aplicado a uma arte que alcançaria muito

poucos.

Ele respondeu: “Estou contente com poucos, contente com

um, contente com nenhum”. O terceiro ditado – e também notável –

é de Epicuro, escrito a um dos parceiros de seus estudos: “Eu

escrevo isto não para muitos, mas para você, cada um de nós é o

suficiente como público do outro.

”

12. Coloque estas palavras no coração, Lucílio, que você pode

desprezar o prazer que vem dos aplausos da maioria.

Muitos

homens o louvam; mas você tem alguma razão para estar

satisfeito consigo mesmo se você é uma pessoa que muitos

conseguem entender? Suas boas qualidades devem focar para

dentro, seus autênticos bens são internos.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

24 NT Durante o intervalo do almoço, criminosos condenados eram frequentemente levados para a arena e obrigados a lutar, para a diversão dos espectadores que permaneceriam por toda a parte do dia.

25 A observação é dirigida aos espectadores brutalizados.

26 Demócrito de Abdera (ca. 460 a.C. – 370 a.C.) nasceu na cidade de Mileto, viajou pela Babilônia, Egito e Atenas e se estabeleceu em Abdera no final do século

V a.C. Demócrito foi discípulo e depois sucessor de Leucipo de Mileto.

A fama de

Demócrito decorre do fato de ele ter sido o maior expoente da teoria atômica ou do

atomismo.

De acordo com essa teoria, tudo o que existe é composto por elementos

indivisíveis chamados átomos.

27 Ver Epicuro, Cartas e Princípios.

VIII.

Sobre o isolamento do

filósofo

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Uma objeção sua: “Você sugere que se evite a multidão, se retire

do contato dos homens e contente-se com a sua própria

consciência?” Onde estão os conselhos da sua escola, que

ordenam que um homem morra em meio ao trabalho produtivo?”

Quanto ao curso que eu lhe pareço incitar de vez em quando, meu

objetivo em recolher-me e trancar a porta é ser capaz de ajudar um

número maior.

29 Nunca passo um dia em ociosidade, aproveito até

uma parte da noite para estudar.

Não me dou tempo para dormir, mas me rendo ao sono quando preciso.

E quando meus olhos estão

cansados e prontos para caírem fechados, eu os mantenho em sua

tarefa.

2. Tenho me afastado não só dos homens, mas dos negócios,

especialmente dos meus próprios negócios.

Estou trabalhando para

gerações posteriores, escrevendo algumas ideias que podem ser de

ajuda para elas.

30 Há certos conselhos sadios que podem ser

comparados às prescrições de remédios; estes eu estou pondo por

escrito, pois achei-os úteis para ministrar às minhas próprias feridas

que, se não estão totalmente curadas, ao menos deixaram de se

espalhar.

3. Aponto outros homens para o caminho certo, que eu encontrei

tarde na vida, quando cansado de vagar.

Eu clamo a eles: “Evite o

que agrada à multidão: evite os presentes da fortuna, avalie todo o

bem que o acaso lhe traz, em espírito de dúvida e de medo, pois

são os animais que são enganados pela tentação”. Você chama

essas coisas de “presentes da fortuna”? São armadilhas.

E qualquer

homem dentre vocês que deseje viver uma vida de segurança

evitará, ao máximo de seu poder, esses ramos favoráveis por meio

dos quais os mortais, muito lamentavelmente neste caso, são enganados.

Isso porque nós pensamos que nós as mantemos em

nosso poder, mas são elas que nos prendem.

4. Tal curso nos leva a caminhos precipitados e a vida em tais alturas

termina em queda.

Além disso, nem mesmo podemos nos levantar

contra a prosperidade quando ela começa a nos conduzir a sota-

vento, nem podemos descer, tampouco, “com o navio em seu curso”.

A fortuna não nos afunda, ela estufa nossas velas e nos precipita

sobre as rochas.

5. Apegue-se pois, a esta regra sadia e sólida para a vida: que você

satisfaça seu corpo apenas na medida em que for necessário para a

boa saúde.

O corpo deve ser tratado mais rigorosamente, para que

não seja desobediente à mente.

Coma apenas para aliviar a sua

fome, beba apenas para saciar a sua sede, vista-se apenas para

manter fora o frio, abrigue-se apenas como uma proteção contra o

desconforto pessoal.

Pouco importa a casa ser construída de

madeira ou de mármore importado, compreenda que um homem é

abrigado tão bem por uma palha quanto por um telhado de ouro.

Despreze tudo o que o trabalho inútil cria como um ornamento e um

objeto de beleza.

E reflita que nada além da alma é digno de

admiração, pois para a alma, se ela for grandiosa, nada é grande.

6. Quando eu comungo em tais termos comigo e com as gerações

futuras, você não acha que eu estou fazendo mais bem do que

quando eu apareço como conselheiro na corte ou carimbo meu selo

sobre uma decisão ou presto ajuda ao senado ou por palavra ou

ação presto meu apoio a um candidato qualquer? Acredite em mim,

aqueles que parecem estar ocupados com nada estão ocupados

com as maiores tarefas: eles estão lidando ao mesmo tempo com os

planos humano e divino.

7. Mas devo parar e prestar minha contribuição habitual, para

equilibrar esta carta.

O pagamento não será feito de minha própria

propriedade, pois ainda estou copiando Epicuro.

Hoje leio, em suas

obras, a seguinte frase: “Se você quiser desfrutar da verdadeira

liberdade, deve ser escravo da Filosofia”. 31 O homem que se submete e entrega-se a ela não é mantido esperando; ele é

emancipado no ato.

Pois o próprio serviço da filosofia é a liberdade.

8. É provável que você me pergunte por que cito tantas palavras

nobres de Epicuro em vez de palavras tiradas de nossa própria

escola.

Mas há alguma razão pela qual você deve considerá-las como ditos de Epicuro e não domínio público? Quantos poetas

exalam ideias que foram proferidas ou poderiam ter sido proferidas

por filósofos! Não preciso falar sobre as tragédias e os nossos

escritores de drama; porque estes últimos são também um pouco

sérios e ficam a meio caminho entre comédia e tragédia.

Que

quantidade de versos sagrados estão enterrados na mímica!

Quantas linhas de Publílio são dignas de serem declamadas por

atores célebres, assim como pelos pés descalços!

9. Vou citar um versículo dele que diz respeito à filosofia e,

particularmente, aquela frase sobre a qual discutimos há pouco, onde

ele diz que os dons do acaso não devem ser considerados como

parte de nossas posses:

Ainda é alheio o que você ganhou do acaso .

Alienum est omne, quicquid optando evenit.

10. Recordo que você mesmo expressou essa ideia de maneira

muito mais feliz e concisa: “O que a Fortuna fez não é seu”. E uma

terceira, dita por você ainda, não deve ser omitida: “O bem que pode

ser dado, pode ser removido.

” Eu não vou colocar isso em sua conta

de despesas, porque eu a dei a partir de seu próprio patrimônio.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

28 Em contraste com a doutrina estoica geral de participar da política e atividades do mundo.

NT: Ao contrário dos epicuristas, que defendiam uma vida à margem das obrigações políticas e sociais, os estoicos aconselhavam a participação ativa do sábio nos assuntos do estado.

Isto explica, em boa parte pelo menos, a importante carreira pública do próprio Sêneca.

Ver George Stock, Estoicismo.

29 NT As condições sócio-políticas podem ser tais, contudo, que obriguem o sábio a recolher-se à vida estritamente privada, como fez Sêneca a partir de 63 quando

perdeu influência sobre Nero.

Ver o tratado Sobre o Ócio em que Sêneca aprofunda o assunto.

30 Essas Cartas!

31 NT: Ver Epicuro, Cartas e Princípios.

32 “excalceatis”, referência a comediantes ou mímicos.

33 NT: Provérbios de Publílio Siro (Século 1 a.C.). Também conhecido como Publilio Sirio, ou como Publilius Syrius ou Publio Sirio.

Era nativo na Síria e foi feito escravo e enviado para a Itália, mas graças ao seu talento, ganhou o favor de

seu senhor, que o libertou e o educou.

IX. Sobre filosofia e amizade

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você deseja saber se Epicuro está certo quando, em uma de suas

cartas, repreende aqueles que sustentam que o sábio é autossuficiente e por isso não precisa de amizades.

34 Esta é a

objeção levantada por Epicuro contra Estilpo e aqueles que

acreditam que o bem supremo é uma alma insensível e impassível.

2. Estamos limitados a encontrar um duplo significado se tentarmos

expressar resumidamente o termo grego apatheia (ἀπάθεια) em uma

única palavra, tomando-o pela palavra latina impatientia

(impaciência). Porque pode ser entendida no sentido oposto ao que

desejamos que ela tenha.

O que queremos dizer é uma alma que

rejeita qualquer sensação de maldade, mas as pessoas interpretarão

a ideia como a de uma alma que não pode suportar nenhum mal.

Considere, portanto, se não é melhor dizer “uma alma invulnerável,

que não pode ser ofendida” ou “uma alma inteiramente além do

reino do sofrimento”.

3. Há essa diferença entre nós e a outra escola:36 nosso sábio ideal sente seus problemas, mas os supera; o homem sábio deles nem

sequer os sente.

Mas nós e eles temos essa ideia, que o sábio é

autossuficiente.

No entanto, ele deseja amigos, vizinhos e

associados, não importa o quanto ele seja suficiente em si mesmo.

4. E perceba quão autossuficiente ele é; pois de vez em quando ele

pode se contentar com apenas uma parte de si. Se ele perde uma mão por doença ou guerra, ou se algum acidente fere um ou ambos

os olhos, ele ficará satisfeito com o que resta, tendo tanto prazer em

seu corpo debilitado e mutilado como ele tinha quando era sadio.

Mas enquanto ele não se queixa por esses membros ausentes, ele

prefere não os perder.

5. Nesse sentido o homem sábio é autossuficiente, pode prescindir

de amigos, mas não deseja ficar sem eles.

Quando eu digo “pode”,

quero dizer isto: ele sofre a perda de um amigo com serenidade.

Mas a ele nunca faltam amigos, pois está em seu próprio controle

quão breve ele vai repor a perda.

Assim como Fídias, 37 se ele

perdesse uma estátua, imediatamente esculpiria outra, da mesma

forma nossa habilidade na arte de fazer amizades pode preencher o

lugar de um amigo perdido.

6. Se você perguntar como alguém pode fazer um amigo

rapidamente, vou dizer-lhe, desde que concordemos que eu possa

pagar a minha dívida de uma vez e zerar a conta e, no que se refere

a esta carta, estaremos quites.

Hecato, diz: “Eu posso mostrar-lhe

uma poção, composta sem drogas, ervas ou qualquer feitiço de

bruxa: Para que você possa ser amado, ame! ”. Agora, há um

grande prazer, não só em manter amizades velhas e estabelecidas, mas também na aquisição de novas.

7. Existe a mesma relação entre conquistar um novo amigo e já ter

conquistado, como há entre o fazendeiro que semeia e o fazendeiro

que colhe.

O filósofo Átalo costumava dizer: “É mais agradável fazer

um amigo do que mantê-lo, pois é mais agradável ao artista pintar

do que ter acabado de pintar”. Quando alguém está ocupado e

absorvido em seu trabalho, a própria absorção dá grande prazer;

mas quando alguém retira a mão da obra-prima concluída, o prazer

não é tão penetrante.

Daí em diante, é dos frutos de sua arte que

ele desfruta; era a própria arte que ele apreciava enquanto pintava.

No caso de nossos filhos, na juventude produzem os frutos mais

abundantes, mas na infância, eram mais doces e agradáveis.

8. Voltemos agora à questão.

O homem sábio, eu digo,

autossuficiente como é, no entanto, deseja amigos apenas para o

propósito de praticar a amizade, a fim de que suas qualidades

nobres não permaneçam dormentes.

Não, todavia, para o propósito

mencionado por Epicuro na carta citada acima: “Que haja alguém

para sentar-se com ele enquanto doente, para ajudá-lo quando ele

está na prisão ou em necessidade”, mas sim para que ele possa ter alguém em cujo leito hospitalar ele próprio possa sentar, alguém

prisioneiro em mãos hostis que ele mesmo possa libertar.

Aquele que

só pensa em si e estabelece amizades por razão egoísta, não pensa

corretamente.

O fim será como o início: se ele faz amizade com

alguém que poderia libertá-lo da escravidão, ao primeiro barulho da

corrente, tal amigo o abandonará.

9. Estas são as chamadas “amizades de céu de brigadeiro” 38; aquele que é escolhido por causa da sua utilidade será satisfatório apenas

enquanto for útil.

Por isso os homens prósperos são protegidos por

tropas de amigos, mas aqueles que faliram ficam em meio à vasta

solidão, seus “amigos” fugindo da própria crise que está a testar

seus valores.

Por isso, também, vemos muitos casos vergonhosos

de pessoas que, por medo, desertam ou traem.

O começo e o fim

não podem senão harmonizar.

Aquele que começa a ser seu amigo

por interesse também cessará a amizade por interesse.

Um homem

será atraído por alguma recompensa oferecida em troca de sua

amizade se ele for atraído por algo na amizade além da amizade em

si.

10. Para que propósito, então, eu faço um homem meu amigo? A fim

de ter alguém para quem eu possa dar minha vida, que eu possa seguir para o exílio, alguém por quem eu possa apostar minha

própria vida e pagar a promessa depois.

A amizade que você retrata

é uma negociata e não uma amizade.

Ela considera apenas a

conveniência e olha apenas para os resultados.

11. Sem dúvida, o sentimento de um amante tem algo semelhante à

amizade, pode-se chamá-lo de amizade enlouquecida.

Mas, embora

isso seja verdade, alguém ama por vislumbrar lucro ou promoção ou

renome? O amor puro, livre de todas as outras coisas, excita a alma

com o desejo pelo objeto da beleza, não sem a esperança de uma

correspondência ao afeto.

E então? Pode uma causa que é mais

elevada produzir uma paixão que é moralmente condenável?

12. Você pode replicar: “Estamos agora discutindo a questão de

saber se a amizade deve ser cultivada por sua própria causa”. Pelo

contrário, nada mais urgente exige demonstração, pois se a amizade

deve ser procurada por si mesma, pode buscá-la quem seja

autossuficiente.

“Como, então,” você pergunta, “ele a procura? ”

Precisamente como ele procura um objeto de grande beleza, não

atraído a ele pelo desejo de lucro, nem mesmo assustado pela

instabilidade da fortuna.

Aquele que procura a amizade com objetivo

interesseiro, despoja-a de toda a sua nobreza.

13. “O homem sábio é autossuficiente”. Essa frase, meu caro

Lucílio, é incorretamente explicada por muitos porque eles retiram o

homem sábio do mundo e forçam-no a habitar dentro de sua própria

pele.

Mas devemos marcar com cuidado o que significa essa

sentença e até onde ela se aplica.

O homem sábio é autossuficiente

para uma existência feliz, mas não para a mera existência.

Pois ele

precisa de muita assistência para a mera existência, mas para uma

existência feliz ele precisa apenas de uma alma sã e reta, que

menospreze a fortuna.

14. Quero também dizer a você uma das distinções de Crisipo, que

declara que o sábio não deseja nada, ao mesmo tempo que precisa

de muitas coisas.

39 “Por outro lado”, diz ele, “nada é necessário para o tolo, pois ele não entende como usar nenhuma coisa, mas ele

deseja tudo.” 40 O homem sábio precisa de mãos, olhos e muitas coisas que são necessárias para seu uso diário; mas a ele nada

falta.

Porque o desejo implicaria uma necessidade não atendida e

nada é necessário ao homem sábio.

15. Portanto, embora ele seja autossuficiente, ainda precisa de

amigos.

Ele anseia tantos amigos quanto possível, não, no entanto,

para que ele possa viver feliz, pois ele viverá feliz mesmo sem amigos.

O bem supremo não requer nenhum auxílio prático de fora.

Ele é desenvolvido em casa e surge inteiramente dentro de si. Se o

bem procura qualquer porção de si mesmo no exterior, começa a

estar sujeito ao jogo da fortuna.

16. As pessoas podem dizer: “Mas que tipo de existência o sábio

terá, se ele for deixado sem amigos quando jogado na prisão, ou

quando encalhado em alguma nação estrangeira, ou quando retido

em uma longa viagem, ou quando em lugar ermo? ” Sua vida será

como a de Júpiter que, em meio à dissolução do mundo, quando os

deuses se confundem na unidade e a natureza descansa por um

pouco, pode se retirar em si mesmo e entregar-se a seus próprios

pensamentos.

41 Da mesma maneira o sábio agirá: ele se retirará em si mesmo e viverá consigo mesmo.

17. Enquanto for capaz de administrar seus negócios de acordo com

seu julgamento, será autossuficiente; enquanto se casa com uma

esposa, é autossuficiente; enquanto educa os filhos, é

autossuficiente; e ainda assim não poderia viver se tivesse que viver

sem a sociedade dos homens.

Conclamações naturais e não suas

próprias necessidades egoístas, o atraem às amizades.

Pois, assim

como outras coisas têm para nós uma atratividade inerente, também tem a amizade.

Como odiamos a solidão e ansiamos por sociedade,

à medida que a natureza atrai os homens uns para os outros, existe

também uma atração que nos faz desejosos de amizade.

18. Não obstante, embora o sábio possa amar seus amigos com

carinho, muitas vezes contrapondo-os com ele mesmo e colocando-

os à frente de si próprio, todo o amor será limitado a seu próprio ser

e ele falará as palavras que foram faladas pelo próprio Estilpo, a

quem Epicuro critica em sua carta.

Pois Estilpo, depois que seu país

foi capturado e seus filhos e sua esposa mortos, ao sair da

desolação geral só e mesmo assim feliz, falou da seguinte maneira

para Demétrio, 42 conhecido como “Cidade Sitiada” por causa da

destruição que ele trouxe sobre elas, em resposta a pergunta se ele

tinha perdido alguma coisa: “Eu tenho todos os meus bens comigo! ”

19. Isto é ser um bravo e corajoso homem! O inimigo conquistou,

mas Estilpo conquistou seu conquistador.

“Não perdi nada! ” Sim, ele

forçou Demétrio a se perguntar se ele mesmo havia conquistado

algo, afinal.

“Meus bens estão todos comigo!” Em outras palavras,

ele não considerou nada que pudesse ser tirado dele como sendo um

bem.

Ficamos maravilhados com certos animais porque eles podem

passar pelo fogo e não sofrer danos corporais, mas quão mais maravilhoso é um homem que marchou ileso e incólume através do

fogo, da espada e da devastação! Você entende agora o quão mais

fácil é conquistar uma tribo inteira do que conquistar um homem?

Este dito de Estilpo é comum com o estoicismo; o estoico também

pode carregar de forma ilesa seus bens através de cidades

devastadas pois ele é autossuficiente.

Basta-se a si mesmo: tais são

os limites que ele estabelece para sua própria felicidade.

20. Mas você não deve pensar que nossa escola sozinha pode

proferir palavras nobres.

O próprio Epicuro, o crítico de Estilpo,

usava semelhante linguagem.

Coloco ao meu crédito, embora eu já

tenha quitado minha dívida para o dia de hoje.

Ele diz: “Quem não

considera o que tem como riqueza mais ampla, é infeliz, embora

seja o senhor do mundo inteiro”. Ou, se a seguinte lhe parece uma

frase mais adequada, porque devemos traduzir o significado e não

as meras palavras: “Um homem pode governar o mundo e ainda ser

infeliz se ele não se sente supremamente feliz” .

21. Contudo, para que você saiba que esses sentimentos são

universais, propostos, certamente, pela natureza, você encontrará em um dos poetas cômicos esta estrofe:

Infeliz é aquele que não se considera feliz.

Non est beatus, esse se qui non putat.

O que importa a situação em que você se encontra, se ela é ruim a

seus próprios olhos?

22. Você poderia dizer; “Se, o homem rico, senhor de muitos, mas

escravo de ganância por mais, chamar-se de feliz, sua própria

opinião o tornará feliz? ” Não importa o que ele diz, mas o que ele

sente; não como se sente em um dia específico, mas como se sente

em todos os momentos.

Não há razão porém, para que você tema

que este grande privilégio caia em mãos indignas; somente o sábio

está satisfeito com o que tem.

O insensato está sempre

perturbado com o descontentamento consigo mesmo.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

34 NT: Ver Epicuro, Cartas e Princípios.

35 O termo grego ἀπάθεια (Apatheia) significa literalmente "ausência de sofrimento", daí vem o termo apatia em português.

36 NT: Isto é, escola cínica.

37 Fídias foi um célebre escultor da Grécia Antiga.

Sua biografia é cheia de lacunas e incertezas e o que se tem como certo é que ele foi o autor de duas das

mais famosas estátuas da Antiguidade, a Atena Partenos e o Zeus Olímpico, e que

sob a proteção de Péricles encarregou-se da supervisão de um vasto programa construtivo em Atenas, concentrado na reedificação da Acrópole, devastada pelos

persas em 480 a.C.

38 NT: em Latin, quas temporarias, tempo bom.

39 A distinção baseia-se no significado de egeret “estar em falta de” algo indispensável, e opus esse, “ter necessidade de” algo do qual se pode prescindir.

40 NT: Ver Diógenes Laércio, Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, livro VII.

41 NT: Alusão à teoria estoica da conflagração ( ekpyrosis). Segundo esta teoria estoica, o mundo se renovaria de tempos em tempos, o mundo se resumiria ao fogo artífice (Logos = Zeus = Inteligência universal) e todos os demais deuses seriam tragados nesta unidade primordial.

O processo cosmogônico daria origem a

outro mundo que, para alguns estoicos, seria uma repetição de tudo o que vivemos.

Daí que tudo aconteceria novamente, e todos renasceriam, mas (como disse

Sêneca numa carta), sem qualquer lembrança de uma vida anterior.

Então, se esta teoria fosse verdade, esta poderia ser nossa bilionésima vida, e pra nós não faria

diferença, pois não teríamos consciência disso.

Essa teoria reflete a concepção grega do eterno retorno.

Ver George Stock, Estoicismo.

42 NT: Demétrio I (337 a.C. — 283 a.C.), cognominado Poliórcetes, foi um rei da Macedônia.

Seu apelido, "cidade sitiada" (Poliorketes), refere-se à sua habilidade militar em sitiar e conquistar cidades.

43 Autor desconhecido, talvez uma adaptação do grego.

Alguns eruditos atribuem o verso a Publílio Siro

X. Sobre viver para si mesmo

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Sim, eu não mudo minha opinião: evite as multidões, evite os

poucos, evite mesmo o indivíduo.

Não conheço ninguém com quem

eu esteja disposto a compartilhá-lo. E repare o juízo que eu tenho de

sua opinião: ouso confiar você a si próprio.

Crates, 44 dizem eles, o discípulo do mesmo Estilpo que mencionei em uma carta anterior,

notou um jovem caminhando sozinho e perguntou-lhe o que ele

estava fazendo sozinho.

“Estou comungando comigo mesmo”,

respondeu o jovem, “então, cuidado”, disse Crates, “,você está

conversando com um homem mau”!

2. Quando as pessoas estão de luto ou têm medo de alguma coisa,

estamos acostumados a observá-las para que possamos impedi-las de fazer um uso errado de sua solidão.

Nenhuma pessoa imprudente

deve ser deixada sozinha; em tais casos, ela só planeja loucura e

acumula perigos futuros para si ou para os outros.

Ela coloca em

jogo seus instintos básicos, a mente mostra o que o medo ou a

vergonha costumavam reprimir, ela aguça a sua ousadia, agita as

suas paixões e incita a sua ira.

E, finalmente, o único benefício que a

solidão confere, o hábito de não confiar em nenhum homem e de não

temer testemunhas, é desperdiçado pelo tolo porque ele trai a si

mesmo.

Lembre-se, portanto, quais são minhas esperanças para

você, ou melhor, o que eu estou prometendo, na medida em que a

esperança é meramente o título de uma bênção incerta: não conheço

ninguém com quem preferira que você se associasse, senão consigo

mesmo.

3. Lembro-me da maneira grandiosa com que você lançou certas

frases e quão cheias de força elas eram! Imediatamente me

congratulei e disse: “Estas palavras não vieram da borda dos lábios,

estas declarações têm uma base sólida.

Este homem não é um dos

muitos, ele tem consideração por seu real bem-estar.

”

4. Fale e viva desta maneira, cuide para que nada o retenha.

Quanto às suas preces anteriores, você pode liberar os deuses de

respondê-las.

Ofereça novas orações, ore por uma mente sã e por

uma boa saúde, primeiro de alma e depois de corpo.

E é claro que

você deve oferecer essas preces com frequência.

Apele com

ousadia a Deus, você não vai pedir a Ele o que pertence a outro.

5. Mas devo, como é meu costume, enviar um presente pequeno

junto com esta carta.

É um verdadeiro provérbio que eu encontrei em

Atenodoro:45 “Saiba que está livre de todos os desejos quando

alcançar o ponto em que não pede nada a Deus senão o que você

possa pedir publicamente”. Mas como homens são tolos! Eles

sussurram as mais vis orações ao céu, mas se alguém os ouve, eles

calam-se imediatamente.

O que eles não querem que os homens

saibam, pedem a Deus.

Não acredito, então, poder te dar algum

conselho mais sério que este: “Viva entre os homens como se

Deus os observasse, fale com Deus como se os homens

estivessem ouvindo”.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas: 44 Crates de Tebas (c. 365 – c. 285 BC) foi um filósofo cínico.

Crates doou seu dinheiro para viver uma vida de pobreza nas ruas de Atenas.

Respeitado pelo povo

de Atenas, ele é lembrado por ser o professor de Zenão de Cítio, o fundador do Estoicismo.

Vários fragmentos de ensinamentos Crates sobreviveram, incluindo sua

descrição do de um estado cínico ideal.

45 Atenodoro de Tarso ou Atenodoro Cananita (ca. 74 a.C. – 7) foi um filósofo estoico.

Nasceu em Canana, perto de Tarso (no que é hoje a Turquia, foi aluno de

Posidônio de Rodes e professor de Otaviano - o futuro imperador Augusto).

XI. Sobre o rubor da modéstia

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Seu amigo e eu tivemos uma conversa.

Ele é um homem de

habilidade; suas primeiras palavras mostraram que espírito e

compreensão possui, e o progresso que já fez.

Ele me deu uma

amostra de progresso no campo filosófico e ele não deixará de

corresponder.

Pois ele não falou de forma ensaiada, mas

subitamente pego da surpresa.

Quando tentava se recompor, mal

podia banir aquele nuance de modéstia, que é um bom sinal em um

jovem; o rubor que se espalhava pelo seu rosto parecia erguer-se

das profundezas.

E tenho certeza de que seu hábito de corar ficará com ele depois que tiver fortalecido seu caráter, retirado todos seus

defeitos e se tornado sábio.

Pois nenhuma sabedoria consegue

remover as fraquezas naturais do corpo.

O que é intrínseco e inato

pode ser atenuado pelo treinamento, mas não totalmente

superado.

2. O orador mais firme, quando diante do público, muitas vezes

mostra-se em transpiração, como se estivesse esgotado ou exausto.

Alguns tremem nos joelhos quando se levantam para falar, conheço

alguns cujos dentes rangem, cujas línguas vacilam, cujos lábios

tremem.

Treinamento e experiência nunca podem livrar essas

características.

A natureza exerce seu próprio poder e através de tal

fraqueza faz sua presença conhecida até mesmo para o mais forte.

3. Sei que o rubor também é uma característica desse tipo,

espalhando-se repentinamente sobre os rostos dos homens mais

dignos.

É, de fato, mais prevalente na juventude, por causa do

sangue mais quente e do rosto sensível; no entanto, ambos, homens

experientes e homens idosos são afetados por isso.

Alguns são mais

perigosos quando se enrubescem, como se estivessem deixando

escapar todo seu senso de vergonha.

4. Sula, 46 quando o sangue cobria suas bochechas, estava em seu humor mais feroz.

Pompeu possuía o matiz mais sensível: ele

sempre corava na presença de uma aglomeração e especialmente

em uma assembleia pública.

Fabiano também, lembro-me, ficava

avermelhado quando aparecia como testemunha perante o Senado e

seu embaraço tornou-se maravilhosamente notável.

5. Tal hábito não é devido à fraqueza mental, mas à novidade de uma

situação.

Uma pessoa inexperiente não é necessariamente confusa,

mas é geralmente afetada, porque ela se desliza para este hábito

por tendência natural do corpo.

Assim como certos homens são

cheios de sangue, outros são de um sangue rápido e móvel, que

corre para o rosto de uma vez.

6. Como eu disse, a sabedoria nunca pode remover esta

característica, pois se ela pudesse eliminar todas as nossas falhas,

ela seria a dona do universo.

Tudo o que nos é atribuído pelas

cláusulas de nosso nascimento e a mistura em nossa constituição,

ficará conosco, não importa quão arduamente ou quanto tempo a

alma possa ter tentado dominar a si mesma.

E não podemos impedir

esses sentimentos mais do que podemos invoca-los.

7. Atores no teatro, imitam as emoções, retratam o medo e o

nervosismo, retratam a tristeza, imitam a timidez, pendurando a cabeça, abaixando as vozes e mantendo os olhos fixos e enraizados

no chão.

Eles não podem, no entanto, invocar um rubor; pois o rubor

não pode ser prevenido ou convocado.

A sabedoria não nos

assegurará um remédio, nem nos dará ajuda, o rubor vem ou vai

espontaneamente e é uma lei em si mesmo.

8. Mas a minha carta pede a sua frase de encerramento.

Ouça e

atente para este lema útil e saudável: “Estime um homem de

grande caráter e mantenha-o sempre diante de seus olhos,

vivendo como se ele estivesse observando você e arranjando

todas as suas ações como se ele as tivesse visto”.

9. Tal, meu caro Lucílio, é o conselho de Epicuro, ele nos deu um

guardião e um criado.

Podemos nos livrar da maioria dos pecados se

tivermos uma testemunha que esteja perto de nós quando estivermos

propensos a fazer algo errado.

A alma deve ter alguém a quem

possa respeitar, alguém por cuja autoridade possa tornar ainda mais

sagrado o seu santuário interior.

Feliz é o homem que pode fazer os

outros melhores, não apenas quando ele está em sua companhia,

mas mesmo quando ele está em seus pensamentos! E feliz também é aquele que pode assim reverenciar um homem como para acalmar-

se e orientar-se, chamando-lhe à mente! Aquele que pode

reverenciar a outro, logo se tornará digno de reverência.

10. Escolha, portanto, um Catão, ou, se Catão lhe parece um modelo

muito severo, escolha um Lélio, um espírito mais suave.

Escolha um

mestre cuja vida, discurso e expressão o tenham satisfeito.

Imagine-

o sempre para si mesmo como seu protetor ou seu exemplo.

Pois

precisamos ter alguém segundo o qual podemos ajustar nossas

características: você nunca pode endireitar o que é torto, a

menos que você use uma régua.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

46 NT: Lúcio Cornélio Sula, foi um político da gente Cornélia da República Romana eleito cônsul por duas vezes.

Foi também eleito ditador em 82 a.C., o primeiro desde o final do século III a.C..

XII.

Sobre a velhice

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Para onde quer que eu me vire, vejo evidências de meus

avançados anos.

Visitei recentemente a minha casa de campo e

reclamei do dinheiro gasto na manutenção do prédio.

Meu caseiro sustentou que as falhas não eram devidas a seu próprio descuido.

Ele estava fazendo todo o possível, mas a casa era velha.

E esta foi

a casa que construí por minha própria labuta! O que me reserva o

futuro, se as pedras de minha idade já estão se desintegrando?

2. Eu estava com raiva e usei a primeira oportunidade de exalar meu

mal humor na presença do caseiro.

“Está claro!” Exclamei eu, “que

esses plátanos estão negligenciados, não têm folhas, seus ramos

são tão retorcidos e enrugados, os caules estão ásperos e

desalinhados! Isso não aconteceria se alguém afofasse a terra sob

seus pés e os regasse.” O caseiro jurou por meu gênio protetor

que “ele estava fazendo todo o possível e nunca relaxou seus

esforços, mas aquelas árvores eram velhas”. Só entre nós, eu havia

plantado essas árvores, eu as tinha visto em sua primeira florada.

3. Então, virei-me para a porta e perguntei: “Quem é aquele

quebrantado? Vocês fizeram bem em coloca-lo na entrada, porque

ele já está de saída, 48 onde você o pegou? ” Mas o escravo disse:

“V ocê não me reconhece, senhor? Sou Felício, você costumava me

trazer pequenas imagens, 49 meu pai era o Filósito, o zelador, e eu sou seu escravo querido”. “O homem está louco”, comentei.

“Meu escravo predileto tornou-se um menininho de novo? Mas é bem

possível, seus dentes estão caindo.”

4.Estou obrigado admitir que minha velhice se tornou aparente.

Apreciemos e amemos a velhice, pois é cheia de prazer se alguém

sabe como usá-la. As frutas são mais bem-vindas quando quase

passadas.

A juventude é mais encantadora em seu fim, o último

drinque deleita o ébrio: é o copo que o sacia e dá o toque final em

sua embriaguez.

5. Cada prazer reserva para o fim as maiores delícias que contém.

A

vida é mais deliciosa quando está em declive mas ainda não atingiu o

fim abrupto.

E eu mesmo acredito que o período que se encontra,

por assim dizer, à beira do telhado, possui prazeres próprios.

Ou

então, o próprio fato de não desejarmos prazeres, toma o lugar dos

próprios prazeres.

Como é reconfortante ter cansado o apetite e ter

acabado com ele!

6. “Mas,” você diz, “é um incômodo estar olhando a morte no rosto! ”

A Morte, no entanto, deve ser olhada no rosto por jovens e velhos.

Nós não somos convocados de acordo com nossa classificação alfabética na lista do censor.

51 Além disso, ninguém é tão velho que seria impróprio para ele esperar mais um outro dia de existência.

E

um dia, lembre-se, é uma etapa na jornada da vida.

Nosso escopo

de vida é dividido em partes, consiste em grandes círculos que

encerram menores.

Um círculo abraça e limita o resto, atinge desde

o nascimento até o último dia da existência.

O próximo círculo limita

o período de nossa juventude.

O terceiro limita toda a infância em

sua circunferência.

Outra vez, há, em uma classe em si, o ano.

Contém dentro de si todas as divisões de tempo pela adição da qual

obtemos o total da vida.

O mês é limitado por um anel mais estreito.

O menor círculo de todos é o dia, mas mesmo um dia tem seu

começo e seu término, seu nascer e seu pôr-do-sol.

7. Por isso Heráclito, 52 cujo estilo obscuro lhe deu seu sobrenome, observou: “Um dia é igual a todos os dias”. Diferentes pessoas têm

interpretado o ditado de maneiras diferentes.

Alguns afirmam que os

dias são iguais em número de horas, e isso é verdade pois se por

“dia” queremos dizer vinte e quatro horas de tempo, todos os dias

devem ser iguais, na medida em que a noite adquire o que o dia

perde.

Mas outros sustentam que um dia é igual a todos os dias por

meio da semelhança, porque o espaço de tempo mais longo não possui nenhum elemento que não possa ser encontrado em um único

dia, a saber, a luz e a escuridão, e até a eternidade faz esses

revezamentos mais numerosos, não diferentes quando é mais curto e

diferente novamente quando é mais longo...

8. Portanto, todos os dias deveriam ser regulados como se

fechassem a série, como se estivessem completando nossa

existência.

Pacúvio, 54 que por muito tempo ocupava a Síria,

costumava realizar um ritual de sepultamento em sua própria honra,

com vinho e banquetes fúnebres, e depois ser levado da sala de

jantar para seu sarcófago, enquanto os eunucos aplaudiam e

cantavam em grego: “Ele viveu sua vida, ele viveu sua vida! ”

9. Assim Pacúvio vinha enterrando-se todos os dias.

Vamos, no

entanto, fazer por um bom motivo o que ele costumava fazer por um

motivo vil, vamos dormir com júbilo e alegria; deixe-nos dizer:

Eu tenho vivido; O curso que a fortuna estabeleceu para mim

está terminado.

Vixi et quem dederat cursum fortuna, peregi.

E se os deuses se agradam em acrescentar outro dia, devemos

acolhê-lo com alegria.

Esse homem é o mais feliz e está seguro em

sua própria posse de si mesmo, pois pode esperar o amanhã sem receio.

Quando um homem diz: “Eu tenho vivido! ”, toda manhã ao

acordar, recebe um bônus.

10. Mas agora eu devo concluir a minha carta.

“O quê? ”, você diz,

“virá a mim sem qualquer contribuição? ” Não tenha medo, trago

algo e, melhor, mais do que algo, muito.

Pois o que há de mais nobre

do que o seguinte provérbio de que eu faço desta carta portadora:

“É errado viver sob coação, mas ninguém é coagido a viver sob

coação.” 56 Claro que não.

Em todos os lados encontram-se muitos caminhos curtos e simples para a liberdade e agradeçamos aos

deuses que nenhum homem possa ser mantido na vida.

Podemos

desprezar os próprios constrangimentos que nos prendem.

11. “Epicuro”, você responde, “disse estas palavras, o que você está

fazendo com a propriedade de outrem? ” Qualquer verdade, eu

sustento, é minha propriedade.

E continuarei a amontoar citações

de Epicuro sobre você, para que todas as pessoas que juram pelas

palavras de outrem e que valorizam o orador e não o que é dito,

compreendam que as melhores ideias são domínio público.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

47 NT: Na religião pagã romana, o gênio ( genius) era uma das divindades domésticas individualmente associada a cada homem.

Cada um possuía o seu

genius (e a mulher seu juno). Especialmente venerado era o genius do chefe de família.

48 Uma alusão irônica ao funeral romano; os pés do cadáver apontando para a porta.

49 NT: Pequenas figuras, geralmente de terracota, eram frequentemente dadas às crianças como presente durante o festival da Saturnalia.

Neste festival, era costume

haver troca de presentes entre amigos, e mesmo, entre senhores e escravos.

Nessa ocasião os escravos gozavam de uma grande liberdade em relação aos

seus senhores.

Ver Horácio, Sátiras, livro II, 7.

50 O antigo escravo se assemelha a uma criança na medida em que está perdendo os dentes (mas pela segunda vez).

51 “seniores” em contraste com “iuniores”

52 NT: Heráclito de Éfeso (ca 535 a.C. – 475 a.C.) foi um filósofo pré-socrático considerado o “Pai da dialética”. Recebeu a alcunha de “O Obscuro”

principalmente em razão da obra a ele atribuída por Diógenes Laércio, “Sobre a Natureza”, em estilo obscuro, próximo ao das sentenças oraculares.

53 O texto apresenta aqui uma lacuna.

54 A Síria era legalmente governada por Élio Lâmia, nomeado por Tibério, que, impedido de sair de Roma, administrava a província por intermédio do seu legado

Pacúvio.

Ver Tácito, Anais.

55 Trecho de Eneida, de Virgílio.

56 NT: Ver Epicuro, Cartas e Princípios.

XIII.

Sobre medos infundados

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Eu sei que você tem muita garra.

Pois mesmo antes de você

começar a equipar-se com máximas que eram saudáveis e

poderosas para superar obstáculos, você estava se orgulhando de

sua disputa com a Fortuna; e isso é ainda mais verdadeiro agora que

você se atracou com a Fortuna e testou seus poderes.

Pois nossos

poderes nunca podem inspirar uma fé implícita em nós mesmos, a

não ser quando muitas dificuldades tenham nos cortejado por

inúmeros lados e ocasionalmente tenham se atracado conosco.

Somente dessa maneira o verdadeiro espírito pode ser testado, o

espírito que nunca consentirá em submeter-se à jurisdição de coisas

externas a nós, aquele que nunca abdicará do seu livre arbítrio.

2. Esta é marca de tal espírito.

Nenhum lutador pode ir com alta

expectativa para a luta se ele nunca foi espancado, o único

concorrente que pode entrar com confiança na luta é o homem que

viu seu próprio sangue, que sentiu seus dentes chocalharem sob o

punho do seu adversário, que foi derrubado e sentiu toda a força da

carga do seu adversário, que foi abatido não só no corpo, mas

também em espírito, aquele que, quantas vezes cai, levanta-se

novamente com maior teimosia do que nunca.

3. Então, para manter a minha analogia, a Fortuna foi muitas vezes

no passado preponderante sobre você e mesmo assim você não se

rendeu, mas saltou ereto e manteve a sua posição ainda mais

determinadamente.

Pois a virilidade ganha muita força ao ser

desafiada.

No entanto, se você aprovar, permita-me oferecer

algumas salvaguardas adicionais pelas quais você pode se

fortalecer.

4. Existem mais coisas, Lucílio, suscetíveis de nos assustar do que

existem de nos derrotar; sofremos mais na imaginação do que na

realidade.

Eu não estou falando com você na linha estoica, mas em

meu estilo mais suave.

Pois é a nossa maneira estoica, falar de

todas essas coisas que provocam gritos e gemidos, tanto sem importância como irrelevantes.

Mas você e eu devemos proferir

palavras grandiosas embora, os deuses sabem, verdadeiras.

O que

eu aconselho você a fazer é, não ser infeliz antes que a crise chegue,

já que pode ser que os perigos que o empalidecem como se

estivessem o ameaçando agora, nunca cheguem sobre você; eles

certamente ainda não chegaram.

5. Assim, algumas coisas nos atormentam mais do que

deveriam; algumas nos atormentam antes do que deveriam e

algumas nos atormentam quando não deveriam nos atormentar.

Temos o hábito de exagerar, imaginar e antecipar a tristeza.

A

primeira dessas três faltas pode ser adiada no momento, porque o

assunto está em discussão e o caso ainda está no tribunal, por

assim dizer.

O que eu chamo de insignificante, você considerará a

ser mais grave pois é claro que eu sei que alguns homens riem

enquanto são açoitados e que outros estremecem com um tapa

orelha.

Consideraremos mais tarde se esses males derivam seu

poder, de sua própria força ou de nossa própria fraqueza.

6. Faça-me um favor; quando os homens o rodeiam e tentam

convencê-lo a acreditar que você é infeliz, considere não o que você

ouve, mas o que você sente e tome conselho com seus sentimentos e se questione independentemente, porque você sabe seus próprios

assuntos melhor do que qualquer um. Pergunte: “Há alguma razão

por que essas pessoas devam compadecer-se de mim, por que

elas deveriam estar preocupados ou até mesmo temerem alguma

contaminação de mim, como se problemas pudessem ser

transmitidos? Existe algum mal envolvido ou é apenas uma questão

de mau relato, em vez de um mal?” Coloque a pergunta

voluntariamente a si mesmo: “Estou atormentado sem razão

suficiente, estou melancólico e estou a converter o que não é mal

no que é mal? ”

7. Você pode retorquir com a pergunta: “Como vou saber se meus

sofrimentos são reais ou imaginários? ” Aqui está a regra para tais

assuntos: somos atormentados por coisas presentes ou por coisas

vindouras ou por ambas.

Quanto às coisas presentes, a decisão é

fácil.

Avalie se sua pessoa goza de liberdade e saúde e que você

não sofra de nenhuma violência física.

Quanto ao que lhe acontecerá

no futuro, veremos mais adiante.

Hoje não há nada de errado.

8. “Mas,” você diz, “algo vai acontecer.” Em primeiro lugar, considere

se suas provas dos problemas futuros são certas.

Pois é mais comum que nos incomodemos com as nossas apreensões e que

sejamos zombados por aquele zombador, o boato, que costuma

instalar guerras, mas muito mais frequentemente liquida indivíduos.

Sim, meu caro Lucílio, concordamos muito rapidamente com o que

as pessoas dizem.

Não colocamos à prova as coisas que causam o

nosso medo, não as examinamos a fundo, titubeamos e nos

retiramos exatamente como soldados que são forçados a abandonar

seu acampamento por causa de uma nuvem de poeira levantada pelo

estampido do gado ou são lançados em pânico pela divulgação de

algum rumor não autenticado.

9. E, de alguma forma, é o relatório negligente que nos perturba

mais.

Pois a verdade tem seus próprios limites definidos, mas o que

surge da incerteza é entregue à adivinhação e à licença irresponsável

de uma mente assustada.

É por isso que nenhum medo é tão ruinoso

e tão incontrolável como o medo causado pelo pânico.

Pois alguns

medos são infundados, mas este medo é imbecil.

10. Vejamos, pois, atentamente o assunto.

É provável que alguns

problemas nos acontecerão, mas não é um fato presente.

Quantas

vezes o inesperado aconteceu! Quantas vezes o esperado nunca

chegou a passar! E mesmo que seja destinado a ser, o que é que vale correr para encontrar seu sofrimento? Você sofrerá em breve,

quando chegar a hora, então, enquanto isso, olhe para a frente, para

coisas melhores.

11. O que você ganhará fazendo isso? Tempo.

Haverá muitos

acontecimentos, entretanto, que servirão para adiar ou para terminar

ou para transmitir a uma outra pessoa as experimentações que estão

próximas ou mesmo em sua própria presença.

Um incêndio abriu o

caminho para a fuga.

Os homens foram derrotados por uma

catástrofe.

Às vezes o movimento da espada é parado na garganta

da vítima.

Alguns homens sobreviveram aos seus próprios carrascos.

Mesmo a má Fortuna é inconstante.

Talvez venha, talvez não,

entrementes, agora, não está aqui.

Então, esperemos coisas

melhores.

12. A mente às vezes modela para si as formas falsas do mal

quando não há sinais que apontem para algum mal, interpreta da pior

forma alguma palavra de significado duvidoso ou imagina algum

rancor pessoal ser mais sério do que realmente é, considerando não

quão irritado o inimigo está, mas a que extensão poderá chegar sua

ira.

Mas a vida não vale a pena ser vivida, e não há limites para

nossas dores, se entregarmos nossos medos ao máximo possível.

Neste assunto, deixe a prudência ajudá-lo e despreze o medo com

um espírito resoluto mesmo quando ele está à vista.

Se você não

pode fazer isso, combata uma fraqueza com outra e tempere o seu

medo com esperança.

Não há nada tão certo nesse assunto de

medo como as coisas que tememos darem em nada e as coisas que

esperamos nos decepcionarem, zombando de nós.

13. Consequentemente, pese cuidadosamente as suas esperanças

assim como os seus temores, e sempre que todos os elementos

estiverem em dúvida, decida em seu favor.

Acredite no que você

preferir.

E se o medo ganha a maioria dos votos, incline-se na outra

direção de qualquer maneira e deixe de incomodar sua alma,

refletindo continuamente que a maioria dos mortais, mesmo quando

não têm problemas realmente à mão, certamente os têm esperados

no futuro, e tornam-se excitados e inquietos Ninguém resiste ao

próprio impulso que tomou, quando começa a ser incitado à frente;

nem regula o seu medo de acordo com a realidade.

Ninguém diz: “o

autor da história é um tolo e quem crê nela é um tolo, assim como

aquele que a fabricou.

” Nós nos deixamos derivar com cada brisa,

estamos assustados com as incertezas, como se estivessem certas.

Não observamos com moderação.

A menor coisa vira o jogo e nos coloca imediatamente em pânico.

14. Mas eu tenho vergonha tanto de admoestá-lo severamente ou

tentar iludi-lo com remédios tão suaves.

Deixe outro dizer.

“Talvez o

pior não aconteça”. Você mesmo deve dizer.

“Bem, e se isso

acontecer, vamos ver quem ganha, talvez isso aconteça para o meu

melhor interesse, pode ser que tal morte derrame crédito sobre a

minha vida”. Sócrates foi enobrecido pelo chá de cicuta.

Retire da

mão de Catão57 sua espada, que lhe assegurou a liberdade, e você o privará da maior parte de sua glória.

15. Estou lhe exortando por demasiado tempo, já que você precisa

de recordação e não de exortação.

O caminho para o qual lhe guiarei

não é diferente daquele em que a sua natureza o guia, você nasceu

para a conduta que eu descrevo.

Portanto, há mais razão para

reforçar e alegrar as boas qualidades que já existem em você.

16. Mas agora, para fechar a minha carta, tenho apenas de

estampar o selo habitual, ou seja, consignar uma mensagem nobre a

ser entregue a você: “O tolo, com todos seus outros defeitos, tem

este também: ele está sempre se preparando para viver.

” Reflita, meu estimado Lucílio, o que significa essa palavra, e você verá quão

revoltante é a inconstância dos homens que estabelecem cada dia

novos fundamentos de vida e começam a construir novas esperanças

mesmo à beira da sepultura.

17. Olhe dentro de sua própria mente para instâncias individuais,

você pensará em homens velhos que estão se preparando naquela

mesma hora para uma carreira política ou para viajar ou para o

negócio.

E o que é mais mesquinho do que se preparar para viver

quando você já é velho? Eu não devo dar o nome do autor deste

lema, exceto que é pouco conhecido e não é um daqueles ditos

populares de Epicuro que eu me permiti elogiar e apropriar.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

57 Marco Pórcio Catão Uticense), também conhecido como Catão, o Jovem, (para se distinguir do seu bisavô, Marco Pórcio Catão, o Velho), (Roma, 95 a.C. – Útica,

46 a.C.) foi um político romano célebre pela sua inflexibilidade e integridade moral.

Partidário da filosofia estoica, era avesso a qualquer tipo de suborno.

Opunha-se, particularmente, a Júlio César.

Suicidou-se depois da vitória deste na Batalha de Tapso.

XIV.

Sobre as razões para se retirar do mundo

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Confesso que todos temos um afeto inato por nosso corpo, admito

que somos responsáveis por sua proteção, por cuidar bem dele.

Eu

não defendo que o corpo não deva ser saciado em tudo, mas

mantenho que não devemos ser escravos dele.

Será escravo de

muitos aquele que faz de seu corpo seu mestre, que teme

demasiadamente por ele, que julga tudo de acordo com o corpo.

2. Devemos nos conduzir não como se devêssemos viver para o

corpo, mas como se não pudéssemos viver sem ele.

Nosso grande

amor por ele nos deixa inquietos de medo, nos sobrecarrega de

cuidados e nos expõe a ofensas.

A virtude é considerada inferior

pelo homem que considera seu corpo muito importante.

Devemos

cuidar do corpo com o maior cuidado, mas também devemos estar

preparados para quando a razão, o amor-próprio e o dever exigirem

o sacrifício, entregá-lo às chamas.

3. Contudo, na medida do possível, evitemos tanto os desconfortos

como os perigos e retiremo-nos a um terreno seguro, pensando

continuamente em como repelir todos os objetos do medo.

Se não

me engano, há três classes principais: temos medo da carestia, tememos a doença e tememos os problemas que resultam da

violência dos mais fortes.

4. E de tudo isso, o que mais nos assusta é o pavor que paira sobre

nós da violência de nosso vizinho, pois é acompanhada por grande

clamor e tumulto.

Mas os males naturais que eu mencionei, carestia

e doença, nos furtam silenciosamente sem terror aos olhos ou aos

ouvidos.

O outro tipo de mal vem, por assim dizer, sob a forma de

grande desfile militar.

Em torno dele há um séquito de espadas, fogo,

correntes e uma multidão de animais para ser solta sobre as

entranhas evisceradas dos homens.

5. Imagine-se submetido à prisão, à cruz, à tortura, aos ganchos, à forca e à empalação.

Pense nos membros humanos rasgados por

cavalos movidos em direções opostas, da camisa terrivelmente

besuntada com materiais inflamáveis, e de todos os outros aparelhos

inventados pela crueldade, além daqueles que eu mencionei! Não é

de admirar, então, se nosso maior terror é de tal sorte, porque ele

vem em muitas formas e sua parafernália é aterrorizante.

Pois, assim

como o torturador conquista mais por conta da quantidade de

instrumentos que exibe -de fato, o espetáculo vence aqueles que

teriam pacientemente resistido ao sofrimento - similarmente, de todos os agentes que coagem e dominam nossas mentes, os mais

eficazes são aqueles ostensivos.

Esses outros problemas não são,

evidentemente, menos graves.

Quero dizer fome, sede, úlceras do

estômago e febre engolem nossas entranhas.

Eles são, no entanto,

secretos, eles não vociferam e se anunciam, mas os outros, com

formidáveis vestimentas de guerra, prevalecem em virtude de sua

ostentação e aparelhagem.

6. Vamos, portanto, cuidar para que nos abstenhamos de ofender.

Às vezes é o povo que devemos temer; às vezes um grupo de

oligarcas influentes no Senado, se o método de governar o Estado é

tal que a maior parte do negócio é feita por esse grupo; e às vezes

indivíduos equipados com poder pelo povo e contra o povo.

É

oneroso manter a amizade de todas essas pessoas, basta não fazer

deles inimigos.

Assim o sábio nunca provocará a ira daqueles que

estão no poder, mais que isso, o sábio vai mesmo mudar seu curso,

exatamente como iria desviar-se de uma tempestade se estivesse

conduzindo um navio.

7. Quando você viajou para a Sicília, você precisou atravessar o

estreito.

Seu capitão foi imprudente e desdenhou o violento vento sul

– vento que encrespa o mar siciliano e cria correntes poderosas – ou ele procurou a costa à esquerda? A praia pedregosa, de onde

Caríbdis59 agita os mares em confusão.

Seu capitão mais cuidadoso, entretanto, questiona aqueles que conhecem a localidade quanto às

marés e ao significado das nuvens.

Ele mantém seu curso longe

daquela região notória por suas águas agitadas.

Nosso sábio faz o

mesmo, foge de um homem forte que pode ser nocivo a ele, fazendo

questão de não parecer evitá-lo, porque uma parte importante de

sua segurança reside em não buscar segurança abertamente;

porque aquilo que se evita, se condena.

8. Portanto, devemos olhar ao redor e verificar como podemos nos

proteger da multidão.

E antes de tudo, não devemos ter ânsias como

as dela, pois a rivalidade resulta em conflitos.

Novamente, não

possuamos nada que possa ser arrebatado de nós para o grande

lucro de um inimigo conspirador.

Permita que haja o menor espólio

possível na sua pessoa.

Ninguém se propõe a derramar o sangue de

seus semelhantes por causa do sangue em si, ou de qualquer

maneira, apenas muito poucos.

Mais assassinos especulam sobre

seus lucros do que em dar vazão ao próprio ódio.

Se você está de

mãos vazias, o salteador da estrada passa por você.

Mesmo ao

longo de uma estrada infestada, os pobres podem viajar em paz.

9. Em seguida, devemos seguir o velho ditado e evitar três coisas

com especial cuidado: ódio, ciúme e desdém.

E só a sabedoria pode

mostrar-lhe como isso pode ser feito.

É difícil seguir o meio termo,

devemos ser cuidadosos para não deixar que o medo do ciúme nos

leve a tornarnos desdenhosos, para que, quando escolhemos não

menosprezar os outros, não deixemos que eles pensem que podem

nos menosprezar.

O poder de inspirar medo tem levado muitos

homens a terem medo.

Afastemo-nos de todas as maneiras, pois é

tão nocivo ser desprezado quanto a ser admirado.

10. Você deve, portanto, refugiar-se na filosofia.

Essa busca, não só

aos olhos dos homens bons, mas também aos olhos dos que são

mesmo moderadamente maus, é uma espécie de emblema protetor.

Pois o discurso no tribunal, ou qualquer outra busca por atenção

popular, traz inimigos para um homem, mas a filosofia é pacífica e

foca-se em seu próprio negócio.

Os homens não podem desprezá-la,

ela é honrada por cada profissão, até mesmo a mais vil entre elas.

O

mal nunca pode crescer tão forte e a nobreza de caráter nunca pode

ser tão conspirada, que o nome da filosofia deixe de ser digno e

sagrado.

Filosofia em si, no entanto, deve ser praticada com calma e

moderação.

11. “Muito bem, então,” você responde, “você considera a filosofia de Marco Catão como moderada? ” A voz de Catão se esforçou para

reprimir uma guerra civil.

Catão segurou as espadas de chefes de

clãs enlouquecidos.

Quando alguns pereceram, vítimas de Pompeu e

outros de César, Catão desafiou as duas facções ao mesmo tempo!

12. Não obstante, alguém pode muito bem questionar se, naqueles

dias, um sábio deveria ter tomado alguma parte nos assuntos

públicos e perguntado: “O que você quer dizer, Marco Catão? Não é

agora uma questão de liberdade, há muito tempo a liberdade foi

desmoronada e arruinada.

A questão é se César ou Pompeu

controlam o Estado.

Por que, Catão, você deve tomar partido nessa

disputa? Não é assunto seu, um tirano está sendo escolhido.

O

melhor pode vencer, mas o vencedor será condenado a ser o pior

homem.

” Refiro-me ao papel final de Catão.

Mas mesmo nos anos

anteriores o homem sábio não foi autorizado a intervir em tal

pilhagem do estado pois o que poderia fazer Catão senão erguer a

voz e pronunciar palavras em vão? Em certa ocasião ele foi levado

pelas mãos pela multidão, foi cuspido e forçosamente removido do

foro e assinalado para o exílio, em outra, foi levado direto do senado para a prisão.

13. Contudo, consideraremos mais tarde60 se o sábio deve dar

atenção à política, entretanto, peço-lhe que considere aqueles

estoicos que, afastados da vida pública, se retiraram para a

privacidade com o propósito de melhorar a existência dos homens e

elaborar leis para a raça humana sem incorrer no descontentamento

daqueles que estão no poder.

O homem sábio não perturbará os

costumes do povo, nem atrairá a atenção da população por

quaisquer modos de vida novos.

14. “O que, então? Pode alguém que seguir este plano estar

sempre seguro?” Não posso garantir-lhe isto mais do que posso

garantir uma boa saúde no caso de um homem que observe a

moderação embora, de fato, boa saúde resulte de tal moderação.

Às vezes um navio afunda no porto, mas o que você acha que

acontece em mar aberto? E quão mais cercado de perigo estaria um

homem, que mesmo em seu retiro não está seguro, se ele estiver

ocupado trabalhando em muitas coisas! As pessoas inocentes às

vezes perecem, quem negaria isso? Mas os culpados perecem com mais frequência.

A habilidade de um soldado não é julgada se ele

recebe o golpe de morte através de sua armadura.

15. E, finalmente, o homem sábio considera a razão de todas as

suas ações, mas não os resultados.

O começo está em nosso

próprio poder, a Fortuna decide o assunto, mas eu não permito que

ela passe sentença sobre mim mesmo.

Você pode dizer: “Mas ela

pode infligir uma medida de sofrimento e de problemas.” Um

bandido de estrada pode matar-me; condenar-me, isso jamais!

16. Agora você estende sua mão para o presente diário.

Áureo, de

fato, será o presente com o qual eu o agraciarei; e, na medida em

que mencionamos o ouro, deixe-me dizer-lhe como o seu uso e gozo

pode trazer-lhe maior prazer.

“Aquele que menos precisa de

riquezas, desfruta mais das riquezas”. “Nome do autor, por favor!”,

você diz.

Agora, para mostrar o quão generoso eu sou, é minha

intenção elogiar os ditos de outras escolas.

A frase pertence a

Epicuro, ou Metrodoro, ou alguém daquela escola de pensamento

particular.

17. Mas que diferença faz quem disse as palavras? Elas foram

proferidas ao mundo.

Aquele que anseia riquezas sente medo por

conta delas.

Nenhum homem, no entanto, goza de uma bênção que traz ansiedade.

Ele está sempre tentando adicionar um pouco mais.

Enquanto ele se intrica em aumentar sua riqueza, ele se esquece de

usá-la. Ele recolhe suas contas, desgasta o pavimento do fórum, ele

revira seus registos de juros, em suma, ele deixa de ser mestre e

torna-se um guarda-livros.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

58 NT: Os ganchos referidos eram usados para arrastar corpos de condenados até junto das “gemoniae scalae”, isto é, " escadas dos gemidos", de onde eram lançados ao rio Tibre.

59 Caríbdis (em grego: Χάρυβδις), na mitologia grega, era uma criatura marinha protetora de limites territoriais no mar.

Em outra tradição, seria um turbilhão criado por Poseidon.

60 Ver carta XXII neste volume.

61 NT: Frase de Epicuro.

Ver Diógenes Laércio, Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, livro X.

XV. Sobre força bruta e

cérebros

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Os antigos romanos tinham um costume que sobreviveu até a

minha época.

Eles acrescentariam às primeiras palavras de uma

carta: “Se você está bem, tanto melhor, eu estou bem.

” Pessoas como nós fariam bem em dizer.

“Se você está estudando filosofia,

está bem.” Pois isso é exatamente o que significa “estar bem”. Sem

filosofia a mente é enferma, e o corpo, embora possa ser muito

poderoso, é forte apenas como o de um louco é forte, é a saúde

própria dos dementes, dos estúpidos.

2. Este então, é o tipo de saúde que você deve cultivar em primeiro

lugar; o outro tipo de saúde vem em segundo lugar e envolverá

pouco esforço, se você deseja estar bem fisicamente.

É loucura,

meu caro Lucílio, e muito impróprio para um homem culto trabalhar

duro para desenvolver os músculos e alargar os ombros e fortalecer

os pulmões.

Pois embora a alimentação pesada produza bons

resultados e seus tendões cresçam sólidos, você nunca poderá se

sobressair, seja em força ou em peso, quando comparado com

um touro.

Além disso, ao sobrecarregar o corpo com comida você

estrangula a alma e a torna menos ativa.

Assim, limite o corpo, tanto

quanto possível, e permita total liberdade ao espírito.

3. Muitos contratempos acossam aqueles que se dedicam a tais

objetivos.

Em primeiro lugar, eles precisam de seus exercícios, nos

quais devem trabalhar e desperdiçar sua força vital tornando-a menos apta a suportar os estudos mais severos.

Em segundo lugar,

seu gume é cegado por comer demasiadamente.

Além disso, eles

precisam receber ordens de escravos do mais vil cunho, homens que

alternam entre o frasco de óleo e a jarra, 63 cujo dia passa

satisfatoriamente se tiveram uma boa transpiração e beberam

grandes tragos para compensar o que eles perderam em suor,

garrafas enormes de licor que sorverão profundamente por causa de

seu jejum.

Beber e suar: é a vida de um dispéptico!

4. Agora, existem exercícios curtos e simples que cansam o corpo

rapidamente e assim economizam nosso tempo.

E o tempo é algo do

qual devemos manter estrita conta.

Estes exercícios são correr,

levantar pesos e saltar, saltos altos ou saltos largos, ou o tipo que eu

posso chamar, “a dança dos sálios” 64, ou, em termos ligeiros, “o salto dos tintureiros”. 65 Selecione para praticar qualquer um destes e você vai perceber ser simples e fácil.

5. Mas o que quer que você faça, volte logo do corpo à mente.

A

mente deve ser exercitada dia e noite, pois é alimentada pelo

trabalho moderado.

E esta forma de exercício não precisa ser

atrapalhada pelo tempo frio ou quente, ou mesmo pela velhice.

Cultive esse bem que melhora com os anos.

6. É claro que eu não ordeno que você esteja sempre curvado sobre seus livros e materiais de escrita.

A mente necessita de variedade,

mas uma variedade de tal natureza que não é irritante, mas

simplesmente branda.

Montar em uma liteira66 sacode o corpo, mas

não interfere com o estudo: pode-se ler, ditar, conversar ou ouvir

alguém.

A caminhada também não impede qualquer dessas coisas.

7. Você não deve desprezar o treino da voz, mas eu o proíbo de

praticar levantar e abaixar sua voz por escalas e entonações

específicas.

Senão pode ser que você queira seguir aulas de

marchar! Se você consultar o tipo de pessoa para quem a fome

ensinou novos truques, você terá alguém para ajustar seus passos,

vigiar cada bocado que você come, e chegar a tais extremos que

você mesmo, por suportar e acreditar nele, terá encorajado seu

desaforo.

O quê, então? Você vai perguntar, “devo começar gritando

e esticar os pulmões ao máximo?” Não, o natural é que seja

despertado para tal passo por etapas fáceis, assim como as

pessoas que estão discutindo começam com tons conversacionais

comuns e em seguida, passam a gritar no topo de seus pulmões.

Nenhum orador grita: “ajuda-me, Quirites” 67 no princípio de seu discurso.

8. Portanto, sempre que o instinto de seu espírito o induzir, crie um tumulto, alternando tons mais altos e mais suaves, de acordo com

sua voz, assim como seu espírito, sugerir-lhe-á. Então segure sua

voz e a chame de volta à terra, desça suavemente, não colapse.

Ela

deve rastejar em tons a meio caminho entre alto e baixo e não deve

abruptamente cair de seu frenesi na maneira rude dos compatriotas.

Pois nosso propósito não é dar o exercício a voz, mas fazê-la nos

dar exercício.

9. Você vê, eu o aliviei de uma preocupação grave e vou lançar lhe

um pequeno presente complementar, também grego.

Aqui está o

provérbio, é excelente: “A vida do tolo está vazia de gratidão e cheia

de medos, seu curso está totalmente voltado para o futuro”. Você

questiona quem pronunciou estas palavras? O mesmo escritor que

mencionei antes.

E que tipo de vida você acha que significa a vida do

tolo? A de Baba e Isio? 68 Não, ela significa a nossa própria, pois estamos mergulhados em nossos desejos cegos em

empreendimentos que nos prejudicarão, mas certamente nunca nos

satisfarão, pois se pudéssemos estar satisfeitos com qualquer coisa,

teríamos sido satisfeitos há muito tempo.

Também não refletimos o

quão agradável é exigir nada, quão nobre é estar contente e não depender da Fortuna.

10. Portanto, lembre-se continuamente, Lucílio, quantas ambições

você alcançou.

Quando você vê muitos à frente de você, pense

quantos estão atrás! Se você quiser agradecer aos deuses e se

mostrar grato por sua vida passada, você deve contemplar quantos

homens você superou.

Mas o que você tem a ver com os outros?

Você superou a si mesmo.

11. Fixe um limite que você não vai sequer desejar ultrapassar, se

tivesse a capacidade.

Finalmente, então, livre-se de todos estes

bens traiçoeiros! Eles parecem melhores para aqueles que esperam

por eles do que para aqueles que os alcançaram.

Se houvesse algo

substancial neles, mais cedo ou mais tarde eles o satisfariam; como

são, eles apenas despertam a sede dos sedentos, quanto mais os

saboreamos mais lhes sentimos a sede.

Fora com trastes que

apenas servem para exibição! Quanto ao que o futuro incerto tem

reservado, por que eu exigiria da Fortuna que ela me dê ao invés

de exigir de mim mesmo que eu não deseje? E por que eu deveria

desejar? Devo acumular meus ganhos e esquecer que o destino do homem é imaterial? Para que fim devo labutar? Eis que hoje é o

último dia, se acaso não for, está perto do último.

Meu fim já não

está distante.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

62 NT: Sêneca repete ao longo das cartas a oposição entre os adeptos da filosofia, isto é, aqueles que tentam aproximar-se do ideal do "sábio estoico”, e a grande massa de stulti, chamando esses de "insensatos, estúpidos, incultos, dementes' .

Precisamos entender que ao usar o adjetivo stultus ("estúpido") não está avaliando a inteligência do visado, mas tão somente afirmando seu afastamento do modelo ideal.

63 NT: O óleo com que os atletas untavam o corpo antes dos exercícios físicos, especialmente nas lutas.

64 Sálio (em latim: Salius; pl. Salii), na religião da Roma Antiga, era um “sacerdote saltador” (do verbo salio, “pular”) que realizava cultos a Marte Gradivo.

Esse grupo realizava anualmente no mês de março uma procissão pelas ruas de Roma batendo

em escudos sagrados, dançando um ritual e entoando em honra do deus hinos cujo texto, segundo Quintiliano, nem os próprios celebrantes compreendiam.

65 O pisoteador ou arrumador, lavava as roupas pisando e pulando sobre elas em uma tina.

66 NT: Liteira é uma cadeira portátil, aberta ou fechada, suportada por duas varas laterais, carregada por escravos.

67 NT: Quirites eram cidadãos romanos com plenitude de direitos civis.

A captatio beneuolentiae (o apelo à benevolência dos cidadãos) ocorria, por procedimento, ao final do discurso, quando o orador, depois de ter exposto sua argumentação, recorria à emoção.

Ver Cícero, Diálogo sobre as divisões da oratória

68 Bobos famosos em Roma no período.

Sêneca faz alusão a eles em outras obras.

Ver Sêneca, A Apocoloquintose do divino Cláudio

XVI.

Sobre filosofia, o guia da

vida

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Tenho certeza que está claro para você, Lucílio, que nenhum

homem pode viver uma vida feliz, ou mesmo uma vida suportável,

sem o estudo da filosofia; você sabe também que uma vida feliz é

alcançada quando a nossa sabedoria é levada ao auge, mas que a

vida é pelo menos suportável, mesmo quando a nossa sabedoria

apenas começa.

Essa ideia, no entanto, embora clara, deve ser

fortalecida e implantada mais profundamente pela reflexão diária.

É

mais importante para você manter as resoluções que já fez do que ir

e fazer novas.

Você deve perseverar, deve desenvolver uma nova

força através do estudo contínuo, até que o que era apenas uma boa

disposição se torne um propósito bem estabelecido.

2. Por essa razão você não precisa mais vir a mim com muita conversa e declarações solenes; sei que você fez grandes

progressos.

Eu entendo os sentimentos que originam suas palavras,

não são palavras fingidas ou enganosas.

No entanto, vou dizer-lhe o

que penso, que no momento tenho esperanças para você, mas ainda

não perfeita confiança.

E gostaria que você adotasse a mesma

atitude em relação a si mesmo.

Não há nenhuma razão porque você

deva colocar muita confiança em si mesmo rapidamente e sem

grande esforço.

Examine-se, investigue-se e observe-se de várias

maneiras, mas antes de tudo diga se é na filosofia ou meramente na

própria vida que você fez progresso.

3. Filosofia não é um truque para fisgar o público, não é concebida

para aparecer.

É uma questão, não de palavras, mas de atos.

Não é

perseguida de modo que o dia possa render alguma diversão antes

que seja extenuado, ou que nosso ócio possa ser aliviado de um

tédio que nos irrita.

Molda e constrói a alma, ordena nossa vida, guia

nossa conduta, nos mostra o que devemos fazer e o que devemos

deixar por fazer, ela senta ao leme e dirige o nosso curso enquanto

nós titubeamos em meio a incertezas.

Sem ela, ninguém pode viver

intrepidamente ou em paz de espírito.

Inúmeras coisas que

acontecem a cada hora pedem conselhos e esses conselhos devem ser buscados na filosofia.

4. Talvez alguém diga: “Como pode a filosofia me ajudar, frente a

existência da Fortuna? De que serve a filosofia, se Deus governa o

universo? De que vale, se a Fortuna governa tudo? Não só é

impossível mudar as coisas que são determinadas, mas também é

impossível planejar de antemão contra o que é indeterminado; ou

Deus já antecipou meus planos e decidiu o que devo fazer ou então

a fortuna não dá liberdade aos meus planos”.

5. Se a verdade, Lucílio, está em uma ou em todas estas

perspectivas, nós devemos ser filósofos, se a Fortuna nos amarra

por uma lei inexorável, ou se Deus, como árbitro do universo,

providenciou tudo, ou se o acaso dirige e lança os assuntos humanos

sem método, a filosofia deve ser nossa defesa.

Ela nos encorajará a

obedecer a Deus alegremente e a Fortuna desafiadoramente, ela

nos ensinará a seguir a Deus e a suportar a Fortuna.

6. Mas não é meu propósito agora ser levado a uma discussão sobre

o que está sob nosso próprio controle, se a presciência é suprema

ou se uma cadeia de eventos fatais nos arrasta em suas garras ou

se o repentino e o inesperado nos dominam.

Volto agora ao meu aviso e à minha exortação, que não permita que o impulso do seu

espírito se enfraqueça e fique frio.

Mantenha-se firme nele e

estabeleça-o firmemente, a fim de que o que é agora ímpeto, possa

tornar-se um hábito da mente.

7. Se eu lhe conheço bem, você já está tentando descobrir desde o

início da minha carta a pequena contribuição que ela traz para você.

Peneire a carta e você a encontrará.

Você não precisa se maravilhar

com nenhum gênio meu porque, ainda assim, eu sou pródigo apenas

com a propriedade de outros homens.

Mas por que eu disse “outros

homens”? O que quer de bom que seja dito por alguém é meu.

Este

é também um dito de Epicuro: “Se você vive de acordo com a

natureza, você nunca será pobre, se você viver de acordo com a

opinião, você nunca será rico.”

8. Os desejos da natureza são leves, as exigências da opinião são

ilimitadas.

Suponha que a propriedade de muitos milionários seja

entregue em sua posse.

Suponha que a Fortuna leve você muito

além dos limites de um rendimento privado, cubra-o com ouro,

roupas em púrpura e traga-lhe a tal grau de luxo e riqueza que você possa cobrir a terra sob seus pés de mármore, que você possa não

só possuir, mas andar sobre riquezas.

Adicione estátuas, pinturas e

tudo o que a arte tem concebido para o luxo, você só aprenderá com

essas coisas a desejar ainda mais.

9. Os desejos naturais são limitados, mas aqueles que brotam da

falsa opinião não tem ponto de parada.

O falso não tem limites.

Quando você está viajando em uma estrada, deve haver um fim, mas

quando perdido, suas andanças são ilimitadas.

Desista, portanto, de

coisas inúteis, e quando você quiser saber se o que procura é

baseado em um desejo natural ou em um desejo enganoso,

considere se ele pode parar em algum ponto definido.

Se você

perceber, depois de ter viajado muito, que há um objetivo mais

distante sempre em vista, você pode ter certeza que esta

situação é contrária à natureza.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

69 Ou seja, apenas avançou em idade.

70 NT: Ver Epicuro, Cartas e Princípios.

XVII.

Sobre filosofia e riquezas Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Elimine todas as coisas desse tipo se você é sábio.

Ou melhor,

para que seja sábio! Objetive uma mente sã, rápida e com toda a

sua força.

Se qualquer vínculo o retém, desfaça-o ou corte-o. “Mas”,

diz você, “minha propriedade me atrasa, desejo fazer tal arranjo,

que me sustente quando não puder mais trabalhar, para que a

pobreza não seja um fardo para mim, ou eu mesmo um fardo para

os outros.

”

2. Você não parece, ao dizer isto, conhecer a força e o poder desse

bem que você está considerando.

De fato, você compreende tudo o

que é importante, o grande benefício que a filosofia confere, mas

você ainda não discerne com precisão suas várias funções, nem

sabe quão grande é a ajuda que recebemos da filosofia em tudo.

Para usar a linguagem de Cícero, “ela corre em nosso auxílio”, ela não só nos ajuda nas maiores questões, mas também desde a

menor.

Siga meu conselho, chame a sabedoria em consulta, ela irá

aconselhá-lo a não sentar para sempre em seu livro-razão.

3. Sem dúvida, seu objetivo, que você deseja alcançar com tal

adiamento de seus estudos, é que a pobreza não lhe aterrorize.

Mas

e se ela for algo a se desejar? As riquezas têm impedido muitos homens de alcançarem a sabedoria, a pobreza é desembaraçada e

livre de cuidados.

Quando a trombeta soa, o homem pobre sabe que

não está sendo atacado, quando há um grito de “fogo”, ele só

procura uma maneira de escapar e não se pergunta o que pode

salvar; se o homem pobre deve ir para o mar, o porto não ressoa,

nem os cais são abalados com o séquito de um indivíduo.

Nenhuma

multidão de escravos envolve o homem pobre, escravos para cujas

bocas o mestre deve cobiçar as plantações férteis de seus vizinhos.

4. É fácil preencher poucos estômagos, quando eles são bem

treinados e anseiam nada mais, a não ser serem preenchidos.

A

fome custa pouco.

O escrúpulo custa muito.

A pobreza está

satisfeita com o preenchimento de necessidades urgentes.

Por que,

então, você deve rejeitar a Filosofia como uma amiga?

5. Mesmo o homem rico segue seu caminho quando é sensato.

Se

você deseja ter tempo livre para sua mente, seja um pobre homem

ou se assemelhe a um pobre homem.

O estudo não pode ser útil a

menos que você se esforce para viver simplesmente e viver

simplesmente é pobreza voluntária.

Então, fora com todas as

desculpas como: “Eu ainda não tenho o suficiente, quando eu

ganhar a quantidade desejada, então vou me dedicar inteiramente à filosofia.” E, no entanto, este ideal, que você está adiando e

colocando em segundo lugar, deve ser assegurado em primeiro

lugar.

Você deve começar com ele.

Você retruca: “Eu desejo adquirir

algo para viver.

” Sim, mas aprenda enquanto você está adquirindo,

pois se alguma coisa o impede de viver nobremente, nada pode

impedi-lo de morrer nobremente.

6. Não há nenhuma razão pela qual a pobreza deva nos afastar da

filosofia, não, nem mesmo a real carestia.

Pois, quando se aprofunda

na sabedoria, podemos suportar até a fome.

Os homens suportaram

a fome quando suas cidades foram sitiadas e que outra recompensa

por sua resistência eles obtiveram a não ser não cair sob o poder do

conquistador? Quão maior é a promessa de liberdade eterna e a

certeza de que não precisamos temer nem aos deuses nem aos

homens! Mesmo que nós morramos de fome, devemos alcançar

essa meta.

7. Os exércitos suportam toda a maneira de carestia, vivem de

raízes e resistem à fome com alimentos repugnantes demais para

mencionar.

72 Tudo isso eles têm sofrido para ganhar um reino e, o que é mais assombroso, ganhar um reino que será de outro.

Será

que algum homem hesitaria em suportar a pobreza a fim de libertar sua mente da loucura? Portanto, não se deve procurar primeiro

acumular riquezas.

Pode-se chegar na filosofia, mesmo sem dinheiro

para a passagem.

8. É mesmo assim.

Depois de ter possuído todas as outras coisas,

também deseja possuir sabedoria? É a filosofia o último requisito da

vida, uma espécie de suplemento? Não, seu plano deve ser este: ser

um filósofo agora, quer você tenha alguma coisa, quer não.

Se você

já tem alguma coisa, como você sabe que já não tem muito? Mas se

você não tem nada, procure o discernimento primeiro, antes de

qualquer outra coisa.

9. “Mas,” você diz, “eu irei carecer das necessidades da vida.” Em

primeiro lugar, você não pode carecer delas, porque a natureza exige

pouco e o homem sábio adapta suas necessidades à natureza.

Mas

se maior necessidade chegar, o sábio rapidamente se despedirá da

vida e deixará de ser um problema para si mesmo.

Se, no entanto,

seus meios de existência forem escassos e reduzidos, ele fará o

melhor deles, sem se angustiar ou se preocupar com nada mais do

que com as necessidades básicas.

Fará justiça ao seu ventre e aos

seus ombros com espírito livre e feliz, rir-se-á da agitação dos

homens ricos e dos caminhos confusos daqueles que se abalam em busca da riqueza,

10. e dirá: “Por que, por sua própria vontade, adia a vida real para o

futuro distante? Para que algum juro seja depositado, ou por algum

dividendo futuro ou para um lugar no testamento de algum velho

rico, quando você pode ser rico aqui e agora? A sabedoria oferece

a riqueza a vista e paga em dobro àqueles em cujos olhos ela

tornou a riqueza supérflua.” Estes comentários referem-se a outros

homens; você está mais perto da classe rica.

Mude a sua idade e

você terá muito.

73 Mas em todas as idades, o que é necessário

permanece o mesmo.

11. Eu poderia encerrar minha carta neste momento se eu não o

tivesse acostumando mal.

Não se pode cumprimentar a realeza sem

trazer um presente e no seu caso eu não posso dizer adeus sem

pagar um preço.

Mas o que será? Tomarei emprestado de Epicuro:

“A aquisição de riquezas tem sido para muitos homens não um fim,

mas uma mudança, de problemas”.

12. Não me admiro.

Pois a culpa não está na riqueza, mas na própria

mente.

Aquilo que fez da pobreza um fardo para nós, torna as

riquezas também um fardo.

Assim como pouco importa se você coloca um homem doente em uma cama de madeira ou sobre uma

cama de ouro, pois onde quer que ele seja movido ele vai levar sua

doença com ele, também não é preciso se importar se a mente

doente é outorgada às riquezas ou à pobreza.

O padecimento vai

com o homem.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

71 NT: Ver Cícero, Hortensius.

72 NT: Ver ensaio Sobre a Ira III, XX, 2 onde Sêneca relata como os soldados de Cambises, devido à imprudência deste soberano, se viram forçados a comer as solas de seus sapatos cozidas ao fogo.

73 NT Isto é, imagine-se jovem.

Outra intepretação é mude de época, verá que tem mais que seus antepassados.

74 NT: Ver Epicuro, Cartas e Princípios.

XVIII.

Sobre festivais e jejum

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. É quase dezembro e mesmo assim a cidade está neste momento

em um mormaço.

A licença é dada para a folia geral.

Tudo ressoa

com poderosos preparativos, como se as Saturnálias75 diferissem do dia-a-dia usual! Tão verdadeiro é que a diferença é nenhuma, que considero correta a observação do homem que disse: “Uma vez

dezembro foi um mês, agora é um ano.”

2. Se eu tivesse você comigo, eu ficaria feliz em trocar ideias e

descobrir o que você acha que deve ser feito, se não devemos

mudar nada em nossa rotina diária, ou se, nem que por compaixão

com os costumes populares, nós devamos jantar em uma maneira

mais alegre e despir a toga.

Tal como é, nós, os romanos, trocamos

nossas roupas por causa do feriado, 76 embora em tempos antigos

isso acontecia somente quando o Estado estava perturbado e caíra

em desgraça.

3. Tenho a certeza de que, se eu o conheço bem, desempenhando o

papel de um árbitro, teria desejado que não fôssemos nem como a

multidão libertina em todos os sentidos, nem diferentes dela em

absolutamente todos os aspectos, a menos que, talvez, esta seja

apenas a época em que devamos estabelecer lei à alma e pedir que

seja a única a abster-se de prazeres quando a multidão inteira se

deixa ir em prazeres, pois esta é a prova mais segura que um

homem pode obter de sua própria constância, se ele não busca as

coisas que são sedutoras e o tentam ao luxo, nem é levado para

elas.

4. Mostra-se muito mais coragem permanecendo-se abstêmio e

sóbrio quando a multidão está bêbada e vomitando, mas mostra-se

maior autocontrole ficar na multidão e recusar-se a fazer o que ela

faz, agindo de uma maneira diferente, portanto, não se tornando

conspícuo nem se tornando apenas um dentre a multidão.

Pois pode-

se guardar os festivais sem extravagância.

5. Estou tão firmemente decidido, no entanto, a testar a constância

de sua mente que, extraindo dos ensinamentos de grandes homens,

eu também lhe darei uma lição: reserve um certo número de dias,

durante os quais você se contentará com a alimentação mais barata

e escassa, com vestes grosseiras e ásperas, dizendo a si mesmo:

“É esta a situação que eu temia? ”

6. É precisamente em tempos despreocupados que a alma deve

endurecer-se de antemão para ocasiões de maior estresse e é

enquanto a fortuna é amável que se deve fortalecer contra a

violência.

Em dias de paz, o soldado executa manobras, lança obras

de terraplenagem sem inimigo à vista e se exercita, a fim de se

tornar indiferente a labuta inevitável.

Se você não quer que um

homem recue quando a crise chegar, treine-o antes que ela chegue.

Tal é o curso que esses homens seguiram que, em sua imitação de pobreza, quase todos os meses chegavam quase à miséria, de

forma que eles nunca recuarão do que ensaiaram com tanta

frequência.

7. Você não precisa supor que eu quero dizer refeições como

Tímon, 77 ou “cabines de homem pobre”, 78 ou qualquer outro dispositivo que luxuosos milionários usam para enganar o tédio de

suas vidas.

Deixe a cama de palha ser real e o manto, grosseiro;

deixe o pão ser duro e sujo.

Resistir a tudo isso por três ou quatro

dias por vez, às vezes por mais, para que possa ser um teste de si

mesmo em vez de um mero passatempo.

Então, asseguro-lhe, meu

querido Lucílio, que saltará de alegria quando obtiver um bocado de

comida e compreenderá que a paz de espírito de um homem não

depende da Fortuna, pois mesmo quando irritada ela concede o

suficiente para as nossas necessidades.

8. Não há nenhuma razão entretanto para que você pense que está

fazendo qualquer coisa grande; porque você estará apenas fazendo

o que muitos milhares de escravos e muitos milhares de pobres

estão fazendo todos os dias.

Mas você pode beneficiar-se disso,

pois você não vai fazê-lo sob coação e que será tão fácil para você

suportá-lo permanentemente tanto como para fazer experiência de vez em quando.

Vamos praticar nossos golpes no “boneco”; nos

fazer íntimos com a pobreza, para que a Fortuna não nos pegue

despreparados.

Seremos ricos com mais conforto se uma vez

descobrirmos que a pobreza está longe de ser um fardo.

9. Mesmo Epicuro, o grande mestre do prazer, costumava observar

intervalos declarados, durante os quais ele satisfazia a sua fome de

maneira sovina, desejava ver se, assim, ficava aquém da plena e

completa felicidade e, se fosse assim, em que quantia ficava aquém,

e se essa quantidade valia a pena comprar ao preço de um grande

esforço.

79 De qualquer forma, ele faz tal declaração na conhecida carta escrita a Polieno.

80 Na verdade, ele se vangloria de que ele próprio viveu com menos de um asse (centavo), 81 mas que

Metrodoro, cujo progresso ainda não era tão grande, precisava de

um asse inteiro.

10. Você acha que pode haver plenitude em tal alimentação? Sim e

há prazer também, não aquele prazer falso e fugaz que precisa de

um estímulo de vez em quando, mas um prazer que é firme e seguro.

Pois, embora a água, a farinha de cevada e as crostas de pão de

cevada não sejam uma dieta alegre, no entanto, é o tipo mais

elevado de prazer poder obter alegria deste tipo de alimento e ter

reduzido suas necessidades a esse mínimo que nenhuma injustiça da Fortuna pode arrebatar.

11. Mesmo comida das prisões é mais generosa e aqueles que

foram condenados à pena de morte não são tão mal alimentados

pelo homem que deve executá-los.

Portanto, que alma nobre se deve

ter, para descer de próprio arbítrio a uma dieta que mesmo aqueles

que foram condenados à morte receariam! Isso é de fato prevenir-se

das lanças da má Fortuna.

12. Comece então, meu caro Lucílio, a seguir o costume destes

homens, e separe determinados dias em que você se retirará de

seus negócios e ficará em casa com a alimentação da mais escassa.

Estabeleça relações diplomáticas com a pobreza: “Desafie, ó amigo

meu, desprezar o ponto de vista da riqueza e molde-se com

afinidade com seu Deus.”

13. Pois só aquele que está em afinidade com Deus, pode desprezar

a riqueza.

É óbvio que não o proíbo de possuí-la, mas gostaria que

chegasse ao ponto em que a possuísse intrepidamente.

Isso só

pode ser realizado persuadindo-se de que você pode viver feliz tanto

sem ela, quanto com ela, mas sempre considerando que as riquezas podem possivelmente lhe iludir.

14. Mas agora devo começar a dobrar a minha carta.

“Pague sua

dívida primeiro! ”, você clama.

Aqui está um texto de Epicuro; ele vai

pagar a conta: “Raiva desgovernada produz loucura.” 83 Você não pode evitar saber a verdade dessas palavras, já que você tem não

só escravos, mas também inimigos.

15. Mas, de fato, esta emoção resplandece contra todas as

espécies de pessoas, brota tanto do amor quanto do ódio e se

mostra não menos em assuntos sérios do que em brincadeira e

esporte.

E não faz diferença a importância da provocação, mas em

que tipo de alma ela penetra.

Da mesma forma com o fogo: não

importa quão grande é a chama, mas sobre o que ela cai.

Pois

madeiras sólidas têm repelido um fogo muito grande, por outro lado,

matéria seca e facilmente inflamável nutre a menor chama em um

incêndio.

Assim é com a raiva, meu caro Lucílio: o resultado de uma

raiva poderosa é a loucura, e, portanto, a raiva deve ser evitada, não

apenas para que possamos escapar do excesso, mas para que

possamos ter uma mente saudável.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas: 75 NT: Saturnália era um festival da Antiga Roma em honra ao deus Saturno, se estendendo com festividades até 23 de dezembro.

O feriado era celebrado com um

sacrifício no Templo de Saturno, no Fórum Romano; um banquete público, seguido

de troca de presentes em privado; festa contínua e uma atmosfera de carnaval que

derrubava as normas sociais romanas.

As Saturnálias mesclavam elementos que

em parte correspondem às nossas festas de Natal (a troca de presentes) e em

parte (a licenciosidade) se aproximam do Carnaval.

Na sátira “A Apocoloquintose

do divino Cláudio” Sêneca diz que Cláudio “qual príncipe de Carnaval, celebrava o

mês de Saturno durante o ano inteiro” (8.2) e, mais para frente, após sua morte,

“eu bem vos dizia que o Carnaval não havia de durar sempre!” (12.2).

76 O pilleus era usado por escravos recém-libertados e pela população romana em ocasiões festivas.

Antigamente, trocava-se a toga pelo trajo militar em períodos de

guerra ("agitação"), ou por roupa de luto ("calamidades"). Ver Marcial.

77 Tímon de Fliunte, filho de Timarco, foi um filósofo cético grego, pupilo de Pirro de Élis, célebre autor de poemas satíricos.

78 Os homens ricos às vezes instalavam em seus palácios uma imitação de “cabine de homem pobre”, por contraste com os outros quartos ou como um gesto para uma vida simples.

79 NT: Ver Diógenes Laércio, Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, livro X.

80 NT: Polieno de Lâmpsaco foi anteriormente um matemático da Grécia Antiga e posteriormente um discípulo de Epicuro.

Apesar de matemático, diz-se que

convenceu Epicuro de que a geometria era um desperdício de tempo.

81 NT: É, como esperado, impossível uma equivalência entre as moedas romanas e moedas atuais.

De qualquer modo "um asse" é um valor mínimo, poderíamos expressar por “um tostão” ou “um centavo”.

82 Trecho de Eneida de Virgílio, VIII, 364.

83 NT: Ver Epicuro, Cartas e Princípios.

84 NT: Ver tratado “Sobre a Ira” .

XIX.

Sobre materialismo e retiro

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Pulo de alegria sempre que recebo suas cartas.

Pois me enchem

de esperança, não são meras presunções sobre você, mas garantias

reais.

E rogo que continue neste caminho, pois que melhor pedido eu

poderia fazer a um amigo do que um que possa ser feito para seu

próprio bem? Se possível, vá se retirando aos poucos de todos os negócios de que fala e se você não pode fazer isto, afaste-se de

vez, mesmo com prejuízo.

Já gastamos bastante do nosso tempo;

vamos na velhice começar a arrumar nossa bagagem.

2. Certamente não há nada nisso que os homens possam cobiçar.

Passamos nossas vidas em alto mar, que morramos no porto.

Não

que eu aconselhe você a tentar ganhar renome por seu retiro.

O

retiro não deve ser alardeado nem ocultado.

Não ocultado, eu digo,

porque não vou exortá-lo a rejeitar todos os homens como loucos e

depois procurar a si mesmo um refúgio no ócio.

85 Ao invés, que seu ócio não seja notável; que seu ócio, sem atrair atenções, não passe

totalmente despercebido.

3. Em segundo lugar, aqueles cuja escolha é livre desde o início irão

deliberar sobre essa questão: se eles querem ou não passar a vida

em obscuridade.

No seu caso, não há uma livre escolha.

Sua

habilidade e energia o empurraram para os negócios do mundo,

assim temos o encanto de seus escritos e as amizades que você fez

com homens famosos e notáveis.

A fama já o conquistou.

Você pode

se afundar nas profundezas da obscuridade e se esconder

completamente, contudo seus atos anteriores o revelarão.

4. Você não pode manter-se à espreita no escuro, muito do brilho anterior lhe seguirá onde quer que vá. Você poderá, contudo,

reivindicar para si mesmo a desejada paz sem ser detestado por

ninguém, sem qualquer sensação de perda e sem dores da alma ou

remorso.

Por que você deixaria para trás algo que você pode

imaginar-se relutante em abandonar? Seus clientes? Mas nenhum

desses homens lhe corteja por você mesmo, eles meramente

cortejam algo de você.

As pessoas costumavam caçar amigos, mas

agora elas caçam o dinheiro; se um velho solitário muda seu

testamento, o visitante assíduo se transfere para outra porta.

Grandes coisas não podem ser compradas por pequenas somas,

por isso considere se é preferível desistir do seu próprio verdadeiro

eu, ou apenas de alguns de seus pertences.

5. Que você tivesse o privilégio de envelhecer em meio às

circunstâncias limitadas de sua origem e que sua Fortuna não o

tivesse elevado a tais alturas! Você foi afastado da oportunidade da

vida saudável por sua rápida ascensão à prosperidade, pela sua

província, pelo seu cargo de procurador86 e por tudo o que tais

coisas prometem.

Em seguida, você vai adquirir responsabilidades

mais importantes e depois delas, ainda mais.

E qual será o

resultado? 6. Por que esperar até que não haja nada para você desejar? Esse

tempo nunca chegará.

Nós sustentamos que há uma sucessão de

causas, das quais o destino é tecido.

Da mesma forma, você pode

ter certeza, há uma sucessão em nossos desejos, pois cada um

começa onde seu antecessor termina.

Você foi empurrado para uma

existência que nunca, por si só, porá fim a sua miséria e sua

escravidão.

Retire seu pescoço cansado do jugo; é melhor tê-lo

cortado de uma vez por todas, do que escoriado eternamente.

7. Se você se mantiver em privacidade, tudo estará em menor

escala, mas você ficará abundantemente satisfeito; na sua condição

atual, no entanto, não há satisfação na abundância que é jogada em

cima de você por todos os lados.

Você prefere ser pobre e

saciado ou rico e faminto? A prosperidade não é apenas

gananciosa, mas também é exposta à ganância dos outros.

E desde

que nada o satisfaça, você mesmo não pode satisfazer os outros.

8. “Mas”, você diz, “como posso me retirar? ” De qualquer maneira

que lhe agrade.

Reflita quantos riscos você correu por causa do

dinheiro e quanto trabalho você empreendeu para um título! Você

deve ousar algo para ganhar tempo livre também – ou então

envelhecerá em meio às preocupações de atribuições no exterior e, posteriormente, a deveres cívicos em seu país, vivendo em agitação

e em inundações de novas responsabilidades, que ninguém jamais

conseguiu evitar por discrição ou por reclusão.

Qual a influência no

caso tem seu desejo pessoal de uma vida isolada? Sua posição no

mundo deseja o oposto! E se, ainda agora, você permitir que essa

posição cresça mais? Tudo o que for adicionado aos seus sucessos

será adicionado aos seus medos e preocupações.

9. Neste ponto, gostaria de citar uma frase de Mecenas, que falou a

verdade quando em seu auge: “é a própria altitude que fulmina os

picos!”. Se você me perguntar em que livro essas palavras são

encontradas, elas ocorrem no volume intitulado Prometeu.

87 Ele

simplesmente queria dizer que esses altos picos têm seus cumes

rodeados de trovoadas.

Mas será que qualquer poder vale tão alto

preço que um homem como você jamais conseguiria, para obtê-lo,

adotar um estilo tão pervertido? Mecenas era de fato um homem de

recursos, que teria deixado um grande exemplo para o oratório

romano seguir se sua boa fortuna não o tivesse tornado afeminado;

não, se não o tivesse emasculado! Um fim como o dele também o

espera, a não ser que você baixe imediatamente as velas e,

diferentemente de Mecenas, esteja disposto a aproximar-se da costa! Mecenas só o fez tarde demais...

10. Este texto de Mecenas poderia ter quitado minha divida com

você, mas tenho certeza, conhecendo-lhe, de que obterá uma

penhora contra mim e que não estará disposto a aceitar o

pagamento da minha dívida em moeda tão grosseira e vil.

Seja como

for, devo recorrer ao relato de Epicuro.

Ele diz: “Você deve refletir

cuidadosamente com quem você deve comer e beber, ao invés do

que você deve comer e beber, pois um jantar de carnes sem a

companhia de um amigo é como a vida de um leão ou um lobo.

” 11. Este privilégio não será seu a menos que você se afaste do

mundo, caso contrário, você terá como convidados apenas aqueles

que seu secretário selecionar na multidão de peticionários.

No

entanto, é um erro escolher o seu amigo no salão de recepção ou

testá-lo na mesa de jantar.

O infortúnio mais grave para um homem

ocupado que é dominado por suas posses é quando ele acredita que

os homens são seus amigos mesmo que ele próprio não seja um

amigo para estes e que ele considere seus favores eficazes na conquista de amigos.

Certos homens, quanto mais devem, mais

odeiam.

Uma dívida insignificante torna um homem seu devedor,

uma grande faz dele um inimigo.

12. “O quê? ”, você diz, “Bondades não estabelecem amizades?”

Elas as estabelecem se tiverem o privilégio de escolher aqueles que

devam recebê-las e se forem colocadas judiciosamente, em vez de

serem espalhadas ao acaso.

Portanto, enquanto você está

começando a criar uma mente própria, aplique esta máxima do

sábio: considere que é muito mais importante a pessoa

beneficiada do que o montante do benefício!

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

85 NT: O “ócio” para os romanos, e principalmente Sêneca, significa o abandono das ocupações públicas e da participação na vida política.

Não se confunde com

“ociosidade”. Ver tratado “Sobre o ócio” .

86 NT: O procurador fazia o trabalho de um questor em uma província imperial.

Posições em Roma a que Lucílio poderia ter acesso seriam as de praefectus annonae, encarregado do fornecimento de grãos, ou praefectus urbi, Diretor de Segurança Pública e outros.

87 NT: Não se sabe mais sobre esta obra.

88 NT: Ver Epicuro, Cartas e Princípios.

XX. Sobre praticar o que se

prega

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Se você está em boa saúde e se você se considera digno de

finalmente se tornar seu próprio mestre, estou contente.

Pois será

minha a glória se eu puder salvá-lo das inundações de golpes sem

esperança de fim.

Porém, meu caro Lucílio, peço e suplico, por sua

parte, que deixe a sabedoria penetrar em sua alma e teste seu

progresso, não por mero discurso ou escrita, mas por força de

coração e redução do desejo.

Prove suas palavras por suas ações.

2. Diferente do propósito daqueles que discursam e tentam ganhar a

aprovação de uma multidão de ouvintes, é o propósito daqueles que

seduzem os ouvidos dos jovens e dos ociosos por meio de

argumentação fluente.

A filosofia nos ensina a agir, não a falar; exige

de cada homem que viva de acordo com o seu próprio padrão, que a

sua vida não esteja em desacordo com as suas palavras e que, além

disso, sua vida interior não seja destoante, mas em harmonia com

todas as suas atividades.

Isto, eu digo, é o mais alto dever e a mais

alta prova de sabedoria, que ações e palavras estejam em acordo, que um homem deva ser sempre o mesmo sob todas as condições.

“Mas,” você responde, “quem pode manter este nível?” Muito

poucos, com certeza, mas há alguns.

É de fato um empreendimento

árduo e não digo que o filósofo possa sempre manter o mesmo

ritmo.

Mas ele sempre pode seguir o mesmo caminho.

3. Observe-se então, e veja se suas vestes e sua casa são

inconsistentes, se você se trata generosamente, mas sua família

mal, se você come frugalmente, mas ainda constrói casas luxuosas.

Você deve aplicar, de uma vez por todas, um único padrão de vida e

deve regular toda a sua vida de acordo com este padrão.

Alguns

homens se restringem em casa mas andam empertigados diante do

público.

Tal discordância é uma falha e indica uma mente vacilante

que ainda não pode manter seu equilíbrio.

4. E eu posso dizer-lhe, ainda, de onde surge esta instabilidade e

este desacordo de ação e propósito: é porque nenhum homem

decide o que deseja, e mesmo que o tenha feito, não persiste nisso,

desiste, não só vacila, mas volta para a conduta que abandonou e

repudiou.

5. Portanto, omitindo as antigas definições de sabedoria e incluindo

todo o modo de vida humana, posso ficar satisfeito com o seguinte: “O que é sabedoria? Sempre desejar as mesmas coisas e

sempre recusar as mesmas coisas”. 89 Você pode acrescentar uma pequena condição, que o que se deseja, seja o certo, já que nenhum

homem pode sempre estar satisfeito com a mesma coisa, a menos

que esta seja a coisa certa.

6. Por isso os homens não sabem o que desejam, a não ser no

momento em que desejam; nenhum homem decidiu de uma vez por

todas desejar ou recusar.

O julgamento varia de dia para dia e muda

para o oposto, fazendo com que muitos homens passem a vida em

uma espécie de jogo.

Prossiga, portanto, como você começou; talvez

você seja levado à perfeição, ou a um ponto no qual só você

considere aquém da perfeição.

7. “Mas o que,” você diz, “se tornará a minha casa cheia de gente

sem uma renda?” Se você parar de apoiar essa gente, ela se

sustentará, ou talvez vá aprender graças à pobreza o que não pode

aprender por conta própria.

A pobreza manterá com você seus

amigos verdadeiros e provados, você será livrado dos homens que

não o procuraram por você mesmo, mas por algo que você tem.

Não

é certo, no entanto, que você ame a pobreza, ainda que apenas por essa única razão, para mostrar por quem você é amado? Ou quando

chegará esse ponto, quando ninguém disser mentiras para

congratulá-lo!

8. Assim, deixe que seus pensamentos, seus esforços, seus desejos,

ajudem a torná-lo satisfeito com seu próprio eu e com os bens que

brotam de si mesmo e empenhe todas as orações à divindade! Que

felicidade poderia se aproximar de você? Traga-se a uma posição

humilde, da qual você não pode ser expulso e na qual você possa

estar com maior espontaneidade, a contribuição contida nesta carta

irá se referir a esse assunto; eu a concederei imediatamente.

9. Embora você possa olhar com desconfiança, Epicuro, mais uma

vez, ficará contente em liquidar meu endividamento: “Acredite! Suas

palavras serão mais imponentes se você dormir em uma cama

estreita e usar trapos, pois nesse caso você não estará

simplesmente dizendo, você estará demonstrando sua verdade.

” De qualquer modo, escuto com um espírito diferente as palavras de

nosso amigo Demétrio, depois que o vi recostado sem sequer um

manto para cobri-lo, e, mais do que isso, sem tapetes para deitar.

Ele não é apenas um mestre da verdade, mas uma testemunha da verdade.

10. “Não pode um homem, no entanto, desprezar a riqueza quando

ela está em seu próprio bolso? ” Claro, também é de grande alma,

quem vê riquezas amontoadas em torno de si e, depois de se

perguntar longa e profundamente porque elas chegaram em sua

posse, sorri e vê, em vez de sentir, que elas são suas.

Significa

muito não ser estragado pela intimidade com as riquezas e é

verdadeiramente grande quem é pobre em meio às riquezas.

11. “Sim, mas eu não sei”, vem a objeção, “como o homem de

quem você fala sofrerá a pobreza, se cair nela de repente?”. Nem

eu, Epicuro, sei se o pobre de quem você fala vai desprezar as

riquezas, se a pobreza, de repente, chegar a ele; portanto, no caso

de ambos, é a mente que deve ser avaliada e devemos investigar se

o seu homem está satisfeito com a sua pobreza e se o meu homem

está descontente com suas riquezas.

A cama estreita e os trapos

são uma prova fraca de suas boas intenções se não for deixado

claro que a pessoa referida sofre essas provações não por

necessidade, mas por escolha.

12. É, contudo, a marca de um espírito nobre não se precipitar em

tais coisas por serem melhores, mas pô-las em prática, porque são desse modo fáceis de suportar.

E são fáceis de suportar, Lucílio.

Quando, no entanto, você chegar a elas depois de uma longa prova,

elas são ainda agradáveis, pois contêm uma sensação de liberdade,

sem a qual nada é agradável.

13. Considero, conforme já lhe disse em outra carta, 91 essencial fazer o que os grandes homens fazem com frequência: reservar

alguns dias para nos prepararmos para a pobreza real por meio da

pobreza simulada.

Há mais razão para fazer isso, porque estamos

impregnados de luxo e consideramos todos os deveres árduos e

onerosos.

Em vez disso, deixe a alma ser despertada de seu sono,

ser estimulada e ser lembrada de que a natureza prescreveu muito

pouco para nós.

Nenhum homem nasce rico.

Todo homem, quando

vê pela primeira vez a luz, é condenado a se contentar com leite e

trapos.

Tal é o nosso começo e ainda assim chegamos a pensar que

os reinos todos são muito pequenos para nós!

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

89 Sêneca aplica à sabedoria a mesma definição de amizade de Salústio, “ idem velle atque idem nolle, ea demui firma amicitia est”. 90 NT: Ver Epicuro, Cartas e Princípios.

91 Ver neste volume, Carta XVIII, 5.

92 Adaptado do epigrama sobre Alexandre o Grande, “hic est quem non capit orbis” em Plutarco.

XXI.

Sobre o reconhecimento

que meus escritos lhe trarão

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você conclui que está tendo dificuldades com aqueles homens

sobre quem me escreveu? Sua maior dificuldade é com você mesmo,

pois você é seu próprio obstáculo.

Você não sabe o que quer.

Você é

melhor em escolher o curso correto do que em segui-lo. Você vê

aonde está a verdadeira felicidade, mas não tem coragem de

alcançá-la. Deixe-me dizer-lhe o que lhe impede, visto que você não

o percebe.

2. Você acha que este cargo, que você deseja abandonar, é de

importância, e depois de decidir por aquele estado ideal de calma

que você espera atingir, você é retido pelo brilho de sua vida

presente, a qual tem intenção de abandonar, como se estivesse

prestes a cair em um estado de trevas e imoralidade.

Isso é um erro,

Lucílio.

Passar de sua vida presente para outra é uma promoção.

Há a mesma diferença entre essas duas vidas, como existe entre o

mero reflexo e a luz real: a última tem uma fonte definida dentro de

si, a outra toma seu brilho emprestado; a primeira é suscitada por

uma claridade que vem do exterior e qualquer um que se coloque

entre a fonte e o objeto transforma imediatamente este último em

uma densa sombra, mas a outra tem um brilho que vem de dentro.

São seus próprios estudos que farão você brilhar e o tornarão

eminente, permita-me mencionar o caso de Epicuro.

3. Ele estava escrevendo a Idomeneu93 e tentando levá-lo de uma

existência exibicionista para uma reputação segura e firme.

Idomeneu era naquele tempo um ministro do estado que exercia uma

autoridade severa e tinha assuntos importantes à mão.

“Se”, disse

Epicuro, “você é atraído pela fama, minhas cartas o farão mais

famoso do que todas as coisas que você estima e que o fazem

estimado.”

4. Epicuro falou perfidamente? Quem hoje conheceria Idomeneu, se

não tivesse o filósofo gravado seu nome nessas suas cartas? Todos

os grandes senhores e sátrapas, 95 até mesmo o próprio rei, que foi peticionado pelo cargo que Idomeneu procurava, estão imersos em

profundo esquecimento.

As cartas de Cícero evitaram o perecimento do nome de Ático.

96 De nada teria aproveitado Ático ter Agripa como genro, Tibério como marido de sua neta e um Druso César como

bisneto.

Mesmo estando rodeado desses poderosos nomes, nunca

se falaria seu nome se Cícero não o tivesse associando a si mesmo.

5. A força inexpugnável do tempo rolará sobre nós, alguns poucos

grandes homens elevarão suas cabeças acima dela e, embora

destinados derradeiramente aos mesmos reinos do silêncio,

batalharão contra o esquecimento e manterão seu terreno por muito

tempo.

O que Epicuro podia prometer a seu amigo, o mesmo lhe

prometo, Lucílio.

Eu encontrarei benevolência entre gerações

posteriores, posso levar comigo nomes que durarão tanto quanto o

meu.

Nosso poeta Virgílio prometeu um nome eterno a dois heróis e

está mantendo sua promessa:

Bem-aventurado par de heróis! Se minha canção tem poder,

O registro de seus nomes nunca será apagado

do livro do Tempo, enquanto ainda

A tribo de Enéias mantiver o Capitólio,

Aquela rocha impassível e a majestade Romana,

O império se manterá.

Fortunati ambo! Siquid mea carmina possunt,

Nulla dies umquam memori vos eximet aevo,

Dum domus Aeneae Capitoli immobile saxum

Accolet imperiumque pater Romanus habebit.

6. Sempre que os homens são empurrados para a frente pela

Fortuna, sempre que eles se tornam parte integrante da influência de

outrem, sempre que eles encontram abundante favor, suas casas

são providas apenas enquanto eles próprios mantêm sua posição;

quando eles a deixam, eles desaparecem imediatamente da memória

dos homens.

Mas no caso da habilidade inata, o respeito por ele

aumenta e não só a honra se acumula no próprio homem, mas em

todos que o têm ligado a sua memória.

7. A fim de que Idomeneu não seja introduzido gratuitamente na

minha carta, ele deve compensar o endividamento de sua própria

conta.

Foi a ele quem Epicuro dirigiu o conhecido ditado que o

incitava a enriquecer Pítocles, mas não rico do jeito vulgar e

equivocado.

“Se você quiser enriquecer Pítocles”, disse ele, “não

adicione dinheiro, mas subtraia seus desejos.

”

8. Esta ideia é muito clara para necessitar maior explicação e muito inteligente para precisar de reforço.

No entanto, há um ponto sobre o

qual eu gostaria de alertá-lo: não considere que esta afirmação se

aplica apenas às riquezas, seu valor será o mesmo, não importa

como você a aplique.

“Se você quiser fazer Pítocles honroso, não

adicione às suas honras, mas subtraia de seus desejos”, “Se você

desejar que Pítocles tenha prazer para sempre, não adicione a seus

prazeres, mas subtraia de seus desejos”, “Se você deseja fazer

Pítocles um homem velho, enchendo sua vida ao máximo, não

adicione a seus anos, mas subtraia de seus desejos.”

9. Não há razão para que você considere que essas palavras

pertencem somente a Epicuro, elas são propriedade pública.

Penso

que devemos fazer em filosofia como costumam fazer no Senado:

quando alguém faz uma moção da qual eu aprovo até certo ponto,

peço-lhe que faça sua moção em duas partes e eu voto pela parte

que eu aprovo.

Assim, fico ainda mais contente de repetir as ilustres

palavras de Epicuro, para que eu possa provar àqueles que recorrem

a ele por um mau motivo, pensando que terão uma tela para seus

próprios vícios, que devem viver honrosamente, não importa qual

escola sigam.

10. Vá ao pequeno jardim de Epicuro e leia o lema esculpido lá:

“Estranho, aqui você fará bem em se demorar, aqui nosso bem

mais elevado é o prazer.”

Hospes, hic bene manebis, hic summum bonum voluptas est.

O zelador daquela morada, amável anfitrião, estará pronto para

você, ele o receberá com farinha de cevada e também servirá água

em abundância, com estas palavras: “Você não está bem entretido?

Este jardim”, diz ele, “não aguça o apetite, ele o apaga, nem o deixa

mais sedento com cada gole, ele abranda a sede por um remédio

natural, um remédio que não exige nenhuma recompensa.

Este é o

‘prazer’ em que eu tenho envelhecido.”

11. Ao falar com você, no entanto, eu me refiro a esses desejos que

recusam alívio, que carecem de suborno para cessar.

Pois em

relação aos desejos excepcionais, que podem ser adiados, que

podem ser corrigidos e controlados, eu tenho este pensamento para

compartilhar com você: um prazer desse tipo é natural, mas não é

necessário; não lhe devemos nada, tudo o que é gasto com ele é

uma prenda gratuita.

A barriga não ouve conselhos, faz exigências, importuna.

E mesmo assim, não é uma credora problemática, você

pode despachá-la a pequeno custo, desde que somente você lhe dê

o que você deve, não meramente tudo que você poderia dar.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

93 NT: Idomeneu de Lampsaco, foi um amigo e discípulo de Epicuro.

94 NT: Ver Diógenes Laércio, Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, livro X.

95 Sátrapa era o nome dado aos governadores das províncias, chamadas satrapias, nos antigos impérios Aquemênida e Sassânida da Pérsia.

Cada satrapia

era governada por um sátrapa, que era nomeado pelo rei.

96 NT: Tito Pompónio Ático foi um cavaleiro romano e Patrono das Letras.

Ático é recordado como grande amigo e confidente de Cícero, sendo-lhe dedicado o

tratado deste filósofo sobre a amizade, De Amicitia.

A correspondência entre os dois está preservada nos dezesseis volumes das "Cartas a Ático" ( Epistulae ad Atticum).

97 Trecho de Eneida, de Virgílio.

98 NT: Ver Epicuro, Cartas e Princípios.

XXII.

Sobre a futilidade de meias

medidas Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você já entendeu, a este ponto, que deve retirar-se daquelas

buscas exibicionistas e ilusórias.

Mas você ainda deseja saber como

isso pode ser realizado.

Há certas coisas que só podem ser

apontadas por alguém que está presente.

O médico não pode

receitar por carta o tempo adequado para comer ou tomar banho,

ele deve sentir o pulso.

Há um velho ditado sobre gladiadores, que

eles planejam sua luta no ringue a medida que observam

atentamente algo no olhar do adversário, algum movimento de sua

mão, até mesmo algum detalhe de seu corpo passa uma dica.

2. Podemos formular regras gerais e colocá-las por escrito, quanto

ao que geralmente é feito ou deveria ser feito, tal conselho pode ser

dado, não somente a nossos amigos ausentes, mas também às

gerações seguintes, à posteridade.

99 No que diz respeito, no entanto, a esta segunda questão, quando ou como o seu plano deve ser

realizado, ninguém vai aconselhar a distância, temos de nos

aconselhar na presença da situação real.

3. Você deve estar não somente presente em corpo, mas vigilante na

mente, se você quiser aproveitar de oportunidade fugaz.

Consequentemente, olhe ao redor por uma oportunidade, se você a vê, agarre-a e com toda sua energia e com toda sua força dedique-

se a esta tarefa: livrar-se daqueles outros afazeres.

Agora ouça

atentamente o alvitre que vou oferecer: é minha opinião que você

deve retirar-se desse tipo de existência ou então da existência

completamente.

Mas eu também defendo que você deva tomar um

caminho suave, para que você possa desatar, em vez de cortar o nó

que você tem se empenhando tanto em amarrar; apenas se não

houver outra maneira de soltá-lo, então poderá cortá-lo. Nenhum

homem é tão covarde que prefira pendurar-se em suspense para

sempre do que soltar-se de uma vez por todas.

4. Enquanto isso, e isso é de primeira importância, não se

prejudique, esteja satisfeito com o negócio ao qual você se dedicou

ou, como prefere que as pessoas pensem, o negócio que lhe foi

imposto.

Não há nenhuma razão pela qual você deva estar lutando

por mais tarefas, se o fizer, perderá toda a credibilidade e os

homens verão que não foi uma imposição.

A explicação usual que os

homens oferecem é errada: “Eu fui compelido a fazê-lo, suponho

que era contra minha vontade, eu tinha que fazê-lo”. Mas ninguém é

obrigado a perseguir a prosperidade à velocidade máxima.

Uma

parada tem seu significado, mesmo que esta não ofereça resistência, em vez de pedir ansiosamente por mais favores da

Fortuna.

5. Você deveria me expulsar, se eu não só lhe aconselhasse, mas

também não chamasse outros para aconselhá-lo; e cabeças mais

sábias do que as minhas, homens diante dos quais eu vou colocar

qualquer problema sobre o qual estou ponderando.

Leia a carta de

Epicuro sobre esta matéria, é dirigida a Idomeneu.

Epicuro pede que

se apresse o mais rápido que puder, a bater em retirada antes que

alguma influência mais forte se apresente e retire dele a liberdade de

fugir.

6. Mas ele também acrescenta que ninguém deve tentar nada,

exceto no momento em que possa ser feito de forma adequada e

oportuna.

Então, quando a ocasião procurada chegar, esteja pronto.

Epicuro nos proíbe de cochilar quando estamos planejando fugir, ele

nos oferece a esperança de uma liberação das provações mais

duras, desde que não tenhamos pressa demais antes do tempo, nem

que sejamos muito lentos quando chegar o momento.

7. Agora, eu suponho, você também está procurando a posição dos

estoicos.

Não há realmente nenhuma razão pela qual alguém deva

criticar essa escola para você em razão de sua dureza; de fato, sua prudência é maior do que sua coragem.

Talvez você esteja

esperando que a escola diga palavras como estas: “É vil recuar

diante de uma tarefa.

Lute pelas obrigações que você uma vez

aceitou.

Nenhum homem é corajoso e sério se ele evita o perigo,

seu espírito se fortalece com a própria dificuldade de sua

incumbência”.

8. Ser-lhe-ão faladas palavras como estas, se a sua perseverança

tiver um objetivo que valha a pena, se você não tiver que fazer ou

sofrer algo indigno de um bom homem.

Além disso, um bom homem

não se desperdiçará com o trabalho desprezível e desacreditado,

nem estará ocupado apenas por estar ocupado.

Nem ele, como você

imagina, se tornará tão envolvido em esquemas ambiciosos que terá

que suportar continuamente o seu fluxo e refluxo.

Não, quando ele vê

os perigos, incertezas e riscos em que foi anteriormente jogado, ele

vai se retirar, não virando as costas para o inimigo, mas

retrocedendo pouco a pouco para uma posição segura.

9. Dos negócios, no entanto, meu caro Lucílio, é fácil escapar,

basta você desprezar suas recompensas.

Nós somos retidos e

impedidos de escapar por pensamentos como estes: “O que, então? Deixarei para trás estas grandes oportunidades? Devo partir no

momento da colheita? Não terei escravos ao meu lado? Nenhum

empregado para minha prole? Nenhuma multidão de clientes na

minha recepção nem escolta para a minha liteira? ” Assim, os

homens deixam tais vantagens com relutância, eles amam a

recompensa de suas dificuldades, mas amaldiçoam as

dificuldades em si.

10. Os homens se queixam de suas ambições da mesma forma que

se queixam de suas amantes, em outras palavras, se você penetrar

seus sentimentos reais, você vai encontrar, não ódio, mas uma

passageira implicância.

Procure na mente daqueles que lamentam o

que já desejaram, que falam em fugir de coisas que não podem

deixar de ter, você vai compreender que eles estão se demorando

por vontade própria em uma situação que eles declaram achar difícil

e miserável de suportar.

11. É assim, meu caro Lucílio; existem alguns homens que a

escravidão mantém presos, mas há muitos mais que se apegam

à escravidão.

Se, no entanto, você pretende se livrar dessa

escravidão, se a liberdade é genuinamente agradável aos seus olhos e se você procurar apoio para este propósito único, que você possa

ter a Fortuna de realizar este propósito sem perpétua irritação.

Como pode toda a escola de pensadores estoicos não aprovar a sua

conduta? Zenão, Crisipo e todos de seu grupo dar-lhe-ão conselho

que é moderado, honrável e apropriado ao culto do seu próprio bem.

12. Mas se você se virar e olhar ao redor a fim de ver o quanto pode

levar com você e quanto dinheiro você pode manter para equipar-se

para a vida de ócio, você nunca vai encontrar uma saída.

Nenhum

homem pode nadar até a terra e levar sua bagagem com ele.

Ascenda-se à uma vida superior, com a benevolência dos deuses,

mas que não seja benevolência do tipo que os deuses dão aos

homens quando, com rostos gentis e amáveis, outorgam males

magníficos, justificando que coisas que irritam e torturam sejam

concedidas em resposta às orações.

13. Eu estava colocando o selo nesta carta, mas deve ser aberta

outra vez, a fim de que possa entregar a você a contribuição usual,

levando com ela alguma palavra nobre.

E há uma coisa que me

ocorre, eu não sei o que é maior, sua verdade ou sua nobreza de

enunciação.

“Falado por quem? ” Você pergunta.

Por Epicuro, pois

ainda estou me apropriando dos pertences de outros homens.

14. As palavras são: “Não há ninguém que não abandone esta vida

como se tivesse acabado de nela entrar” 101. Tome alguém de sua relação, jovem, velho ou de meia-idade, você verá que todos têm

igualmente medo da morte e são igualmente ignorantes sobre a vida.

Ninguém tem nada terminado, porque mantivemos adiando para o

futuro todos os nossos empreendimentos.

Nenhum pensamento na

citação dada acima me agrada mais do que isso, que insulta velhos

como sendo infantis.

15. “Ninguém”, diz ele, “deixa este mundo de maneira diferente

daquele que acaba de nascer”. Isso não é verdade, porque somos

piores quando morremos do que quando nascemos, mas é nossa

culpa e não da natureza.

A natureza deveria repreender-nos,

dizendo: “O que é isso? Eu lhe trouxe ao mundo sem desejos ou

medos, livre da superstição, da traição e das outras maldições, sem

qualquer outro vício da mesma natureza.

Saiam como eram quando

entraram! ”

16. Um homem capturou a mensagem da sabedoria se ele puder

morrer despreocupado como era ao nascer, mas a realidade é que estamos todos tremulantes na aproximação do temido final.

Nossa

coragem nos falha, nossas bochechas empalidecem, nossas

lágrimas caem, embora sejam inúteis.

Mas o que é mais vil do que

se angustiar no próprio limiar da paz eterna?

17. A razão, entretanto, é que somos despojados de todos os

nossos bens, abandonamos a carga de nossa vida e estamos em

perigo, pois nenhuma parte da mesma foi acondicionada no porão,

tudo foi lançado ao mar e se afastou.

Os homens não se importam

quão nobremente vivem, mas só por quanto tempo, embora

esteja ao alcance de cada homem viver nobremente, enquanto é

impossível a qualquer homem viver por muito tempo.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

99 NT: Exemplos seriam as obras " Sobre os Benefícios" de Sêneca ou "Sobre os

Deveres" de Cícero.

100 NT: Ver Diógenes Laércio, Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, livro X.

101 NT: Ver Epicuro, Cartas e Princípios.

XXIII.

Sobre a verdadeira alegria que vem da filosofia

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você acha que eu vou escrever-lhe como a temporada de inverno

tem nos tratado com gentileza, que aliás foi uma estação curta e

suave, ou que primavera desagradável estamos tendo, tempo frio

fora de época, e todas as outras trivialidades que as pessoas

escrevem quando estão sem assunto? Não; vou transmitir algo que

pode ajudar tanto a você como a mim.

E o que deve ser esse “algo”,

senão uma exortação à solidez da mente? Você pergunta qual é o

fundamento de uma mente sã? É, não encontrar satisfação em

coisas inúteis.

Eu disse que era o fundamento, é realmente o

pináculo.

2. Chegamos às alturas quando sabemos o que é que nos alegra e

quando não colocamos nossa felicidade sob controle externo.

O

homem que é incitado pela esperança de qualquer coisa, embora a

tenha ao alcance, embora a tenha em fácil acesso e embora suas

ambições nunca o tenham enganado, é perturbado e inseguro de si

mesmo.

3. Acima de tudo, meu caro Lucílio, faça deste seu negócio: aprenda

a sentir alegria.

Você acha que agora estou roubando-lhe muitos prazeres quando eu tento acabar com os presentes da Fortuna,

quando eu aconselho a evitar a esperança, a coisa mais doce que

alegra nossos corações? Pelo contrário, eu não desejo nunca que

você seja privado de alegria.

Eu a teria inata em sua casa e ela

nascerá lá apenas se estiver dentro de você.

Outros objetos de

conforto não enchem o peito de um homem, eles apenas suavizam a

testa e são inconstantes, a menos que você acredite que aquele que

ri tem alegria.

A própria alma deve ser feliz e confiante, elevada

acima de todas as circunstâncias.

4. Alegria real acredite, é uma questão muito séria.

Pode alguém,

você acha, menosprezar a morte com um semblante despreocupado

ou com uma expressão jovial e alegre, como nossos jovens janotas

estão acostumados a dizer? Ou então, pode abrir a porta para a

pobreza ou restringir seus prazeres ou contemplar a tolerância da

dor? Aquele que pondera estas coisas em seu coração está

realmente cheio de alegria, mas não é uma alegria bem disposta.

É

apenas essa alegria, porém, da qual eu gostaria que você se

tornasse o dono, pois nunca o deixará na mão quando encontrar sua

fonte.

5. O rendimento das minas medíocres fica na superfície; naquelas que são realmente ricas, as veias emboscam-se profundamente e

elas trarão retornos mais generosos para aquele que mergulha

continuamente.

Assim também são bugigangas que deleitam a

multidão comum, pois proporcionam apenas um prazer superficial,

colocado somente como um revestimento, sendo este como uma

alegria banhada, a qual falta base real.

Mas a alegria de que falo,

aquela a que estou me esforçando para conduzi-lo, é algo sólido,

revelando-se mais plenamente à medida que você nela penetra.

6. Portanto, peço-lhe, meu querido Lucílio, faça a única coisa que

pode tornar-lhe realmente feliz: despreze todas as coisas que

brilham exteriormente e que são oferecidas a você ou a

qualquer outro, olhe para o verdadeiro bem e alegre-se apenas

naquilo que vem de seu depósito.

E o que quero dizer com “seu

depósito”? Eu quero dizer de seu próprio eu, que é a melhor

parte de você.

O corpo frágil também, embora não consigamos

fazer nada sem ele, deve ser considerado apenas necessário e não

tão importante.

Ele nos envolve em prazeres fúteis, de curta

duração, logo a serem lamentados.

A menos que sejamos ajuizados

por um extremo autocontrole, tais prazeres serão transformados em antagônicos.

Isso é o que quero dizer: o prazer, a menos que

tenha sido mantido dentro dos limites, tende a nos precipitar no

abismo da tristeza.

Mas é difícil manter limites dentro daquilo

que você acredita ser bom.

O verdadeiro bem pode ser

cobiçado com segurança.

7. Você me pergunta qual é o verdadeiro bem e de onde ele deriva.

Digo-o: vem de uma boa consciência, de propósitos honrosos, de

ações corretas, de desprezo pelos presentes da Fortuna, de um

modo de vida equilibrado e tranquilo que trilha apenas um caminho.

Para os homens que saltam de um propósito para outro, ou sequer

saltam, mas são carregados por uma espécie de aventura, como

podem essas pessoas vacilantes e instáveis possuírem qualquer

bem que é fixo e duradouro?

8. Existem poucos que controlam a si mesmos e seus negócios por

um propósito direcionado.

O restante não prossegue, eles são

simplesmente varridos, como objetos flutuando em um rio.

E desses

objetos, alguns são retidos por águas lentas e são transportados

suavemente, outros são despedaçados por uma corrente mais

violenta, alguns, que estão mais próximos da margem, são deixados lá onde a correnteza afrouxa e outros são levados para o mar pelo

avanço da correnteza.

Portanto, devemos decidir o que desejamos e

manter-nos firmes nesse propósito.

9. Agora é a hora de pagar minha dívida.

Eu posso dar-lhe um

provérbio de seu amigo Epicuro e assim livrar esta carta de sua

obrigação.

“É lamentável estar-se perpetuamente começando a

vida.” 102 Ou outra, que talvez expressará melhor o significado:

“Vivem mal aqueles que estão sempre começando a viver”.

10. Você está certo em perguntar por que.

O ditado certamente

precisa de um comentário.

O que se passa é que a vida de tais

pessoas é sempre incompleta.

Mas um homem não pode estar

preparado para a aproximação da morte se ele acaba de começar a

viver.

Precisamos tornar nosso objetivo já ter vivido o suficiente.

Ninguém pensa que tenha feito isso, se está sempre na etapa de

planejar sua vida.

11. Você não precisa pensar que há poucos deste tipo, praticamente

todos são de tal cunho.

Alguns homens, na verdade, só começam a

viver quando é hora de deixarem de viver.

E se isso lhe parece

surpreendente, acrescento o que mais o surpreenderá: alguns

homens deixaram de viver antes mesmo de terem começado.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

102 NT: Ver Epicuro, Cartas e Princípios.

XXIV.

Sobre o desprezo pela

morte

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você escreve-me que está ansioso pelo resultado de um processo

judicial, com o qual um oponente colérico está lhe ameaçando e você

espera que eu lhe aconselhe a vislumbrar um desenlace feliz e a

descansar em meio aos encantos da esperança lisonjeira.

Por que

seria necessário conjurar problemas, que devem ser resolvidos de

uma vez tão logo que cheguem, ou antecipar problemas e arruinar o

presente por medo do futuro? É realmente tolo ser infeliz agora

porque talvez possa vir a ser infeliz em algum tempo futuro.

2. Mas conduzi-lo-ei à paz de espírito por uma outra rota: se você

quer desencorajar toda a preocupação, suponha que o que você

teme que poder acontecer certamente acontecerá, qualquer que seja

o problema, então meça-o em sua própria mente e estime a quantidade de seu medo.

Você compreenderá assim que o que você

teme é insignificante ou de curta duração.

3. E você não precisa gastar muito tempo em coletar ilustrações que

o fortalecerão, cada época as produziu com abundância.

Deixe seus

pensamentos viajarem em qualquer época da história romana ou

estrangeira e haverá múltiplos exemplos notáveis de feitos heroicos

ou de intensa serenidade filosófica.

Se perder este julgamento, pode

acontecer algo mais grave do que você ser enviado ao exílio ou

levado à prisão? Existe um pior destino que qualquer homem possa

temer do que ser torturado pelo fogo ou sofrer uma morte violenta?

Nomeie essas punições uma a uma e mencione os homens que as

desprezaram, não é preciso sair à caça deles, é simplesmente uma

questão de listá-los.

4. A sentença de condenação foi suportada por Rutílio103 como se a injustiça da decisão fosse a única coisa que o aborrecesse.

O exílio

foi suportado por Metelo104 com coragem, por Rutílio até mesmo

com alegria, pois o primeiro só consentiu em voltar a Roma porque

seu país o chamava, este se recusou a voltar quando Sula o

convocou e ninguém naqueles dias ousava dizer não a Sula! Sócrates

na prisão discursou e recusou-se a fugir quando certas pessoas lhe deram a oportunidade.

Ele permaneceu lá, a fim de libertar a

humanidade do medo das duas coisas mais graves: a morte e

prisão.

5. Múcio105 colocou a mão no fogo.

É doloroso ser queimado, mas

quão mais doloroso é infligir tal sofrimento a si mesmo! Aqui estava

um homem sem instrução filosófica, não preparado para enfrentar a

morte e a dor por qualquer palavra de sabedoria e, equipado apenas

com a coragem de um soldado, se puniu por sua ousadia infrutífera.

Ele ficou de pé e observou sua própria mão direita caindo aos

poucos sobre o braseiro do inimigo, nem retirou o membro

dissolvente, com os seus ossos descobertos, até que seu inimigo

removeu o fogo.

Ele poderia ter conseguido algo mais bem-sucedido

naquela batalha, mas nunca algo mais corajoso.

Veja quão mais

corajoso é um homem valente ao se assenhorar do perigo do que um

homem cruel é para infringi-lo: Porsena estava mais pronto para

perdoar Múcio por querer matá-lo do que Múcio para se perdoar por

não ter matado Porsena!

6. “Oh”, diz você, “essas histórias foram repetidas à exaustão em

todas as escolas, muito em breve, quando você chegar ao tema

‘Desprezo pela Morte’, você vai me falar sobre Catão” . Mas por que não lhe contar sobre Catão, como ele leu o livro de Platão naquela

última noite gloriosa, com uma espada pousada sob o travesseiro?

Ele tinha provido essas duas condições para seus últimos momentos,

primeiro, que ele poderia ter a vontade de morrer, e segundo, que

ele poderia ter os meios.

Então ele regularizou seus negócios, assim

como se pode ordenar o que está arruinado e perto de seu fim e

pensou que deveria fazer para que ninguém tivesse o poder de matá-

lo ou a possibilidade de salvá-lo.

7. Desembainhando a espada, que tinha mantido sem mancha

mesmo após todo derramamento de sangue, ele gritou: “Fortuna,

você não conseguiu nada, resistindo a todos meus esforços.

Eu

tenho lutado até agora pela liberdade do meu país e não por mim

mesmo, não me esforcei tão obstinadamente para ser livre, mas

apenas para viver entre os livres.

Agora, já que os assuntos da

humanidade estão além da esperança, que Catão seja retirado para

a segurança.

”

8. Assim dizendo, ele infligiu uma ferida mortal sobre seu corpo.

Depois que os médicos o cauterizaram, Catão tinha menos sangue e

menos forças, mas não menos coragem, enfurecido agora não só contra César, mas também consigo mesmo, reuniu suas mãos

desarmadas contra sua ferida e expulsou, em vez de liberar, aquela

nobre alma que tinha sido tão desafiadora de todo poder mundano.

9. Eu não estou agora a amontoar estas ilustrações com o propósito

de exercitar seu espírito, mas com o propósito de encorajá-lo a

enfrentar o que é considerado ser o mais terrível.

E vou encorajá-lo

com mais facilidade, mostrando que não só homens resolutos

desprezaram aquele momento em que a alma expira por último, mas

que certas pessoas, que eram covardes em outros aspectos, se

igualaram à coragem dos mais corajosos.

Tomemos, por exemplo,

Cipião106, o sogro de Cneu Pompeu:107 ele foi atirado sobre a costa africana por um vento de proa e viu seu navio no poder do inimigo.

Ele, portanto, perfurou seu corpo com uma espada e quando

perguntaram onde estava o comandante, ele respondeu: “Tudo está

bem com o comandante” ( Imperator se bene habet).

10. Estas palavras o elevaram ao nível de seus antepassados e não

macularam a glória que o destino deu aos Cipiões na África.

Foi uma

grande ação conquistar Cartago, mas uma ação maior vencer a

morte.

“Tudo está bem com o comandante!” que forma de morrer haveria mais digna de um general e, especialmente, de um general

das tropas de Catão?

11. Não remetê-lo-ei à história, nem colecionarei exemplos daqueles

homens que ao longo dos séculos desprezaram a morte, pois são

muitos.

Considere essa nossa época, onde a prostração e o excesso

de refinamento provocam queixas.

Os exemplos incluirão homens de

toda categoria, de toda fortuna na vida, e de todas as épocas, que

interromperam suas desgraças com a morte.

Acredite em mim,

Lucílio, a morte é tão pouco a temer que através de seus bons

ofícios nada é temível.

12. Portanto, quando seu inimigo ameaçar, ouça

despreocupadamente.

Embora sua consciência o faça confiante, já

que muitas coisas estão fora de seu controle, ambos esperam o que

é absolutamente justo e se preparam contra o que é totalmente

injusto.

Lembre-se, no entanto, antes de tudo, de despir as coisas de

tudo o que perturba e confunde e ver o que cada uma é no fundo,

então você compreenderá que elas não contêm nada temível, com

exceção do medo em si.

13. O que você vê acontecendo com meninos acontece também

a nós mesmos que somos apenas meninos ligeiramente maiores: quando aqueles que eles amam, com quem eles se

associam diariamente, com quem eles brincam, aparecem com

máscaras, os meninos ficam assustados sem necessidade.

Devemos tirar a máscara, não só dos homens, mas das coisas e

restaurar a cada objeto seu próprio aspecto.

14. Por que são levantadas diante dos meus olhos espadas,

fogueiras e uma multidão de verdugos que andam furiosos em torno

de mim? Remova toda essa vã demonstração por trás da qual você

se esconde e se engana! Não é senão a morte, a qual ontem mesmo

um servo meu desprezou e afrontou sem temor! Para que toda essa

grande ostentação, o chicote e o pelourinho? Por que preparam

esses instrumentos de tortura, um para cada parte do corpo e todas

essas outras máquinas inumeráveis para rasgar um homem um

bocado de cada vez? Fora com todas essas coisas, que nos deixa

entorpecidos de terror! E você, silencie os gemidos e ignore os gritos

amargos da vítima que está na roda de tortura, pois não é outra

coisa senão a dor, desprezada por aquele desgraçado atormentado

pela gota, tolerada por um dispéptico, suportada corajosamente pela

mulher em trabalho de parto.

Menospreze você tal ofício! Se for possível suportar, é uma dor leve, se não, será uma dor breve!

15. Reflita sobre estas palavras que muitas vezes você ouviu e

frequentemente proferiu.

Além disso, prove pelo resultado se o que

você ouviu e proferiu é verdade.

Pois há uma acusação muito

vergonhosa muitas vezes trazida contra a nossa escola: que lidamos

com as palavras e não com as ações da filosofia.

O que, você só

neste momento aprende que a morte está pendente sobre sua

cabeça, só neste momento de dor? Você nasceu para esses riscos.

Pensemos em tudo o que pode acontecer como algo que

acontecerá.

16. Eu sei que você realmente fez o que eu aconselho a fazer, eu

agora lhe advirto que não afogue a sua alma nestas suas pequenas

angústias.

Se você fizer isso, a alma será entorpecida e terá muito

pouco vigor disponível quando chegar a hora de levantar-se. Afaste

seu pensamento de seu caso para o caso dos homens em geral.

Diga a si mesmo que nossos pequenos corpos são mortais e frágeis.

A dor pode alcançá-los de outras formas do que pelo poder do mais

forte.

Nossos próprios prazeres tornam-se tormentos.

Banquetes

trazem indigestão, bacanais trazem paralisia dos músculos e

marasmo, hábitos libidinosos afetam os pés, as mãos e cada articulação do corpo.

17. Eu posso me tornar um homem pobre, eu serei então um entre

muitos.

Posso ser exilado, considerar-me-ei então nascido no lugar

para o qual fui enviado.

Eles podem me colocar em correntes.

E

então? Estou livre de obrigações agora? Contemple este fardo

obstrutivo que é um corpo, ao qual a natureza me tem amarrado! “Eu

morrerei”, você diz.

Você quer dizer: “Eu deixarei de correr o risco

da doença, deixarei de correr o risco de prisão, deixarei de correr o

risco da morte”.

18. Não sou tão tolo para repetir neste momento os argumentos que

Epicuro lançava e dizer que os terrores deste mundo são inúteis, que

Íxion108 não gira em torno de sua roda, que Sísifo109 não arca com o peso de sua pedra, que as entranhas de um homem não podem ser

restauradas e devoradas todos os dias.

Ninguém é tão infantil como

para temer Cérbero, 110 ou as sombras, ou o traje espectral daqueles que são unidos por nada senão por seus ossos expostos.

A morte

nos aniquila ou nos desnuda.

Se nós somos liberados então, lá

permanece a melhor parte, depois que a tormenta é retirada, se

somos aniquilados, nada permanece, tanto o que é bom quanto o que é mau são igualmente removidos.

19. Permita-me neste momento citar um versículo seu, primeiro

insinuando que, quando você o escreveu, você quis dizer isso para si

mesmo, não menos do que para os outros.

É ignóbil dizer uma coisa

e acreditar em outra e quão mais ignóbil é escrever uma coisa e

acreditar em outra! Lembro-me de um dia que você estava lidando

com o conhecido, que não caímos mortos de repente, mas que

avançamos para a morte em passos lentos, morremos todos os dias.

20. Porque cada dia um pouco de nossa vida nos é tirada, mesmo

quando estamos crescendo, nossa vida está em declínio.

Perdemos

nossa infância, nossa adolescência e nossa juventude.

Contando até

ontem, todo o tempo passado é tempo perdido.

O próprio dia que

passamos agora é compartilhado entre nós e a morte.

Não é a

última gota que esvazia o relógio de água, mas tudo o que

anteriormente fluiu, da mesma forma, a hora final em que deixamos

de existir não provoca por si só a morte, ela apenas completa o

processo de morte.

Chegamos à morte naquele momento, mas há

muito tempo estamos a caminho.

21. Ao descrever essa situação, você disse em sua eloquência

costumeira, pois você é sempre impressionante mas nunca tão cáustico como quando está colocando a verdade em palavras

apropriadas: " a morte vem gradualmente, a que nos leva é a morte

última!” . Eu prefiro que você leia suas próprias palavras em vez de

minha carta, pois então ficará claro para você que esta morte, da

qual temos medo, é a última, mas não a única morte.

22. Vejo o que você está procurando, você está perguntando o que

eu empacotei em minha carta, qual ditado estimulante de algum

mestre, qual preceito útil.

Assim, vou enviar-lhe algo que trata deste

assunto em discussão.

Epicuro censura aqueles que desejam, tanto

quanto aqueles que se esquivam da morte: “É absurdo, diz ele,

correr para a morte porque você está cansado da vida, quando é a

sua maneira de viver que o fez correr para morte.

”

23. E em outra passagem: “O que é tão absurdo quanto buscar a

morte, quando é por medo da morte que você roubou a paz da sua

vida?” E você pode acrescentar uma terceira declaração do mesmo cunho: “Os homens são tão irrefletidos, não, tão loucos, que alguns,

por medo da morte, se obrigam a morrer”.

24. Qualquer dessas ideias que você ponderar, irá tonificar sua

mente para a resistência tanto à morte quanto à vida.

Pois

precisamos ser admoestados e fortalecidos em ambos os sentidos, não amar ou odiar a vida em demasia.

Mesmo quando a razão nos

aconselha a acabar com ela, tal impulso não deve ser adotado sem

reflexão ou precipitadamente.

25. O homem sóbrio e sábio não deve bater em retirada da vida, ele

deve fazer uma saída conveniente.

E acima de tudo, ele deve evitar

a fraqueza que tomou posse de tantos, o desejo da morte.

Pois

assim como há uma tendência irrefletida da mente para com outras

coisas, assim, meu caro Lucílio, há uma tendência irrefletida para a

morte.

Isso muitas vezes se apodera dos homens mais nobres e

espirituosos, assim como dos covardes e dos abjetos.

Os primeiros

desprezam a vida, os últimos acham-na fastidiosa e não lhe

suportam o peso.

26. Outros também são movidos por uma saciedade de fazer e ver

as mesmas coisas e não tanto por um ódio à vida como por estarem

enfastiados com ela.

Deslizamos para essa condição, enquanto a

própria filosofia nos empurra, e dizemos: “Quanto tempo devo

suportar as mesmas coisas? Eu continuarei a acordar e dormir,

estar com fome e ser saciado, ter calafrios e transpirar? Não há fim

para nada, todas as coisas estão ligadas em uma espécie de círculo, elas fogem e elas são perseguidas.

A noite está próxima

aos calcanhares do dia, o dia aos calcanhares da noite, o verão

termina no outono, o inverno apressa-se depois do outono e o

inverno se suaviza na primavera, toda a natureza assim passa, só

para voltar.

Eu não vejo nada de novo, mais cedo ou mais tarde, o

homem enjoa disto também.” Há muitos que pensam que a vida, não

sendo dolorosa, é supérflua.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

103 NT: Públio Rutílio Rufo despertou o ódio da ordem equestre, à qual pertencia a maior parte dos republicanos.

Em 92 a.C., foi acusado de extorsão justamente por

estes provincianos que havia tentado proteger e, apesar da acusação ser

amplamente tida como falsa, o júri, composto quase que inteiramente de equestres,

o condenou.

Rufo aceitou o veredito resignado, um comportamento estoico

esperado para um discípulo de Panécio.

Cícero, Lívio, Veleio Patérculo e Valério Máximo concordam em que era um homem honrado e íntegro e a sua condenação foi resultado de uma conspiração.

104 NT: Quinto Cecílio Metelo Numídico, foi eleito cônsul em a.C. e censor em 102 a.C. e era o líder da facção aristocrática dos optimates no Senado Romano.

Quando Saturnino obrigou os senadores a jurarem uma lei agrária no prazo de cinco dias sob pena de multa, Metelo preferiu exilar-se voluntariamente em Rodes a

se submeter ao que considerava um grande desatino, o que resultou na sua

expulsão do Senado e na perda de sua cidadania romana.

105 NT: Caio Múcio Cévola (em latim: Gaius Mucius Scaevola). Logo depois da fundação da República Romana, Roma se viu rapidamente sob a ameaça etrusca

representada por Lar Porsena.

Depois de rechaçar um primeiro ataque, os

romanos se refugiaram atrás das muralhas da cidade e Porsena iniciou um cerco.

Conforme o cerco se prolongou, a fome começou a assolar a população romana e

Múcio, um jovem patrício, decidiu se oferecer para invadir sorrateiramente o acampamento inimigo para assassinar Porsena.

Disfarçado, Múcio invadiu o

acampamento inimigo e se aproximou de uma multidão que se apinhava na frente

do tribunal de Porsena.

Porém, como ele nunca tinha visto o rei, ele se equivoca e assassina uma pessoa diferente.

Imediatamente preso, foi levado perante o rei, que

o interrogou.

Longe de se intimidar, Múcio respondeu às perguntas e se identificou

como um cidadão romano disposto a assassiná-lo. Para demonstrar seu propósito

e castigar seu próprio erro, Múcio colocou sua mão direita no fogo de um braseiro

aceso e disse: “Veja, veja que coisa irrelevante é o corpo para os que não aspiram mais do que a glória! ”. Surpreso e impressionado pela cena, o rei ordenou que Múcio fosse libertado.

106 NT: Quinto Cecílio Metelo Pio Cipião Násica, conhecido como Metelo Cipião, foi um político da gente Cecília Metela da República Romana eleito cônsul em

a.C. com Pompeu.

Liderou tropas contra as forças de César, principalmente na Batalha de Farsalo (48 a.C.) e na Batalha de Tapso (46 a.C.) e foi derrotado.

107 NT: Cneu Pompeu, conhecido também como Pompeu, o Jovem (79 a.C. –

de Abril 45 a.C.), foi um político romano da segunda metade do século I a.C., no

período tardio da República Romana.

108 NT: Íxion foi amarrado a uma roda em chamas.

No lugar das cordas, os deuses utilizaram serpentes.

Íxion foi condenado a girar eternamente no calor do inferno.

109 NT: Sísifo foi obrigado a empurrar uma pedra até o topo de uma das montanhas do submundo, sendo que toda vez que estava chegando ao cume, a

rocha rolava novamente ao ponto de partida, tornando assim, o labor de Sísifo uma

punição eterna.

110 NT: Cérbero era um monstruoso cão de três cabeças que guardava a entrada do mundo inferior, o reino subterrâneo dos mortos, deixando as almas entrarem, mas jamais saírem e despedaçando os mortais que por lá se aventurassem.

111 NT: Ver as três citações em Epicuro, Cartas e Princípios.

XXV.

Sobre a mudança

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Em relação a estes dois amigos nossos, devemos avançar em

linhas diferentes.

As falhas de um devem ser corrigidas, as do outro

devem ser esmagadas.

Tomarei toda liberdade e franqueza, porque

eu não amo uma pessoa se não estou disposto a ferir seus

sentimentos.

“O que”, você diz, “você espera manter alguém de

quarenta anos sob sua tutela? Considere sua idade, quão calejado

ele é agora, impossível de ser modificado.

Tal homem não pode ser

remodelado, somente mentes jovens são moldadas!”

2. Não sei se farei progressos; mas prefiro não ter êxito a faltar com meu dever.

Você não precisa se desesperar a curar homens

doentes, mesmo quando a doença é crônica, se você apenas se

mantiver firme contra o excesso e forçá-los a submeter-se a muitas

coisas contra a vontade deles.

Quanto ao nosso outro amigo,

também não estou suficientemente confiante, exceto pelo fato de que

ele ainda tem um sentimento de vergonha suficiente para ruborizar-se

por seus pecados.

Essa modéstia deve ser fomentada: enquanto

persistir em sua alma, haverá espaço para a esperança.

Mas quanto

a este seu veterano, acho que devemos tratar com mais parcimônia,

para que ele não fique desesperado.

3. Não há melhor momento para se aproximar dele do que agora,

quando ele tem um intervalo de descanso e parece que corrigiu suas

falhas, pois se assemelha a um homem reconvertido.

Outros foram

enganados por essa intermitência virtuosa da parte dele, mas ele

não me engana.

Tenho a certeza de que essas falhas voltarão, por

assim dizer, com juros compostos, pois estou certo de que estão em

suspensão, mas não ausentes.

Vou dedicar algum tempo ao assunto

e tentar ver se algo pode ou não ser feito, mas só depois de

experimentar saberei se pode ou não conseguir-se algum sucesso.

4. Mas você, como de fato está fazendo, mostra que é corajoso: alivia sua bagagem para a marcha.

Nenhuma de nossas posses é

essencial.

Voltemos à lei da natureza, de acordo com ela as riquezas são disponibilizadas para nós.

As coisas que realmente precisamos

são gratuitas para todos, ou então baratas, a natureza almeja

apenas pão e água.

Ninguém é pobre de acordo com este padrão.

Quando um homem limita seus desejos dentro destas fronteiras,

pode desafiar a felicidade do próprio Júpiter, como diz Epicuro.

Devo

inserir nesta carta um ou mais de seus ditos:

5. “Faça tudo como se Epicuro estivesse observando você.” Não há

nenhuma dúvida real de que é bom para todo homem ter

designado um guardião sobre si mesmo e ter alguém que possa

olhar para cima, alguém que possa considerar como uma

testemunha de seus pensamentos.

É, de fato, mais nobre viver da

forma como você viveria se estivesse sob os olhos de algum homem

bom, sempre ao seu lado, mas, no entanto, estou satisfeito se você

apenas agir, em tudo o que fizer, como você agiria se alguém

qualquer estivesse o observando, porque a solidão nos induz a todos

os tipos de vícios.

6. E quando você tiver progredido tanto que tenha respeito por si

mesmo, você pode dispensar seu assistente; mas até então, defina como um guardião sobre si mesmo a autoridade de algum homem,

seja o grande Catão ou Cipião ou Lélio ou qualquer homem em cuja

presença até mesmo patifes degenerados reprimiriam seus vícios.

Enquanto isso, você deve se empenhar em fazer de si mesmo o tipo

de pessoa em cuja companhia você não ousaria pecar.

Quando este

objetivo estiver cumprido e você começar a nutrir por si próprio

alguma estima, gradualmente permitirei que você faça o que Epicuro,

em outra passagem, sugere: “O momento em que você mais

deveria se retirar em si mesmo é quando você é forçado a estar

entre a multidão.”

7. Você deve se fazer de um naipe diferente da multidão.

Portanto,

embora ainda não seja seguro retirar-se para a solidão, procure

certos indivíduos; pois qualquer um é melhor em companhia de

alguém, não importa quem, do que só em sua própria companhia.

“O

momento em que você deve antes de mais nada se retirar em si

mesmo é quando você é forçado a estar em multidão.

” Sim, desde

que você seja um homem bom, tranquilo e autocontido; caso

contrário, é melhor você se retirar em uma multidão a fim de ficar longe de si mesmo.

Sozinho, você está muito perto de um homem

sem caráter.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

XXVI.

Sobre a velhice e a morte

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Eu estava ultimamente dizendo que estava à vista da velhice.

Agora estou com medo de ter deixado a velhice atrás de mim.

Pois

alguma outra palavra se aplicaria agora a meus anos, ou de qualquer

maneira a meu corpo, uma vez que a velhice significa um tempo da

vida que se está cansado, em vez de esmagado.

Você pode me

colocar então na classe dos decrépitos, daqueles que estão

chegando ao fim.

2. No entanto, eu agradeço a mim mesmo, com você como

testemunha, porque eu sinto que a idade não causou nenhum dano a

minha mente, embora eu sinta seus efeitos em minha constituição

corporal.

Somente meus vícios e as ajudas exteriores a esses vícios

chegaram à senilidade, minha mente é forte e se regozija por ter

apenas ligeira conexão com o corpo.

Ela deixou de lado a maior

parte de sua carga.

Está alerta, ela rejeita o tema da velhice, declara

que a velhice é seu tempo de florescimento.

3. Deixe-me levá-la em consideração e deixá-la aproveitar as

vantagens que possui.

A mente me pede que pense um pouco e

considere o quanto dessa paz de espírito e moderação de caráter

devo à sabedoria e quanto a meu tempo de vida, me convida a

distinguir cuidadosamente o que não posso fazer e o que não quero

fazer... Pois por que alguém deve queixar-se ou considerar uma

desvantagem, se as forças que deveriam chegar ao fim começam a

falhar?

4. “Mas,” você diz, “é a maior desvantagem possível ser desgastado

e morrer, ou mais, se posso dizer literalmente, desparecer

lentamente! Porque nós não somos repentinamente feridos e

abatidos, somos desgastados e cada dia reduz um pouco dos

nossos poderes.” Mas há algum fim melhor para tudo isso do que

planar para seu próprio refúgio quando a natureza se vai? Não que

haja algo doloroso em um choque e uma partida repentina da

existência, é apenas porque este outro modo de partida é fácil, uma

retirada gradual.

Eu, de qualquer modo, como se o teste estivesse à

mão e chegasse o dia de pronunciar sua decisão sobre todos os

anos da minha vida, vigio-me e comungo assim comigo: 5. “A demonstração que fizemos até o presente, em palavra ou em

ação, não vale nada.

Tudo isso é apenas uma promessa

insignificante e enganosa de nosso espírito e está envolto em muito

charlatanismo.

Vou deixar a cargo da morte determinar o progresso

que fiz.

Portanto, sem timidez, estou preparando para o dia em que,

deixando de lado todo o artifício de palco e maquiagem de ator, eu

deverei presidir meu próprio julgamento; se estou meramente

declamando sentimentos corajosos ou se realmente os sinto, se

todas as ameaças arrojadas que eu proferi contra a Fortuna eram

fingimento e farsa!

6. Deixe de lado a opinião do mundo, ela é sempre vacilante e

sempre parcial.

Deixe de lado os estudos que você tem perseguido

durante toda a sua vida, a morte entregará o julgamento final em

seu caso.

Isto é o que quero dizer: seus debates e palestras, seus

axiomas recolhidos a partir dos ensinamentos dos sábios, sua

conversa culta, tudo isso não oferece nenhuma prova da verdadeira

força da sua alma.

O homem mais tímido pode fazer um discurso

ousado.

O que você fez no passado será evidente apenas no

momento em que você expirar seu último suspiro.

Eu aceito as condições.

Eu não me acovardo frente a decisão”.

7. Isto é o que eu digo a mim mesmo, mas gostaria que você

pensasse que eu o digo a você também.

Você é mais jovem, mas o

que isso importa? Não há contagem fixa de nossos anos.

Você

não sabe onde a morte o espera, então esteja sempre pronto

para ela.

8. Eu estava apenas pretendendo parar e minha mão estava se

preparando para a frase de encerramento, mas os ritos ainda devem

ser realizados e as despesas de viagem para a carta

desembolsadas.

E apenas suponha que eu não direi de quem eu

pretendo emprestar a soma necessária, você sabe de cujos cofres

dependo.

Espere só mais um momento e eu pagarei de minha conta,

entretanto por agora, Epicuro me favorece com estas palavras:

“Medita na morte”, 113 ou melhor, se preferir, a frase: " atribua maior importância à aprendizagem da morte".

9. O significado é claro: é uma coisa maravilhosa aprender

minuciosamente como morrer.

Você pode considerar que é supérfluo

aprender um texto que pode ser usado apenas uma vez; mas essa é exatamente a razão pela qual devemos pensar em uma coisa.

Quando nunca podemos provar se realmente sabemos alguma coisa,

devemos sempre estar aprendendo.

10. “Medita na morte”. Ao dizer isso ele nos pede para pensar na

liberdade.

Aquele que aprendeu a morrer desaprendeu a escravidão,

está acima de qualquer poder externo ou, pelo menos, está além

disso.

Que terrores causam prisões, correntes e grades para ele? A

sua saída é clara, a porta está sempre aberta.

Existe apenas uma

corrente que nos prende à vida e essa é o amor pela vida.

A

corrente não pode ser desprezada, mas pode ser enganada, de

modo que, quando a necessidade exigir, nada pode retardar ou

impedir que estejamos prontos para fazer de uma só vez o que em

algum momento seremos obrigados a fazer.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

112 Veja a carta XII.

Sêneca tinha por este tempo, pelo menos, sessenta e cinco anos.

Quando escreveu suas cartas, Sêneca vivia os últimos anos de sua vida embora obviamente não tivesse conhecimento de que aqueles anos chegariam a

um fim abrupto com a ordem de Nero para cometer suicídio.

113 NT: Ver as três citações em Epicuro, Cartas e Princípios.

XXVII.

Sobre o bem que

permanece

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. “O quê? ”, diz você, “Está me dando conselhos? Por acaso você

já se aconselhou, já corrigiu suas próprias falhas? É esta a razão

pela qual você tem tempo livre para reformar outros homens?” Não,

não sou desavergonhado ao ponto de pretender curar meus

semelhantes quando estou doente.

Estou, no entanto, discutindo com

você problemas que afetam a nós dois e compartilhando o remédio

com você, como se estivéssemos padecendo no mesmo hospital.

Ouça-me, portanto, como faria se eu estivesse falando sozinho.

Eu

estou confessando a você meus pensamentos mais íntimos e estou

discutindo comigo mesmo, usando-o apenas como pretexto.

2. Eu continuo gritando para mim mesmo: “Conte seus anos e você

terá vergonha de desejar e perseguir as mesmas coisas que você

desejou em seus dias de juventude.

Certifique-se desta única coisa

antes de morrer, deixe seus vícios perecerem antes.

Afaste-se

daqueles prazeres desordenados que devem ser pagos regiamente.

Não são apenas os que estão para vir que me prejudicam, mas também aqueles que vieram e foram.

Assim como os crimes, que

mesmo que não tenham sido detectados ao serem cometidos não

permitem que a ansiedade acabe com o sofrimento por eles, da

mesma forma são os prazeres mundanos, o arrependimento

permanece mesmo depois que os prazeres terminaram.

Eles não

são substanciais, eles não são confiáveis, mesmo se eles não nos

prejudicam, eles são passageiros.

3. Procure, ao invés, bens que permanecem.

Mas não há tal bem, a

não ser aquele descoberto pela alma por si mesma: só a virtude

proporciona uma alegria eterna e tranquilizadora, mesmo que surja

algum obstáculo, como uma nuvem passageira que se interpõe

frente ao sol mas nunca prevalece contra ele.

”

4. Quando será sua vez de alcançar esta alegria? Até agora, você

realmente não esteve parado, mas você deve acelerar o seu ritmo.

Resta muito trabalho.

Para enfrentá-lo, você deve aplicar todas suas

horas de vigília e todos seus esforços, se você deseja o resultado

realizado.

Este assunto não pode ser delegado para outra pessoa.

5. A mera erudição ou outros tipos de atividades intelectuais admitem

assistência externa.

Em nossa época havia um certo homem rico chamado Calvísio Sabino, ele tinha a conta bancária e o cérebro de

um escravo liberto.

Nunca vi um homem cuja boa Fortuna tenha sido

uma ofensa maior a sua propriedade.

Sua memória era tão falha que

ele às vezes esqueceria o nome de Ulisses ou Aquiles ou Príamo,

nomes que conhecemos tão bem quanto conhecemos os de nossos

próprios pedagogos.

Nenhum idoso senil, que não pode dar a

homens seus nomes próprios mas é compelido a inventar nomes

para eles, nenhum nomenclador, 114 eu afirmo, clama os nomes dos membros de sua família de forma tão atroz como Sabino costumava

chamar os heróis dos troianos e aqueus.

Mas, no entanto, ele

desejava parecer erudito.

6. Assim ele inventou este atalho para aprender: ele pagou preços

fabulosos por escravos, um para conhecer Homero de cor e outro

para Hesíodo.

Ele também delegou um escravo especial para cada

um dos nove poetas líricos115. Você não precisa se admirar que ele tenha pago altos preços por esses escravos, se ele não os

encontrava prontos à mão, ele encomendava um a ser feito sob

medida.

Depois de recolher este séquito, ele começou a aborrecer

seus convidados.

Ele mantinha esses ajudantes ao pé de seu sofá e

pedia de vez em quando os versos para que ele os repetisse que, muitas vezes, eram quebrados no meio de uma palavra.

7. Satélio Quadrato, um instigador e, consequentemente, um puxa-

saco de milionários fúteis, e também (pois esta qualidade vai com as

outras duas) um zombador deles, sugeriu a Sabino que ele deveria

ter filólogos para reunir os pedaços.

Sabino observou que cada

escravo havia lhe custado cem mil sestércios.

Satélio respondeu:

“Você poderia ter comprado tantas quantas estantes de livros por

uma quantia menor.” Mas Sabino sustentou que o que qualquer

membro de sua casa sabe, ele mesmo também sabe, ou seja, ter

em casa alguém erudito era o mesmo que ser erudito ele próprio!

8. Este mesmo Satélio começou a aconselhar Sabino a tomar lições

de luta.

Mesmo doentio, pálido e magro como era, Sabino

respondeu: “Como posso? Eu mal me aguento nas pernas agora.” –

“Não diga isso, eu lhe suplico” , replicou o outro, “considere quantos

escravos perfeitamente saudáveis você tem! ” Nenhum homem é

capaz de emprestar ou comprar uma mente sã. Na verdade, como

me parece, mesmo que mentes sãs estivessem à venda, não

encontrariam compradores.

No entanto, o vício, esse é comprado e vendido todos os dias.

9. Mas deixe-me pagar a minha dívida e dizer adeus: “A verdadeira

riqueza consiste na pobreza capaz de satisfazer aquilo que por lei

da natureza necessitamos.

” 116 Epicuro repete este dizer de várias maneiras e contextos, mas nunca pode ser repetido em excesso, já

que nunca é compreendido muito bem.

Pois para algumas pessoas o

remédio deve ser meramente prescrito, no caso de outras, deve ser

forçado goela abaixo.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

114 NT: O nomenclador ( nomenclator) era o escravo encarregado de lembrar ao senhor os nomes dos clientes que lhe vinham apresentar os cumprimentos matinais

ou de quem eles encontravam no fórum.

Juvenal descreve em detalhes suas

funções.

115 Troia e Aqueus: a Ilíada era a leitura de matéria-prima dos estudantes romanos de elite, mas Calvísio, nem conseguia lembrar seus heróis homéricos.

Hesíodo era

muito favorecido por suas máximas morais, mas os nove poetas líricos são muito menos propensos a fazer parte do repertório romano e a compra de nove

escravos, um por cada poeta, certamente foi adicionado por Sêneca para animar a história.

Os nove poetas líricos gregos do cânone alexandrino eram Álcman,

Estesícoro, Íbico, Alceu, Safo, Anacreonte, Simonides, Píndaro e Baquílides.

116 NT: Ver as três citações em Epicuro, Cartas e Princípios.

XXVIII.

Sobre viajar como cura

para o descontentamento

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você acha que só você teve essa experiência? Você está

surpreso, como se fosse uma novidade, que depois de tão longa

viagem e tantas mudanças de cena você não tenha sido capaz de se

livrar da tristeza e do peso de sua mente? Você precisa de uma

mudança de alma, em vez de uma mudança de clima.

Embora você

possa atravessar vastos espaços de mar, ainda que, como nosso

Virgílio observa:

As terras e as cidades são deixadas para trás,

Terraeque urbesque recedant, sequentur te, quocumque perveneris

2. Seus vícios o seguirão a qualquer lugar que você viaje! Sócrates

fez a mesma observação a alguém que se queixou: “Por que você se

admira que viajar o mundo não o ajuda, visto que você sempre se leva consigo? A causa que o colocou a vagar é a mesma que o

aflige em casa.” Que prazer há em ver novas terras? Ou na

inspeção de cidades e pontos de interesse? Toda sua agitação é

inútil.

Você pergunta por que tal fuga não o ajuda? É porque você

foge acompanhado de você mesmo.

Você deve deixar de lado os

fardos da mente.

Até que você faça isso, nenhum lugar irá satisfazê-

lo.

3. Reflita que seu comportamento presente é como o da profetisa

que Virgílio descreve: ela está excitada e incitada pela fúria e contém

dentro de si muita inspiração que não é sua:

A sacerdotisa entra em frenesi, se por acaso pode agitar o

grande deus do seu coração.

Bacchatur vates, magnum si pectore possit Excussisse deum.

Você perambula para cá e para acolá, para livrar-se do fardo que

pesa sobre você, embora este se torne mais problemático por causa

de sua própria inquietação, assim como em um navio a carga quando

estacionária não traz nenhum problema, mas quando se desloca para

os lados, faz o navio inclinar-se lateralmente na direção onde se

estabeleceu.

Qualquer coisa que você faz, diz respeito a você.

E você se machuca por sua própria agitação.

Porque você está

agitando um homem doente.

4. Uma vez esse problema removido, toda mudança de cena se

tornará agradável; embora você possa ser levado às extremidades

da terra, a qualquer canto de uma terra selvagem que você possa se

encontrar, esse lugar, por mais difícil que seja, será uma morada

hospitaleira.

A pessoa que você é importa mais do que o lugar para

o qual você vai; por isso não devemos fazer da mente um fiador para

um só lugar.

Viva essa crença: “Não nasci para nenhum canto do

universo, minha pátria é o mundo inteiro”.

5. Se você entender este fato claramente, você não ficará surpreso

em não obter benefício dos cenários novos que você busca através

da exaustão das cenas antigas.

Pois o primeiro lhe teria agradado de

toda forma, se você o tivesse entendido como sendo inteiramente

seu.

Como é, no entanto, você não está viajando; você está à deriva

e sendo conduzido, apenas trocando um lugar por outro, embora o

que você procura, viver bem, possa ser encontrado em toda parte.

6. Pode existir algum lugar tão cheio de confusão como o Fórum? No

entanto, você pode viver em silêncio até mesmo lá, se necessário.

Naturalmente, se alguém tivesse permissão para fazer os próprios arranjos, deveria fugir da própria vista e vizinhança do Fórum.

Pois,

assim como os lugares pestilentos atacam até mesmo a constituição

mais forte, há também alguns lugares que são prejudiciais para uma

mente saudável que ainda não está totalmente sólida, pois está se

recuperando de sua doença.

7. Eu discordo daqueles que se atiram nas ondas e, dando boas-

vindas a uma existência tempestuosa, lutam diariamente contra os

problemas da vida.

O sábio suportará tudo isso, mas não escolherá

a dificuldade, ele prefere estar em paz em vez de em guerra.

É muito

pouco ter eliminado suas próprias falhas se você deve brigar com as

dos outros.

8. Dizem: “Havia trinta tiranos em torno de Sócrates e, contudo, eles

não podiam quebrar seu espírito”. Mas, o que importa quantos

mestres um homem tem? Escravidão não tem plural e quem a

despreza é livre, não importa quão grande seja a multidão de

senhores que enfrente.

9. É hora de parar, mas não antes de eu ter pago minha obrigação . “A autoconsciência do erro é o começo da cura”. 119 Este ditado de Epicuro parece-me ser nobre.

Pois quem não sabe que pecou, não

deseja correção.

Você deve descobrir-se em erro antes que você

possa se reformar.

10. Alguns se vangloriam de seus vícios.

Você acha que um homem

tem alguma intenção de consertar seus caminhos se considera seus

vícios como se fossem virtudes? Portanto, na medida do possível,

prove-se culpado, procure acusações contra si mesmo; desempenhe

o papel, primeiro de acusador, depois de juiz e só depois o de

advogado de defesa; e uma vez ou outra aplique uma pena a si

próprio!

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

117 Trecho de Eneida, de Virgílio.

III,

118 Trecho de Eneida, de Virgílio.VI, 78-

119 NT: Ver as três citações em Epicuro, Cartas e Princípios.

XXIX.

Sobre evitar ajudar os não

interessados

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você tem perguntado sobre o nosso amigo Marcelino e você deseja saber como ele está se dando.

Ele raramente vem me ver,

por nenhuma outra razão senão que ele tem medo de ouvir a

verdade e no momento está se mantendo afastado do perigo de

ouvi-la. Desse perigo ele está livre, pois não se deve falar com um

homem a menos que ele esteja disposto a ouvir.

É por isso que

muitas vezes se questiona se Diógenes120 e os outros cínicos, que empregavam uma liberdade de expressão sem discernimento e

ofereciam conselhos a qualquer um que se interpusesse, deveriam

ter seguido esse caminho.

2. Por que se deve fazer discursos aos surdos ou aqueles que são

mudos de nascimento ou por doença? Mas você responde: “Por que

eu deveria poupar palavras? Elas não custam nada.

Eu não posso

saber se irei ajudar o homem a quem dou conselhos, mas sei bem

que vou ajudar alguém se eu aconselhar muitos.

Eu tenho que

disseminar este conselho a mão-cheia.

É impossível que alguém

que tente muitas vezes não tenha sucesso alguma vez” .

3. Esta prática, meu caro Lucílio, é, creio eu, exatamente o que um

homem de grande alma não deve fazer.

Assim sua influência fica

enfraquecida; ela tem muito pouco efeito sobre aqueles que poderia

ajudar se não tivesse se tornado tão rançosa.

O arqueiro não deve atingir ao alvo apenas às vezes, ele deve errar apenas às vezes.

Aquilo que é eficaz por acaso não é uma arte.

Ora, a sabedoria é

uma arte, ela deve ter um objetivo definido, escolhendo apenas

aqueles que farão progresso, mas se afastando daqueles a quem

considera incorrigíveis.

Não os abandonando prematuramente, mas

apenas quando o caso se mostra sem solução mesmo após tentado

remédios drásticos.

4. Quanto ao nosso amigo Marcelino, ainda não perdi a esperança.

Ele ainda pode ser salvo, mas a ajuda deve ser oferecida em breve.

Há realmente o risco que possa prejudicar quem vier a seu auxílio;

pois há nele um caráter inato de grande vigor, embora inclinado à

maldade.

No entanto, enfrentarei esse perigo e serei corajoso o

suficiente para lhe mostrar suas falhas.

5. Ele agirá de acordo com sua maneira usual; ele recorrerá à sua

inteligência, a inteligência que pode gerar sorrisos mesmo de

lamentos.

Ele vai virar a brincadeira, primeiro contra si mesmo e

depois contra mim.

Ele evitará todas as palavras que eu vou dizer.

Ele questionará nossos sistemas filosóficos; ele acusará os filósofos

de aceitar propinas, manter amantes e satisfazer seus apetites.

Ele

me mostrará um filósofo que foi apanhado em adultério, outro que assombra os cafés e outro que aparece na corte.

6. Ele vai trazer a meu conhecimento Aríston, o filósofo de Marcus

Lépido, que costumava manter discussões em sua liteira; a altura

melhor que escolheu para cumprir as suas obrigações ... De modo

que Escauro disse dele quando lhe perguntaram a que escola

pertencia: “De qualquer modo, ele não é um dos filósofos

peripatéticos”. 121 Júlio Grecino também homem de distinção, quando lhe pediu uma opinião sobre o mesmo ponto, recebeu como

resposta: “Não posso lhe dizer, porque não sei o que ele faz

quando desmontado”, como se a consulta se referisse a um

essedário.

7. São charlatões desse tipo, para quem seria mais meritório ter

deixado a filosofia sozinha ao invés de traficar dela, que Marcelino

vai jogar em meu rosto.

Mas decidi resistir às provocações; ele pode

me ridicularizar, mas eu talvez o leve às lágrimas; ou, se ele persistir

em suas piadas, eu me alegrarei, por assim dizer, no meio da

tristeza, porque ele é abençoado com uma espécie tão alegre de

loucura.

Mas esse tipo de alegria não dura muito.

Observe esses

homens e você vai notar que, em um curto espaço de tempo, eles

riem em excesso e encolerizam-se em excesso.

8. É meu plano me aproximar e mostrar-lhe quanto maior é seu valor

quando muitos o desprezam.

Mesmo que eu não extinga seus

defeitos, vou pôr um controle sobre eles; eles não cessarão, mas

pararão por um tempo e talvez até cessem, se criarem o hábito de

parar.

Esta é uma coisa a não ser desprezada, uma vez que para

homens seriamente feridos a bênção de um alívio é um substituto

para a saúde.

9. Então, enquanto me preparo para tratar com Marcelino, você, que

é capaz e que entende de onde e para onde vai seu caminho e que,

por essa razão, tem uma ideia da distância a percorrer, ajuste seu

caráter, desperte sua coragem e fique firme em face das coisas que

o tem aterrorizado.

Não conte o número daqueles que inspiram medo

em você.

Você não consideraria como um tolo quem tem medo de

uma multidão em um lugar onde pode passar só um por vez? Da

mesma forma, não há muitos que têm possibilidade de matar você,

embora haja muitos que ameaçam você com a morte.

A natureza

ordenou assim que, como somente uma pessoa lhe deu vida, assim

somente uma a retirará.

10. Se você tivesse alguma vergonha, você teria me liberado de

pagar a última parcela.

Ainda assim, também não serei sovina, mas irei exonerar minhas dívidas até o último centavo e forçar sobre você

o que ainda devo: “Eu nunca quis atender à multidão, pois o que

eu sei, ela não aprova e o que ela aprova, eu não quero saber.”

11. “Quem disse isso?” Você pergunta, como se fosse ignorante a

quem eu estivesse insistindo em servir; é Epicuro.

Mas esta mesma

palavra de ordem soa em seus ouvidos por cada escola:

Peripatética, Acadêmica, 123 Estoica, Cínica.

Pois como pode de fato quem é satisfeito pela virtude, agradar à multidão? São precisos

truques para ganhar aprovação popular.

Terá de fazer-se semelhante

a eles, eles vão recusar aprovação se eles não reconhecerem em

você um de si mesmos.

No entanto, o que você pensa de si é muito

mais do que o que os outros pensam de você.

A benevolência dos

homens ignóbeis só pode ser conquistada por meios ignóbeis.

12. Qual será o benefício, então, daquela filosofia alardeada, cujos

elogios cantamos e que, segundo se diz, deve ser preferida a toda

arte e toda propriedade? Certamente, isso fará com que você prefira

agradar a si mesmo ao invés da população, isso fará você ponderar

e não meramente contar os julgamentos dos homens, fará você viver sem medo de deuses ou homens, fará você vencer males ou acabar

neles.

Caso contrário, se eu o vejo aplaudido pela aclamação

popular, se a sua entrada na cena é saudada por um rugido de

aplausos e vivas, as marcas de distinção se valem apenas para

atores, se todo o estado, mesmo as mulheres e crianças, canta seus

louvores, como posso evitar apiedar-me de você? Pois eu sei a qual

caminho leva tal popularidade.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

120 Diógenes de Sinope, também conhecido como Diógenes, o Cínico, foi um discípulo de Antístenes, antigo pupilo de Sócrates.

Tornou-se um mendigo que habitava as ruas de Atenas, fazendo da pobreza extrema uma virtude; diz-se que teria vivido num grande barril, no lugar de uma casa, e perambulava pelas ruas carregando uma lamparina durante o dia, alegando estar procurando por um

homem honesto.

O Cinismo foi uma corrente filosófica marcada por um ostensivo

desprezo pelo conforto e prazer.

121 A Escola peripatética foi um círculo filosófico da Grécia Antiga que basicamente seguia os ensinamentos de Aristóteles, o fundador.

Fundada em c.

a.C., quando Aristóteles abriu a primeira escola filosófica no Liceu em Atenas, durou até o século IV. “Peripatético” (em grego clássico: περιπατητικός), é a palavra grega para 'ambulante' ou 'itinerante'. Peripatéticos (ou 'os que passeiam') eram discípulos de Aristóteles,

122 Essedário: gladiador que combatia em biga de guerra ( esseda)

123 A Academia de Platão (também chamada de Academia Platônica, Academia de Atenas ou Academia Antiga) foi uma escola fundada por Platão, aproximadamente em 384/383 a.C..

XXX.

Sobre conquistar o

conquistador (a morte)

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Eu vi Aufidio Baso, 124 aquele homem nobre, com saúde

aquebrantada e lutando com seus anos.

Mas o peso de seus anos é

tanto sobre ele que não pode se levantar, a velhice se assentou

sobre ele, sim, com todo o seu peso.

Você sabe que seu corpo

sempre foi delicado e sem vigor.

Por muito tempo ele manteve a

saúde na mão ou, para falar mais corretamente, equilibrou-a. De

repente, desmoronou.

2. Assim como em um navio que faz água, você sempre pode

reparar a primeira ou a segunda fissura, mas quando muitos buracos

começam a abrir e deixar entrar a água, o casco decrépito não pode

ser salvo; da mesma forma, no corpo de um velho, há um certo limite

até o qual você pode sustentar e escorar sua fraqueza.

Mas quando começa a se assemelhar a um edifício em ruínas, quando cada

articulação começa a espanar e enquanto uma está sendo reparada

outra cai, então é hora deste homem olhar em volta e considerar

como pode sair.

3. Mas a mente de nosso amigo Baso é ativa.

A filosofia nos

concede essa dádiva: faz-nos alegres na própria visão da morte,

fortes e corajosos embora o corpo nos falhe.

Um grande piloto pode

navegar mesmo quando sua vela é rasgada; se seu navio for

desmantelado, ele ainda pode arrumar o que resta do seu casco e

segurá-lo no seu curso.

É isso que o nosso amigo Baso está fazendo

e ele contempla seu próprio fim com a coragem e a compostura que

você consideraria apatia indevida em um homem que assim

contemplasse o outro.

4. Este é um grande feito, Lucílio, e um que necessita longa prática

para se aprender: partir calmamente quando a hora inevitável chega.

Outros tipos de morte contêm um ingrediente de esperança: uma

doença chega ao fim; um fogo é extinguido; as casas que desabam

depositaram em segurança aqueles que pareciam certos de serem

esmagados; o mar devolveu ilesos à costa aqueles a quem tinha

engolido, com a mesma força com a qual os tragara; o soldado retraiu sua espada do pescoço de seu inimigo condenado.

Mas

aqueles a quem a velhice está levando para a morte não têm nada a

esperar; a velhice por si só não concede nenhuma prorrogação.

Nenhum final é mais claro ou mais indolor, mas não há nenhum mais

persistente.

5. Nosso amigo Baso me pareceu assistir a seu próprio funeral e ter

seu próprio corpo para o enterro, contudo vivendo quase como se

tivesse sobrevivido a sua própria morte e suportando com resignação

sábia seu pesar por sua própria partida.

Pois ele fala livremente

sobre a morte, tentando persuadir-nos de que, se este processo

contém qualquer elemento de desconforto ou de medo, é culpa do

moribundo e não da própria morte; também, que não há mais

aborrecimento no momento atual do que existe depois que acabou.

6. “E é tão insano”, acrescenta, “para um homem temer o que não

lhe acontecerá, como temer o que ele não sentirá se acontecer”. Ou

será que alguém imagina que é possível que o agente pelo qual o

sentimento é removido possa ser sentido? “Portanto,” diz Baso, “a

morte está tão além de todo o mal, que está além de todo o medo

do mal.” 7. Sei que tudo isso tem sido dito muitas vezes e deverá ser repetido

muitas vezes ainda, mas nem quando eu os lia, eram tais preceitos

eficazes, nem quando os ouvia dos lábios daqueles que estavam a

uma distância segura do medo das coisas, que eles declaravam, não

deveriam ser temidas.

Mas esse velho homem teve o maior impacto

em mim quando falou da morte e a morte estava próxima dele.

8. Pois devo dizer-lhe o que penso: Eu sustento que alguém é mais

corajoso no próprio momento da morte do que quando se aproxima

da morte.

Pois a morte, quando está perto de nós, dá até aos

homens inexperientes a coragem de não procurar evitar o inevitável.

Assim, o gladiador que, não importa o quão covarde foi durante toda

a luta, oferece a sua garganta ao seu adversário e direciona a lâmina

vacilante para o local vital.

Mas um fim que está próximo e que está prestes a vir, requer coragem obstinada da alma.

Isto é uma coisa

mais rara que ninguém, a não ser o homem sábio, pode manifestar.

9. Portanto, eu escutei Baso com o mais profundo prazer.

Ele estava

lançando seu voto sobre a morte e apontando sua natureza quando

observada, por assim dizer, mais próximo à mão.

Suponho que um

homem teria a sua confiança em um grau maior, teria mais

credibilidade certamente, se ele tivesse voltado à vida e pudesse declarar de experiência própria que não há mal na morte e assim,

com respeito à aproximação da morte, estes dirão com maior

propriedade qual inquietação traz quem esteve em seu caminho, que

a viram vindo e a receberam.

10. O Baso pode ser incluído entre estes homens.

Ele não quer nos

enganar.

Ele diz que é tão tolo temer a morte quanto temer a

velhice, pois a morte segue a velhice exatamente como a velhice

segue a juventude.

Aquele que não deseja morrer não pode ter

desejado viver.

Pois a vida nos é concedida com a condição de

que morreremos.

Para este fim nos leva nosso caminho.

Portanto,

quão tolo é temê-la, já que os homens simplesmente esperam o que

é certo, mas temem apenas o que é incerto!

11. A morte tem sua regra fixa, equitativa e inevitável.

Quem pode

reclamar quando é governado por cláusulas que são válidas para

todos? A parte principal da equidade, entretanto, é a igualdade.

Mas

é supérfluo neste momento presente defender a causa da natureza;

pois desejou que nossas leis fossem idênticas às suas; ela decide o

que ela compôs, e compõe novamente o que ela havia decomposto.

12. Além disso, se um homem tiver a sorte de ser colocado suavemente à deriva pela velhice, isto é, não subitamente arrancado

da vida, mas retirado pouco a pouco, oh, em verdade, ele deve

agradecer aos deuses, um e todos, porque, depois de ter tido a sua

plenitude, ele é levado a um descanso estabelecido para a

humanidade, um descanso que é bem-vindo ao cansado.

Você pode

observar certos homens que anseiam pela morte ainda mais

fervorosamente do que outros costumam mendigar por vida.

E não

sei qual destes homens nos dá maior coragem, aqueles que exigem

a morte ou aqueles que a encontram alegre e tranquilamente, pois a

primeira atitude é às vezes inspirada pela loucura e pela repentina

raiva.

A segunda é a calma que resulta de julgamento firme.

Antigamente, homens encontravam-se com a morte com um ataque

de raiva.

Quando a morte vem ao seu encontro, ninguém a recebe

com alegria, exceto o homem que há muito tempo se preparou para

a morte.

13. Admito, portanto, que visitei com mais frequência esse meu

querido amigo com muitos pretextos, mas com o propósito de saber

se eu o encontraria sempre o mesmo e se sua força mental talvez

estivesse diminuindo em paralelo às competências de seu corpo.

Mas ela estava aumentando, assim como a alegria do jóquei costuma mostrar-se mais claramente quando está na sétima rodada

da prova e se aproxima do prêmio.

14. E repetia com frequência em harmonia com os conselhos de

Epicuro: “Espero, antes de tudo, que não haja dor no momento em

que um homem expira, mas se houver, encontrar-se-á um elemento

de conforto em sua própria brevidade, pois nenhuma grande dor

dura por muito tempo e, em todo caso, um homem encontrará alívio

no momento em que alma e corpo estão sendo separados, mesmo

que o processo seja acompanhado de dor terrível, no pensamento

de que depois que a dor acabar, não pode sentir mais dor” . Mas

tenho certeza de que a alma de um velho está em seus lábios e que

só é necessária uma pequena força para desprendê-la do corpo.

Fogo que tenha capturado uma construção que o sustente precisa de

água para ser apagado ou, às vezes, a destruição do próprio

edifício, mas o fogo em que falta sustento de combustível morre de

si mesmo.

15. Fico feliz em ouvir essas palavras, meu caro Lucílio, não tão

novas para mim, mas como me levando à presença de um fato real.

E O quê então? Não vi muitos homens romperem o fio da vida? Eu realmente vi esses homens, mas aqueles que têm mais influência em

mim se aproximam da morte sem qualquer ódio pela vida, dando

passagem à morte, por assim dizer, e não a puxando para eles.

16. Baso sempre dizia: “É por nossa própria culpa que sentimos

essa tortura, porque nós tememos pela morte somente quando

acreditamos que nosso fim está próximo”. Mas quem não está perto

da morte? Ela está pronta para nós em todos os lugares e em todos

os momentos.

“Consideremos”, continuava ele, “quando algum

agente da morte parece iminente, quão mais próximas estão outras

variedades de morrer do que aquelas temidas por nós”.

17. Um homem é ameaçado por um inimigo, mas esta forma de

morte é antecipada por um ataque de indigestão.

E se estamos

dispostos a examinar criticamente as várias causas do nosso medo,

descobriremos que algumas existem e outras só parecem existir.

Não temamos a morte, temamos o pensamento da morte.

Pois a

morte está sempre à mesma distância de nós, portanto, se é para

ser temida absolutamente, é para ser temida sempre.

Pois qual

estação de nossa vida é isenta da morte? 18. Mas o que eu realmente deveria temer é que você odeie esta

longa carta mais do que a própria morte, então eu vou concluir.

Você,

entretanto, sempre pense na morte para que nunca precise temê-

la.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

124 Aufidius Bassus foi um historiador romano que viveu no reinado de Tibério.

Sua obra, foi continuada por Plínio.

Sêneca, o Velho, (pai do nosso Sêneca) fala

muito de Bassus como historiador.

125 Até aqui Sêneca sempre encerrou suas cartas com a citação de uma máxima de Epicuro, na convicção de que seria mais fácil converter Lucílio ao estoicismo se

começasse por meditações epicuristas interpretadas em sentido estoico.

Nas

cartas seguintes Sêneca acredita na conversão do amigo e se considera

desobrigado de recorrer à seara do antagonista.

XXXI.

Sobre o canto da sereia

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Agora reconheço o meu Lucílio! Ele está começando a revelar o caráter prometido.

Acompanhe o impulso que o levou a fazer tudo o

que é melhor, pisando sobre tudo o que é aprovado pela multidão Eu

não o consideraria maior ou melhor do que você planejou; pois no

seu caso as fundações cobrem uma grande extensão de terreno.

Apenas acabe com tudo o que planejou e tome controle dos planos

que você teve em mente.

2. Em suma, você será um homem sábio, se você tapar seus

ouvidos.

Não é suficiente fechá-los com cera, você precisa de um

abafador mais potente do que aquele, que dizem, Ulysses usou para

seus camaradas.

126 A música que ele temia era sedutora mas não

vinha de todos os lados, a canção, no entanto, que você tem que

temer, ecoa em torno de você não de um único promontório, mas de

cada canto do mundo.

Navegue, portanto, não apenas evitando uma

região que você tema por causa de suas traiçoeiras delícias, mas

evite todas as cidades.

Seja surdo para aqueles que mais te amam,

eles rezam por coisas ruins, com boas intenções.

E, se você quiser

ser feliz, suplique aos deuses que nenhuma das preces para você

sejam levadas a cabo.

3. O que eles desejam acumular sobre você não são realmente

coisas boas.

Existe apenas um bem, a causa e o sustento de uma vida feliz: confiar em si mesmo.

Mas isso não pode ser alcançado, a

menos que se aprenda a desprezar seu cargo e a considerá-lo entre

as coisas que não são nem boas nem más.

Pois não é possível que

uma única coisa seja ruim em um momento e boa em outro, às vezes

leve e possível de ser suportada e às vezes uma causa de pavor.

4. O trabalho não é um bem.

Então, o que é um bem? Eu digo, o

desprezo ao trabalho.

127 É por isso que eu devo repreender homens que trabalham sem propósito.

Mas quando, por outro lado, um

homem luta por coisas honrosas, à proporção em que se aplica cada

vez mais e se permite cada vez menos ser derrotado ou deter-se, eu

recomendarei sua conduta e gritarei meu encorajamento dizendo:

“Por tanto você é melhor! Levante-se, inspire o ar fresco e supere

essa colina, se possível, em um único arranco!”

5. O trabalho é o sustento das mentes nobres.

Não há, portanto,

nenhuma razão para que, de acordo com essa velha promessa de

seus pais, você deva escolher a Fortuna que você deseja, ou para

que você deva orar por ela; além disso, é vil para um homem que já

recebeu toda a rodada de honras mais altas, ainda importunar os

deuses.

Que necessidade há de juramentos? Faça-se feliz através de seus próprios esforços, você pode fazer isso, quando

compreender que tudo o que é misturado com a virtude é bom e que

tudo o que é ligado ao vício é ruim.

Da mesma forma que nada brilha

se não tem luz misturada em si e nada é negro a menos que

contenha a escuridão ou atraia para si algo de penumbra e como

nada é quente sem o auxílio do fogo e nada é frio sem ar, assim

também é a associação com a virtude ou com o vício que torna as

coisas virtuosas ou condenáveis.

6. O que então é o Bem? O conhecimento da ciência das coisas.

O que é o Mal? A falta de conhecimento da ciência.

O seu sábio, que

também é um artesão, vai rejeitar ou escolher em cada caso, como

convém à ocasião; mas ele não teme o que ele rejeita nem admira o

que ele escolhe se ele tiver uma alma forte e inconquistável.

Eu o

proíbo de ficar abatido ou deprimido.

Não é suficiente se você não

fugir do trabalho.

Exija isso!

7. “Mas,” você diz, “não é apenas o trabalho insignificante e

supérfluo, trabalho inspirado por causas ignóbeis, um trabalho

ruim? ” Não, não mais do que o que é gasto em nobres

empreendimentos, já que a própria qualidade que suporta o trabalho

e se ergue a um árduo esforço é do espírito que diz: “Por que se torna negligente? Não é digno de um homem temer o suor”.

8. E além disto, para que a virtude seja perfeita, deve haver um

temperamento e um esquema de vida uniforme que sejam

consistentes consigo mesmos; e esse resultado não pode ser

alcançado sem o conhecimento das coisas nem sem a arte que nos

permite compreender as coisas humanas e as coisas divinas.

Esse é

o maior bem.

Se você aproveitar este bem, você começa a ser um

associado íntimo dos deuses e não um suplicante deles.

9. “Mas como,” você pergunta, “alguém atinge esse objetivo? ” Você

não precisa atravessar os Alpes Peninos ou Graios, 129 ou atravessar o deserto de Candávia, ou enfrentar os Sirtes, ou Cila, ou

Caribdis, 130 embora você tenha viajado através de todos estes

lugares por causa dessa sua insignificante procuradoria; a viagem

pela qual a natureza o equipou é segura e agradável.

Ela lhe deu tais

dons.

Desta vez o caminho é seguro e ameno.

Se você não desistir

no meio, chegará à meta como homem igual a um deus.

10. Seu dinheiro, entretanto, não o colocará em nível com um deus

porque um deus não tem posses.

Seu manto bordado não fará isso;

porque Deus não traja vestes; nem irá a sua reputação nem a sua

própria presença nem a notoriedade de seu nome por todo o mundo; porque ninguém conhece a Deus; muitos até O tem em baixa estima

e não sofrem por isso.

A multidão de escravos que carrega sua

liteira ao longo das ruas da cidade e em lugares estrangeiros não irá

ajudá-lo, porque este Deus de quem falo, embora seja o mais alto e

poderoso dos seres, carrega todas as coisas em seus próprios

ombros.

Nem a beleza nem a força podem fazer você abençoado,

pois nenhuma dessas qualidades pode resistir à velhice.

11. O que temos de procurar então, é o que não passa cada dia

mais e mais sob o controle de algum poder que não pode ser

resistido.

E o que é isso? É a alma, mas a alma que é justa, boa e

grande.

O que mais você poderia chamar de tal alma do que um

Deus morando como convidado em um corpo humano? Uma alma

como esta pode descer para um equestre romano, assim como para

um filho de liberto ou para um escravo.

Pois o que é um “equestre”,

um “filho de um liberto”, um “escravo”? São meros títulos, nascidos

da ambição ou do mal característico dos humanos.

Pode-se saltar

para o céu das próprias favelas.

Apenas erga-se

e molde-se de acordo com seu Deus.

et te quoque dignum Finge deo.

Esta modelagem não será feita em ouro ou prata, uma imagem que

deve ser à semelhança de Deus não pode ser moldada de tais

materiais.

Lembre-se que os deuses, quando eram bons para com

os homens, eram moldados em barro!

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

126 NT: Ver Homero, Odisséia, XII,

127 Trabalho pode ser entendido contemporaneamente como cargo público ou carreira profissional.

O argumento é que o trabalho não é, em si mesmo, um bem;

se fosse, não seria louvável a um tempo e censurável em outro.

Pertence, portanto,

à classe de coisa que os estoicos chamavam de indiferente ( indifferentia).

128 “Ciência” para o estoicismo deve ser entendido como "ciência das coisas divinas e humanas", "sabedoria' , ou "sagacidade".

129 NT: Os Alpes Peninos ou Graios designam ao mesmo tempo um setor dos Alpes e uma antiga província romana mas ambas fazem referência à parte da cadeia que vai do Passo do Grande São Bernardo até ao Maciço de São Gotardo,

e assim pertencendo ao cantão Valais da Suíça.

130 NT: Sêneca estende a metáfora da ascensão para incluir as cadeias de montanha que atravessam a região montanhosa da Candávia, perto da Via Egnatia

na Macedônia, depois (retornando aos perigos marítimos) os Sirtes da Líbia

(bancos de areia traiçoeiros) e os dois perigos do estreito da Sicília confrontadas

por Ulysses: Cila na costa da Calábria e Char Caribdis da Sicília (ver a carta XIV.8).

131 Trecho de Eneida, de Virgílio, VIII,

XXXII.

Sobre progresso

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Eu tenho perguntado sobre você e perguntado a todos que vem da

sua parte do país, o que você está fazendo, onde está gastando seu

tempo e com quem.

Você não pode me enganar, porque eu estou

acompanhando.

Viva como se tivesse certeza de que receberei

notícias de suas ações, ou melhor, como se tivesse certeza de que

eu as vejo.

E se você se perguntar o que particularmente me agrada

do que eu ouço, é que eu não ouço nada que a maioria daqueles que

eu pergunto não sabem o que você está fazendo.

2. Esta é uma boa prática: abster-se de associar-se a homens de

outra estampa e de outros objetivos.

E estou realmente confiante de que você não pode ser corrompido, que você vai manter o seu

propósito, mesmo que a multidão o cerque e procure distraí-lo. O

que, então, está em minha mente? Não tenho medo de que o

alterem, mas tenho medo de que possam retardar seu progresso.

Dificultarem-nos o avanço é um prejuízo de monta, especialmente

porque a vida é tão breve e a tornamos ainda mais curta por nossa

instabilidade, por fazer sempre novos começos na vida: agora um e

depois imediatamente outro.

Nós dividimos a vida em pequenos

pedaços e a desperdiçamos.

3. Apresse-se adiante então, querido Lucílio, e reflita o quanto

aceleraria sua velocidade se um inimigo estivesse nas suas costas

ou se suspeitasse que a cavalaria estivesse se aproximando e

pressionando fortemente seus passos durante uma fuga.

E é isto

mesmo o que sucede: o inimigo está realmente pressionando você;

você deve aumentar a sua velocidade e fugir e chegar a uma posição

segura, lembrando-se continuamente que é nobre completar sua vida

antes da morte chegar e então esperar em paz o quinhão restante

do seu tempo, não reivindicando nada para si mesmo, uma vez que

você já está em posse de uma vida feliz; pois tal vida não se torna

mais feliz por ser mais longa.

4. Oh, quando será que saberá que o tempo não significa nada para

você, quando estará calmo e sereno, despreocupado com o amanhã,

porque estará gozando a sua vida ao máximo? Você sabe o que

torna os homens gananciosos pelo futuro? É que ninguém se

encontrou ainda.

Seus pais, com certeza, pediram outras bênçãos

para você, mas eu mesmo rezo mais para que possa desprezar

todas as coisas que os seus pais desejaram para você em

abundância.

Suas orações saqueiam muitas outras pessoas,

simplesmente para que você possa ser enriquecido.

Tudo o que eles

pedem para você precisará ser removido de outra pessoa.

5. Eu oro para que você possa ter tal controle sobre si mesmo, para

que sua mente, agora abalada por pensamentos errantes, possa

finalmente descansar e ser firme, para que ela possa estar contente

com ela mesma e alcançar uma compreensão do que seja

verdadeiramente bom, e isso estará em nossa posse tão logo

tenhamos este conhecimento, que não há necessidade de anos

adicionais.

Aquele que finalmente superou todas suas necessidades,

aquele que atingiu sua dispensa honrosa e é livre, aquele ainda viverá depois que sua vida foi concluída.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

XXXIII.

Sobre a futilidade de

aprender axiomas

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você deseja que eu conclua essa carta assim como eu encerrei

minhas cartas anteriores, com certas máximas tomadas dos mestres

de nossa escola.

Mas eles não se interessavam em resumos

escolhidos.

Toda a textura de seus trabalhos está cheia de vigor.

Há

desigualdade, você sabe, quando alguns objetos se erguem acima

de outros.

Uma única árvore não é notável se toda a floresta sobe à

mesma altura.

2. A poesia está repleta de declarações desse tipo, assim como a

história.

Por esta razão, eu não quero que pense que essas

expressões pertencem a Epicuro.

Elas são de domínio público e

enfaticamente nossas.

132 São, no entanto, mais notáveis em Epicuro, porque aparecem em intervalos infrequentes e quando não se espera

por elas.

E é surpreendente que palavras viris possam ser faladas a

qualquer momento por um homem afeminado que costumava pregar a indolência.

Pois é isso que a maioria das pessoas sustenta: na

minha opinião, no entanto, Epicuro é realmente um homem corajoso,

mesmo que usasse vestes compridas.

Força moral, energia e

prontidão para a batalha são encontradas entre os persas, tanto

quanto entre os povos que zombam de si mesmos com túnicas

curtas.

3. Portanto, você não precisa recorrer a trechos e citações;

pensamentos que se podem extrair aqui e ali nas obras de outros

filósofos que percorrem todo o corpo de nossos escritos.

Portanto,

não temos bens de mostruário, nem enganamos o comprador de tal

maneira que, se ele entrar na nossa loja, não encontrará nada,

exceto o que é exibido na vitrine.

Nós permitimos que os próprios

compradores retirem suas amostras de qualquer lugar que desejem.

4. Suponha que desejemos separar cada mote do estoque geral, a

quem devemos dar-lhes crédito? A Zenão, Cleantes, Crisipo,

Panécio ou Posidônio? 134 Nós estoicos não somos súditos de um

déspota: cada um de nós reivindica sua própria liberdade.

Com

eles, 135 por outro lado, o que Hermarco diz ou Metrodoro diz, é

atribuído a uma única fonte.

Naquela fraternidade, tudo o que

qualquer homem diz é creditado à liderança e autoridade de um só. 136 Nós não podemos, eu defendo, não importa como, selecionar um item bom de uma multidão de coisas igualmente boas.

Só o pobre conta o seu rebanho.

Pauperis est numerare pecus.

Para onde quer que você dirija seu olhar, você encontrará algo que

pode se destacar do resto, se o contexto em que o lê não for

igualmente notável.

5. Por esta razão, desista de acreditar que pode desnatar, por

meio de resumos, a sabedoria de homens ilustres.

Olhe para a

sua sabedoria como um todo, estude-a como um todo.

Ela elabora

um plano coesamente tecido, linha a linha, uma obra-prima, da qual

nada pode ser tirado sem ferir o todo.

Examine as partes separadas,

se quiser, desde que você as examine como partes do próprio

homem.

Uma bela mulher não é aquela cujo tornozelo ou braço é

elogiado, mas cuja aparência geral faz você esquecer de admirar

atributos únicos.

6. Se você insistir, no entanto, não serei mesquinho com você, mas

pródigo, pois há uma enorme multidão dessas passagens; elas estão

espalhadas em profusão, elas não precisam ser arrebanhadas, mas

apenas colhidas.

Elas não gotejam ocasionalmente, elas fluem continuamente.

Elas são ininterruptas e estão intimamente ligadas.

Sem dúvida, seria muito benéfico para aqueles que ainda são

principiantes, pois um axioma único é compreendido mais facilmente

quando é marcado e delimitado como uma linha de verso.

7. É por isso que damos às crianças um provérbio, ou o que os

gregos chamam chreia (χρεία), 138 para ser aprendido de cor, pois esse tipo de coisa pode ser compreendido pela mente jovem, que

ainda não é totalmente capaz.

Para um homem, no entanto, cujo

progresso é definitivo, perseguir os extratos escolhidos e escorar

sua fraqueza pelos ditos mais conhecidos e mais breves e depender

de sua memória, é vergonhoso; é hora de se apoiar em si mesmo.

Um homem deveria criar tais máximas e não as memorizar.

Pois é

vergonhoso até para um ancião, ou alguém que tenha avistado a

velhice, ter um conhecimento de livro de anotações.

“Foi o que

Zenão disse”. Mas o que você mesmo disse? “Esta é a opinião de

Cleantes”. Mas qual é a sua opinião? Por quanto tempo marchará

sob as ordens de outro homem? Tome o comando e profira alguma

palavra de que a posteridade possa se lembrar.

Coloque algo de seu

próprio estoque.

8. Por isso, considero que não há nada de eminência em homens como estes, que nunca criam nada, mas sempre se escondem à

sombra dos outros, desempenhando o papel de intérpretes, nunca

ousando pôr em prática o que eles tanto estudam.

Eles exercitam

suas lembranças no material de outros homens.

Mas uma coisa é

lembrar, outra, saber.

Lembrar é meramente salvaguardar algo

confiado à memória; saber, no entanto, significa fazer tudo você

mesmo; significa não depender da cópia e não precisar lançar o

olhar o tempo todo para o mestre.

9. “Assim disse Zenão, assim disse Cleantes, de fato! ” Que haja

uma diferença entre você e seu livro! Quanto tempo você deve ser

um aprendiz? De agora em diante, seja professor também! “Mas por

que”, pergunta-se, “eu deveria continuar ouvindo palestras sobre o

que eu posso ler? ” “A voz viva”, responde o mestre, “é uma grande

ajuda”. Talvez, mas não a voz que apenas se faz o porta-voz das

palavras de outra pessoa e só executa o ofício de um estenógrafo.

10. Considere também este fato.

Aqueles que nunca alcançaram a

sua independência mental começam, em primeiro lugar, seguindo o

líder nos casos em que todos abandonaram o líder; depois, em

segundo lugar, seguem-no em assuntos onde a verdade ainda está sendo investigada.

No entanto, a verdade nunca será descoberta se

descansarmos satisfeitos com as descobertas já feitas.

Além disso,

aquele que segue o outro autor não só não descobre nada, mas nem

sequer está investigando.

11. O quê então? Não seguirei os passos de meus predecessores?

Me recusarei a percorrer vias já trilhadas? Devo realmente usar a

estrada velha, mas se encontrar um atalho que seja mais suave

para viajar, devo abrir a nova estrada.

139 Os homens que fizeram essas descobertas antes de nós não são nossos donos, mas

nossos guias.

A verdade está à disposição de todos, ainda não foi

monopolizada.

E ainda há muito dela para a posteridade descobrir.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

132 NT: Tanto estoica como epicurista.

133 NT: As largas mangas da túnica de Epicuro ou as amplas vestes dos Persas e de outros povos orientais eram consideradas pelo romano Sêneca, homem de

"túnica curta", indícios de personalidade efeminada e libidinosa.

134 Zenão... Posidônio: os estoicos são citados por ordem de sucessão: primeiro os três chefes da escola, então os estoicos que trouxeram o conhecimento para Roma, Panécio e Posidônio, contemporâneo de Pompeu e Cicero.

Embora Sêneca

classifique Posidônio com os mestres, ele não mostrará um interesse próximo na ética ou antropologia de Posidônio até a carta (Volume II), quando ele claramente começou a lê-lo como um estímulo para argumentação.

135 Os epicuristas.

136 Creditado a um homem: isto é, Epicuro, que se apropriou das sábias palavras de seus seguidores.

137 Trecho de Metamorfose de Ovídio, XIII, 824.

138 Uma chreia é uma breve, útil (χρεία significa "usar") anedota de um determinado personagem.

Chreia consistia em uma forma de educação gramatical

onde alunos tomavam um axioma de um sábio escolhido e o reformulavam em

diferentes padrões sintáticos.

139 Sêneca não se compara a um caminhante, mas a um construtor de estrada (o verbo é munire, construir uma estrada) que, portanto, criará caminhos para que os outros usem depois dele.

XXXIV.

Sobre um aluno

promissor

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Eu cresço em espírito e pulo de alegria e esqueço a minha idade e meu sangue corre quente novamente sempre que percebo, a partir

de suas ações e cartas, quanto você superou o homem convencional

que você deixou para trás há muito tempo.

Se o fazendeiro se

satisfaz quando sua árvore cresce e dá frutos, se o pastor se

satisfaz com o aumento de seu rebanho, se cada homem considera

seu discípulo como a si próprio ainda em juventude, então, quais

pensa serem os sentimentos daquele que treinou uma mente e

modelou uma nova ideia, quando de repente ele percebe que esta

está madura?

2. Eu me dou o crédito: você é obra minha.

Quando vi suas

habilidades e natureza de seu caráter, coloquei as mãos sobre você,

lhe incentivei e não permiti que você fosse preguiçoso e ainda lhe

estimulei continuamente.

E agora estou fazendo o mesmo, mas desta

vez, estou torcendo por alguém que está na disputa e isto me anima.

3. “O que mais quer de mim então? ”, você pergunta, “a vontade

ainda é minha”. Bem, a vontade é neste caso quase tudo e não

apenas a metade, como diz o ditado “uma tarefa começada é meio

caminho andado”. É mais do que a metade, pois a questão de que

falamos é determinada pela alma.

140 Consequentemente a maior

parte da bondade é a vontade de querer ser bom.

Você sabe o que eu quero dizer com um bom homem? Alguém que é completo,

definido e que não pode ser corrompido por nenhuma coerção ou

necessidade.

4. Vejo uma pessoa assim em você, se você perseverar e se dobrar

para sua tarefa e fizer com que todas as suas ações e palavras se

harmonizem e correspondam umas com as outras e sejam

carimbadas no mesmo molde.

Se os atos de um homem não estão

em harmonia com suas palavras, sua alma está corrompida.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

140 Ou seja, o provérbio pode aplicar-se a tarefas que um homem executa com as mãos, mas é uma subavaliação quando aplicado às tarefas da alma.

XXXV.

Sobre a amizade entre

mentes semelhantes

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Quando eu insisto com tanta força em seus estudos da filosofia, é

meu próprio interesse que eu estou defendendo: quero sua amizade

e ela não me será proveitosa a menos que você continue com a tarefa de se desenvolver.

Por enquanto, embora me ame, você ainda

não é meu amigo.

“Mas,” você responde, “teriam essas palavras

significado diferente? ” Sim, elas são totalmente diferentes em

significado.

Um amigo lhe ama, é claro; mas quem lhe ama não é,

em todos os casos, seu amigo.

A amizade, portanto, é sempre útil,

mas o amor, às vezes, faz mal e é nocivo.

Tente aperfeiçoar-se, se

não por outra razão, para que você possa aprender como amar.

2. Apresse-se, portanto, para que, enquanto aperfeiçoa-se para meu

benefício, você não tenha aprendido a perfeição em benefício de

outrem.

Com certeza, já estou obtendo algum lucro ao imaginar que

nós dois seremos de uma só mente e que qualquer parte da minha

força que tenha cedido à idade retornará para mim por sua força,

embora não haja tanta diferença em nossas idades.

3. Mas ainda assim desejo me alegrar no fato consumado.

Nós

sentimos uma alegria por aqueles que amamos, mesmo quando

separados deles, mas tal alegria é leve e passageira.

A visão de

uma pessoa, a sua presença e a comunhão com ela proporcionam

algo de prazer vivo; isso é verdade, de alguma maneira, se alguém

não só vê o homem que deseja, mas o tipo de homem que deseja.

Doe-se a mim, portanto, como um presente de grande preço e, para que você possa se esforçar ainda mais, reflita que você mesmo é

mortal e que eu sou velho.

4. Apresse-se a me encontrar, mas apresse-se a encontrar-se em

primeiro lugar.

Progrida e, antes de tudo, procure ser consistente

consigo mesmo.

E quando quiser descobrir se conseguiu alguma

coisa, considere se você deseja hoje as mesmas coisas que você

desejava ontem.

Um deslocamento da vontade indica que a mente

está em deriva no mar, indo em várias direções de acordo com o

curso do vento.

Mas o que está estabelecido e sólido não vagueia de

seu posto.

Este é o terreno abençoado do homem completamente

sábio e também, em certa medida, daquele que está progredindo e

tem feito alguns avanços.

Qual é a diferença entre essas duas

classes de homens? Um está em movimento, com certeza, mas não

muda sua posição; simplesmente debate-se a cima e a baixo onde

está; o outro está absolutamente estável, sem oscilar sua base.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

XXXVI.

Sobre o valor da

aposentadoria Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Incentive seu amigo a desprezar corajosamente aqueles que o

censuram porque ele procurou a sombra da vida privada e abdicou

de sua carreira de honras e, embora pudesse ter alcançado mais,

preferiu a tranquilidade.

Deixe-o provar diariamente a estes

detratores como sabiamente ele defendeu seus próprios interesses.

Aqueles que são invejados pelos homens passam ao largo, alguns

serão empurrados para fora de sua posição social e outros cairão.

A

prosperidade é uma coisa turbulenta, ela atormenta.

Ela agita o

cérebro em mais de um sentido, incitando os homens a vários

objetivos, alguns para o poder, outros para a vida de luxúria.

Alguns

ela enche de orgulho, outros afrouxa, mas a todos destrói

igualmente.

2. “Mas”, diz a réplica, “Fulano conduz bem a sua prosperidade”.

Sim, assim como ele conduz bem sua bebida.

Então você precisa

não deixar que essa classe de homens o persuada, que aquele que é

sitiado pela multidão é feliz.

A multidão corre para ele como correm

para uma lagoa de água, tornando-a lamacenta enquanto a drenam.

Mas você diz: “Os homens chamam nosso amigo de insignificante e

preguiçoso”. Há homens, você sabe, cujo discurso é oblíquo, que usam termos contraditórios.

Eles o chamavam de feliz, e daí? Era

ele feliz?

3. Mesmo o fato de que para algumas pessoas ele se pareça com

um homem de mente muito áspera e sombria, não me incomoda.

Aristo142 costumava dizer que preferia um jovem sisudo a um homem jovial e agradável à multidão.

“Pois”, acrescentava, “vinho que,

quando novo, parece áspero e azedo, torna-se bom vinho, mas o

que provou bem na vindima, pode não suportar a idade.

” Então, que

eles o chamem de severo e inimigo de seu próprio progresso, é essa

severidade que cairá bem quando envelhecer, desde que continue a

apreciar a virtude e a absorver completamente os estudos que faz

para a cultura, 143 não aqueles suficientes para que um homem se

borrife, mas aqueles em que a alma deve ser mergulhada e ficar

impregnada.

4. Agora é a hora de aprender.

“O quê? Há alguma época em que

um homem não deva aprender? ” De jeito nenhum, mas assim como

é meritório para todas as idades estudar, não é meritório para todas

as idades ser instruído nas primeiras letras.

Um homem velho que

aprende seu ABC é uma coisa vergonhosa e absurda; o jovem deve armazenar, o velho deve usar.

Você, portanto, estará fazendo uma

coisa mais útil para si mesmo se você fizer deste amigo seu um

homem tão bom quanto possível; essas bondades, dizem eles,

devem ser buscadas e concedidas, pois beneficiam ao doador não

menos que ao receptor; e elas são, sem dúvida, as melhores.

5. Finalmente, não tem mais nenhuma liberdade no assunto, aquele

que empenhou sua palavra.

E é menos vergonhoso renegociar com

um credor do que renegociar com um futuro promissor.

Para pagar

sua dívida de dinheiro, o homem de negócios deve ter uma

expedição lucrativa, o agricultor deve ter campos frutíferos e bom

tempo, mas a dívida de seu amigo pode ser completamente paga

por mera boa vontade.

6. A Fortuna não tem jurisdição sobre o caráter.

Permita regular seu

caráter de modo que, em perfeita paz, possa trazer à perfeição

aquele espírito que não sente perda nem ganho, mas que permanece

na mesma atitude, não importa como as coisas se dão.

Um espírito

como este, se agraciado com bens mundanos, se eleva à sua

riqueza; se, por outro lado, o acaso o despoja de uma parte de sua

riqueza ou mesmo de tudo, não é prejudicado.

7. Se seu amigo tivesse nascido no Império Parta, ele teria começado, quando criança, a dobrar o arco; se na Germânia, estaria

brandindo a sua esguia lança; se ele tivesse nascido nos dias de

nossos antepassados, ele teria aprendido a montar um cavalo e a

castigar seu inimigo mão a mão.

Estas são as ocupações que o

sistema de cada estirpe recomenda ao indivíduo, mais que isso,

prescreve a ele.

8. Ao que, então, esse amigo seu dedicará sua atenção? Eu digo,

que aprenda o que é útil contra todas as armas, contra todo

tipo de inimigo: o desprezo pela morte.

Porque ninguém duvida

que a morte tenha em si algo que inspire o terror, de modo que

choca até mesmo nossas almas, que a natureza moldou para que

amem sua própria existência; pois de outro modo não haveria

necessidade de nos preparar e de aguçar nossa coragem para

encarar o que deveria ser uma espécie de instinto voluntário, pois da

mesma forma todos os homens tendem a preservar sua existência.

9. Nenhum homem aprende uma coisa a fim de que, se a

necessidade surgir, ele possa se deitar sobre um leito de rosas; mas

ele prepara sua coragem para que não entregue sua fé à tortura e

que, se necessário, possa algum dia ficar de guarda nas trincheiras

sem se apoiar na sua lança, mesmo estando ferido; porque o sono é capaz de rastejar até os homens que se sustentam por qualquer

suporte.

Na morte não há nada prejudicial pois deve existir algo para

que ela seja prejudicial.

10. E ainda, se você está possuído por tão grande desejo de uma

vida mais longa, reflita que nenhum dos objetos que desaparecem do

nosso olhar e são reabsorvidos no mundo das coisas é aniquilado,

eles surgem e em breve irão ressurgir, eles simplesmente terminam

o seu curso, contudo não perecem.

E a morte, que tememos e nos

afastamos, simplesmente interrompe a vida, mas não a rouba; o

tempo voltará quando seremos restaurados à luz do dia, num

regresso ao qual muitos homens opor-se-iam se não fossem

trazidos de volta tendo esquecido o passado.

11. Mas quero mostrar-lhe, mais tarde, com mais cuidado, que tudo

o que parece perecer apenas se transforma.

145 Uma vez que você

está destinado a retornar, você deve partir com uma mente tranquila.

Perceba como o percurso do universo repete seu curso: você

verá que nenhuma estrela em nosso firmamento é extinguida,

mas que todas elas surgem e se erguem em alternância.

O verão

foi embora, mas outro ano o trará de novo; o inverno está acabando, mas será restaurado por seus próprios meses; a noite dominou o

sol, mas o dia logo derrubará a noite outra vez.

As estrelas nômades

retraçam seus cursos anteriores, uma parte do céu está em

ascensão incessantemente e uma parte está em movimento

descendente.

12. Uma palavra mais e então vou parar; as crianças de colo, os

jovens e os que ficaram loucos não têm medo da morte, é muito

vergonhoso se a razão não pode nos dar essa paz de espírito que é

trazida pela carência de razão.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

141 Aposentadoria no sentido de se afastar dos negócios e da vida pública.

Um amigo de Lucílio quer se aposentar do serviço público e está recebendo críticas.

Depois de recomendar o treinamento para enfrentar o infortúnio, Sêneca se volta para desprezar o medo da morte, uma vez que a morte é inevitável e não traz sofrimento.

Mais sobre o tema no tratado de Sêneca, Sobre o Ócio.

142 Aríston ou Aristo de Quios foi um filósofo estoico e discípulo de Zenão de Cítio.

Esboçou um sistema de filosofia estoica que esteve, em muitos aspectos, mais próximo da anterior filosofia cínica.

Rejeitou o lado lógico e físico da filosofia aprovada por Zenão e enfatizou a ética.

143 NT: Ver carta LXXXVIII sobre a posição de Sêneca acerca dos estudos liberais (Volume II).

144 Como depois da morte, nós não existimos, a morte não pode ser prejudicial para nós.

Sêneca tem em mente o argumento de Epicuro: “Portanto, o mais pavoroso de todos os males, a morte, não é nada para nós, pois quando nós existimos, a morte não está presente para nós e quando a morte está presente,

então não existimos.

Portanto, não diz respeito aos vivos ou aos mortos, pois

para os vivos não tem existência e para os mortos não existe.” Ver Epicuro,

Cartas e Princípios.

145 NT: Infelizente, não existe entre as cartas preservadas nenhuma em que Sêneca aborde sistematicamente esta questão.

XXXVII.

Sobre a lealdade à

virtude

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você prometeu ser um homem bom, você se alistou sob

juramento, esta é a corrente mais forte que irá mantê-lo no bom

discernimento.

Qualquer homem estará zombando de você, se

declarar que este é um tipo de alistamento afeminado e fácil.

Eu não

vou lhe enganar.

A palavra deste pacto mais honroso é a mesma que as palavras daquele mais vergonhoso, a saber, jurar submeter-se “à

tortura, à prisão ou à morte pela espada”.

2. No caso dos homens que vendem suas forças na arena, que

comem e bebem o que devem pagar com seu sangue, é certo que

suportarão tais provações mesmo que relutantemente; de você, que

as suporte voluntariamente e com empenho.

O gladiador pode

abaixar sua arma e testar a piedade do povo, mas você não abaixará

a sua arma nem suplicará pela vida.

Você deve morrer ereto e

inflexível.

Além disso, que lucro é ganhar alguns dias ou alguns anos?

Não há absolvição para nós desde o momento em que nascemos.

Nós, estoicos, não podemos ser desmobilizados!

3. “Como posso então me libertar? ” Você pergunta.

Você não pode

fugir do inevitável, mas pode superá-lo:

pela força um caminho é aberto.

Fit via vi.

E esta maneira lhe será dada pela filosofia.

Recorra, portanto, à

filosofia se quiser estar seguro, tranquilo, feliz, se quiser ser – e isso

é mais importante – livre.

Não há outra maneira de atingir esse fim.

4. A estupidez148 é vil, abjeta, má, servil e exposta a muitas das paixões mais cruéis.

Essas paixões, que são severas capatazes, às vezes governam em turnos e às vezes juntas, porém podem ser

banidas de você pela sabedoria, que é a única liberdade real.

Há

apenas um caminho que leva para lá e é um caminho reto: você não

se extraviará.

Prossiga com passo firme e se você tiver todas as

coisas sob seu controle, coloque-se sob o controle da razão, se a

razão se tornar sua governante, você se tornará governador de

muitos.

Você aprenderá com ela o que deve empreender e como

deve ser feito, assim não será surpreendido pelos acontecimentos.

5. Você não pode me mostrar nenhum homem que saiba como ele

começou a desejar o que ele deseja.

E por quê? Porque o homem

comum não foi levado a esse passo por premeditação, ele foi

arrastado por impulsos.

A Fortuna nos ataca quantas vezes

atacarmos a Fortuna.

É vergonhoso, em vez de seguir em frente,

ser levado e, de repente, em meio ao redemoinho dos

acontecimentos, perguntar de forma aturdida: “Como é que eu

entrei nessa situação? ”

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas: 146 Sêneca se refere ao famoso juramento que o gladiador tomava quando em contrato com o mestre da luta; Uri, vinciri, verberari ferroque necari patior; O

juramento é abreviado no texto, provavelmente pelo próprio Sêneca, que o

parafraseia na carta 71 (Volume II).

147 Trecho de Eneida, de Virgílio, II, 494.

148 Na linguagem do estoicismo, a estupidez, “stultitia”, é a antítese da

“sapientia”, sabedoria.

Lembre que por ‘estupidez’ não deve entender-se meramente a ausência de conhecimentos, mas antes o estado de quem vive à

margem dos princípios morais estabelecidos pela filosofia.

XXXVIII.

Sobre o ensinamento

tranquilo

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você está certo quando você pede que aumentemos nosso

tráfego mútuo de cartas.

Mas o maior benefício é derivado da

conversa, porque ela se desliza gradualmente até a alma.

Palestras

preparadas de antemão e lançadas na presença de uma multidão

têm nelas mais barulho, mas menos intimidade.

Filosofia é um bom

conselho e ninguém pode dar conselhos gritando com toda sua força.

É claro que às vezes também devemos usar esses discursos

bombásticos, se assim posso chamá-los, quando um membro

duvidoso precisa ser estimulado a esporas; mas quando o objetivo

é fazer com que um homem aprenda e não apenas fazê-lo

desejar aprender, devemos recorrer às palavras em tom de

conversa.

Elas entram mais facilmente e ficam na memória; pois

não precisamos de muitas palavras, mas palavras mais eficazes.

2. As palavras devem ser espalhadas como sementes.

Não importa

quão pequena a semente possa ser, se uma vez encontra terreno

favorável, desdobra sua força e de uma coisa insignificante se

espalha para seu grandioso crescimento.

A razão cresce da mesma

maneira, não é grande à primeira vista, mas aumenta à medida que

faz seu trabalho.

Poucas palavras são ditas, mas se a mente

realmente as apanha, elas entram em vigor e brotam.

Sim,

ensinamentos e sementes têm a mesma qualidade, eles produzem

muito e ainda assim são pequenas coisas.

Apenas, como eu disse,

deixe uma mente favorável recebê-las e assimilá-las.

Então, por si

só, a mente também produzirá abundantemente por sua vez,

retribuindo com mais do que recebeu.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

XXXIX.

Sobre aspirações

nobres

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. De fato, arranjarei para você, em ordem cuidadosa e delimitada,

as notas que você pede.

Mas considere se você não pode obter

mais ajuda do método habitual149 do que a partir do que agora é

comumente chamado de “breviário”, embora nos bons velhos

tempos, quando o latim real era falado, isso fosse chamado de

“súmula” 150 . O primeiro é mais necessário a quem está aprendendo um assunto, este último a alguém que o conhece.

Pois um ensina, o

outro agita a memória.

Mas vou lhe dar abundante oportunidade para

ambos.

Um homem como você não deveria me pedir esta

autorização ou aquela, aquele que fornece um fiador para suas

declarações, demonstra-se leigo.

2. Por conseguinte, escreverei exatamente o que você deseja, mas o

farei a meu modo.

Até lá, você tem muitos autores cujas obras

presumivelmente manterão suas ideias suficientemente em ordem.

Pegue a lista dos filósofos.

Esse mesmo ato irá obrigá-lo a acordar, quando você vir quantos homens têm trabalhado para seu benefício.

Você desejará ansiosamente ser um deles você mesmo, pois esta é

a qualidade mais excelente que a alma nobre tem dentro de si, ela

pode ser despertada para atitudes virtuosas.

Nenhum homem de

dons elevados está satisfeito com o que é inferior e medíocre, a

visão de grandes realizações o convoca e inspira.

3. Assim como a chama salta diretamente para o ar e não pode ser

restrita ou mantida ao chão e não pode repousar em silêncio, assim

também a nossa alma está sempre em movimento, e quanto mais

ardente é, maior o seu movimento e atividade.

Mas feliz é o homem

que aplica este ímpeto para coisas melhores! Ele se colocará além

da jurisdição do acaso, ele sabiamente administrará a prosperidade,

ele diminuirá a adversidade e desprezará o que os outros têm em

admiração.

4. É a qualidade de uma grande alma desprezar grandes coisas e

preferir o que é ordinário, em vez do que é muito grandioso.

Pois

uma condição é útil e vivificante, mas a outra faz mal apenas porque

é excessiva.

Da mesma forma, um solo muito rico faz com que o grão cresça insosso, que ramos quebrem sob uma carga muito

pesada, produtividade excessiva não traz frutos para o

desenvolvimento pleno.

Este é o caso da alma também, pois é

arruinada pela prosperidade descontrolada, que é usada não só em

detrimento dos outros, mas também em detrimento de si mesma.

5. Qual inimigo é tão nocivo para qualquer adversário como são seus

prazeres para certos homens? A única desculpa que podemos

permitir para a incontinência e a luxúria exasperada desses homens

é o fato de que sofrem os males que infligiram aos outros.

E são

devidamente assediados por essa loucura, porque o desejo precisa

de espaço ilimitado para suas excursões, se transgride a média

natural.

Pois a natureza tem seus limites mas, a rebeldia e os atos

que brotam das necessidades artificiais derivadas do prazer

obstinado, não têm fronteiras.

6. A utilidade avalia nossas necessidades, mas por qual padrão você

pode aferir o que é supérfluo? É por esta razão que os homens se

afundam nos prazeres e não podem ficar sem eles quando se

acostumaram a eles e por isso são mais miseráveis, porque

chegaram a tal ponto que o que antes lhes era supérfluo tornou-se

indispensável.

E assim eles são escravos de seus prazeres em vez de apreciá-los; eles até amam seus próprios vícios – e esse é o pior

mal de todos! É então que se alcança o auge da infelicidade, quando

homens não são apenas atraídos, mas até satisfeitos, por coisas

vergonhosas e quando não há mais espaço para uma cura, pois

agora aquelas coisas que outrora eram vícios, se tornaram hábitos.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

149 O método regular de estudar filosofia era, como deduzimos desta carta, um curso de leitura dos filósofos.

Sêneca deprecia o uso do “ breviário”(sinopse, resumo), que é apenas uma ajuda de memória, como um substituto para a leitura,

pelo fato de que, pelo seu uso, não se aprende o assunto em primeiro lugar e, em

segundo lugar e principalmente, que alguém perca a inspiração a ser derivada do

contato direto com grandes pensadores.

O pedido de Lucílio por um resumo,

portanto, sugere o tópico principal da carta, que é abordado no segundo parágrafo.

150 Breviarium e summarium em Latin

XL. Sobre o estilo apropriado

para o discurso de um filósofo

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Agradeço-lhe por ter me escrito tantas vezes, pois você está

revelando seu verdadeiro espirito para mim da única maneira que

pode.

Eu nunca recebo uma carta sua sem entrar imediatamente em

sua companhia.

Se um retrato de nossos amigos ausentes é

agradável para nós, embora apenas refresque a memória e alivie

nosso anseio por um consolo irreal e insubstancial, quão mais

agradável é uma carta, que nos traz verdadeiros vestígios,

evidências reais de um amigo ausente! A impressão da mão de um

amigo gravada na folha da carta permite-nos sentir a sua presença –

aquilo, finalmente, que mais nos interessa no encontro face a face.

2. Você escreve-me que ouviu uma palestra do filósofo Serapião,

quando esteve em seu lugar de residência na Sicília.

“Ele está

acostumado”, você diz, “a distender suas palavras em uma corrida

poderosa e não deixa que elas fluam uma a uma, mas as faz se

aglomerarem e se precipitarem uma sobre a outra.

Uma única voz

é inadequada para expressá-las.

” Eu não aprovo isso em um

filósofo: seu discurso, como sua vida, deve ser sereno e nada que

corre impetuosamente e é apressado pode ser bem ordenado.

É por

isso que, em Homero, o estilo rápido, que varre sem uma pausa como uma rajada de neve, é atribuído ao orador mais jovem; do

idoso a eloquência flui delicadamente, mais doce do que o mel.

3. Portanto, marque minhas palavras: essa maneira vigorosa de

falar, rápida e copiosa, é mais adequada a um charlatão do que a um

homem que está discutindo e ensinando um assunto importante e

sério.

Mas eu me oponho fortemente tanto que você goteje suas

palavras, como que as lance em alta velocidade, não se deve manter

a orelha sob suspense, nem a ensurdecer.

Pois esse estilo pobre e

fraco também torna o público menos atento porque o cansa de sua

lentidão balbuciante; no entanto, a palavra que há muito se espera

penetra com mais facilidade do que a palavra que passa

rapidamente.

Finalmente, as pessoas falam de “transmitir” preceitos

aos seus alunos, mas não se está “transmitindo” o que escapa à

compreensão.

4. Além disso, o discurso que lida com a verdade deve ser simples e

sem artifícios.

Este estilo popular não tem nada a ver com a

verdade, seu objetivo é impressionar o rebanho comum, para

arrebatar orelhas despreocupadas por sua velocidade.

Não se

oferece para discussão, mas se afasta da discussão.

Mas como

esse discurso pode governar outros que não podem ser governados? Não posso também mencionar que todo discurso que é empregado

com o propósito de curar nossas mentes, deve penetrar em nós?

Remédios não valem, a menos que permaneçam no sistema.

5. Além disso, esse tipo de discurso contém uma grande quantidade

de vazio, tem mais som do que poder.

Meus terrores deveriam ser

acalmados, minhas irritações apaziguadas, minhas ilusões sacudidas,

minhas indulgências contidas, minha ganância repreendida.

E qual

dessas curas pode ser feita com pressa? Que médico pode curar

seu paciente em uma visita de passagem? Posso acrescentar que tal

jargão de palavras confusas e mal escolhidas também não pode nem

ao menos proporcionar prazer?

6. Mas, assim como na maioria dos casos você ficaria satisfeito em

ter visto truques os quais não pensava que poderiam ser feitos,

então no caso desses ginastas de palavra, tê-los ouvido uma vez é

mais que o suficiente.

O que um homem deseja aprender ou imitar

neles? O que deve pensar de suas almas quando seu discurso é

enviado para o ataque em total desordem e não pode ser

controlado?

7. Assim como, quando você corre ladeira abaixo, você não

consegue parar no ponto planejado, mas seus passos são levados pelo momento de seu corpo e são carregados para além do local

onde você quis parar, então essa velocidade de fala não tem controle

sobre si mesma, nem é apropriada para a filosofia, uma vez que a

filosofia deve cuidadosamente colocar suas palavras, não as

arremessar ao esmo, e as deve apresentar passo a passo.

8. “O quê então?” Você diz; “Não deveria a filosofia tomar às vezes

um tom mais majestoso? ” Claro que ela deveria, mas a dignidade de

caráter deve ser preservada e isso é despojado por força tão

violenta e excessiva.

Que a filosofia possua grandes forças, mas

bem controladas; deixe seu fluxo fluir incessantemente, mas nunca se

tornar uma torrente.

E eu dificilmente permitiria até mesmo a um

advogado uma rapidez de discurso como esta, que não pode ser

chamada de volta, que vai à frente sem lei.

Pois como poderia ser

seguido pelos jurados, que são frequentemente inexperientes e não

treinados? Mesmo quando o advogado é levado por seu desejo de

mostrar seus poderes ou por uma emoção incontrolável, mesmo

assim ele não deve acelerar o seu ritmo e amontoar as palavras em

uma extensão maior do que o ouvido pode suportar.

9. Você estará agindo corretamente, portanto, se você evitar aqueles homens que procuram o quanto podem dizer, ao invés de o que

devem dizer.

E se for para escolher, já que uma escolha deve ser

feita, fale como Públio Vinício, 152 o gago.

Quando perguntaram a Asélio como Vinício falou, ele respondeu: “Arrastada”! Gémino

Valério, por seu lado, observava a propósito: “Eu não vejo como

você pode chamar esse homem de eloquente, porque, ele não pode

pronunciar três palavras juntas.

” Por que, então, você não deveria

escolher falar como Vinício faz?

10. Embora, naturalmente, alguns gaiatos possam atravessar o seu

caminho, como a pessoa que disse, quando Vinício estava

arrastando suas palavras uma a uma, como se ele estivesse ditando

e não falando.

“Diga alguma coisa, você não tem nada a dizer?” E,

no entanto, essa era a melhor escolha, pois a rapidez de Quinto

Hatério, o orador mais famoso de sua época é, a meu ver, evitada

por um homem sensato.

Hatério nunca hesitava, nunca parava; ele

fazia apenas um começo e apenas uma parada, num só folego.

11. No entanto, suponho que certos estilos de linguagem sejam mais

ou menos adequados às nações também; em um grego você pode

tolerar o estilo desenfreado, mas nós, romanos, mesmo quando

escrevemos, nos acostumamos a separar nossas palavras.

E nosso compatriota Cícero, com quem a oratória romana saltou a destaque,

também tinha um passo lento.

A língua romana está mais inclinada a

fazer um balanço de si mesma, a ponderar e a oferecer algo que

valha a pena ponderar.

12. Fabiano, 153 homem notável por sua vida, por seu conhecimento e, menos importante do que estes, por sua eloquência também,

costumava discutir um assunto com mais urgência do que com

pressa; consequentemente você poderia chamar de facilidade ao

invés de velocidade.

Eu aprovo esta qualidade no homem sábio, mas

eu não a exijo.

Apenas deixe seu discurso prosseguir sem

obstáculos, embora eu prefira que ele deva ser deliberadamente

proferido, em vez de conter excessiva abundância.

13. Contudo, tenho esta razão adicional para afastá-lo desta última

doença, saber que você poderia somente ser bem-sucedido em

praticar este estilo perdendo seu senso de auto respeito; você teria

que raspar toda a vergonha do seu semblante e se recusar a se

ouvir a falar.

Pois esse fluxo despreocupado levará junto muitas

expressões que você gostaria de criticar.

14. E, repito, você não poderia conseguir e ao mesmo tempo, preservar sua sensação de vergonha.

Além disso, você precisaria

praticar todos os dias e transferir sua atenção do assunto para as

palavras.

Mas as palavras, mesmo que elas venham a você

prontamente e fluam sem qualquer esforço de sua parte, ainda

teriam que ser mantidas sob controle.

Pois, assim como um andar

menos ostensivo calha bem a um filósofo, o mesmo acontece com

um estilo de expressão reprimido, longe da ousadia.

Portanto, a

súmula dos meus conselhos é o seguinte: eu lhe digo que seja

lento ao falar.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

151 Referência a Homero, Ilíada, III, 222 sobre a eloquência de Ulisses, o "orador mais jovem" em comparação com I, 249 Nestor, o "orador idoso".

152 NT: Públio Vinício foi um senador romano eleito cônsul em d.C.

153 NT: Papirio Fabiano foi um retórico e filósofo da Roma Antiga, ativo na última época de Augusto e nos tempos de Tibério e Calígula, na primeira metade do primeiro século.

Foi professor de Sêneca.

Suas obras são frequentemente citadas

por Plínio na História Natural e Sêneca diz que seus escritos filosóficos foram superados apenas pelos de Cícero, Pólio e Lívio.

154 Sêneca usa um neologismo “tardiloquus” XLI.

Sobre o Deus dentro de nós

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você está fazendo uma coisa excelente, que será saudável para

você se, como você escreve-me, está a persistir em seu esforço

para alcançar o discernimento sólido.

Seria tolo rezar por isso

quando pode adquiri-lo por si mesmo.

Não precisamos elevar

nossas mãos para o céu, nem implorar ao ministro de um templo que

nos deixe chegar à orelha da estátua de seu deus, como se desse

modo nossas orações fossem mais prováveis de serem ouvidas.

A

divindade está perto de você, ela está com você, ela está dentro de

você.

2. É isso que quero dizer, Lucílio: um espírito santo mora dentro de

nós, aquele que anota nossas boas e más ações e é nosso guardião.

À medida que tratamos esse espírito, também somos tratados por

ele.

De fato, nenhum homem pode ser bom sem a ajuda de Deus.

Pode alguém elevar-se acima da Fortuna, a menos que Deus o ajude

a se levantar? Ele é Aquele que dá conselhos nobres e retos.

Em

cada homem de bem,

um deus habita, mas qual deus nós não sabemos.

Quis deus incertum est,

habitat deus.

3. Se alguma vez você se deparou com um bosque cheio de árvores

antigas que cresceram a uma altura incomum, fechando a visão do

céu por um véu de ramos cheios e entrelaçados, então a imponência

da floresta, a reclusão do lugar e sua admiração com a espessa

sombra ininterrupta no meio dos espaços abertos irá provar-lhe a

presença da divindade.

Ou se uma caverna, feita pelo profundo

desmoronamento das rochas, sustenta uma montanha em seu arco,

um lugar não construído com as mãos, mas esvaziado em tais

espaços por causas naturais, sua alma será profundamente

comovida por uma certa intimação da existência de Deus.

Nós

adoramos as fontes de rios poderosos, erguemos altares em lugares

onde grandes riachos brotam subitamente de fontes ocultas,

adoramos as fontes de águas termais como divinas e consagramos

certos poços por causa de suas águas opacas ou sua imensurável

profundidade.

4. Se você vê um homem que está sem medo no meio de perigos,

intocado por desejos, feliz na adversidade, pacífico em meio à tempestade, que olha para os homens de um plano superior e vê os

deuses em pé de igualdade, não irá um sentimento de reverência por

ele abater sobre você? Você não iria dizer: “Esta qualidade é muito

grande e muito sublime para ser considerada como semelhante a

este pequeno corpo em que habita? Um poder divino desceu sobre

esse homem”.

5. Quando uma alma se eleva superior a outras almas, quando está

sob controle, quando passa por cada experiência como se fosse de

pequena conta, quando sorri aos nossos medos e às nossas

orações, é inspirada por uma força do céu.

Uma coisa como esta

não pode ficar de pé, a menos que seja sustentada pelo divino.

Portanto, uma maior parte dela permanece naquele lugar de onde

veio à terra.

Assim como os raios do sol realmente tocam a terra,

mas ainda permanecem na fonte de onde são enviados, assim

também a alma grande e santificada, que desceu para que

possamos ter um conhecimento mais próximo da divindade, de fato

se associa a nós, mas ainda se liga à sua origem, dessa fonte ela

depende, para onde vira seu olhar e se esforça a ir e se preocupa

com nossas ações apenas como um ser superior a nós mesmos.

6. O que, então, é tal alma? Uma que é resplandecente sem nenhum bem externo, mas apenas com si própria.

Pois o que é mais tolo do

que louvar em um homem as qualidades que vêm de fora? E o que é

mais insano do que maravilhar-se com características que podem, no

instante seguinte, ser transmitidas a outra pessoa? Um freio de ouro

não faz um cavalo melhor.

O leão com juba adornada por ouro, em

processo de treinamento e forçado pelo cansaço a suportar a

decoração, é enviado para a arena de uma maneira completamente

diferente do leão selvagem cujo espírito é intacto.

Este último, de

fato, ousado em seu ataque, como a natureza desejava que fosse,

impressionante por causa de sua aparência selvagem e é sua a

glória que ninguém consiga olhar para ele sem medo.

Este é

preferível ao outro leão, aquela fera apática e dourada.

7. Nenhum homem deve se gloriar, exceto daquilo que é seu.

Nós louvamos uma videira se faz os brotos crescerem com

progresso, se pelo seu peso ela dobra ao solo as estacas que

suportam seu fruto, iria algum homem preferir a esta videira uma

onde pendem uvas douradas e folhas douradas? Em uma videira a

virtude peculiarmente própria é a fertilidade.

No homem também devemos louvar o que é seu.

Suponha que ele tem um séquito de

escravos agradáveis e uma bela casa, que sua fazenda é grande e

ampla sua renda, nenhuma dessas coisas está no próprio homem,

elas estão todas do lado de fora.

8. Elogie a qualidade nele que não pode ser dada ou retirada, que é

a propriedade peculiar do homem.

Você pergunta o que é isso? É a

alma e a razão trazida à perfeição pela alma.

156 Pois o homem é um animal de raciocínio.

Portanto, o maior bem do homem é atingido se

ele cumpriu o bem para o qual a natureza o projetou no nascimento.

9. E o que é que a razão exige dele? A coisa mais fácil do mundo:

viver de acordo com sua própria natureza.

Mas isso é transformado

em uma tarefa difícil pela loucura geral da humanidade: nós

impulsionamos uns aos outros ao vício.

E como pode um homem ser

levado para a redenção, quando não tem ninguém para refreá-lo e

toda a humanidade para instigá-lo?

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

155 Trecho de Eneida de Virgílio, VIII,

156 NT: “Ratio perfecta”, isto é a razão levada ao máximo das suas potencialidades, ou seja, a virtude.

XLII.

Sobre valores

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Aquele seu amigo já o fez acreditar que ele é um homem de bem?

E, no entanto, é impossível, em tão pouco tempo, que alguém se

torne bom ou seja conhecido como tal.

Você sabe que tipo de

homem eu quero dizer agora quando eu falo de “um homem de

bem? ” Quero dizer um de segunda classe, como seu amigo.

Pois um

de primeira classe talvez surja na existência, como a fênix, apenas

uma vez em quinhentos anos.

E não é surpreendente, tampouco, que

a grandeza se desenvolva apenas em longos intervalos.

A

Fortuna, muitas vezes, dá origem a poderes comuns, que nascem

para agradar à multidão, mas ela facilita nosso julgamento do que é

notável pelo fato de que ela o torna raro.

2. Este homem, no entanto, de quem você falou, ainda está longe do

estado que ele declara ter alcançado.

E se ele soubesse o que

significa ser “um homem de bem”, ele ainda não se acreditaria estar

assim, talvez ele até desanimaria de sua capacidade de se tornar

bom.

“Mas,” você diz, “ele tem má opinião sobre os homens maus.”

Bem, assim também fazem os próprios homens maus e não há pior pena para o vício do que o fato de estar insatisfeito consigo mesmo

e com todos os seus pares.

3. “Mas ele odeia aqueles que fazem um uso indisciplinado de

grande poder repentinamente adquirido.

” Eu replico que fará a

mesma coisa assim que adquirir os mesmos poderes.

No caso de

muitos homens, sendo impotentes, seus vícios passam

despercebidos.

Por isso, logo que essas pessoas tenham recebido

sua própria força, os vícios não serão menos ousados do que

naqueles que a prosperidade já revelou.

4. Esses homens simplesmente não dispõem dos meios pelos quais

podem revelar sua maldade.

Da mesma forma, pode-se manipular

até mesmo uma serpente venenosa enquanto está rígida pelo frio, o

veneno não está faltando, está meramente entorpecido em inação.

No caso de muitos homens, sua crueldade, ambição e indulgência só

necessitam o favor da Fortuna para fazê-los cometer crimes que o

igualariam ao pior.

Que seus desejos são os mesmos, você

descobrirá em um momento e desta maneira: dê-lhes o poder de

fazer realizar seus desejos.

5. Você se lembra quando declarou que certa pessoa estava sob sua

influência e eu a chamei de inconstante e de ave migratória e disse que você não a segurava pelo pé, mas apenas por uma asa? Eu

estava enganado? Você a agarrou apenas por uma pena, ela a

deixou em suas mãos e escapou.

Você sabe que demonstração de si

própria fez mais tarde perante você, quantas das coisas que ela

tentou reverteram-se sobre sua própria cabeça.

Ela não viu que, ao

pôr em perigo os outros, estava cambaleando para sua própria

queda.

Ela não refletiu quão pesadas eram as pretensões que

estava inclinada a alcançar, mesmo que não fossem supérfluas.

6. Portanto, em relação aos objetivos que buscamos e pelos quais

nos esforçamos com grande empenho, devemos observar esta

verdade: ou não há nada de desejável neles, ou o indesejável é

preponderante.

Alguns objetivos são supérfluos, outros não valem o

preço que pagamos por eles.

Mas não vemos isso claramente e

consideramos as coisas como brindes quando realmente nos

custaram muito caro.

7. Nossa estupidez pode ser claramente comprovada pelo fato de

que consideramos que “comprar” se refere apenas aos objetos pelos

quais pagamos em dinheiro e consideramos como presentes as

coisas pelas quais gastamos nós mesmos.

Estes deveríamos

recusar a comprar, se fôssemos obrigados a dar em pagamento por eles nossas casas ou alguma propriedade atraente e rentável.

Mas

estamos impacientes para alcançá-los ao custo da ansiedade, do

perigo, da honra perdida, da liberdade pessoal e do tempo

desprendido.

A verdade é que o homem não considera nada mais

barato do que ele mesmo.

8. Vamos, portanto, agir em todos os nossos planos e condutas,

como estamos acostumados a agir sempre que nos aproximamos de

um negociante que tem certas mercadorias à venda: vamos avaliar o

quanto devemos pagar pelo que desejamos.

Muitas vezes as coisas

que custam nada nos custam mais pesadamente, posso mostrar-lhe

muitos objetivos cuja busca e aquisição arrebataram a liberdade das

nossas mãos.

Devemos pertencer a nós mesmos, mesmo que essas

coisas não nos pertençam.

9. Por conseguinte, gostaria que você refletisse assim, não só

quando se trata de uma questão de ganho, mas também quando se

trata de perda.

“Este objeto está destinado a perecer.” Sim, era um

mero acessório, você viverá sem ele tão facilmente como viveu

antes.

Se você o possuir por muito tempo, você o perde depois que você se cansar dele, se você não o possuir por muito tempo, então

você o perde antes que você se torne devotado a ele.

“Você terá

menos dinheiro.” Sim, e menos problemas!

10. “Terá menos influência.” Sim, e igualmente será menor a inveja.

Olhe ao seu redor e observe as coisas que nos deixam preocupados,

que perdemos com um dilúvio de lágrimas.

Perceberá que, com

referência a essas coisas, não é a perda que nos incomoda, mas o

conceito de perda.

Ninguém sente que elas foram perdidas, mas sua

mente lhe diz que foi assim.

Aquele que é dono de si próprio não

pode perder nada.

Mas quão poucos homens são abençoados

com a propriedade de si mesmos!

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

XLIII.

Sobre a relatividade da

fama

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você pergunta como a notícia chegou a mim e quem me informou

que você estava entretendo esta ideia, sobre qual você não disse

nada a uma única alma? Foi a mais conhecedora das pessoas, o

boato.

“O quê”, você diz, “eu sou uma personagem assim tão importante que eu possa atiçar boato?” Ora, não há razão para que

se meça de acordo com minha parte do mundo, 157 considere

somente o lugar onde você está morando.

2. Qualquer ponto que sobe acima dos pontos adjacentes é grande

no local onde sobressai.

Pois a grandeza não é absoluta, é a

comparação que a aumenta ou a diminui.

Um navio que se agiganta

no rio parece pequeno quando no oceano.

Um leme que é grande

para uma embarcação, é pequeno para outra.

3. Assim você em sua província é realmente importante, 158 embora você se menospreze.

Homens perguntam o que você faz, como você

janta e como você dorme, e eles descobrem também.

Por isso, há

mais razão para viver em circunspecção.

Entretanto, não se julgue

verdadeiramente feliz até que perceba que pode viver frente aos

olhos dos homens, contanto que suas paredes o protejam, mas não

o escondam.

Acreditamos que essas paredes nos cerquem, não

para nos capacitar a viver com mais segurança, mas para que

possamos prevaricar mais secretamente.

4. Mencionarei um fato pelo qual você pode avaliar o caráter de um

homem: você dificilmente encontrará alguém que possa viver com

sua porta aberta.

É a nossa consciência, não o nosso orgulho, que colocou guardas à nossa porta.

Nós vivemos de tal forma que,

sermos expostos subitamente é equivalente a ser pego em flagrante.

O que nos beneficia então nos esconder e evitar os olhos e os

ouvidos dos homens?

5. Uma boa consciência recebe com prazer a multidão, mas uma má

consciência, mesmo na solidão, é perturbada e inquieta.

Se seus

feitos são honrosos, que todos os conheçam; se infames, o que

importa que ninguém deles saiba, se você mesmo os reconhece?

Como você é desventurado se despreza tal testemunha!

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

157 Ou seja Roma.

158 NT: Lucílio era neste momento procurador imperial na Sicília.

XLIV.

Sobre filosofia e

pedigrees

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você está insistindo de novo que é um ninguém e dizendo que a

natureza em primeiro lugar e a Fortuna em segundo, o trataram muito injustamente e isso apesar de você ter a seu alcance o poder

de separar-se da multidão e ascender-se para a mais alta felicidade

humana! Se há algum bem na filosofia é isto, que nunca olha em

pedigrees.

Todos os homens, se rastreados à sua fonte original,

brotam dos deuses.

2. Você é um equestre romano e seu trabalho persistente o

promoveu a esta classe, contudo certamente há muitos a quem as

quatorze fileiras159 são barradas.

A Câmara do Senado não está

aberta a todos, o exército, também, é escrupuloso na escolha dos

que admite alistar.

160 Mas uma mente nobre é livre para todos os homens.

De acordo com este teste, todos nós podemos ganhar

distinção.

A filosofia não rejeita nem escolhe ninguém, sua luz

brilha para todos.

3. Sócrates não era aristocrata, nunca foi patrício.

Cleantes

trabalhou em um poço e serviu como um homem contratado regando

um jardim.

A filosofia não achou Platão já um nobre, ela o fez um.

Por que então você deve temer ser capaz de se comparar a homens

como estes? Eles são todos os seus ancestrais se você se

comportar de maneira digna; e você fará isso se você se convencer,

desde o princípio, de que nenhum homem lhe supera em verdadeira nobreza.

4. Todos temos o mesmo número de antepassados.

Não há homem

cujo primeiro começo não fuja da memória.

Platão diz: “Todo o rei

nasce de uma raça de escravos e todo escravo tem reis entre seus

antepassados”. 161 O passar do tempo, com suas vicissitudes, tem misturado todas essas posições sociais e a Fortuna as virado de

cabeça para baixo.

5. Então, quem é bem-nascido? Aquele que por natureza é bem

adaptado à virtude.

Esse é o único ponto a ser considerado, caso

contrário, se você voltar para a antiguidade, cada um remonta a uma

data antes da qual não há nada.

Desde os primórdios do universo

até o presente fomos conduzidos a frente de origens que eram

alternadamente ilustres e ignóbeis.

Um salão cheio de bustos

enegrecidos pelo fumo não faz de ninguém um nobre.

Nenhuma vida

passada foi vivida para nos emprestar a glória e aquilo que existiu

antes de nós não é nosso.

Só a alma nos torna nobres e pode se

elevar acima da Fortuna, escapando de qualquer circunstância

anterior, não importa qual seja essa circunstância.

6. Suponha então, que você não fosse um Equestre Romano, mas

um escravo liberto, você poderia, no entanto, por seus próprios esforços vir a ser o único homem livre entre uma multidão de nobres.

“Como?”, você pergunta.

Simplesmente distinguindo entre coisas

boas e ruins sem usar a opinião da multidão.

Você deve olhar, não

para a fonte de onde essas coisas vêm, mas para o objetivo para o

qual elas tendem.

Se há algo que pode fazer a vida feliz, ele é bom

em seus próprios méritos, pois não pode degenerar em mal.

7. Onde, então, está o erro, uma vez que todos os homens anseiam

à vida feliz? É que eles consideram os meios para produzir a

felicidade como a felicidade em si e, enquanto procuram a felicidade,

eles estão realmente fugindo dela.

Pois, embora o resumo e a

substância da vida feliz seja a liberdade pura e embora o segredo de

tal liberdade seja a convicção inabalável, mesmo assim os homens

acumulam o que causa preocupação enquanto viajam o caminho

traiçoeiro da vida.

Não só têm fardos para carregar, mas atraem

mais fardos para si mesmos.

Portanto, eles se afastam cada vez

mais da realização daquilo que buscam e quanto mais esforço eles

empenham, mais eles se atrapalham e recuam.

Isto é o que

acontece quando você se apressa através de um labirinto: quão mais

rápido você vai, pior é o emaranhado.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

159 Referência à regra de assento no Coliseu – O primeiro nível, Podium, era reservado aos mais importantes romanos – o Imperador e as Virgens Vestais e membros do senado.

O 2º Nível – Maenianum primum: era reservado para a classe nobre não- senatorial chamada de cavaleiros ou Equites, consistindo de quatorze filas de assentos em mármore.

160 NT: Somente cidadãos romanos podiam participar do processo de seleção para as legiões romanas.

161 NT: Ver Platão, Teeteto,

XLV.

Sobre argumentação

sofística

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você se queixa de que em sua parte do mundo há uma oferta

escassa de livros.

Mas é a qualidade e não a quantidade que

importa.

É em uma lista limitada onde estão os benefícios da leitura.

Um sortimento variado serve apenas para o deleite.

Aquele que

chega ao fim designado deve seguir um único caminho e não

percorrer muitos caminhos.

O que você sugere não é uma viagem,

mas um mero vaguear.

2. “Mas,” você diz, “eu prefiro que você me dê livros não conselhos.” Ainda assim, estou pronto para enviar-lhe todos os livros

que tenho, esvaziar todo meu armazém.

Se fosse possível, eu

deveria me juntar a você.

E se não fosse pela esperança de que

você termine em breve seu mandato, eu deveria impor a mim mesmo

a viagem, nenhum Cila ou Caribdis, 162 ou seus lendários desafios poderiam ter me assustado.

Eu não deveria apenas ter atravessado

navegando, mas deveria ter estado disposto a nadar sobre essas

águas, desde que pudesse cumprimentá-lo e julgar em sua presença

o quanto você cresceu em espírito.

3. Seu desejo, entretanto, de que eu lhe envie meus próprios

escritos, não me faz acreditar mais sábio, não mais do que um

pedido de meu retrato lisonjearia minha beleza.

Sei que é devido à

sua caridade e não à sua capacidade crítica.

E mesmo se for

resultado de julgamento, foi a caridade que forçou seu julgamento.

4. Mas qualquer que seja a qualidade das minhas obras, leia-as

como se eu ainda estivesse procurando a verdade e não ciente dela,

e estivesse também a procurando obstinadamente de forma contínua

e tenaz.

Pois não me vendi a ninguém, eu não tenho a marca de

nenhum proprietário.

Eu dou muito crédito ao julgamento dos

grandes mestres, mas eu reivindico algo também para mim.

Pois esses homens nos deixaram, não descobertas definitivas, mas

problemas cuja solução ainda deve ser buscada.

Por ventura,

poderiam talvez ter descoberto o essencial, se não tivessem

investigando também temas supérfluos.

5. Eles perderam muito tempo em jogar com palavras e na

argumentação sofista.

Todo esse tipo de coisa exercita a inteligência

sem nenhum propósito.

Nós atamos nós e unimos palavras em

significados duplos e então tentamos desatá-los.

163 Temos tempo

suficiente para isso? Já sabemos como viver ou morrer? Devemos,

antes, prosseguir com as nossas almas intactas até o ponto em que

é nosso dever cuidar para que as coisas, assim como as palavras,

não nos enganem.

6. Por que, ora, você discrimina entre palavras semelhantes, quando

ninguém é enganado por elas, exceto durante a discussão? São

coisas que nos desnorteiam: é entre as coisas que você deve

discriminar.

Nós abraçamos o mal em vez do bem; oramos por algo

oposto ao que havíamos orado no passado.

Nossas orações entram

em conflito com nossas orações, nossos planos com nossos planos.

7. Quão semelhante é a adulação com a amizade! Não só macaqueia

a amizade, mas supera-a, passando-a na corrida, com ouvidos abertos e indulgentes, é acolhida e penetra nas profundezas do

coração, e é agradável precisamente no que faz mal.

Mostre-me

como eu posso ser capaz de distinguir esta semelhança! Um inimigo

chega até mim cheio de elogios, sob a aparência de um amigo.

Os

vícios fluem em nossos corações sob o nome de virtudes, a

imprudência se esconde sob a denominação de bravura, a

moderação é chamada de lentidão, e o covarde é considerado

prudente.

Há grande perigo de nos confundirmos nesses assuntos.

Então marque-os com etiquetas especiais.

8. Então, também, o homem a quem é perguntado se tem chifres na

cabeça não é tão tolo para apalpar por eles em sua testa, nem tão

tolo ou estúpido que você possa persuadi-lo por meio de

argumentação que ele não conhece os fatos, não importa quão

astutamente você argumente.

Esses sofismas são tão

inofensivamente enganadores quanto os acessórios do ilusionista, em

que é o próprio truque que agrada.

Mas mostre-me como o truque é

feito e eu perco interesse nele.

E eu mantenho a mesma opinião

sobre esses complicados jogos de palavras.

Por qual outro nome se

pode chamar tais sofismas? Não os conhecer não faz mal e dominá-

los não faz nenhum bem.

9. De qualquer modo, se você quiser peneirar significados duvidosos

deste tipo, entenda que o homem feliz não é aquele que a multidão

considera feliz, isto é, aquele em cujos cofres grandes somas

fluíram, mas aquele cujas posses estão todas em sua alma, que é

reta e elevada, que despreza a inconstância, que não vê homem com

quem ele queira trocar de lugar, que avalia os homens apenas pelo

seu valor como homens, que considera a natureza sua professora,

obedecendo suas leis e vivendo como ela comanda, a quem

nenhuma violência pode privar de suas posses, que transforma o mal

em bem, é inabalável em julgamento, sem medo, que pode ser

movido pela força, mas nunca movido por distração, a quem a

Fortuna, quando ela se lança com toda a sua força sobre ele com

seu mais mortífero arsenal, pode atingi-lo, embora raramente, mas

nunca feri-lo. Pois as outras armas da Fortuna, com as quais ela

vence a humanidade em geral, ricocheteia neste homem como o

granizo que crepita no telhado sem causar dano ao morador e depois

desaparece.

10. Por que você me aborrece com o que você mesmo chama de

falácia “O mentiroso”, sobre a qual tantos livros foram escritos?

Convenhamos agora, suponha que toda a minha vida é uma mentira; prove isto estar errado e, se você é forte o suficiente, traga ele de

volta para a verdade.

Agora, nossa vida considera como coisas

essenciais aquelas cuja a maioria das partes é supérflua.

E mesmo o

que não é supérfluo não tem importância no que diz respeito ao seu

poder de fazer alguém afortunado e bem-aventurado.

Pois se uma

coisa é necessária, não se segue que ela seja boa, e desde logo um

bem.

Do contrário degradaríamos o significado de “bem”, se

aplicarmos esse nome ao pão, à cevada e a outras mercadorias sem

as quais não podemos viver.

11. O bem deve em todos os casos ser necessário, mas o que é

necessário não é em todos os casos um bem, uma vez que certas

coisas muito insignificantes são realmente necessárias.

Ninguém é

tão ignorante quanto ao nobre significado da palavra “bem”, como

para rebaixá-la ao nível dessas utilidades banais do dia-a-dia.

12. O que, então? Não prefere transferir seus esforços para deixar

claro a todos que a busca do supérfluo significa um grande gasto de

tempo e que muitos passam pela vida simplesmente acumulando os

instrumentos auxiliares da vida? Considere indivíduos, avalie homens em geral; não há ninguém cuja vida não esteja focada no esperar

pelo amanhã.

13. “Que mal há nisso? ”, você pergunta.

Dano infinito.

Porque tais

pessoas não vivem, mas se preparam para viver.

Elas adiam tudo.

Mesmo se prestássemos rigorosa atenção, a vida logo se adiantaria

a nós, mas como nós somos agora, a vida nos encontra persistentes

e ultrapassa-nos como se pertencesse a outro e embora termine no

último dia, perece todos os dias.

Mas não devo ultrapassar os limites

de uma carta, que não deve preencher a mão esquerda do leitor.

Então, postergo para outro dia nosso caso contra os dialéticos,

aqueles sujeitos sutis que fazem da argumentação suprema, em vez

de subordinada.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

162 Cila ou Caribdis: Sêneca estende a metáfora da ascensão para incluir as cadeias de montanha que atravessam a região montanhosa da Candávia, perto da

Via Egnatia na Macedônia, depois (retornando aos perigos marítimos) os Sirtes da

Líbia (bancos de areia traiçoeiros) e os dois perigos do estreito da Sicília confrontadas por Ulysses: Cila na costa da Calábria e Char Caribdis da Sicília (ver a carta XIV,§8).

163 NT: Sêneca também critica certas investigações lógicas, mesmo aquelas dos próprios estoicos em outras cartas, como por exemplo XLVIII, XLIX, e LXXXIII

(Volume II).

164 falácia “O Mentiroso”, cuja invenção é atribuída a Eubulides.

Em sua forma mais simples é a seguinte: “se você diz verdadeiramente que está dizendo uma

mentira, você está mentindo ou dizendo a verdade? ” Crisipo declarou isto como inexplicável.

No entanto, ele estava longe de recusar a discutir o assunto.

Pois encontramos na lista de suas obras seis livros sobre o tema.

Ver mais em

“Estoicismo” de St. George Stock.

Lógica e sofismas estoicos também são abortados em “Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres” por Diógenes Laércio.

165 Essa observação é válida quando tal carta é escrita em pergaminho, desenrolada com a mão direita enquanto a esquerda recolhe a parte que já foi lida.

XLVI.

Sobre um novo livro de

Lucílio.

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Recebi o seu livro que você havia prometido.

Abri-o

apressadamente com a intenção de olhar de relance, pois queria

apenas provar o volume.

Mas por seu próprio charme o livro me persuadiu a examiná-lo mais extensamente.

Você pode entender por

esse fato quão eloquente isso foi, pois parecia estar escrito no estilo

tranquilo e, no entanto, não se assemelhava à sua obra ou à minha,

mas à primeira vista poderia ter sido atribuída a Tito Lívio166 ou a Epicuro.

Além disso, eu estava tão impressionado e arrebatado pelo

seu charme que eu terminei sem qualquer adiamento.

A luz do sol me

chamou, a fome deu sinal e as nuvens baixaram, mas absorvi o livro

do começo ao fim.

2. Eu não estava meramente satisfeito, eu me rejubilava.

Tão cheio

de inteligência e espírito que era! Eu deveria ter acrescentado

“força”, se o livro contivesse momentos de repouso, ou se tivesse

aumentado em energia apenas em intervalos.

Mas descobri que não

havia erupção de força, mas um fluxo uniforme, um estilo vigoroso e

casto.

No entanto, eu notei de vez em quando sua doçura e aqui e ali

sua suavidade.

Seu estilo é sublime e nobre, quero que você se

mantenha dessa maneira e dessa direção.

Seu assunto também

contribuiu com algo, por esta razão você deve escolher temas

produtivos: isso vai prender e despertar a mente do leitor.

3. Discutirei o livro mais detalhadamente após uma segunda

leitura, 167 entretanto, o meu julgamento é um tanto perturbado, como se eu tivesse ouvido aquilo em voz alta e não o tivesse lido pessoalmente.

Você deve permitir que eu o examine com cuidado.

Você não precisa ter medo, você ouvirá a verdade.

Homem de sorte!

Não oferecer a um homem oportunidade de dizer-lhe mentiras de tal

longa distância! A menos que talvez, mesmo agora, quando as

desculpas para a mentira são tiradas, a tradição sirva como uma

desculpa para dizermos mentiras uns aos outros!

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

166 Tito Lívio, conhecido simplesmente como Lívio, é o autor da obra histórica intitulada Ab urbe condita (“Desde a fundação da cidade”), onde tenta relatar a história de Roma desde o momento tradicional da sua fundação 753 a.C. até ao início do século I da Era Cristã.

167 NT: Infelizmente foram perdidos tanto o livro de Lucílio como a eventual carta que Sêneca havia prometido discutir minuciosamente a obra.

XLVII.

Sobre mestre e escravo

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Fico feliz em saber, através daqueles que vêm de você, que vive

em termos amigáveis com seus escravos, como se fossem seus

familiares.

Isto convém a um homem sensato e bem-educado como você.

“Eles são escravos”, dizem as pessoas.

Não, são homens.

“Escravos!” Não, camaradas.

“Escravos!” Não, eles são amigos sem

pretensões.

“Escravos!” Não, eles são nossos companheiros de

servidão; quando se reflete, percebe-se que a Fortuna tem direitos

iguais sobre escravos e homens livres.

2. É por isso que eu considero ridículos aqueles que acham

degradante para um homem jantar com seu escravo.

Mas por que

acham isso degradante? É somente porque o cerimonial de gente

orgulhosa envolve um chefe de família em seu jantar com uma

multidão de escravos em pé. O mestre come mais do que ele pode e

com monstruosa ganância carrega seu ventre até este ser esticado e

por fim impossibilitado de fazer o trabalho de um ventre, de modo

que logo estará em dores para vomitar toda a comida que deveria

alimentá-lo.

3. Durante todo esse tempo os pobres escravos não podem mover

seus lábios, nem mesmo para falar.

O menor murmúrio é reprimido

pela vara.

Mesmo um som casual, uma tosse, um espirro ou um

soluço, é correspondido com o chicote.

Há uma penalidade grave

para a menor quebra de silêncio.

Durante toda a noite eles devem

ficar em pé, famintos e mudos.

4. O resultado disso tudo é que esses escravos, que não podem

falar em presença de seu mestre, falam sobre seu mestre.

Mas os

escravos dos dias passados, que tinham permissão para conversar

não só na presença de seu amo, mas na verdade com ele, cujas

bocas não estavam caladas, estavam prontos a expor seu pescoço a

seu senhor, a trazer à própria cabeça qualquer perigo que o

ameaçasse: eles falavam nas refeições, mas ficavam em silêncio sob

tortura.

5. Finalmente, o dito, em alusão a este mesmo tratamento

autoritário, torna-se atual: “Você tem tantos inimigos quanto

escravos.

” Eles não eram inimigos quando os adquirimos, nós os

tornamos inimigos.

Passarei por alto outros comportamentos cruéis e

desumanos, pois os maltratamos, não como se fossem homens, mas

como se fossem animais de carga.

Quando nos relaxamos em um

banquete, um escravo passa pano para limpar o alimento vomitado,

outro agacha-se debaixo da mesa e recolhe as migalhas dos

convidados bêbados.

6. Outro escravo se dedica a trinchar as preciosas aves de caça,

com traços seguros e mão hábil ele corta fatias selecionadas ao

longo do peito ou da coxa.

Companheiro infeliz, que vive apenas com o propósito de cortar perus corretamente – a menos que, de fato,

outro homem seja ainda mais infeliz do que ele, aquele que ensina

esta arte por prazer, ao invés de quem aprende isso por dever.

7. Outro, que serve o vinho, deve vestir-se como uma mulher e lutar

contra sua idade avançada.

Ele não pode fugir de sua infância, ele é

arrastado de volta para ela e embora já tenha adquirido a figura de

um soldado, ele é mantido sem barba por ter os pelos raspados ou

arrancados pelas raízes e ele deve permanecer acordado durante a

noite, dividindo o seu tempo entre a embriaguez e luxúria do seu

senhor: em seu quarto deve ser um homem, na festa um menino.

8. Outro ainda, cujo dever é avaliar os convidados, deve cumprir com

sua tarefa, pobre coitado, e vigiar para ver quem por adulação ou

impudor, seja de apetite ou de linguagem, deverá receber um convite

para amanhã.

Pense também nos pobres fornecedores de alimentos,

que observam os gostos de seus mestres com habilidade delicada,

que sabem quais sabores especiais irão aguçar o apetite, o que vai

agradar aos olhos, que novas combinações despertarão seus

estômagos empolados, qual comida vai excitar sua aversão através

da pura saciedade e o que os aguçará o apetite naquele dia em

particular.

Com escravos como estes o mestre não pode suportar jantar.

Ele pensaria ser indigno associar-se com seu escravo na

mesma mesa! Que os céus nos defendam! Mas quantos senhores

não provém da classe servil?

9. Eu vi em fila, diante da porta de Calisto, 169 o antigo dono de Calisto.

Eu vi o antigo mestre, ele mesmo trancado para fora

enquanto outros eram recebidos, o mestre que uma vez fixou o

bilhete “à venda” em Calisto e o pôs no mercado junto com os

escravos de refugo.

Mas ele foi pago por aquele escravo que foi

arrematado no primeiro lote do leilão.

O escravo, por sua vez, cortou

seu nome da lista e julgou-o impróprio para entrar em sua casa.

O

mestre vendeu Calisto, mas quanto Calisto fez seu patrão pagar!

10. Lembre-se de que aquele a quem você chama seu escravo

brotou do mesmo estoque, é abençoado pelos mesmos céus e assim

como você, respira, vive e morre.

É tão possível você ver nele um

homem livre como ele ver em você um escravo.

Como resultado dos

massacres na época de Mário, muitos homens de distinto

nascimento, que estavam dando os primeiros passos em direção ao

posto senatorial foram humilhados pela Fortuna, um se tornando um

pastor, outro um zelador de uma casa de campo.

Despreze então, se

você ousar, aqueles em cuja propriedade você pode a qualquer momento cair, mesmo enquanto você ainda os está desprezando.

11. Não quero me envolver em uma questão muito polêmica e discutir

o tratamento dos escravos, com quem nós, romanos, somos

excessivamente arrogantes, cruéis e insultantes.

Mas este é o

núcleo do meu conselho: Trate seus subalternos como você

gostaria de ser tratado por seus superiores.

E quantas vezes

você refletir o quanto poder tem sobre um escravo, lembre-se que

seu mestre tem o mesmo poder sobre você.

12. “Mas eu não tenho mestre”, você diz.

Você ainda é jovem, talvez

você venha a ter um. Não sabe em que idade Hécuba entrou em

cativeiro, ou Creso, ou a mãe de Dario, ou Platão ou Diógenes?

13. Associe-se com seu escravo com bondade, até mesmo em

termos afáveis.

Deixe-o falar com você, planejar com você, viver com

você.

Sei que neste momento todos os pretensiosos clamarão contra

mim em peso.

Eles dirão: “Não há nada mais degradante, mais

vergonhoso, do que isso”. Mas estas são as mesmas pessoas às

quais às vezes surpreendo beijando as mãos dos escravos de outros

homens.

14. Você não vê mesmo isto, como nossos antepassados removeram dos mestres tudo o que é indesejável e dos servos tudo

o que é insultante? Eles chamavam o mestre de “pai da família” e os

escravos de “membros da casa”, um costume que ainda se mantém

em uso nos mimos.

171 Estabeleceram um feriado em que os

senhores e escravos deveriam comer juntos, não como o único dia

para este costume, mas como obrigatório naquele dia em qualquer

caso.

172 Eles permitiram que os escravos alcançassem honras na

casa e pronunciassem sua opinião, eles defendiam que uma casa era

uma comunidade em miniatura.

15. “Você quer dizer,” vem a réplica, “que devo sentar todos os

meus escravos na minha própria mesa? ” Não, não mais do que

você deva convidar todos os homens livres para ela.

Você está

enganado se pensa que eu iria excluir da minha mesa certos

escravos cujos deveres são mais humildes como, por exemplo,

aquele tratador de mulas ou outro pastor.

Proponho valorizá-los de

acordo com seu caráter e não de acordo com seus deveres.

Cada

homem adquire seu caráter por si mesmo, mas a Fortuna atribui

seus deveres.

Convide alguns para sua mesa porque eles merecem

a honra e outros porque podem vir a merecer.

Pois, se houver

qualquer característica servil neles como resultado de suas atribuições inferiores, será abalada por relações com homens de

criação mais gentil.

16. Você não precisa, meu caro Lucílio, caçar amigos apenas no

fórum ou no senado; se você é cuidadoso e atento, você vai

encontrá-los em casa também.

O bom material muitas vezes

permanece ocioso por falta de um artista.

Faça a experiência e você

vai confirmar isso.

Como é um tolo aquele que, ao comprar um

cavalo, não considera as características do animal, mas apenas a

sua sela e freio; então é duplamente um tolo quem valoriza um

homem por suas roupas ou sua posição social, que na verdade é

apenas um roupão que nos cobre.

17. “Ele é um escravo!” Sua alma, no entanto, pode ser a de um

homem livre.

“Ele é um escravo! ”. Mas isso vai ficar no seu caminho? Mostre-me um homem que não é um escravo; um é

escravo da luxúria, outro da ganância, outro da ambição e

todos os homens são escravos do medo.

Vou citar um antigo

cônsul que agora é escravo de uma velhota, um milionário que é

escravo de uma serva; vou mostrar-lhe jovens de nascimento mais

nobre em servidão a artistas de pantomima! Nenhuma servidão é

mais vergonhosa do que aquela que é auto imposta.

Você não deve, portanto, ser dissuadido por essas pessoas mimadas a se

mostrar a seus escravos como uma pessoa afável e não

orgulhosamente superior a eles: eles devem lhe respeitar em vez de

lhe temer.

18. Alguns podem sustentar que eu estou oferecendo agora a

libertação dos escravos em geral e roubando senhores de sua

propriedade, porque eu proponho que escravos respeitem seus

mestres em vez de temê-los.

Eles dizem: “Isto é o que ele

claramente quer dizer: Devemos respeitar os escravos como se

fossem clientes ou nossos protegidos! ” Qualquer um que detém esta

opinião esquece que o que é suficiente para um deus não pode ser

muito pouco para um mestre.

Respeito significa amor, mas amor e

medo não podem ser misturados.

19. Portanto, eu considero que você está inteiramente certo em não

desejar ser temido por seus escravos.

Chicoteá-los, apenas com a

língua; tão-somente animais estúpidos precisam do chicote.

O que

nos irrita não nos prejudica necessariamente, mas nós somos

levados a raiva selvagem por nossas vidas luxuosas, de modo que

tudo o que não responde a nossos caprichos desperta nossa raiva.

20. Nós vestimos o temperamento dos reis.

Pois também eles,

esquecidos da própria força e da fraqueza dos outros homens,

tornam-se brancos de raiva, como se tivessem sofrido um ferimento

quando estão inteiramente protegidos do perigo de tal ferimento por

sua exaltada posição.

Eles não desconhecem que isso é verdade,

mas ao encontrarem um erro, eles aproveitam as oportunidades para

fazerem o mal.

Eles insistem que eles receberam ferimentos, a fim

de que possam infringi-los.

21. Não quero me demorar mais, porque você não precisa de

exortação.

Isto, entre outras coisas, é uma marca de bom caráter:

forme seus próprios julgamentos e honre-os. O mal é inconstante e

em frequentemente mudança, não para melhor, mas para algo

diferente.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

168 Glabri (pele macia ), delicati ou exoleti (catamitas) eram escravos favoritos, mantidos artificialmente jovens pelos romanos da classe mais dissoluta, onde o mestre se orgulhava da aparência elegante e gestos graciosos desses favoritos.

169 Caio Júlio Calisto foi um liberto imperial durante os reinados dos imperadores Calígula e Cláudio.

Calisto era originalmente um liberto de Calígula e recebeu grande autoridade durante o reinado, a qual usou para acumular grande riqueza.

170 Como Hécuba (rainha de Tróia), Sisigambis, mãe de Dario, era tecnicamente uma escrava de Alexandre, mas ele a tratou com respeito.

Platão tinha cerca de quarenta anos quando visitou a Sicília, de onde foi depois deportado por Dionísio,

o Ancião.

Ele foi vendido como escravo na Egina e resgatado por um discípulo de

Cirena.

Diógenes, enquanto viaja de Atenas para Egina, foi capturado por piratas e vendido em Creta, onde foi comprado por um certo coríntio e liberto.

171 NT: Mimo era uma representação teatral, comportando dança, pantomina e música.

Na época de Sêneca se transformou numa espécie de teatro com crítica

política e social.

Entre os autores de mimos distinguiu-se Publílio Siro, citado anteriormente por Sêneca.

172 NT: Saturnália, que pode ser considerada um precursor de nossas festividades de fim de ano.

XLVIII.

Sobre trocadilhos como

indignos ao filósofo

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Em resposta à carta que me escreveu durante a viagem, uma

carta tão longa quanto a viagem em si, vou responder mais tarde.

Eu devo me concentrar e considerar que tipo de conselho eu posso lhe

dar.

Porque você mesmo, que me consulta, também refletiu por um

longo tempo, quanto mais então devo eu mesmo refletir, já que mais

deliberação é necessária para responder do que para propor um

problema! E isso é particularmente verdadeiro quando uma coisa é

vantajosa para você e outra para mim.

Estou falando de novo sob a

máscara de um epicurista?

2. Mas o fato é que a mesma coisa é vantajosa para mim e é

vantajosa para você, porque não seria seu amigo, a menos que o

que é importante para você também seja minha preocupação.

A

amizade produz entre nós uma parceria em todos os nossos

interesses.

Não há tal coisa como boa ou má Fortuna para um de

nós, nós vivemos em comum.

E ninguém pode viver feliz se só pensa

em si próprio e transforma tudo em questão de sua própria utilidade.

Você deve viver para o seu vizinho, se você quiser viver para si

mesmo.

3. Esta comunhão, mantida com escrupuloso cuidado, que nos faz

misturarmo-nos como homens com nossos semelhantes e sustenta

que a raça humana tem certos direitos em comum, é também de

grande ajuda para nutrir a comunhão mais íntima que se baseia na amizade, sobre a qual eu comecei a falar acima.

Pois quem tem

muito em comum com um semelhante, terá todas as coisas em

comum com um amigo.

4. E sobre este ponto, meu excelente Lucílio, gostaria que esses

sutis dialéticos me aconselhassem como devo ajudar um amigo ou

como ajudar um homem, ao invés de me dizer de quantas maneiras a

palavra “amigo” pode ser usada e quantos significados a palavra

“homem” possui.

Sabedoria e Estupidez tomam lados opostos.

174 A

qual devo me juntar? Qual partido você gostaria que eu seguisse?

Por esse lado, “homem” é o equivalente a “amigo”, no outro lado,

“amigo” não é o equivalente a “homem”. Um quer um amigo para sua

própria vantagem, o outro quer fazer-se uma vantagem para seu

amigo.

O que você tem a me oferecer não é nada além de distorção

de palavras e divisão de sílabas.

5. É claro que, a menos que eu possa imaginar algumas premissas

muito difíceis e por falsas deduções aderir a elas uma falácia que

nasce da verdade, não serei capaz de distinguir entre o que é

desejável e o que deve ser evitado! Estou envergonhado! Homens

velhos como nós somos, lidando com um problema tão sério, mas

fazendo dele uma brincadeira! 6. “Rato é um dissílabo, agora um rato come queijo, portanto, um

dissílabo come queijo.” Suponha agora que não consiga resolver

este problema.

Veja que perigo pende sobre minha cabeça como

resultado de tal ignorância! Que situação crítica vou estar! Sem

dúvida, devo ter cuidado ou algum dia eu vou pegar palavras em uma

ratoeira ou, se eu for descuidado, um livro pode devorar meu queijo!

A menos que, talvez, o seguinte silogismo seja ainda mais perspicaz:

“Rato é uma palavra, agora uma palavra não come queijo, por isso

um rato não come queijo”.

7. Que disparate infantil! Será que nós devemos debater sobre este

tipo de problema? Deixamos nossas barbas crescerem por muito

tempo por essa razão? É este o assunto que ensinamos com rostos

severos e pálidos? Você realmente saberia o que a filosofia

oferece à humanidade? A filosofia oferece conselhos.

A morte

chama um homem e a pobreza desgasta outro; um terceiro está

preocupado com a riqueza do seu vizinho ou com a sua.

Fulano tem

medo da má Fortuna, outro deseja ficar longe de sua própria

Fortuna.

Alguns são maltratados pelos homens, outros pelos deuses.

8. Por que, então, você molda para mim jogos como esses? Não é ocasião de brincadeira, você deve se considerar um conselheiro para

a humanidade.

Você prometeu ajudar aqueles em perigo no mar,

aqueles em cativeiro, doentes e necessitados e aqueles cujas

cabeças estão sob o machado levantado.

Até que ponto onde você

está se perdendo? O que você está fazendo? Este amigo, em cuja

companhia você está brincando, está com medo.

Ajude-o e retire o

laço de seu pescoço.

Homens estão estendendo as mãos implorando

para você por todos os lados.

Vidas arruinadas e em perigo de ruína

estão implorando por alguma ajuda, as esperanças dos homens, os

recursos dos homens, dependem de você.

Eles pedem que você os

livre de toda a sua inquietação, que você revele a eles, dispersos e

vagando como eles estão, a clara luz da verdade.

9. Diga-lhes o que a natureza fez necessário e o que fez supérfluo,

diga-lhes como são simples as leis que ela estabeleceu, quão

agradável e desimpedida a vida é para aqueles que seguem essas

leis, mas quão amarga e perplexa é para aqueles que têm a sua

confiança na opinião e não na natureza.

Devo julgar seus jogos de

lógica como sendo de algum proveito para aliviar os fardos dos

homens se você puder me mostrar primeiro que parte desses fardos

aliviarão.

O que entre esses jogos afasta a luxúria? Ou a controla? Gostaria que eu pudesse dizer que eles são meramente ineficazes!

Eles são positivamente prejudiciais.

Posso deixar bem claro para

você quando quiser, que um espírito nobre, quando envolvido em tais

sutilezas, é prejudicado e enfraquecido.

10. Tenho vergonha de dizer quais armas fornecem aos homens que

estão destinados a guerrear com a Fortuna e quão mal os equipam!

É este o caminho para o maior bem? A filosofia deve prosseguir por

tal artifício e trocadilho176 que seria uma desonra e um opróbrio mesmo para os deturpadores da lei? Pois o que mais vocês estão

fazendo, quando deliberadamente aprisionam a pessoa a quem

estão fazendo perguntas, do que fazer parecer que o homem perdeu

sua causa por um erro técnico? Mas assim como o pretor pode

restabelecer aqueles que perderam um processo dessa maneira, a

filosofia pode restabelecer estas vítimas de trocadilhos a sua

condição anterior.

11. Por que vocês homens abandonam suas promessas extremas

depois de terem me assegurado em linguagem erudita que vocês

não permitiriam que o brilho do ouro ofuscasse suas visōes mais que

o brilho da espada? Por que vocês desceram a essas minúcias de gramáticos pedantes? Qual é sua resposta? É este o caminho para

o céu? 177 Pois é exatamente isso que a filosofia promete a mim, que eu serei feito igual a divindade.

Para isso fui convocado, para este

propósito eu vim.

Filosofia, mantenha sua promessa!

12. Portanto, meu caro Lucílio, afaste-se o mais possível dessas

exceções e objeções desses chamados filósofos.

Sinceridade e

simplicidade mostram verdadeira bondade.

Mesmo se houvesse

muitos anos para você, você teria que gastá-los frugalmente para ter

o suficiente para as coisas necessárias, mas como é, quando seu

tempo é tão escasso, que estupidez é aprender coisas supérfluas!

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

173 NT: Os epicuristas, que reduziam todos os bens a “utilidades”, não podiam considerar a vantagem de um amigo como idêntica à própria vantagem.

E, no entanto, colocavam grande peso na amizade como uma das principais fontes de prazer.

Para uma tentativa de conciliar essas duas posições, veja Cicero, De Finibus.

Sêneca usou uma frase que implica em uma diferença entre os interesses de um amigo e o próprio.

Isso o leva a reafirmar a visão estoica da amizade, que

adotou como lema.

174 NT: Os lados são dados em ordem inversa nas duas cláusulas: para o estoico, os termos “amigo” e “homem” são coextensivos, pois ele é o amigo de todos e seu motivo de amizade é ser útil; Já o Epicurista, no entanto, restringe a definição de

“amigo” e considera-o meramente como um instrumento para sua própria

felicidade.

175 NT: Neste parágrafo, Sêneca expõe a loucura de tentar provar uma verdade por meio de truques lógicos e oferece uma caricatura daqueles que estavam atuais

entre os filósofos a quem ele ridiculariza.

176 Sêneca usa a termo “sive nive”, literalmente, “ou se ou se não,” palavras constantemente empregadas pelos lógicos no raciocínio silogístico e também no

jargão judicial romano (daí a referência ao pretor).

177 Trecho de Eneida, de Virgílio, IX, 641.

XLIX.

Sobre a brevidade da vida

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Um homem é de fato preguiçoso e descuidado, meu caro Lucílio,

se ele se lembrar de um amigo só por ver alguma paisagem que

desperta a memória.

No entanto, ainda existem momentos em que

os velhos assombramentos familiares despertam uma sensação de

perda que foi guardada na alma, não trazendo de volta memórias

mortas, mas despertando-as de seu estado adormecido, assim como a visão do escravo favorito de um amigo perdido, ou o seu

manto, ou a sua casa, renova o sofrimento da pessoa em luto,

mesmo que suavizado pelo tempo.

Agora, eis que na minha

passagem pela Campânia, em especial Nápoles e sua amada

Pompéia, 178 me atingiram quando as vi, com um maravilhoso e

renovado sentimento de saudades de você.

Vejo você de forma

plena diante dos meus olhos.

Nestes momentos penso que estou a

ponto de me separar de você.

Eu vejo você sufocar suas lágrimas e

resistir sem sucesso às emoções bem no exato momento que tenta

as controlar.

Parece que o perdi há apenas um momento.

Pois o que

não é “apenas um momento” quando se começa a usar a memória?

2. Faz pouco tempo, era ainda adolescente e me sentava na sala de

aula do filósofo Sótion; 179 há um momento atrás eu comecei a atuar como advogado nos tribunais; ainda há pouco atrás eu perdi o desejo

de advogar; há um momento atrás que eu perdi a capacidade.

Infinitamente rápida é a velocidade do tempo, como se vê mais

claramente quando se olha para trás.

Pois quando estamos atentos

ao presente, não o percebemos, tão suave é a passagem do tempo

ao se avançar.

3. Você pergunta a razão para isso? Todo o tempo passado está no mesmo lugar; tudo isso apresenta o mesmo aspecto para nós, tudo

se mescla num único bloco.

Todo ele se precipita no mesmo abismo.

Além disso, um evento que em sua totalidade é ríspido não pode

conter longos intervalos.

O tempo que passamos na vida não passa

de um ponto, nem mesmo de um ponto.

Mas este ponto do tempo,

infinitesimal como é, a natureza tem zombado de nós por fazê-lo

parecer exteriormente de mais longa duração; ela tomou uma porção

dele e fez a infância, outra a adolescência, outra a juventude, mais

uma inclinação gradual, por assim dizer, da juventude à velhice e a

própria velhice também é outra transição.

Quantas etapas para uma

subida tão curta!

4. Foi apenas um momento atrás que eu vi você em sua partida.

E,

no entanto, este “momento atrás” constitui uma boa parte de nossa

existência, que é tão breve.

Devemos refletir que ela logo chegará ao

fim completamente.

Em outros anos o tempo não me pareceu ir tão

rapidamente; agora parece inacreditavelmente rápido, talvez porque

eu sinta que a linha de chegada está se aproximando ou pode ser

que eu tenha começado a tomar cuidado e contar minhas perdas.

5. Por esta razão, fico mais indignado com alguns homens por

reivindicarem a maior parte deste tempo para coisas supérfluas, tempo que, por mais cuidadoso que sejamos, não é suficiente até

mesmo para as coisas necessárias.

Cícero declarou que se o

número de seus dias fosse dobrado, não teria tempo para ler os

poetas líricos.

E você pode classificar os dialéticos na mesma

classe, mas são tolos de uma forma mais constrangedora e

melancólica.

Os poetas líricos são abertamente fúteis, mas os

dialéticos, em sua futilidade, acreditam que eles próprios estejam

empenhados em negócios sérios.

6. Não nego que se deva lançar um olhar sobre a dialética, mas deve

ser um simples olhar, uma espécie de saudação da soleira,

simplesmente para não ser enganado ou julgar que essas atividades

contenham quaisquer assuntos ocultos de grande valor.

Por que você

se atormenta e perde tempo por algum problema que seria mais

inteligente se desprezado do que resolvido? Quando um soldado

está tranquilo e viajando despreocupadamente, ele pode caçar

bagatelas ao longo de seu caminho; mas quando o inimigo está se

fechando na retaguarda e um comando é dado para acelerar o ritmo,

a necessidade faz ele jogar fora tudo o que ele pegou em momentos

de paz e lazer.

7. Não tenho tempo para investigar inflexões disputadas de palavras ambíguas ou para pôr em prática minha astúcia sobre elas.

Eis os clãs que se aglomeram,

os portões fechados, e espadas aguçadas

prontas para a guerra.

Adspice qui coeant populi,

uae moenia clusis

Ferrum acuant portis.

Preciso de um coração forte para ouvir, sem hesitar, este ruído de

batalha que soa em minha volta.

8. E todos pensariam, com razão, que eu teria ficado louco se,

quando anciãos e mulheres estivessem empilhando pedras para as

fortificações, quando os jovens armados frente aos portões

esperassem ou mesmo exigissem a ordem de um ataque, quando as

lanças dos inimigos tremessem em nossos portões e o próprio chão

estivesse balançando com minas e passagens subterrâneas dos

sabotadores; eles pensariam, com razão, que eu teria ficado louco

se me sentasse ocioso, propondo enigmas tão insignificantes como

este: “O que você não perdeu, você possui, mas ora, você não

perdeu nenhum chifre, portanto, você tem chifres”, 181 ou outros truques construídos segundo o modelo deste bocado de pura bobagem.

9. E, no entanto, bem posso parecer aos seus olhos não menos

louco, se eu gastar minhas energias com esse tipo de coisa; pois

neste exato momento estou em estado de sítio.

E ainda, no primeiro

caso, seria apenas um perigo exterior que me ameaça e um muro

me separaria do inimigo; como é agora, os perigos mortais estão na

minha própria presença.

Não tenho tempo para essas tolices, um

poderoso empreendimento está em minhas mãos.

O que eu devo

fazer? A morte está em meu caminho e a vida está fugindo.

10. Ensine-me algo com que enfrentar estes problemas.

Faça que eu

deixe de tentar escapar da morte e que a vida possa deixar de

escapar de mim.

Dê-me coragem para enfrentar dificuldades, me

acalme em face do inevitável.

Amplie os estreitos limites de tempo

que me é atribuído.

Mostre-me que o bem na vida não depende do

comprimento da vida, mas do uso que fazemos dela.

Além disso, é

possível, e é o que sucede na maioria das vezes, que um homem

que tenha vivido longamente, mesmo assim, tenha vivido muito

pouco.

Diga-me quando eu me deitar para dormir: “Você pode não acordar de novo! ” E quando eu acordar: “Você pode não ir dormir

novamente!” Diga-me quando sair de minha casa: “Não vai voltar!” E

quando eu retornar: “Você poderá nunca sair novamente!”

11. Você está enganado se você pensa que somente em uma viagem

marítima há um espaço muito pequeno entre a vida e a morte.

Não, a

distância entre elas é estreita em todos os lugares.

Não é em toda

parte que a morte se mostra tão perto; contudo, em todos os lugares

ela está próxima.

Livre-me desses terrores sombrios, então você me

entregará mais facilmente a instrução para a qual me preparei.

No

nosso nascimento, a natureza nos tornou ensináveis e nos deu razão,

não perfeita, mas capaz de ser aperfeiçoada.

12. Discuta para mim a justiça, o dever, a austeridade e essa dupla

castidade, tanto a pureza que se abstém da pessoa de outrem

quanto aquela que respeita o pudor de si mesma.

182 Se você apenas se recusar a me guiar por caminhos tortuosos eu alcançarei mais

facilmente a meta a que estou visando.

Pois, como diz o poema

trágico:

A linguagem da verdade é simples.

Veritatis simplex oratio est.

Não devemos, portanto, tornar essa linguagem intrincada; uma vez

que não há nada menos apropriado para uma alma de grande

diligência do que esta falaciosa esperteza dialética.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

178 Provavelmente o local de nascimento de Lucílio.

179 Sótion, o pitagórico.

Por suas opiniões sobre vegetarianismo e sua influência para Sêneca, veja carta CVIII.

Mais sobre a educação de Sêneca na biografia por

Francis Hol and, Sêneca, Vida e Filosofia.

180 Trecho de Eneida, de Virgílio, VIII, 385.

181 NT: Mais sobre a falácia do “cornudo” em Diógenes Laércio, Vidas e Doutrinas

dos Filósofos Ilustres, VII, 187. Sêneca coloca literalmente o texto original grego do

silogismo.

182 NT: Ver sobre os tipos de castidade na carta XCIV (Volume III)

183 Trecho de As Fenícias de Eurípides.

L. Sobre nossa cegueira e sua

cura

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Recebi sua carta muitos meses depois de você a ter enviado.

Portanto, julguei que era inútil perguntar ao transportador com o que

você estava ocupado.

Ele necessitaria ter uma memória

particularmente boa se puder lembrar disso! Mas espero que a esta

altura você esteja vivendo de tal maneira que eu possa ter certeza de

como está ocupando sua vida, não importa onde você possa estar.

Com o que mais você estaria ocupado, a não ser melhorar a si

mesmo, deixando de lado algum erro e procurando entender que os

vícios que você atribui às circunstâncias estão em você mesmo! De

fato, estamos aptos a atribuir certos vícios ao lugar ou ao tempo,

mas esses vícios nos seguirão, não importa como mudamos nosso

lugar.

2. Você conhece a Harpaste, a bufão particular da minha primeira

mulher.

Ela acabou permanecendo em minha casa, um fardo

incorrido de um testamento.

Eu particularmente desaprovo essas

extravagâncias.

Sempre que eu quiser desfrutar de piadas de um

palhaço, não sou obrigado a procurar longe, eu posso rir de mim

mesmo.

Agora essa boba de repente ficou cega.

A história soa

incrível, mas eu lhe asseguro que é verdade: ela não sabe que ela é

cega.

Ela continua pedindo a sua escrava para mudar de aposentos: ela diz que seus apartamentos são muito escuros.

3. Você pode ver claramente que o que nos faz rir no caso de

Harpaste acontece a todos nós também: ninguém percebe que é

avarento ou que é cobiçoso.

No entanto, os cegos pedem um guia,

enquanto vagamos sem um, dizendo: “Eu não sou egoísta, mas não

se pode viver em Roma de qualquer outra maneira.

Eu não sou

extravagante, mas mera vida na cidade exige um grande

desembolso.

Não é culpa minha que eu tenha uma disposição

colérica, ou que eu não tenha estabelecido qualquer esquema de

vida definido, é devido à minha juventude.

”

4. Por que nos enganamos? O mal que nos aflige não é externo, está

dentro de nós, situado em nossas próprias vísceras; por isso

alcançamos a saúde com mais dificuldade, porque não sabemos que

estamos doentes.

Suponhamos que tenhamos começado o

tratamento; quando conseguiremos nos livrar de todas essas

doenças, de toda essa sua virulência? Atualmente, nem mesmo

consultamos o médico, cujo trabalho seria mais fácil se fosse

chamado quando a queixa estivesse em seus estágios iniciais.

As

mentes tenras e inexperientes obedecem sem tardar a quem lhes aconselhe sobre o caminho justo.

5. Nenhum homem tem dificuldade em retornar à natureza, a não ser

o homem que desertou a natureza.

Nós ruborizamos ao receber

conselhos de sabedoria mas, pelos céus, se achamos vil procurar um

professor desta arte, também devemos abandonar qualquer

esperança de que um tão grande bem possa ser inculcado em nós

por mero acaso.

Não! A sabedoria só se obtém pelo esforço.

Para

dizer a verdade, até mesmo a obra não é grande, se apenas, como

eu disse, começarmos a moldar e reconstruir nossas almas antes

que elas sejam endurecidas pelo vício.

Mas eu não perco as

esperanças nem por um pecador contumaz.

6. Não há nada que não se renda ao tratamento persistente e à

atenção concentrada e cuidadosa; por mais que a madeira possa

estar torta, você pode torná-la reta novamente.

O calor retifica vigas

torcidas e a madeira que cresceu naturalmente em outra forma é

moldada artificialmente de acordo com nossas necessidades.

Quão

mais facilmente a alma se permite moldar, flexível como é e mais

complacente do que qualquer líquido! Pois o que mais é a alma do

que o ar em um determinado estado? E você vê que o ar é mais

adaptável do que qualquer outra matéria, na medida em que é menos denso do que qualquer outra.

7. Não há nada, Lucílio, que o impeça de entreter boas esperanças

sobre nós, apenas porque estamos ainda sob o domínio do mal ou

porque há muito temos sido possuídos por ele.

Não há homem a

quem uma boa mente venha antes de uma maligna.

É a mente má

que primeiro domina a todos nós.

Aprender virtude significa

desaprender o vício.

8. Devemos, portanto, prosseguir na tarefa de nos livrar dos vícios

com mais coragem, porque, uma vez entregue a nós, o bem é uma

possessão eterna.

A virtude não é ignorada.

Pois antagonistas

encontram dificuldade em se apegar onde não pertencem, portanto,

eles podem ser expulsos e empurrados para longe; mas qualidades

que vêm a um lugar que é legitimamente delas, permanecem

fielmente.

A virtude é consoante à natureza; o vício é oposto a ela e

lhe é hostil.

9. Mas embora as virtudes, quando admitidas, não possam partir e

sejam fáceis de cuidar, os primeiros passos na abordagem delas são

difíceis, porque é característico de uma mente fraca e doente ter

medo do que não é familiar.

A mente deve, portanto, ser forçada a

começar.

Daí em diante, o remédio não é amargo, pois assim que nos cura, começa a dar prazer.

Goza-se das curas do corpo

somente depois que a saúde é restaurada, mas com a filosofia a

cura é ao mesmo tempo salutar e agradável.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

LI. Sobre Baiae184 e a moral

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Todo homem faz o melhor que pode, meu caro Lucílio! Você está

aos pés do Etna, 185 aquela alta e mais célebre montanha da Sicília; à qual Messala, ou Valgio (não sei, pois eu tenho lido o adjetivo em

ambos) chamou de “única”, na medida em que muitas regiões

vulcânicas também atiraram fogo, não apenas as montanhosas, onde

o fenômeno é mais frequente, – presumivelmente porque o fogo se

eleva à maior altura possível – mas lugares baixos também.

Quanto

a mim, faço o melhor que posso, tive que me contentar com Baiae e

eu a deixei um dia depois que cheguei.

Baiae é um lugar a ser

evitado, porque, embora tenha certas vantagens naturais, a luxúria

reivindicou-a para seu resort exclusivo.

2. “O quê então,” você diz, “deve qualquer lugar ser apontado como

um objeto de aversão?” De modo nenhum.

Mas, assim como para o

homem sábio e reto um estilo de roupa é mais adequado do que outro não porque ele tenha aversão por uma cor particular, mas

porque pensa que algumas cores não convêm a quem adotou a vida

simples; da mesma forma há lugares também que o sábio ou aquele

que está no caminho para a sabedoria evitará por ser incompatível à

boa moral.

3. Portanto, aquele que está contemplando se afastar do mundo, não

deveria selecionar Canopus186 (embora Canopus não proíba qualquer homem de viver com austeridade), nem Baiae sequer; pois ambos os

lugares foram transformados em autênticos antros de vícios.

Em

Canopus, o luxo se deleita ao máximo.

Em Baiae é ainda mais lasso,

como se o próprio lugar exigisse uma certa quantidade de frouxidão.

4. Devemos selecionar moradias que são saudáveis não só para

o corpo, mas também para o caráter.

Assim como eu não gostaria

de viver em um lugar de tortura, também eu não prefiro viver em uma

taberna.

Pessoas vagando bêbadas ao longo da praia, as

turbulentas festas, os lagos com música barulhentas e todas as

outras formas em que a vida de prazer, quando, libertada das

restrições da lei, não meramente peca, mas ostenta seus pecados

publicamente, por que deveria testemunhar tudo isso? 5. Devemos cuidar para que fujamos para a maior distância possível

das provocações ao vício.

Devemos endurecer nossas mentes e

removê-las das seduções do prazer.

Um único inverno relaxou as

fibras de Aníbal; o seu mimo em Campânia tirou o vigor desse herói

que triunfara sobre as neves alpinas.

187 Conquistou com suas armas, mas foi conquistado por seus vícios.

6. Nós também temos uma guerra a empreender, um tipo de guerra

em que não é permitido nenhum descanso ou licença.

Para ser

dominado, em primeiro lugar, estão os prazeres, que, como você vê,

têm derrotado até mesmo os personagens mais severos.

Se um

homem já compreendeu quão grande é a tarefa que ele entrou, verá

que não deve haver nenhuma conduta frágil ou afeminada.

O que

tenho a ver com esses banhos quentes ou com a sauna onde o vapor

seco drena nossa força? A transpiração só deve fluir devido ao

trabalho.

7. Suponha que façamos o que Aníbal fez, interrompamos o curso

dos acontecimentos, desistamos da guerra e cedamos nossos

corpos aos mimos.

Todos nos culpariam, com razão, por nossa

preguiça intempestiva, uma coisa carregada de perigo até mesmo

para o vencedor, para não falar de alguém que está apenas no caminho para a vitória.

E temos ainda menos direito de fazer isso do

que aqueles seguidores da bandeira de Cartago; porque o nosso

risco é maior do que o deles se afrouxarmos, e o nosso trabalho é

maior do que o deles, mesmo se avançarmos.

8. A Fortuna está lutando contra mim e eu não executarei seus

comandos.

Eu me recuso a submeter-me ao jugo, ou melhor, eu me

livro da canga que está sobre mim, um ato que exige ainda mais

coragem.

A alma não deve ser mimada.

entregar-se ao prazer

significa também render-se à dor, render-se à fadiga, render-se à

pobreza.

Tanto a ambição quanto a raiva desejarão ter sobre mim os

mesmos direitos que o prazer e eu serei despedaçado, ou melhor,

rasgado em pedaços, em meio a todas essas paixões conflitantes.

9. Eu pus a liberdade diante dos meus olhos e eu estou lutando por

essa recompensa.

E o que é liberdade, você pergunta? Significa não

ser escravo de nenhuma circunstância, de qualquer constrangimento,

de qualquer chance.

Significa obrigar a Fortuna a entrar na disputa

em termos iguais.

E no dia em que eu souber que eu tenho a

vantagem, seu poder será nada.

Quando eu tiver a morte sob meu

próprio controle, devo receber ordens dela?

10. Portanto, um homem ocupado com tais reflexões deve escolher uma residência austera e pura.

O espírito é enfraquecido por

ambientes que são muito agradáveis e sem dúvida o local de

residência pode contribuir para prejudicar seu vigor.

Animais cujos

cascos são endurecidos em terreno acidentado podem percorrer

qualquer estrada, mas quando são engordados em prados macios,

seus cascos são logo desgastados.

O soldado mais corajoso vem de

regiões rochosas.

Os escravos da cidade, nascidos em casa, são

uns fracotes.

188 A mão que deixa o arado para a espada nunca se

opõe a trabalhar, mas seus fanfarrões elegantes e bem vestidos

vacilam na primeira nuvem de poeira.

11. Ser treinado em uma terra acidentada fortalece o caráter e o

prepara para grandes empreendimentos.

Seria mais honrado para

Cipião passar seu exílio em Liturno, do que em Baiae; sua queda não

precisava de um cenário tão afeminado.

Aqueles também, para cujas

mãos a Fortuna do povo de Roma transferiu a riqueza do estado,

Caio Mário, Cneu Pompeu e César, de fato construíram casas de

campo perto de Baiae, mas eles as colocaram no topo das

montanhas.

Parecia mais apropriado para um soldado, olhar de uma

elevada altura para baixo, sobre terras espalhadas por toda parte.

Observe a situação, posição e tipo de edifício que eles escolheram, você verá que não eram casas de campo, eram acampamentos de

guerra.

12. Você acha que Catão teria morado em um palácio de prazer,

para contar as mulheres lascivas passando, os muitos tipos de

carruagens pintadas de todas as cores, as pétalas de rosas que

flutuam sobre o lago, ou que ele pudesse ouvir as brigas noturnas de

seresteiros? Não teria ele preferido ficar no abrigo de uma trincheira

cavada pelas próprias mãos? Um homem de verdade não iria preferir

ter seu sono quebrado por uma trombeta de guerra em vez de um

coro de seresteiros?

13. Mas eu tenho reclamado contra Baiae tempo suficiente, embora

eu nunca possa reclamar o suficiente contra o vício.

Vício, Lucílio, é

o que eu desejo que você lute contra, sem limites e sem fim.

Pois ele

não tem limite nem fim.

Se o vício penetrar seu coração, jogue-o

para fora de você e se você não puder se livrar dele de nenhuma

outra maneira, arranque fora seu coração também.

Acima de tudo,

afaste os prazeres de sua visão.

Odeie-os além de todas as outras

coisas, porque eles são como os bandidos que os egípcios chamam de “amantes”, 189 que nos abraçam apenas para nos estrangular.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

184 NT: Baiae (italiano: Baia) foi uma estância costeira na costa noroeste do Golfo de Nápoles, na Itália antiga.

Esteve em moda por séculos durante a antiguidade, particularmente no final da República Romana.

185 Etna foi de especial interesse para Lucílio.

Além de ser governador na Sicília, ele pode ter escrito o poema Aetna.

Para a curiosidade de Sêneca em relação à montanha, compare com a carta LXXIX.

186 NT: Canopus: cidade egípcia no delta do Nilo deve ter sido popular como um resort; certamente deu seu nome aos luxuosos canais das vilas romanas.

187 NT: Mais sobre Aníbal e sua vida em Cápua, ver Tito Lívio, XXIII.

188 NT: em oposição ao escravo prisioneiro de guerra.

Sêneca usa o termo “uerna”

nascido na casa do mestre.

189 Philetae: a cultura do Egito romano (onde Sêneca passou alguns anos quando seu tio era governador) era predominantemente grega e philetae, “amantes, abraçadoras”, é um jogo de palavras semelhantes na língua grega.

LII.

Escolhendo nossos

professores

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. O que é esta tendência, Lucílio, que nos arrasta em uma direção

quando estamos mirando em outra, nos incitando ao lugar exato do

qual nós desejamos nos retirar? O que é que luta com o nosso

espírito e não nos permite desejar nada de forma definitiva?

Passamos de plano em plano, a deriva.

Nenhum de nossos desejos é

livre, nenhum é incondicional, nenhum é duradouro.

2. “Mas é o tolo”, você diz, “que é inconsistente, nada lhe convém

por muito tempo.” Mas como, ou quando, podemos nos afastar

dessa loucura? Nenhum homem por si só tem força suficiente para

se elevar acima dela, ele precisa de uma mão amiga e alguém para

desenredá-lo.

3. Epicuro observa que certos homens têm trabalhado seu caminho

para a verdade sem a ajuda de ninguém, talhando sua própria

passagem.

E ele dá louvor especial a estes, porque o seu impulso

veio de dentro e eles têm avançado para a frente por si mesmos.

Novamente, diz ele, há outros que precisam de ajuda externa, que

não prosseguirão a menos que alguém conduza o caminho, mas que

irão seguir fielmente.

Destes, diz ele, Metrodoro era um. Este tipo de

homem também é excelente, mas pertence ao segundo grau.

Nós também não somos dessa primeira classe, seremos bem tratados se

formos admitidos no segundo.

Nem preciso desprezar um homem

que pode obter a salvação apenas com a ajuda de outro, a vontade

de ser salvo significa muito também.

4. Você encontrará ainda outra classe de homem, uma classe a não

ser desprezada, que pode ser forçada e empurrada para a virtude,

que não precisa só de um guia, mas também exige alguém para

encorajar, por assim dizer, para forçá-lo. Esta é a terceira variedade.

Se você me pedir um exemplo de homem deste padrão, Epicuro nos

diz que Hermarco191 era tal.

E das duas últimas classes, ele está mais pronto para parabenizar a primeira, mas sente mais respeito

pela outra: embora ambas tenham atingido o mesmo objetivo, é um

crédito maior ter trazido ao mesmo resultado o material mais difícil

sobre o qual trabalhar.

5. Suponha que dois edifícios foram erguidos, diferentes em suas

fundações, mas iguais em altura e em grandeza.

Um é construído em

terreno sem falhas e o processo de construção vai direto para a

frente.

No outro caso, as fundações esgotaram os materiais de

construção, porque foram afundadas em terra macia e pouco firme e

muito trabalho foi necessário para alcançar a rocha maciça.

Quando se olha para ambos, vê-se claramente o progresso que o primeiro

fez, mas a parte maior e mais difícil do segundo está oculta.

6. Assim, também é com as disposições dos homens, alguns são

flexíveis e fáceis de manejar, mas outros têm de ser trabalhados

laboriosamente, por assim dizer, e são empregados totalmente na

fabricação de seus próprios fundamentos.

Por isso considero mais

afortunado o homem que nunca teve problemas com ele mesmo;

mas o outro, eu sinto, é mais merecedor de si mesmo, pois ganhou

uma vitória sobre a mesquinhez de sua própria natureza e não se

conduziu suavemente, mas lutou seu caminho até a sabedoria.

7. Você pode ter certeza de que essa natureza refratária, que exige

muito trabalho, é a que foi implantada em nós.

Há obstáculos em

nosso caminho, então vamos lutar e chamar ao nosso auxílio alguns

ajudantes.

“Quem,” você diz, “eu devo invocar? Será este ou aquele

homem? ” Há outra opção também aberta para você, você pode ir

para os antigos, pois eles têm tempo para ajudá-lo. Podemos obter

ajuda não só dos vivos, mas também daqueles do passado.

8. Entretanto, entre os vivos, vamos escolher não os homens que

derramam as suas palavras com a maior desenvoltura, revelando

trivialidades e citações, por assim dizer, as suas próprias pequenas exposições particulares – não estes, digo eu, mas sim os homens

que nos ensinam com suas vidas, os homens que nos dizem o que

devemos fazer e depois provam pela prática, o que devemos evitar,

e então nunca são pegos fazendo o que eles nos ordenaram evitar.

Escolha como um guia quem você vai admirar mais ao vê-lo agir do

que ao ouvi-lo falar.

9. Naturalmente, não o impedirei de ouvir também aqueles filósofos

que costumam fazer sessões e discussões públicas, desde que

compareçam perante o povo com o propósito expresso de melhorar

a si mesmos e aos outros e não pratiquem sua profissão por

egoísmo.

Pois o que é mais ordinário do que a filosofia que busca

aplausos? O doente elogia o cirurgião enquanto está sendo

operado?

10. Em silêncio e com respeito reverente submetemo-nos à cura.

Mesmo que você grite por aplausos, vou ouvir seus gritos como se

você estivesse gemendo quando suas feridas são tocadas.

Deseja

dar testemunho de que está atento, de que está tocado pela

grandeza do assunto? Você pode fazer isso no momento adequado,

naturalmente, permitirei que você faça julgamento e que decida sobre

o melhor curso.

Pitágoras fazia seus alunos manterem-se em silêncio por cinco anos, você acha que eles tinham o direito de

repentinamente entrar em aplausos?

11. Quão estupido é aquele que sai da sala de aula num feliz estado

de espírito simplesmente por causa dos aplausos dos ignorantes!

Por que você tem prazer em ser louvado por homens que você

mesmo não pode elogiar? Fabiano192 costumava dar palestras populares, mas seu público ouvia com autocontrole.

Ocasionalmente,

um grande grito de louvor brotava, mas era provocado pela grandeza

de seu assunto e não pelo som da oratória que deslizava agradável e

suavemente.

12. Deve haver uma diferença entre os aplausos do teatro e os

aplausos da escola, e há certa decência mesmo em dar louvor.

Se

você os percebe cuidadosamente, todos os atos são sempre

significativos e você pode avaliar o caráter até mesmo pelos sinais

mais insignificantes.

O homem lascivo é revelado pelo seu andar, por

um movimento da mão, às vezes por uma única resposta, pelo toque

de sua cabeça com um dedo, 193 pelo revirar de seus olhos.

O patife é mostrado por sua risada, o louco pelo seu rosto e aparência geral.

Essas qualidades tornam-se conhecidas por certas marcas, mas você pode determinar o caráter de cada homem quando vê como ele

dá e recebe louvor.

13. O público do filósofo deste e daquele canto estende as mãos

admiradoras e às vezes a multidão adoradora quase paira sobre a

cabeça do conferencista.

Mas, se você realmente compreende, isso

não é louvor, é apenas um aplauso.

São autênticas carpideiras quem

o está aplaudindo.

Esses alaridos devem ser deixados para as artes

que visam agradar a multidão, que a filosofia seja reverenciada em

silêncio.

14. Os jovens, na verdade, devem às vezes ter liberdade para seguir

seus impulsos, mas só apenas em momentos em que eles agem de

impulso e quando eles não podem forçar-se a ficar em silêncio.

Tal

elogio dá um certo tipo de incentivo para os próprios ouvintes e age

como um estímulo para a mente jovem.

Mas que eles sejam

despertados para o assunto e não para o estilo, caso contrário, a

eloquência os faz mal, tornando-os enamorados de si mesmos e não

do assunto.

15. Vou adiar este tema por enquanto, exige uma investigação longa e especial para apresentar como o público deve ser abordado, que

indulgências devem ser permitidas a um orador em uma ocasião

pública e o que deve ser permitido à própria multidão na presença do

orador.

Não pode haver dúvida de que a filosofia sofreu uma perda,

agora que ela expôs seus encantos às massas.

Mas ela ainda pode

ser vista em seu santuário, se seu expositor for um sacerdote e não

um vendilhão.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

190 NT: Ver Epicuro, Cartas e Princípios

191 NT: Hermarco (grego: Ἕρμαρχoς, Hermarkhos; c. 325-c. AC), era um filósofo epicurista.

Ele foi discípulo e sucessor de Epicuro como chefe da escola.

Nenhum de seus escritos sobrevive.

Ele escreveu obras dirigidas contra Platão, Aristóteles e Empedócles.

192 NT: Papirio Fabiano foi um retórico e filósofo da Roma Antiga, ativo na última época de Augusto e nos tempos de Tibério e Calígula, na primeira metade do primeiro século.

Foi professor de Sêneca.

Suas obras são frequentemente citadas

por Plínio na História Natural e Sêneca diz que seus escritos filosóficos foram superados apenas pelos de Cícero, Pólio e Lívio.

193 O coçar da cabeça com um dedo era, por algum motivo, considerado uma marca de efeminação ou de vício; “scalpere caput digito”. LIII.

Sobre as falhas do espírito

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Você pode me persuadir em quase qualquer coisa agora, pois

recentemente fui persuadido a viajar por mar.

Nós partimos quando o

mar estava preguiçosamente calmo, o céu, com certeza, estava

pesado com nuvens desagradáveis, como se fosse quebrar em

chuva ou rajadas.

Ainda assim, eu pensei que as poucas milhas entre

Pozzuoli e sua cara Partenope194 poderiam ser executadas

rapidamente, apesar do céu incerto e pesado.

Então, para fugir mais

depressa, fui direto rumo à ilha de Nisida, com o objetivo de

atravessar todas as enseadas.

2. Mas quando estávamos tão distantes que fazia pouca diferença

voltar ou continuar, o tempo calmo, que me seduzira, acabou do

nada.

A tempestade ainda não tinha começado, mas o mar estava

inchado e as ondas se aproximavam cada vez mais depressa.

Comecei a pedir ao piloto para que me colocasse em terra firme, ele

respondeu que a costa era acidentada e um lugar ruim para atracar

e que durante uma tempestade ele temia uma costa de sota-vento

mais do que qualquer outra coisa.

3. Mas eu estava sofrendo demais para pensar no perigo, uma vez que um enjoo moroso que não me trazia alívio estava me

atormentando, o tipo que perturba o fígado sem limpá-lo. Por isso,

dei a ordem ao meu piloto, forçando-o a ir para a praia, contra sua

vontade.

Quando nos aproximamos, não esperei que as coisas

fossem feitas de acordo com as ordens de Virgílio, até que

Proa em direção o mar alto

ou

Âncora jogada da proa;

Obvertunt pelago proras

aut

Ancora de prora iacitur;

Lembrei-me da minha declaração solene de devoto veterano de água

fria196 e, vestido como eu estava em meu manto, me deixei cair no mar, como um banhista de água fria.

4. Quais você acha que eram meus sentimentos, correndo sobre as

rochas, procurando pelo caminho, ou fazendo um para mim?

Compreendi que os marinheiros têm boas razões para temer a terra.

É difícil acreditar no que sofri quando não podia tolerar-me. Você

pode ter certeza de que a razão pela qual Ulisses naufragou em

todas as ocasiões possíveis não foi tanto porque o deus do mar estava zangado com ele desde o seu nascimento, ele estava

simplesmente sujeito a enjoo.

E no futuro, se for preciso ir a algum

lugar por mar, só chegarei ao meu destino no vigésimo ano.

5. Quando eu finalmente acalmei meu estômago (pois você sabe que

não se escapa do enjoo escapando do mar) e revigorei meu corpo

com uma massagem, comecei a refletir o quão completamente

esquecemos ou ignoramos nossas falhas, mesmo aquelas que

afetam o corpo, que continuamente nos recordam de sua existência,

para não mencionar aquelas que são mais sérias na medida em que

são mais escondidas.

6. Uma leve maleita nos engana; mas quando aumenta e uma

verdadeira febre começa a queimar, força até um homem robusto,

que pode suportar muito sofrimento, a admitir que está doente.

Há

dor no pé e uma sensação de formigamento nas articulações, mas

ainda escondemos a enfermidade e anunciamos que apenas

torcemos uma articulação ou então que estamos cansados de

excesso de exercício.

Então a doença, incerta no início, deve ser

nomeada e quando ela começa a inchar os tornozelos e faz nossos

dois pés, pés “direitos” 198, somos obrigados a confessar que

estamos atacados de gota.

7. O oposto vale para as doenças da alma, quão pior são, menos se

percebe.

Você não precisa se surpreender, meu amado Lucílio.

Pois

aquele cujo sono é leve persegue visões durante o sono e às vezes,

embora adormecido, está consciente de que está adormecido, mas o

sono profundo aniquila nossos próprios sonhos e afunda o espírito

tão profundamente que não tem percepção de si mesmo.

8. Por que ninguém admite suas falhas? Porque ainda está preso por

elas, somente aquele que está acordado pode contar o seu sonho e

da mesma forma uma confissão do próprio vício é uma prova da

mente sã. Vamos, portanto, despertar-nos, para que possamos

corrigir nossos erros.

A filosofia, no entanto, é o único poder que

pode nos sacudir, o único poder que pode abalar o nosso sono

profundo.

Dedique-se inteiramente à filosofia.

Você é digno dela, ela

é digna de você, cumprimente um ao outro com um abraço amoroso.

Diga adeus a todos os outros interesses com coragem e franqueza.

Não estude filosofia meramente durante seu tempo livre.

9. Se você estivesse doente, você deixaria de cuidar de suas

preocupações pessoais e esqueceria seus deveres de negócios,

você não pensaria constantemente em nenhum cliente para fazer

exame ativo de seu caso durante uma moderação ligeira de seus sofrimentos.

Você iria tentar o seu melhor para se livrar da doença

logo que possível.

O que, então? Você não fará a mesma coisa

agora? Abandone todos os obstáculos e se dê tempo para obter

uma mente sadia, porque nenhum homem pode alcançá-la se está

absorto em outros assuntos.

A filosofia exerce sua própria

autoridade, ela nomeia seu próprio tempo e não permite que ele seja

nomeado para ela.

Ela não é uma coisa a ser seguida em tempos

estranhos, mas um assunto para a prática diária; ela é senhora e

dominadora, ela comanda nosso presente.

10. Alexandre, quando um certo país lhe prometeu uma parte do seu

território e metade de todos os seus bens, respondeu: “Eu invadi a

Ásia com a intenção, não de aceitar o que você pode dar, mas de

permitir que você mantenha o que eu deixar.

” A filosofia também

continua dizendo a todas as tarefas: “Eu não pretendo aceitar o

tempo restante que você deixou, mas vou permitir que você

mantenha o que eu vou conceder.

”

11. Dedique-se a ela, portanto, com toda a sua alma, sente-se a

seus pés, acalente-a; uma grande distância então começará a

separá-lo de outros homens.

Você estará bem à frente de todos os mortais e até mesmo os deuses não estarão muito adiante de você.

Você pergunta qual será a diferença entre você e os deuses?

Eles viverão por muito mais tempo.

Mas, pela minha fé, é o sinal

de um grande artista ter confinado uma semelhança completa aos

limites de uma miniatura.

A vida do sábio se estende sobre uma

superfície tão grande como faz toda a eternidade a um deus.

Há um

ponto em que o sábio tem uma vantagem sobre a divindade: pois um

deus é livre dos terrores pela magnanimidade da natureza, o sábio

pela sua própria magnanimidade.

12. Que privilégio maravilhoso, ter as fraquezas de um homem e

a serenidade de um deus! O poder da filosofia de romper os

golpes do acaso é inacreditável.

Nenhum projétil pode assentar em

seu corpo, ela é bem protegida e impenetrável.

Ela arruína a força

de alguns projéteis e os deflete com as dobras soltas de seu vestido,

como se não tivessem nenhum poder para prejudicar; outros, ela

ricocheteia e os repele com tanta força que retornam sobre o

remetente.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

194 NT: Cidades na baia de Nápoles.

195 Trecho de Eneida, de Virgílio, VI, 3 e III, 277. Método típico, na época, para atracar uma embarcação.

196 Ver carta LXXXIII.

(Volume II)

197 Ulisses levou dez anos em sua jornada, por causa do enjoo; Sêneca precisará duas vezes mais.

Ver Homero, Odisséia.

198 Ou seja, eles estão tão inchados que se parecem.

LIV.

Sobre asma e morte

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Minha má saúde me permitiu um longo período de folga, quando

de repente retomou o ataque.

Que tipo de doença? Você diz.

E você

certamente tem o direito de perguntar; pois é verdade que nenhum

tipo de maleita é desconhecida por mim.

Mas sou depositário, por

assim dizer, de uma doença especial.

Eu não sei porque eu deveria

chamá-la pelo seu nome grego “asma”, pois é bem descrita em latim

como “suspirium”. 199 Seu ataque é de duração muito breve, como o de uma tempestade no mar, geralmente termina dentro de uma hora.

Quem realmente poderia segurar sua respiração por tanto tempo?

2. Eu passei por todos os males e perigos da carne, mas nada me parece mais problemático do que isso.

E naturalmente assim, pois

qualquer outra coisa pode ser chamada de doença, mas esta é uma

espécie contínua de “último suspiro”. Por isso, os médicos a

chamam de “praticar como morrer”. Pois algum dia a doença terá

sucesso em fazer o que tantas vezes ensaiou.

3. Você acha que estou escrevendo esta carta com alegria, só

porque escapei? Seria absurdo deleitar-me com essa suposta

restauração da saúde, como seria para um réu imaginar que ele

havia ganhado o seu caso quando apenas conseguiu adiar seu

julgamento.

No entanto, no meio de minha respiração difícil eu nunca

deixei de repousar em pensamentos alegres e corajosos.

4. “O quê? ” Eu digo para mim mesmo “a morte me prova com tanta

frequência? ” Deixe-a fazê-lo, eu mesmo há muito tempo testei a

morte.

“Quando?” Você pergunta.

Antes de eu ter nascido.

A morte

é inexistência e eu já sei o que isso significa.

O que estava antes de

mim voltará a acontecer depois de mim.

Se há algum sofrimento

neste estado, deve ter havido tal sofrimento também no passado,

antes de eu entrar na luz do dia.

Na realidade, no entanto, não

sentimos nenhum desconforto na ocasião.

5. E eu lhe pergunto: você não diria que é o maior dos tolos aquele

que acredita que uma lâmpada está pior quando é apagada do que

antes de ser acesa? Nós, mortais, também somos acesos e

apagados.

O período de sofrimento se interpõe, mas de ambos os

lados há uma paz profunda.

Pois, a não ser que eu me engane muito,

meu caro Lucílio, nós nos perdemos pensando que a morte só nos

sucede, quando na realidade nos precedeu e nos procederá por sua

vez.

Qualquer condição que existia antes do nosso nascimento é a

morte.

Pois o que importa se você não começar absolutamente ou se

você for excluído, na medida em que o resultado de ambos os

estados é a inexistência?

6. Nunca deixei de encorajar-me com aclamados conselhos deste

tipo, em silêncio, é claro, já que não tinha capacidade de falar.

Depois, pouco a pouco, essa falta de ar, já reduzida a uma espécie

de arquejamento, avançou a intervalos maiores e depois diminuiu a

velocidade e finalmente parou.

Mesmo neste momento, embora a

respiração ofegante tenha cessado, a respiração não fluía

normalmente.

Ainda sinto uma espécie de hesitação e atraso na respiração.

Que seja como lhe agrada, desde que não haja suspiro

da alma.

7. Aceite esta garantia de mim: eu nunca estarei assustado quando a

última hora chegar, eu já estou preparado e não planejo um dia

inteiro à frente.

Mas você elogia e imita o homem que não quer

morrer, embora tenha prazer em viver? 201 Pois que virtude há em ir embora quando você é expulso? E, no entanto, há virtude mesmo

nisso: eu sou de fato expulso, mas é como se fosse embora de boa

vontade.

Por essa razão o homem sábio nunca pode ser expulso,

porque isso significaria a remoção de um lugar de onde ele não

estava disposto a sair e o homem sábio não faz nada

involuntariamente.

Ele foge à lei da necessidade precisamente por

querer aquilo a que a necessidade o constrangerá.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

199 Sêneca pensa que o nome latino é bom o bastante.

200 Ou seja, que o suspiro seja físico, um suspiro asmático e não causado por angústia de alma.

201 O argumento é: estou pronto para morrer, mas não me elogie por essa conta; reserve seu louvor para aquele que não está relutante em morrer, embora (ao contrário de mim) ele tenha prazer em viver (porque ele está em boa saúde). Sim, pois não há mais virtude na aceitação da morte quando alguém odeia a vida, do que há em deixar um lugar quando é expulso.

LV. Sobre a Vila de Vácia

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Acabo de regressar de um passeio na minha liteira e estou tão

cansado como se eu tivesse andado a pé, em vez de estar sentado.

Até mesmo ser carregado por qualquer período de tempo é trabalho

duro, talvez tão mais porque é um exercício antinatural.

Pois a

Natureza nos deu pernas para fazer a nossa própria caminhada e

olhos para fazer a nossa própria visão.

Nossos luxos nos

condenaram à fraqueza, deixamos de ser capazes de fazer o que

por muito tempo nos recusamos a fazer.

2. No entanto, achei necessário dar uma chacoalhada no meu corpo,

a fim de que a bile que se acumulou em minha garganta, se isso

fosse o problema, pudesse ser sacodida.

Sentia necessidade de

expulsar a expectoração que porventura tivesse na garganta ou, se

por qualquer outro motivo a respiração me era difícil, para tentar

aliviá-la com as sacudidelas da liteira, que sinto ter-me feito bem.

Por isso insisti em ser levado mais tempo do que de costume, ao

longo de uma praia encantadora, que se curva entre Cumas e próximo a casa de campo de Servílio Vácia, 202 encerrada pelo mar de um lado e pelo lago do outro, como um caminho estreito.

A areia

estava firme por causa de uma recente tempestade, já que, como

você sabe, as ondas, quando batem na praia continuamente,

nivelam-a, mas um período contínuo de tempo bom afrouxa-a,

quando a areia, com o desaparecimento da humidade, fica mais seca

e menos consistente ao andar.

3. Como é o meu hábito, eu comecei a procurar por algo lá que

poderia ser útil a mim quando meus olhos caíram sobre a vila que

uma vez pertencera a Vácia.

Então este foi o lugar onde o famoso

pretoriano milionário passou sua velhice! Ele era famoso por nada

mais do que sua vida de lazer e ele foi considerado como afortunado

apenas por esse motivo.

Pois sempre que homens eram arruinados

por sua amizade com Caio Asínio Galo203, sempre que outros eram

arruinados pelo ódio de Sejano, 204 e mais tarde por sua intimidade com ele, porque não era mais perigoso ofendê-lo do que amá-lo, as

pessoas costumavam exclamar: “Ó Vácia, só você sabe viver! ”

4. Mas o que ele sabia era como se esconder, não como viver.

E faz

uma grande diferença se sua vida é de lazer ou de indolência.

Então

eu nunca passei por sua casa de campo durante a vida de Vácia sem me dizer: “Aqui jaz Vácia! ” Mas, meu caro Lucílio, a filosofia é uma

coisa de santidade, algo a ser adorado, tanto que até a própria

falsificação agrada.

Pois a massa da humanidade admira uma

pessoa livre, que se retirou da sociedade, despreocupada,

autossuficiente e que vive para si mesma.

Mas estes privilégios

podem ser a recompensa apenas do homem sábio.

Será que aquele

que é vítima da ansiedade sabe viver por si mesmo? O quê? Será

que ele mesmo sabe (e isso é de primeira importância) como viver

realmente?

5. Pois o homem que fugiu dos negócios e dos homens, que foi

banido para a reclusão pela infelicidade que seus próprios desejos

trouxeram, que não pode ver seu vizinho mais feliz do que ele

mesmo, que por medo tem se escondido como um animal assustado

e preguiçoso – esta pessoa não está vivendo para si, está vivendo

para o seu ventre, seu sono e sua luxúria, e essa é a coisa mais

vergonhosa do mundo.

Aquele que vive para ninguém, não

necessariamente vive para si mesmo.

No entanto, há tanto em

perseverança e adesão ao propósito de alguém que mesmo a

letargia, se teimosamente mantida, assume um ar de autoridade.

6. Eu não poderia descrever a casa de campo com precisão, pois estou familiarizado apenas com a frente da vila e com as partes que

estão à vista do público e podem ser vistas pelo mero passageiro.

Há duas grutas artificiais, que custaram muito trabalho, tão grandes

quanto o salão mais espaçoso, feitas à mão.

Uma delas não admite

os raios do sol, enquanto a outra os mantém até o sol se pôr.

Há

também um córrego que corre através de um bosque de plátanos

que recebe suas águas tanto do mar e quanto do lago Aqueronte.

Ele cruza o bosque exatamente como uma pista de corrida e é

grande o suficiente para sustentar peixes, embora suas águas sejam

contínuas.

Quando o mar está calmo, no entanto, eles não usam o

córrego, apenas tocando as águas bem abastecidas quando as

tempestades dão aos pescadores um feriado forçado.

7. Mas a coisa mais conveniente sobre a casa é o fato de que Baiae

está ao lado, ficando a casa livre de todos os inconvenientes daquela

estância e ainda gozando de seus prazeres.

Eu mesmo compreendo

essas atrações e acredito que seja uma casa adequada a todas as

temporadas do ano.

Está exposta aos ventos ocidentais e os

intercepta de tal forma que a Baiae é negado.

Assim parece que

Vácia não foi tolo quando selecionou este lugar como o melhor onde

gastar seu tempo livre quando ele já era infrutífero e decrépito.

8. O lugar onde se vive, no entanto, pode contribuir pouco para a

tranquilidade; é a mente que deve tornar tudo agradável a si mesma.

Vi homens desanimados numa vila alegre e encantadora e os vi com

toda a aparência de negócios no meio de uma solidão.

Por esta

razão não se deve recusar a acreditar que a sua vida está bem

colocada simplesmente porque não está agora em Campânia.

Mas

por que você não está lá? Basta deixar seus pensamentos viajar,

mesmo para este lugar.

9. Você pode manter conversas com seus amigos quando eles estão

ausentes e, na verdade, quantas vezes quiser e pelo tempo que

desejar.

Pois desfrutamos disso, o maior dos prazeres, mais ainda

quando estamos ausentes uns dos outros.

Pois a presença de

amigos nos torna embotados porque podemos a qualquer momento

falar ou sentarmo-nos juntos, quando uma vez que nos separamos,

não refletimos sobre aqueles a quem há pouco vimos.

10. E devemos suportar a ausência de amigos alegremente, porque

todos são obrigados a estar muitas vezes ausentes de seus amigos,

mesmo quando eles estão presentes.

Inclua nesses casos, em

primeiro lugar, as noites separadas, depois os compromissos

diferentes que cada um de dois amigos tem, então os estudos particulares de cada um e suas excursões a casa de campo e você

verá que as viagens ao estrangeiro não nos roubam de muito.

11. Um amigo deve ser mantido no espírito.

Tal amigo nunca pode

estar ausente.

Você pode ver todos os dias quem deseja.

Gostaria,

portanto, que você compartilhasse seus estudos comigo, suas

refeições e seus passeios.

Deveríamos estar vivendo dentro de

limites muito estreitos se alguma coisa barrasse os nossos

pensamentos.

Eu o vejo, meu caro Lucílio, e neste exato momento,

eu o ouço.

Eu estou com você a tal ponto que me mostro indeciso se

não deveria começar a escrever bilhetes em vez de cartas.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

202 Cumas estava na costa a cerca de seis milhas a norte de Cape Misenum.

O

lago Acheron era uma piscina de água salgada entre esses dois pontos, separados

do mar por uma barra de areia; O Vácia mencionado aqui é desconhecido;

203 NT: Caio Asínio Galo era filho de Asínio Galo, sua franqueza o colocou em apuros e ele morreu de fome em um calabouço em 33. 204 Sejano, chefe da guarda pretoriana de Tibério foi derrubado e executado em 31.

LVI.

Sobre silêncio e estudo

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Que eu seja amaldiçoado se achar o silêncio ser coisa exigida a

um homem que se isola para estudar! Imagine que variedade de

ruídos reverbera sobre meus ouvidos! Tenho meu aposento

diretamente sobre um estabelecimento de banhos.

Então imagine a

variedade de sons que são fortes o suficiente para me fazer odiar

meus próprios poderes de audição! Quando, por exemplo, um

vigoroso cavalheiro se exercita com pesos, quando está treinando

duro, ou então finge estar treinando duro, eu posso ouvi-lo grunhir e

sempre que libera sua respiração aprisionada, eu posso ouvi-lo

ofegante em sons sibilantes e agudos.

Ou talvez eu note algum

sujeito preguiçoso, satisfeito com uma massagem barata e fique a

ouvir a batida da mão em seu ombro, variando em som de acordo

com a mão, se é colocada espalmada ou em oco.

Então, talvez, um

profissional venha junto, gritando alto a contagem, esse é o toque

final.

2. Acrescente a isso a prisão de um ladrão ocasional ou de um carteirista, a balbúrdia de um homem que sempre gosta de ouvir sua

própria voz no banheiro ou o entusiasta que mergulha no tanque de

natação com ruído desmedido e salpicos.

Além de todos aqueles

cujas vozes, ao menos são boas, imagine o depilador com sua voz

penetrante e estridente, para fins de propaganda, continuamente

gritando e nunca segurando a língua, exceto quando ele está

depilando axilas e fazendo sua vítima gritar.

Então o vendedor de

bolos com seus variados gritos, o salsicheiro, o confeiteiro e todos

os vendedores de comida gazeteando suas mercadorias, cada um

com sua própria entonação distintiva.

3. Então você diz: “Que nervos de ferro ou ouvidos amortecidos,

você deve ter, se sua mente pode suportar tantos ruídos, tão

diversos e tão discordantes, quando nosso amigo Crisipo era

trazido à beira da morte pelos contínuos bons dias que o

saudavam! ” Mas lhe asseguro que esta algazarra não significa mais para mim do que o som das ondas ou da queda de água.

Embora

você possa me lembrar que uma certa tribo uma vez moveu sua

cidade apenas porque não podia suportar o ruído de uma catarata

do Nilo.

4. As palavras com nexo parecem me distrair mais do que ruídos; pois as palavras exigem atenção, mas os ruídos apenas enchem os

ouvidos e os agridem.

Entre os sons que me rodeiam sem me

distrair, incluem-se carruagens de passagem, um mecânico no

mesmo quarteirão, um afilador próximo ou um sujeito que vende

instrumentos experimentando junto à fonte do repuxo trombetas e

flautas, não propriamente tocando, mas apenas soprando!

5. Além disso, um ruído intermitente me perturba mais do que um

estável.

Mas por esta altura tenho endurecido meus nervos contra

todo esse tipo de coisa, de modo que eu posso suportar até mesmo

um contramestre que marca o passo em tons agudos para sua

tripulação.

Pois eu forço minha mente a concentrar-se e impeço-a de

vaguear para as coisas externas.

Tudo ao ar livre pode ser uma

algazarra, desde que não haja perturbação dentro, desde que o

medo não esteja disputando com a ambição no meu peito, contanto

que a castidade e a luxúria não estejam em desacordo, uma

acossando a outra.

Qual é o benefício de um bairro tranquilo, se

nossas emoções estão em um tumulto?

6. Foi-se a noite, e todo o mundo foi embalado para descansar.

Obvertunt pelago proras

Isso não é verdade, pois nenhum descanso real pode ser encontrado quando a razão não é tranquilizada.

A noite traz nossos problemas à

luz, ao invés de bani-los; muda apenas a forma de nossas

preocupações.

Pois, mesmo quando buscamos o sono, nossos

momentos sem sono são tão assustadores quanto o dia.

A

verdadeira tranquilidade é o estado atingido por uma mente não

pervertida quando está relaxada.

7. Pense no homem infeliz que corteja o sono entregando sua

mansão espaçosa ao silêncio, que, para que seus ouvidos não sejam

perturbados por nenhum som, ordena que todo o séquito de seus

escravos fique quieto e que quem quer que se aproxime dele

caminhe na ponta dos pés.

Ele revira de um lado para o outro e

procura um sono agitado em meio a suas inquietações!

8. Ele se queixa de ter ouvido sons, quando não os ouviu em

absoluto.

O motivo, você pergunta? Sua alma está em alvoroço, ela

deve ser acalmada e sua murmuração rebelde, controlada.

Você não

precisa supor que a alma esteja em paz quando o corpo está imóvel.

Às vezes, imobilidade significa desconforto.

Devemos, portanto,

despertar-nos para a ação e nos ocupar com interesses que sejam

bons, tão frequentemente como quando ficamos sob julgo de uma

preguiça incontrolável.

9. Grandes generais, quando veem que seus homens estão

amotinados, os colocam em algum tipo de trabalho ou os mantêm

ocupados com pequenas incursões.

O homem ocupado não tem

tempo para libertinagem e é óbvio que os males do ócio podem ser

sacudidos pelo trabalho árduo.

As pessoas muitas vezes têm

pensado que eu busquei reclusão porque estava repugnado com a

política e lamentava a minha posição infeliz e ingrata, no entanto, no

retiro para o qual a apreensão e o cansaço me levaram, minha

ambição pela carreira pública às vezes se desenvolve novamente.

Isso pois minha ambição não foi erradicada, mas se abateu porque

estava cansada ou talvez até desanimada pelo fracasso de seus

planos.

10. É assim também com o luxo, que às vezes parece ter partido, e

então quando fazemos uma promessa de frugalidade, ele começa a

nos importunar e, em meio a nossas economias, procura os prazeres

que simplesmente deixamos, mas não condenamos.

Na verdade,

quanto mais furtivamente ele vem, maior é sua força.

Pois todos os

vícios manifestos são menos graves.

Uma doença também está mais

próxima de ser curada quando ela brota da ocultação e manifesta

seu poder.

Assim, como a ganância, a ambição e os outros males da mente, você pode ter certeza de que eles fazem mais mal quando

estão escondidos atrás de uma máscara de integridade.

11. Os homens pensam que estamos na aposentadoria, mas ainda

não estamos.

Pois se nos retiramos sinceramente, e soamos o sinal

de retirada, e desprezamos as atrações externas, então, como

observei acima, nenhuma coisa externa nos distrairá; nenhuma

música de homens ou de pássaros pode interromper bons

pensamentos quando eles se tornam firmes e seguros.

12. A mente que se abala com palavras ou sons ao acaso é instável

e ainda não se retirou para si mesma.

Contém dentro de si um

elemento de ansiedade e medo arraigado e isso faz da pessoa uma

presa da necessidade, como diz nosso Virgílio:

Eu, que de outrora nenhum dardo poderia fazer fugir,

Nem gregos, com linhas lotadas de infantaria.

Agora tremo a cada som, e temo o ar,

Tanto pelo meu filho quanto pela carga que eu carrego.

et me, quem dudum non ulla iniecta movebant

tela neque adverso glomerati e agmine Grai,

nunc omnes terrent aurae, sonus excitat omnis suspensum et pariter comitique onerique timentem.

13. Este homem em seu primeiro estado é sábio, ele não recua nem

à lança brandida nem à armadura de choque do inimigo nem ao

estrondo da cidade atingida.

Esse homem, em seu segundo estado,

não tem conhecimento, temendo por suas próprias preocupações.

Qualquer grito é tomado como um grito de batalha e o derruba, a

menor perturbação o faz sentir-se ofegante de medo.

É a carga que

o faz sentir medo.

14. Escolha qualquer um dentre os seus favoritos, arrastando suas

muitas responsabilidades, carregando seus muitos fardos, e você vai

ver um retrato do herói de Virgílio, “temendo tanto por seu filho

quanto pela carga que carrega”. Você pode ter certeza de que está

em paz consigo mesmo, quando nenhum ruído o assustar, quando

nenhuma palavra o sacudir de si mesmo, seja de lisonja ou de

ameaça ou apenas um som vazio zumbindo sobre você como um

barulho sem sentido.

15. “E então?” Você diz, “não é às vezes mais simples apenas

evitar o tumulto e estar ao abrigo do ruído?” Eu admito isso.

Por conseguinte, eu vou mudar de meus aposentos atuais.

Eu apenas

queria me testar e me dar prática.

Por que eu precisaria de mais

atormentação, quando Ulisses encontrou uma cura tão simples para

seus companheiros, mesmo contra as canções das Sereias?

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

205 NT: Sêneca narra esse caso em seu livro Naturales Quaestiones, IV, 2, 5:

"Houve um povo lá estabelecido pelos Persas que ficou com os ouvidos atordoados

pelo contínuo ruído e por isso decidiu mudar-se para outro local mais tranquilo."

206 Trecho de Argonáutica de Públio Varrão.

207 Trecho de Eneida, de Virgílio.

208 Eneias carrega Anquises; O homem rico carrega seu ônus de riqueza.

209 Não apenas tapando as orelhas com cera, mas também lhes ordenando a remar além das sereias o mais rápido possível.

Ver Odisseia, xii.

LVII.

Sobre as provações de

viagem

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Quando chegou a hora de voltar de Baiae para Nápoles, eu

facilmente me convenci que uma tempestade estaria furiosa, que

poderia evitar outra viagem por mar.

Só que, no entanto, a estrada

estava tão profunda em lama, por todo o caminho, que eu deveria ter

pensado, não obstante, fazer a viagem de barco.

Naquele dia eu tive

que suportar o destino completo de um atleta: primeiro foi a unção

com óleo, seguida pela chuva de poeira e areia no túnel de Nápoles

(gruta napolitana).

2.E a gruta? Nenhum lugar poderia ser mais longo do que aquela

prisão; nada podia ser mais anêmico do que as tochas que nos

permitiam não ver na escuridão, mas ver a escuridão.

Mas, mesmo

supondo que houvesse luz no lugar, a poeira, que é uma coisa

opressiva e desagradável, mesmo ao ar livre, destruía a luz.

Pior

ainda a poeira lá dentro, se revolve em volta de si mesma e, sendo o

lugar fechado e sem ventilação, sopra de volta nos rostos daqueles

que a põem em marcha! Assim, resistimos a dois inconvenientes ao

mesmo tempo.

E eram diametralmente diferentes: lutamos com lama

e com poeira na mesma estrada e no mesmo dia.

3. No entanto, a escuridão me proporcionou alguma coisa para

pensar; senti uma certa emoção mental e uma transformação não acompanhada pelo medo, devido à novidade e ao desagrado de uma

ocorrência incomum.

Claro que não estou falando de mim neste

momento, porque estou longe de ser uma pessoa perfeita ou mesmo

um homem de qualidades medianas.

Refiro-me a alguém sobre quem

a Fortuna perdeu o controle.

Até mesmo a mente de um tal homem

ficará encantada com uma emoção e ele mudará a cor de seu rosto.

4. Pois há certas emoções, meu querido Lucílio, que nenhuma

coragem pode evitar.

A natureza mostra como a coragem é uma

coisa perecível.

E assim um homem contrairá sua testa quando a

perspectiva for ameaçadora, estremecerá com aparições súbitas e

ficará tonto quando estiver na borda de um precipício alto e olhar

para baixo.

Isso não é medo, é um sentimento natural que a razão

não pode derrotar.

5. É por isso que certos homens corajosos, dispostos a derramar

seu próprio sangue, não podem suportar ver o sangue dos outros.

Algumas pessoas caem e desmaiam ao ver uma ferida recentemente

infligida.

Outros são afetados de forma semelhante no manuseio ou

visualização de uma ferida velha que está a ulcerar.

E outros

encontram o curso da espada mais prontamente do que veem

aplicados em outros.

6. Assim, como eu disse, experimentei uma certa transformação,

embora não pudesse ser chamada de confusão.

Então, ao primeiro

vislumbre da luz do dia restaurada, meus bons espíritos voltaram

sem premeditação nem comando.

E eu comecei a pensar e pensar

como somos tolos em temer certos objetos em maior ou menor grau,

já que todos terminam da mesma maneira.

Pois que diferença faz se

uma torre de vigia ou uma montanha desmorona sobre nós?

Nenhuma diferença, você perceberá.

No entanto, haverá alguns

homens que temem o acidente último em maior grau, embora ambos

os acidentes sejam igualmente mortais.

Tão verdadeiro é que o

medo não olha para o efeito, mas para a causa do efeito.

7. Você acha que eu estou me referindo agora aos estoicos, que

sustentam que a alma de um homem esmagado por um grande peso

não pode subsistir e é dispersa imediatamente, porque não teve a

oportunidade de partir livremente?211 Não é isso que estou dizendo, aqueles que pensam assim estão, na minha opinião, errados.

8. Assim como o fogo não pode ser esmagado, uma vez que vai

escapar pelo redor das bordas do corpo que o esmaga, assim como

o ar não pode ser danificado por açoites e golpes, ou mesmo

fatiado, mas flui de volta sobre o objeto ao qual dá lugar, da mesma forma, a alma, que é constituída pelas partículas mais sutis, não

pode ser presa ou destruída dentro do corpo, mas em virtude de sua

delicada substância escapará pelo próprio objeto pelo qual está

sendo esmagada.

Assim como o relâmpago, não importa o quão

amplamente atinja ou cintile, faz seu retorno através de uma estreita

abertura, de modo que a alma, que é ainda mais sutil do que o fogo,

tem uma maneira de escapar através de qualquer corpo.

9. Chegamos, portanto, a esta questão, se a alma pode ser imortal.

Mas tenha certeza disso: se a alma sobrevive ao corpo depois que o

corpo é esmagado, a alma não pode de modo algum ser esmagada,

precisamente porque não perece, pois a regra da imortalidade nunca

admite exceções e nada pode prejudicar o que é eterno.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

210 Uma figura característica.

Após a unção, o lutador era polvilhado com areia, de modo que a mão do oponente não escorregasse.

O túnel de Nápoles fornecia um atalho para aqueles que, como Sêneca nesta carta, não desejavam tomar o tempo para viajar pela rota costeira ao longo do promontório de Pausilipum.

211 Sêneca não atribui autoria dessa teoria a nenhum estoico em particular.

O

trecho consta de fragmentos de Crisipo.

Cleantes admite a imortalidade de todas as

almas, Crisipo, apenas das dos sábios.

Ver Diógenes Laércio, Vidas e Doutrinas

dos Filósofos Ilustres, VII

LVIII.

Sobre ser, existir e

eutanásia

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Quão escassa de palavras nossa linguagem é, não, quão

miserável, eu não havia entendido completamente até hoje.

Passamos casualmente a falar de Platão e mil assuntos vieram à

discussão, que precisavam de nomes e ainda não possuíam nenhum.

E havia outros que, certa vez, possuíram, mas perderam suas

palavras, porque éramos muito sutis quanto ao uso delas.

Mas quem

pode suportar ser agradável no meio da pobreza? Há um inseto,

chamado pelos gregos de “oestrus” 212, que torna o gado selvagem e os põem em fuga sobre suas pastagens.

Ele costumava ser

chamado “asilus” em nossa língua, como você pode acreditar pela

autoridade de Virgílio: 2. Perto dos bosques de Silarus, e perto de Alburnus máscaras

de carvalhos verde-folheados voa um inseto, nomeado

Asilus pelos romanos; No grego

a palavra usada é oestro.

Com um som áspero

e estridente ele zune e faz selvagens

Os rebanhos aterrorizados pelo bosque.

Est lucum Silari iuxta ! ilicibusque virentem

Plurimus Alburnum volitans, cui nomen asilo

Romanum est, oestrum Grai vertere vocantes,

Asper, acerba sonans, quo tota exterrita silvis

Diffugiunt armenta.

3. Por isso eu inferi que a palavra está fora de uso.

E, para não fazer

você esperar muito tempo, havia certas palavras simples atuais,

como na expressão “decidir ( cernere) uma contenda pelas armas”,

“cernere ferro inter se”, como será provado novamente por Virgílio:

Grandes heróis, nascidos em várias terras, tinham vindo

Para decidir assuntos mutuamente com a espada .

Ingentis genitos diversis partibus orbis

Inter se coiisse viros et cernere ferro.

Atualmente empregamos para a mesma noção o verbo decernere;

ou seja, caiu em desuso o emprego do verbo raiz.

A palavra simples

tornou-se obsoleta.

4. Os antigos costumavam dizer “si iusso”(se eu o ordenar), em vez

de “se iussero”, em cláusulas condicionais.

Você não precisa tomar a

minha palavra, mas você pode voltar-se novamente para Virgílio:

Os outros soldados conduzirão a luta

Comigo, onde vou oferecer.

Cetera, qua iusso, mecum manus inferat arma.

5. Não é meu propósito demonstrar, por este conjunto de exemplos,

quanto tempo desperdicei no estudo da linguagem; quero apenas

que você entenda quantas palavras, atuais nas obras de Ênio e Ácio

se tornaram mofadas com a idade, enquanto que mesmo no caso de

Virgílio, cujas obras são exploradas diariamente, algumas de suas

palavras foram furtadas de nós e já saíram da moda.

6. Você vai dizer, eu suponho: “Qual é o propósito e significado

deste preâmbulo?” Não te deixarei no escuro.

Desejo, se possível,

dizer a palavra “essentia” (essência) para você e obter uma

compreensão favorável.

Se eu não posso fazer isso, vou arriscar, mesmo que isso lhe deixe de mal humor.

Eu tenho Cícero como

autoridade para o uso desta palavra e eu considero-o como uma

poderosa autoridade.

Se você desejar testemunho de uma data

posterior, citarei Fabiano, 216 cuidadoso na linguagem, refinado e tão polido em estilo que vai se adequar aos nossos finos gostos.

Pois

que havia eu de fazer, meu querido Lucílio? De que outra forma

podemos encontrar uma palavra para aquilo que os gregos chamam

de “οὐσία”, 217 algo que é indispensável, algo que é o substrato natural de tudo? Peço-lhe, portanto, que me permita usar esta

palavra essencial.

No entanto, tomarei o cuidado de exercer o

privilégio que me concedeu com a mão mais cuidadosa possível.

Talvez eu me contente com o mero direito.

7. Contudo, de que me servirá a sua indulgência, se eis que não

posso expressar, em latim, o significado da palavra que me deu a

oportunidade de percorrer a pobreza da nossa língua? E você

condenará nossos estreitos limites romanos ainda mais, quando

descobrir que há uma palavra de uma sílaba que eu não posso

traduzir.

“O que é isso?” Você pergunta.

É a palavra “ὄν” (“O ser”).

Você acha que eu não tenho habilidade, você acredita que a palavra está pronta para ser traduzida por “quod est”. 218 Noto, no entanto, uma grande diferença: você está me forçando a apresentar um

substantivo por um verbo.

8. Mas se eu tiver que fazê-lo, eu o farei por quod est.

Há seis

maneiras pelas quais Platão expressa esta ideia.

Isso de acordo

com um amigo nosso, um homem de grande conhecimento, que

mencionou o fato hoje.

E vou explicá-las todas a você, se eu puder

primeiro apontar que há algo chamado gênero e algo chamado

espécie.

Por ora, porém, buscamos a ideia primária do gênero, do

qual dependem as outras, as diferentes espécies, que é ou são????

a fonte de toda classificação, o termo sob o qual as ideias universais

são abraçadas.

E a ideia de gênero será alcançada se começarmos

a considerar a partir das características.

Pois assim seremos

conduzidos de volta à noção principal.

9. Agora, “homem” é uma espécie, como diz Aristóteles, assim

também é “cavalo” ou “cão”. Devemos, portanto, descobrir algum

vínculo comum para todos esses termos, um que os abrace e os

mantenha subordinados a si mesmo.

E o que é isso? É “animal”. E

assim começa a haver um gênero “animal”, incluindo todos esses

termos, “homem”, “cavalo” e “cachorro”. 10. Mas há certas coisas que têm vida ( anima) e ainda não são

“animais”. Pois é pacífico que as plantas e as árvores possuem vida

e é por isso que falamos deles como vivos ou moribundos.

Portanto,

o termo “seres vivos” ocupará um lugar ainda mais alto, porque tanto

os animais como as plantas estão incluídos nessa categoria.

Certos

objetos, entretanto, não têm vida, tais como pedras.

Haverá,

portanto, outro termo para ter precedência sobre “seres vivos” e que

é “substância”. Eu classificarei a “substância” dizendo que todas as

substâncias são animadas ou inanimadas.

11. Mas ainda há algo superior à “substância”, porque falamos de

certas coisas como possuidoras de substância e de certas coisas

como carentes de substância.

Qual será, então, o termo a partir do

qual essas coisas derivam? É aquilo a que ultimamente deram um

nome impróprio, “aquilo que é”. 219 Pois, usando este termo, eles serão divididos em espécies, de modo que possamos dizer: o que

existe ou possui, ou não, substância.

12. Este, portanto, é o gênero que é, o primário, original e (para

brincar com a palavra) “geral”. Claro que existem os outros gêneros,

mas eles são gêneros “especiais”: “homem” é, por exemplo, um

gênero.

Pois “homem” abrange espécies: por nações; grego, romano, parto; por cores; branco, preto, amarelo.

O termo

compreende indivíduos também: Catão, Cicero, Lucrécio.

Assim, o

“homem” cai na categoria gênero, na medida em que inclui muitos

tipos, mas na medida em que é subordinado a um outro termo, cai na

categoria espécie.

Mas o gênero “aquilo que é” é geral e não tem um

termo superior a ele.

É o primeiro termo na classificação das coisas

e todas as coisas estão incluídas nele.

13. Os estoicos colocariam à frente desse gênero outro ainda mais

primário a respeito do qual falarei imediatamente, depois de provar

que o gênero que foi discutido acima foi corretamente colocado em

primeiro lugar, sendo, como é, capaz de incluir tudo.

14. Eu por conseguinte, distribuo “aquilo que é” nestas duas

espécies, coisas com e coisas sem substância.

Não há terceira

classe.

E como eu distribuo “substância”? Dizendo que é animado ou

inanimado.

E como faço para distribuir o “animado”? Ao dizer:

“Certas coisas têm mente, enquanto outros têm apenas vida.

” Ou a

ideia pode ser expressa da seguinte maneira: “Certas coisas têm o

poder de movimento, de progresso, de mudança de posição,

enquanto outras estão enraizadas na terra, são alimentadas e crescem somente através de suas raízes”. Novamente, em quais

espécies eu divido “animais”? São perecíveis ou imperecíveis.

15. Alguns estoicos consideram o gênero primário como o “algo”

( quid). Vou acrescentar as razões que dão para a sua crença, eles

dizem: “na ordem da natureza algumas coisas existem e outras

coisas não existem.

E mesmo as coisas que não existem realmente

são parte da ordem da natureza.

Por exemplo centauros, gigantes,

e todas as outras invenções de raciocínio falso, que começaram a

ter uma forma definida, embora não tenham consistência corporal”.

16. Mas eu volto agora ao assunto que eu prometi discutir para você,

a saber, como é que Platão divide todas as coisas existentes em

seis maneiras diferentes.

A primeira classe de “ser” não pode ser

alcançada pela visão ou pelo tato, ou por qualquer dos sentidos; mas

pode ser alcançada pelo pensamento.

Qualquer concepção genérica,

tal como a ideia genérica “homem”, não entra no alcance dos olhos,

mas o “homem” em particular o faz, como por exemplo, Cícero ou

Catão.

O termo “animal” não é objeto de visão.

Ele é compreendido

apenas pelo pensamento.

Um animal em particular, no entanto, pode

ser visto, por exemplo, um cavalo, um cão.

17. A segunda classe de “coisas que existem”, de acordo com Platão

é a que é eminente e se destaca acima de tudo.

Isso, diz ele, existe

em um grau preeminente.

A palavra “poeta” é usada

indiscriminadamente, pois este termo é aplicado a todos os

escritores de verso, mas entre os gregos passou a ser a marca

distintiva de um único indivíduo.

Você sabe que Homero é

subentendido quando você ouve os homens dizerem “o poeta”. Qual

é, então, este “ser preeminente por excelência”? É Deus,

certamente, aquele que é maior e mais poderoso do que qualquer

outro.

18. A terceira classe é composta das coisas que existem no sentido

próprio do termo, elas são incontáveis em número, mas estão

situadas além de nossa visão.

“Quem são esses?” Você pergunta.

São os próprios mobiliários de Platão, por assim dizer; ele os chama

de “ideias”, e delas todas as coisas visíveis são criadas e de acordo

com seu padrão todas as coisas são feitas.

Elas são imortais,

imutáveis, invioláveis.

19. E esta “ideia”, ou melhor, a concepção de Platão sobre ela, é a

seguinte: “A ídeia´ é o molde eterno das coisas que são criadas

pela natureza”. Vou explicar esta definição, a fim de colocar o assunto diante de você em uma luz mais clara: Suponha que eu

gostaria de fazer uma semelhança de você, pintar seu retrato, eu

possuo em sua própria pessoa o padrão deste quadro, do qual

minha mente recebe um certo esboço, que é para incorporar em sua

própria obra.

Essa aparência externa, então, que me dá instrução e

orientação, esse padrão para eu imitar, é a “ideia”. Tais padrões,

portanto, a natureza possui em número infinito, homens, peixes,

árvores, segundo cujo modelo tudo o que a natureza tem para criar é

elaborado.

20. Em quarto lugar, colocaremos “εἶδος/ eidos”(forma). 220 E se você souber o que significa “eidos”, você deve prestar muita atenção,

chamando Platão e não eu, para explicar a dificuldade do assunto.

No entanto, não podemos fazer distinções finas sem encontrar

dificuldades.

Um momento atrás eu fiz uso do artista como uma

ilustração.

Quando o artista desejava reproduzir Virgílio em cores,

ele olhava para o próprio Virgílio.

A “ideia” era a aparência externa

de Virgílio e este era o padrão do trabalho pretendido.

Aquilo que o

artista extrai dessa “ideia” e encarna em sua própria obra, será o

“eidos”. 21. Você me pergunta onde está a diferença? O primeiro é o padrão,

enquanto a última é a forma retirada do padrão e incorporada no

trabalho.

Nosso artista segue um, mas cria o outro.

Uma estátua tem

uma certa aparência externa, esta aparência externa da estátua é a

“forma”. E o próprio padrão tem uma certa aparência externa, ao

contemplar este, o escultor moldou sua estátua, esta é a “ideia”. Se

você deseja uma distinção adicional, direi que a “forma” está na obra

do artista, a “ideia” fora de sua obra e não apenas fora dela, mas

anterior a ela.

22. A quinta classe é composta das coisas que existem no sentido

usual do termo.

Essas coisas são as primeiras que têm a ver

conosco.

Aqui temos todas as coisas como homens, gado e objetos.

Na sexta classe vai tudo o que tem uma existência fictícia, um

simulacro, como vazio, ou tempo.

221 Tudo o que é concreto à visão ou ao toque, Platão não inclui entre as coisas que ele acredita serem

existentes no sentido estrito do termo.

Pois eles estão em um estado

de fluxo, constantemente diminuindo ou aumentando.

Nenhum de nós

é o mesmo homem na velhice que foi na juventude, nem o mesmo no

dia seguinte que no dia anterior.

Nossos corpos são forjados ao

longo como água fluindo, cada objeto visível acompanha o tempo em sua jornada, das coisas que vemos, nada é fixo.

Mesmo eu mesmo,

ao comentar sobre essa mudança, estou mudado.

23. É exatamente o que diz Heráclito: “Entramos duas vezes no

mesmo rio e, contudo, num rio diferente.

” Pois o curso de água

ainda mantém o mesmo nome, mas a água já fluiu ao longo.

Claro

que isto é muito mais evidente nos rios do que nos seres humanos.

Ainda assim, nós, mortais, também somos levados por caminho não

menos rápido e isso me leva a maravilhar-me com a nossa loucura

em nos unir com grande afeição a uma coisa tão fugaz como o

corpo, temendo que algum dia nós morreremos, quando cada

instante significa a morte de nossa condição anterior.

Você não vai

parar de temer que isso aconteça, uma vez que realmente acontece

todos os dias?

24. Tanto para o homem, uma substância que flui e decai, exposta a

toda influência, mas também o universo, imortal e duradouro como é,

muda e nunca permanece o mesmo.

Pois embora tenha em si tudo o

que tem, tem-no de uma maneira diferente daquela em que o tinha

tido.

O universo continua mudando seu arranjo.

25. “Muito bem”, diz você, “de que adianta eu obter de todo este

bom raciocínio? ” De nada, se você deseja que eu responda a sua pergunta.

No entanto, assim como um escultor repousa seus olhos

quando há muito estão sob tensão e estão cansados e os retira de

seu trabalho e “os regala”, como diz o ditado: por isso, às vezes,

devemos afrouxar nossas mentes e refrescá-las com algum tipo de

entretenimento.

Mas deixe até nosso entretenimento ser trabalho e

mesmo a partir dessas várias formas de entretenimento que você vai

escolher, se você tem estado atento, será algo que pode provar

salutar.

26. Esse é o meu hábito, Lucílio: eu tento extrair e tornar útil algum

elemento de cada campo do pensamento, não importa quão distante

possa ser da filosofia.

Agora, o que poderia ser menos provável de

reformar o caráter do que os assuntos que temos discutido? E como

posso ser feito um homem melhor pelas “ideias” de Platão? O que

posso tirar delas que ponha um controle sobre os meus apetites?

Talvez o próprio pensamento de que todas estas coisas que

ministram aos nossos sentidos, que nos despertam e excitam, são

por Platão negadas um lugar entre as coisas que realmente existem.

27. Tais coisas são, portanto, imaginárias e embora, por enquanto,

apresentem uma certa aparência externa, no entanto não são em

nenhum caso permanentes ou substanciais.

Não obstante, nós as desejamos como se fossem existir para sempre ou como se nós

pudéssemos as possuir para sempre.

Somos seres fracos e

aquosos em pé no meio de irrealidades, portanto voltemos nossas

mentes para as coisas que são eternas.

Olhemos para os contornos

ideais de todas as coisas que voam ao alto e para a divindade que

se move entre elas e planeja como pode defender da morte o que

não poderia tornar imperecível porque sua substância impede e, por

raciocínio, pode assim superar os defeitos do corpo.

28. Todas as coisas permanecem, não porque sejam eternas, mas

porque são protegidas pelo cuidado de quem governa todas as

coisas, mas o que é imperecível não precisa de um guardião.

O

mestre construtor os mantém seguros, superando a fraqueza de seu

tecido por seu próprio poder.

Desprezemos tudo o que é tão pouco

objeto de valor que nos faz duvidar se existem.

29. Reflitamos ao mesmo tempo, visto que a providência resgata de

seus perigos o próprio mundo, que não é menos mortal do que nós

mesmos, que até certo ponto nossos corpos mesquinhos podem ser

obrigados a permanecer mais tempo na terra por nossa própria

providência, se apenas adquirimos a capacidade de controlar e

reprimir os prazeres em que a maior parte da humanidade perece.

30. O próprio Platão, a todo o custo, avançou para a velhice.

Certamente, ele era o possuidor afortunado de um corpo forte e

sadio (seu próprio nome lhe foi dado por causa de seu peito

largo), 222 mas sua força foi muito prejudicada por viagens marítimas e aventuras terríveis.

No entanto, por meio da vida frugal,

estabelecendo um limite sobre tudo o que desperta os apetites e por

uma atenção cuidadosa a si mesmo, ele alcançou essa idade

avançada, apesar de muitos obstáculos.

31. Você sabe, tenho certeza, que Platão teve a sorte, graças a sua

vida cuidadosa, de morrer no seu aniversário, depois de completar

exatamente o seu octogésimo primeiro ano.

Por esta razão, os

sábios do oriente, que por acaso estavam em Atenas naquela época,

ofereceram sacrifícios a ele depois de sua morte, acreditando que

sua duração de dias estava muito plena para um homem mortal, uma

vez que ele havia completado o número perfeito de nove vezes nove.

Eu não duvido que ele teria sido bastante disposto a renunciar a

alguns dias deste total, bem como o sacrifício.

32. A vida frugal pode levar alguém à velhice e para mim a velhice

não é para ser recusada, não mais do que deve ser desejada.

É um

prazer estar na própria companhia o maior tempo possível, quando um homem se fez valer a pena.

A questão, portanto, sobre a qual

devemos registrar nosso julgamento é se alguém deve fugir da

extrema velhice e deve apressar o fim artificialmente, em vez de

esperar que ele venha.

Um homem que espera lentamente seu

destino é quase um covarde, assim como é exageradamente dado

ao vinho aquele que drena o frasco e suga até mesmo a borra.

33. Mas nós faremos esta pergunta também: “A extremidade da vida

é a escória, ou é a parte mais clara e pura de todas, desde que

apenas a mente esteja desimpedida e os sentidos, ainda sãos,

deem seu apoio ao Espírito, e o corpo não esteja desgastado e

morto antes de seu tempo? ” Pois faz muita diferença se um homem

está alongando sua vida ou sua morte.

34. Mas se o corpo é inútil para suas tarefas, por que não

deveríamos libertar a alma de seus entraves? Talvez devêssemos

fazer isto um pouco antes que a dívida seja devida para que, quando

vencer, possa ser capaz de executar o ato.

Assim como o perigo de

viver na miséria é maior do que o risco de morrer logo, é um tolo

aquele que se recusa a apostar um pouco de tempo e arriscar

ganhar um formidável lucro.

Poucos têm durado pela extrema velhice até a morte sem prejuízo e muitos têm estado inertes, não fazendo

uso de si mesmos.

Quão mais cruel então você acha que realmente

é ter perdido uma porção de sua vida, do que ter perdido o direito de

terminar essa vida?

35. Não me ouça com relutância, como se a minha declaração se

aplicasse diretamente a você, mas pondere o que tenho a dizer.

É

isto que eu não abandonarei na velhice, se a velhice me preservar

intacto para mim e intacto quanto à melhor parte de mim mesmo;

mas se a velhice começar a despedaçar a minha mente e a rasgar

em pedaços as suas várias faculdades, se ela me deixar, não a vida,

mas apenas o sopro da vida, sairei correndo de uma casa que está

desmoronando e cambaleando.

36. Não vou evitar a doença procurando a morte, desde que a

doença seja curável e não impeça minha alma.

Não porei mãos

violentas sobre mim só porque estou com dor, pois a morte em tais

circunstâncias é a derrota por covardia.

Mas se eu descobrir que a

dor deve sempre ser suportada, devo partir, não por causa da dor,

mas porque ela será um obstáculo para mim no que diz respeito a todas as minhas razões para viver.

Aquele que morre apenas porque

está com dor é um fraco, um covarde; mas aquele que vive apenas

para afrontar esta dor, é um tolo.

37. Mas estou discorrendo por muito tempo e, além disso, há

matéria aqui para encher um dia.

E como um homem pode terminar

sua vida, se ele não pode terminar uma carta? Então, adeus.

Esta última palavra você vai ler com maior prazer do que toda minha

conversa contínua sobre a morte.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

212 A Mutuca.

213 Trecho de Geórgicas de Virgílio, III 146-50.

214 Trecho de Eneida de Virgílio, XII, 708.

215 Trecho de Eneida de Virgílio XI, 467.

216 NT: Papirio Fabiano foi um retórico e filósofo da Roma Antiga, ativo na última época de Augusto e nos tempos de Tibério e Calígula, na primeira metade do primeiro século.

Foi professor de Sêneca.

Suas obras são frequentemente citadas

por Plínio na História Natural e Sêneca diz que seus escritos filosóficos foram superados apenas pelos de Cícero, Pólio e Lívio.

217 Ousía (οὐσία, pronúncia moderna “ussía”) é um substantivo da língua grega formado a partir do feminino do particípio presente do verbo “ser”, εἶναι. A palavra é, por vezes, traduzida para português como substância ou essência, devido à sua vulgar tradução para latim como substantia ou essentia.

218 Aquilo que é.

219 quod est.

220 εἶδος literalmente é o "aspecto exterior de uma coisa”, a sua forma.

221 O vazio e o tempo assim como o espaço e o dito constituíam para os estoicos

as quatro espécies de seres incorpóreos.

Ver Diógenes Laércio, Vidas e Doutrinas

dos Filósofos Ilustres, VII, 140-144.

222 De acordo com Diógenes Laércio, o filósofo foi nomeado Arístocles, como seu avô, mas seu treinador de luta, Aristão de Argos, o apelidou de Platon, que significa "grande", por conta de sua figura robusta, ou então porque possuía a fronte (platýs) larga.

223 A palavra latina “vale” significa tanto adeus como também “fique bem”

LIX.

Sobre prazer e alegria

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Recebi grande prazer de sua carta.

Por gentileza, permita-me

usar essas palavras em seu significado cotidiano, sem insistir em seu

significado estoico.

Pois nós estoicos sustentamos que o prazer é um

vício.

Muito provavelmente é um vício, mas estamos acostumados a usar a palavra quando queremos indicar um estado de espírito feliz.

2. Estou ciente de que, se testarmos as palavras pela nossa fórmula,

até mesmo o prazer é uma coisa de má reputação e a alegria só

pode ser alcançada pelos sábios.

Pois a “alegria” é um júbilo do

espírito, de um espírito que confia na bondade e na verdade de suas

posses.

O uso comum, entretanto, é que derivamos grande “alegria”

da posição de um amigo como cônsul, ou de seu casamento ou do

nascimento de seu filho.

Mas esses eventos, longe de serem motivo

de alegria, são mais frequentemente o começo da tristeza por vir.

Não! É uma característica da alegria real que ela nunca cessa e

nunca se transforma em seu oposto.

3. Assim, quando nosso Virgílio fala de

As alegrias malignas do espirito,

Et mala mentis gaudia,

Suas palavras são eloquentes, mas não estritamente apropriadas.

Pois nenhuma “alegria” pode ser maligna.

Ele deu o nome de

“alegria” aos prazeres e assim expressou seu significado.

Pois ele

transmitiu a ideia de que os homens se deleitam em seu próprio mal.

4. No entanto, eu não estava errado ao dizer que eu recebi grande

“prazer” de sua carta, pois embora um homem ignorante possa derivar “alegria” se a causa for honrosa, contudo, uma vez que sua

emoção é inconstante, e é provável que em breve tome outra

direção, chamo-a de “prazer” pois é inspirada por uma opinião sobre

um bem espúrio.

Excede o controle e é levado ao excesso.

Mas,

para voltar ao assunto, deixe-me dizer-lhe o que me encantou em

sua carta.

Você tem suas palavras sob controle.

Você não é levado

por sua linguagem ou carregado além dos limites que você

determinou.

5. Muitos escritores são tentados pelo encanto de alguma frase

sedutora para um tópico diferente do que eles tinham se proposto a

discutir.

Mas não foi assim no seu caso.

Todas as suas palavras são

compactas e adequadas ao assunto, você diz tudo o que deseja e

quer dizer ainda mais do que você diz.

Esta é uma prova da

importância de seu assunto, mostrando que sua mente, assim como

suas palavras, não contém nada supérfluo ou empolado.

6. No entanto, encontro algumas metáforas, de fato ousadas, mas

do tipo que já foi posto à prova.

Também encontro analogias, é claro!

Se alguém nos proíbe de usá-las, sustentando que apenas os poetas

têm esse privilégio, não tem, aparentemente, lido nenhum de nossos

escritores de prosa antiga que ainda não tinham aprendido a simular um estilo que pudesse ganhar aplausos.

Pois aqueles escritores, cuja

eloquência era simples e dirigida apenas para provar seu caso, estão

cheios de comparações.

Penso que estas são necessárias, não pela

mesma razão que as torna necessárias para os poetas, mas para

que possam servir de sustentação à nossa fraqueza, para levar o

orador e o ouvinte face a face com o assunto em discussão.

7. Por exemplo, estou neste momento lendo Séxtio.

225 Ele é um

homem afiado e um filósofo que, embora escrevesse em grego, tinha

o padrão romano de ética.

Uma de suas analogias agrada-me em

especial, a de um exército marchando em um largo vazio, num lugar

onde o inimigo poderia aparecer de qualquer lugar, pronto para a

batalha.

“Isto”, disse ele, “é exatamente o que o homem sábio deve

fazer, ele deve ter todas as suas qualidades de combate dispostas

por todos os lados, de modo que de onde quer que o ataque

ameace, lá seus suportes estarão prontos e poderão obedecer ao

comando do capitão sem confusão”. Isto é o que observamos em

exércitos que servem sob grandes líderes, vemos como todas as

tropas entendem simultaneamente as ordens de seu general, já que

estão dispostas de modo que um sinal dado por um homem passe pelas fileiras da cavalaria e da infantaria no mesmo momento.

8. Isto, declara ele, é ainda mais necessário para homens como nós,

pois os soldados temiam com frequência um inimigo sem terem

motivo para tanto, e a marcha que julgavam mais perigosa era de

fato a mais segura.

Mas a insensatez não repousa, o medo

assombra tanto na vanguarda como na parte de trás da coluna e

ambos os flancos estão em pânico.

A insensatez nos persegue e o

perigo nos confronta a tal ponto que o próprio socorro nos apavora!

Mas o sábio é fortificado contra todas as incursões, ele está alerta,

ele não recuará frente ao ataque da pobreza ou da tristeza ou da

desgraça ou da dor.

Ele andará impávido tanto contra eles como

entre eles.

9. Nós, seres humanos, somos agrilhoados e enfraquecidos por

muitos vícios, nós temos chafurdado neles há muito tempo e é difícil

para nós sermos purificados.

Não estamos apenas contaminados,

nós somos tingidos por eles.

Mas, para abster-me de passar de uma

figura para outra, vou levantar esta questão, que muitas vezes

considero em meu próprio coração: por que é que a insensatez nos

segura com um aperto tão insistente? É, principalmente, porque não

a combatemos com força suficiente, porque não lutamos para a salvação com todas as nossas forças.

Segundo, porque não

depositamos confiança suficiente nas descobertas dos sábios e não

bebemos de suas palavras com corações abertos, nós abordamos

este grande problema em espírito muito frívolo.

10. Mas como um homem pode aprender o suficiente na luta

contra seus vícios se o tempo que ele dedica a aprender é

apenas a sobra deixada por seus vícios? Nenhum de nós vai

fundo abaixo da superfície.

Nós roçamos apenas o topo e

consideramos o breve tempo gasto na busca de sabedoria como

suficiente e de sobra para um homem ocupado.

11. O que mais nos impede é que estamos prontamente satisfeitos

com nós mesmos, se nos encontrarmos com alguém que nos chama

de homens bons ou homens sensatos ou homens santos.

Nos vemos

nessa descrição, não nos contentamos com louvor em moderação,

aceitamos tudo o que a vergonhosa lisonja nos atira, como se fosse

merecido.

Concordamos com aqueles que nos declaram ser o

melhor e o mais sábio dos homens, embora saibamos que eles

são dados a muita mentira.

E somos tão autocomplacentes que

desejamos elogios por certas ações quando somos especialmente viciados em exatamente o oposto.

A pessoa se ouve chamar de

“delicado” enquanto inflige torturas ou de “generoso” quando está

empenhado em pilhagem ou de “moderado” quando está no meio da

embriaguez e da luxúria.

Assim, segue-se que não estamos

dispostos a ser reformados, apenas porque acreditamos ser o

melhor dos homens.

12. Alexandre estava marchando até a Índia, devastando tribos que

eram pouco conhecidas, até mesmo para seus vizinhos.

Durante o

cerco de uma certa cidade, enquanto reconhecia as muralhas e

procurava o ponto mais fraco das fortificações, foi ferido por uma

flecha.

No entanto, ele continuou durante muito tempo montado, com

a intenção de terminar o que tinha começado.

A dor de sua ferida,

quando a superfície ficou seca e o fluxo de sangue foi limitado,

aumentou, sua perna gradualmente ficou entorpecida enquanto

sentava em seu cavalo.

E finalmente, quando foi forçado a retirar-se,

exclamou: “Todos os homens juram que eu sou o filho de Júpiter,

mas esta ferida grita que eu não passo de um mortal”.

13. Vamos agir da mesma maneira.

Todo homem, de acordo com

sua sorte na vida, é abobalhado pela lisonja.

Deveríamos dizer àquele que nos lisonjeia: “Você me chama de um homem sensato,

mas eu entendo quantas das coisas que eu desejo são inúteis e

quantas das coisas que eu desejo me fariam mal.

Não tenho sequer

o conhecimento que a saciedade ensina aos animais, do que

deveria ser a medida do meu alimento ou da minha bebida.

Eu

ainda não sei o quanto eu devo consumir”.

14. Vou agora mostrar-lhe como você pode saber que não é sábio.

O homem sábio é alegre, feliz e calmo, inabalável, vive num mesmo

plano que os deuses.

Agora vá, pergunte a si mesmo se você nunca

fica abatido, se sua mente não é assediada por muita apreensão,

pela antecipação do que está por vir, se dia e noite sua alma

continua em seu curso único e inabalável, reta e contente consigo

mesma, só aí então você terá alcançado o maior bem que os mortais

podem possuir.

Se, no entanto, você procura prazeres de todos os

tipos em todas as direções, você deve saber que está tão longe da

sabedoria quanto está aquém de alegria.

A alegria é o objetivo que

você deseja alcançar, mas você está errando o caminho se você

espera alcançar seu objetivo enquanto está no meio de riquezas e

títulos oficiais – em outras palavras, se você busca a alegria no meio de preocupações, esses objetos pelos quais você se esforça tão

ansiosamente, como se pudessem dar felicidade e prazer, são

meras causas de dor.

15. Todos os homens desta estampa, eu sustento, estão focados na

busca da alegria, mas eles não sabem onde podem obter uma

alegria que é grande e duradoura.

Uma pessoa procura-a no

banquete e na autoindulgência, outra, em busca de honras e em

ser cercado por uma multidão de clientes, outra em sua amante,

outra em exibição ociosa da cultura e da literatura que não tem

poder para curar; todos esses homens são desviados por

delícias que são enganosas e de vida curta como a embriaguez,

por exemplo, que paga por uma única hora de loucura hilariante

com tédio e doença de muitos dias ou como na busca por

popularidade e aplausos, à custa de grande inquietação mental.

16. Reflita, portanto, sobre isso, que o efeito da sabedoria é uma

alegria ininterrupta e contínua.

A mente do sábio é como o

firmamento ultra lunar, a eterna calma permeia essa região.

Você tem então, uma razão para desejar ser sábio: o sábio nunca é

privado de alegria.

Essa alegria brota apenas do conhecimento de

que você possui virtudes.

Ninguém exceto o corajoso, o justo, o autocontido, pode ter alegria.

17. E quando você pergunta: “O que você quer dizer? Não se

alegram os tolos e os ímpios?” Eu respondo, não mais do que leões

que pegaram sua presa.

Quando os homens se fatigarem com o

vinho e a luxúria, quando a noite lhes falhar antes que a sua

devassidão seja concluída, quando os prazeres que têm amontoado

sobre um corpo que é pequeno demais para segurá-los começam a

apodrecer, nesses momentos eles proferem em sua miséria aquelas

linhas de Virgílio:

Tu sabes como, em meio a falsas alegrias brilhantes,

nós passamos aquelas últimas noites.

Namque ut supremam falsa inter gaudia noctem

Egerimus, nosti.

18. Os amantes do prazer passam todas as noites entre alegrias

falsas e como se fossem as suas últimas.

Mas a alegria que vem

aos deuses e àqueles que imitam os deuses, não é interrompida nem

cessa.

Mas certamente cessaria se fosse emprestada do exterior.

Exatamente porque não está no poder de outro para doar, também não está sujeita aos caprichos do outro.

O que a Fortuna não deu,

ela não pode tirar.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

224 Trecho de Eneida, de Virgílio.

225 Quinto Séxtio, o Velho ( Quinti Sextii Patris - c. 70 a.C.) foi um filósofo cujas ideias combinavam o pitagorismo com o estoicismo.

Suas pregações são

frequentemente citadas por Sêneca.

Ver Carta LXIV neste volume.

226 Várias histórias semelhantes são contadas sobre Alexandre, Plutarco, onde ele diz aos seus aduladores apontando para uma ferida que acabou de receber: “Veja,

isso é sangue, não ichor” (ichor sangue dos deuses na mitologia grega).

227 NT: Ver Cícero, Da República, Livro VI – O Sonho de Cipião: " Por baixo (da esfera lunar) nada há que não seja mortal e efémero, exceto as almas

concedidas pelos deuses à espécie humana; (mas) acima da Lua tudo é eterno".

228 Trecho de Eneida, de Virgílio, VI, 513. Sobre a noite que precedeu o saque de Tróia.

LX. Sobre orações prejudiciais

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Eu protocolo uma queixa, eu inicio um processo, eu estou com

raiva.

Você ainda deseja o que seu mentor, seu guardião229 ou sua mãe, orem em seu favor? Você ainda não entende por qual mal eles

oram? Quão hostis para nós são os desejos dos nossos próprios

amigos! E são tanto mais hostis quanto mais plenamente se

cumprem.

Não é surpresa para mim, na minha idade, que nada mais

do que o mal nos assiste desde a nossa juventude, pois crescemos

entre as maldições invocadas por nossos pais.

E que os deuses

deem ouvidos ao nosso clamor e possam, de quando em quando,

ouvir-nos falar sobre nós sem nada reclamarmos deles!

2. Quanto tempo continuaremos a fazer exigências aos deuses,

como se ainda não pudéssemos nos sustentar sozinhos? Até quando

continuaremos a encher de trigo os mercados de nossas grandes

cidades? Por quanto tempo as pessoas devem juntá-lo para nós?

Por quanto tempo muitos barcos trarão coisas necessárias para uma

única refeição, trazendo-os de inúmeros mares? O touro é satisfeito

quando se alimenta por alguns acres e uma floresta é grande o

suficiente para um rebanho de elefantes.

O homem, entretanto,

arranca seu sustento tanto da terra como do mar.

3. O que, então? Será que a natureza nos deu barrigas tão insaciáveis quando nos deu esses corpos insignificantes, que

devemos superar os animais mais vorazes em ganância? De modo

nenhum.

Quão pequena é a quantidade que vai satisfazer a

natureza? Um pouco vai mandá-la embora satisfeita.

Não é a fome

natural de nossas barrigas que nos custa caro, mas nossos desejos

vorazes.

4. Portanto, aqueles que, como diz Salústio, “ouvem suas

barrigas”, 230 devem ser contados entre os animais e não entre os homens.

E certos homens, na verdade, devem ser contados, nem

mesmo entre os animais, mas entre os mortos.

Realmente vive quem

é útil para muitos, realmente vive quem sabe fazer uso de si

mesmo.

Esses homens, entretanto, que se arrastam para um buraco

e ficam torpes não são melhores em suas casas do que se

estivessem em seus túmulos.

Ali mesmo, na fachada de mármore da

casa de tal homem, você pode inscrever seu nome, pois ele

antecipou a própria morte!

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas: 229 Sêneca usa o termo paedagogus, o escravo incumbido de acompanhar crianças à escola

230 Caio Salústio Crispo no livro Catilina descreve os romanos como escravos da gula.

231 NT: Veja carta LV a respeito de Vácia.

LXI.

Sobre encontrar a morte

alegremente

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Deixemos de desejar o que desejamos algum dia.

Eu, pelo menos,

estou fazendo isso: na minha velhice, deixei de desejar o que

desejava quando era menino.

A esta única extremidade meus dias e

minhas noites são passados; esta é minha tarefa, este é o objeto de

meus pensamentos: pôr fim aos meus males crônicos.

Estou

tentando viver todos os dias como se fossem uma vida completa.

Mas, Hércules me valha, não me apresso a gozá-lo como se fosse o

último, eu apenas o considero, entretanto, como se pudesse mesmo

ser meu último.

2. A presente carta é escrita com isto em mente, como se a morte

estivesse prestes a me chamar durante o próprio ato de escrever.

Eu

estou pronto para partir e eu devo gozar a vida apenas porque não sou demasiadamente ansioso quanto à data futura de minha partida.

Antes de envelhecer, tentei viver bem.

Agora que estou velho, vou

tentar morrer bem, mas morrer bem significa morrer alegremente.

Cuide para que você nunca faça nada de má vontade.

3. O que é obrigado a ser uma imprescindibilidade se você se

rebelar não é uma imprescindibilidade, se você a desejar.

É isso que

quero dizer: aquele que acata ordens com prazer, escapa à parte

mais amarga da servidão: fazer aquilo que não quer fazer.

O

homem que faz alguma coisa sob ordens não é infeliz.

É infeliz quem

faz algo contra a sua vontade.

Portanto, fixemos nossas mentes para

que possamos desejar tudo o que é exigido de nós pelas

circunstâncias e, acima de tudo, que possamos refletir sobre o nosso

fim sem amargura.

4. Devemos preparar-nos para a morte antes de nos prepararmos

para a vida.

A vida está bem mobiliada, mas somos muito

gananciosos em relação aos seus móveis: algo sempre nos parece

faltar e sempre parecerá faltar.

Ter vivido o suficiente não depende nem de nossos anos, nem de nossos dias, mas de nossas mentes.

Já vivi, meu caro amigo Lucílio, o suficiente.

Eu tive minha satisfação,

aguardo a morte plenamente saciado.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

LXII.

Sobre boa companhia

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Somos enganados por aqueles que nos querem fazer crer que

uma multidão de assuntos bloqueia a busca de estudos intelectuais.

Eles fazem um fingimento de seus compromissos e os multiplicam,

quando seus compromissos são meramente com eles.

Quanto a

mim, Lucílio, o meu tempo é livre.

É de fato livre e onde quer que eu

esteja, sou mestre de mim mesmo.

Pois não me entrego a meus

negócios, mas empresto-me a eles e não busco desculpas para

desperdiçar meu tempo.

E onde quer que eu esteja, continuo minhas

próprias meditações e pondero em minha mente algum pensamento

profícuo.

2. Quando me entrego a meus amigos não me afasto da minha

própria companhia, nem permaneço com aqueles que estão

associados a mim por alguma ocasião especial ou alguma

circunstância que surge da minha posição oficial.

Mas eu passo meu

tempo na companhia de todos os melhores, não importa em que

terras eles possam ter vivido ou em que idade, eu deixo meu espírito

e meus pensamentos voarem a eles.

3. Demétrio, 232 por exemplo, o melhor dos homens, eu levo comigo e, deixando os trajados em linho púrpura e fino, 233 falo com ele, meio nu como ele é e o tenho em alta estima.

Por que eu não deveria mantê-lo em alta estima? Descobri que ele não sente falta de nada.

É

possível a qualquer homem desprezar todas as coisas, mas

impossível a alguém possuir todas as coisas.

O caminho mais

curto às riquezas é desprezar as riquezas.

Nosso amigo Demétrio,

no entanto, vive não apenas como se tivesse aprendido a desprezar

todas as coisas, mas como se as tivesse entregue para que outras

pessoas as possuíssem.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

232 Demétrio de Corinto foi um filósofo cínico de Corinto que viveu em Roma durante os reinos de Calígula, Nero e Vespasiano.

Foi amigo de Sêneca.

O

cinismo é uma corrente filosófica afim ao estoicismo, desenvolvida por Diógenes.

Ao escrever “Demetri nostri”, Sêneca o inclui na escola estoica.

233 NT: Referência aos os nobres romanos, cujas túnicas tinha uma faixa púrpura, larga para os senadores e estreita para os equestres.

234 Isto é, ele alcançou o ideal estoico de independência de todo controle externo; ele é um rei e tem tudo para conceder aos outros, mas não precisa de nada para si

mesmo.

LXIII.

Sobre sofrimento por

amigos perdidos

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Estou triste por saber que seu amigo Flaco está morto, mas eu

não recomendaria a você tristeza a mais do que é adequado.

Que

você não deva chorar eu não ousarei insistir, ainda que sei que seria

a melhor maneira.

Mas qual homem será tão abençoado com essa

firmeza ideal da alma, a menos que já tenha se elevado muito acima

do alcance da Fortuna? Mesmo esse homem será atingido por um

evento como este, mas será apenas uma picada.

Nós, no entanto,

podemos ser perdoados por nos rebentarmos em lágrimas, se

apenas as nossas lágrimas não tenham fluído em excesso e se as

tivermos controladas por nossos próprios esforços.

Não deixemos

que os olhos fiquem secos quando perdemos um amigo, nem os

deixemos transbordar.

Podemos chorar, mas não devemos lamuriar.

Desfazermo-nos em pranto, isso não! 2. Você acha que a lei que eu estabeleço para você é dura, enquanto

o maior dos poetas gregos estendeu o privilégio de chorar a um só

dia, nas linhas em que ele nos diz que Níobe235 até mesmo pensou

na refeição? Você deseja saber o motivo de lamentações e choro

excessivo? É porque buscamos as provas de nosso luto em nossas

lágrimas e não damos lugar à tristeza, mas meramente ao seu

desfilar.

Nenhum homem entra em luto por seu melhor interesse.

Que

vergonha essa nossa insensatez inoportuna! Há um elemento de

egoísmo, mesmo em nossa tristeza.

3. “O quê”, você diz, “vou esquecer meu amigo? ” É seguramente

uma lembrança de curta duração que você lhe concede, se é para

durar apenas enquanto durar seu pesar, dentro em pouco sua

sobrancelha será suavizada em risadas por alguma circunstância, por

mais casual que seja.

É para um tempo curto que eu coloco o

calmante de cada tristeza, o abrandamento de até mesmo o mais

amargo sofrimento.

Assim que você deixar de se vigiar, a imagem de

tristeza que você contemplou desaparecerá, no momento você está

vigiando seu próprio sofrimento.

Mas mesmo enquanto vigia, ele

escapa de você e quanto mais agudo ele é, mais rapidamente chega

ao fim.

4. Vamos cuidar para que a lembrança daqueles que perdemos

se torne uma agradável lembrança para nós.

Nenhum homem

devolve com prazer qualquer assunto que ele não seja capaz de

refletir sem dor.

Assim também não pode deixar de ser que os

nomes daqueles a quem amamos e perdemos voltem para nós com

uma espécie de picada, mas há um prazer mesmo nesta picada.

5. Como disse nosso amigo Átalo:236 “A lembrança de amigos

perdidos é agradável, da mesma forma que certos frutos azedos

têm um gosto agradável, ou como em vinhos extremamente antigos

em que o próprio amargor nos agrada.

Depois de um certo lapso de

tempo, todo pensamento que deu dor é extinguido e o prazer nos

vem sem mistura”.

6. Se considerarmos a palavra de Átalo, “pensar em amigos que

estão vivos e bem é como desfrutar de uma refeição de bolos e

mel, a lembrança de amigos que passaram dá um prazer que não é

sem um toque de amargor, no entanto, quem negará que até

mesmo essas coisas, que são amargas e contêm um elemento de

acidez, servem para despertar o estômago? ”

7. Por minha parte, eu não concordo com ele.

Para mim, o pensamento de meus amigos mortos é doce e atraente.

Porque eu

os tive como se eu os pudesse perder, eu perdi-os como se eu os

ainda tivesse.

Portanto, Lucílio, aja como convém a sua própria

serenidade de espírito e deixe de colocar uma interpretação errada

sobre os presentes da Fortuna.

A Fortuna tirou, mas a Fortuna

deu.

8. Vamos gozar intensamente a companhia dos nossos amigos,

porque não sabemos quanto tempo esse privilégio será nosso.

Pensemos quantas vezes os deixaremos quando nos colocamos em

viagens distantes e quantas vezes não os veremos mesmo quando

ficarmos juntos no mesmo lugar, compreenderemos assim que

perdemos muito do tempo deles enquanto estavam vivos.

9. Mas irá tolerar homens que são os mais descuidados com seus

amigos e depois choram por eles mais abjetamente e não amam

ninguém a menos que o tenham perdido? A razão pela qual se

lamentam com tanta violência nessas ocasiões é que temem que os

homens duvidem se realmente amaram, muito tarde eles procuram

provas de suas emoções.

10. Se tivermos outros amigos, certamente mereceremos sofrer em

suas mãos e pensar mal deles, se são tão pouco considerados que não conseguem nos consolar pela perda.

Se, por outro lado, não

temos outros amigos, nos ferimos mais do que a Fortuna nos feriu, já

que a Fortuna nos roubou um amigo, mas nós roubamos a nós

mesmos de todos os amigos que não fizemos.

11. Novamente, aquele que é incapaz de amar mais do que um, não

tem muito amor mesmo por este.

Se um homem que perdeu sua

única túnica por roubo escolher lamentar sua situação em vez de

olhar em torno por alguma maneira de escapar do frio ou procurar

algo com que cobrir os seus ombros, você não o consideraria um

tolo absoluto? Você sepultou alguém que amava, procure alguém

para amar.

É mais importante encontrar um novo amigo do que

chorar pelo desaparecido.

12. O que vou acrescentar é, eu sei, uma observação muito

simplória, mas não a omitirei simplesmente porque é uma frase

comum: um homem acaba seu pesar com o simples passar do

tempo, mesmo que ele não tenha terminado por sua própria

iniciativa.

Mas a cura mais vergonhosa para a tristeza, no caso de

um homem sensato, é se entediar da tristeza.

Eu prefiro que

abandone o sofrimento, em vez de deixar o sofrimento abandoná-lo.

E deve parar com o luto o mais rapidamente possível, uma vez que, mesmo se quiser fazê-lo, é impossível mantê-lo por um longo tempo.

13. Nossos antepassados decretaram que, no caso das mulheres,

um ano deveria ser o limite para o luto, não que elas precisassem

chorar por tanto tempo, mas que elas não deviam chorar mais.

No

caso dos homens, não foram estabelecidas regras, porque o luto não

é considerado honroso.

Por tudo isso, qual mulher pode me mostrar,

de todas essas pobres mulheres que dificilmente poderiam ser

arrastadas para longe da pira funerária ou arrancadas do cadáver,

cujas lágrimas duraram um mês inteiro? Nada se torna ofensivo tão

rapidamente quanto o sofrimento: quando fresco, encontra alguém

para consolá-lo e atrai um ou outro, mas depois de se tornar crônico

é ridicularizado, e com razão, pois é simulado ou tolo.

14. Quem lhe escreve estas palavras não é outro senão eu, que

chorou tão excessivamente pelo meu querido amigo Aneu Sereno.

Apesar de meus anseios, devo ser incluído entre os exemplos de

homens que foram dominados pelo sofrimento.

Hoje, no entanto,

condeno este ato meu e entendo que a razão pela qual chorei tanto

foi principalmente por nunca ter imaginado que sua morte pudesse

preceder a minha.

O único pensamento que me ocorreu foi que ele era o mais novo, e muito mais novo – como se o destino seguisse a

ordem de nossos tempos!

15. Portanto, pensemos continuamente tanto sobre nossa própria

mortalidade como sobre a de todos aqueles que amamos.

Em dias

anteriores eu poderia ter dito: “Meu amigo Sereno é mais jovem do

que eu, mas o que importa? Ele poderia morrer naturalmente

depois de mim, mas ele também poderia me preceder.” Foi apenas

porque eu não fiz isso, que estava despreparado quando a Fortuna

me deu o súbito golpe.

Agora é o momento para refletir, não só que

todas as coisas são mortais, mas também que sua mortalidade não

está sujeita a lei fixa.

O que quer que possa acontecer a qualquer

momento, pode acontecer hoje.

16. Reflita, portanto, meu amado Lucílio, que logo chegamos a baliza

que este amigo, para a nossa própria tristeza, alcançou.

E talvez, se

somente a fábula contada por homens sábios for verdadeira e houver

um nirvana para nos receber, aquele que nós pensamos que

perdemos, tenha sido somente enviado em nossa frente.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

235 Relatado por Homero.

Níobe é uma personagem da Mitologia Grega, que por ser muito fértil, teve catorze filhos (sete homens e sete mulheres). O povo de sua cidade se reuniu para render tributo a deusa Leto.

Eis que Níobe aparece

insultando a deusa, que só teve dois filhos, Apolo e Ártemis.

Leto indignou-se com

a audácia da mortal, e implorou vingança a seus filhos, que eram arqueiros.

Apolo

e Ártemis então, mataram todos os sete filhos de Níobe.

236 Professor de Sêneca.

Átalo foi um filósofo estoico atuante no reinado de Tibério.

Ele foi defraudado de sua propriedade por Sejano e exilado, onde foi reduzido a cultivador do solo.

Sêneca, o velho, o descreve como um homem de grande eloquência e, de longe, o filósofo mais perspicaz de sua época.

Ele ensinou a filosofia estoica a Sêneca, que o cita com frequência e fala dele nos mais altos termos.

Veja também carta CVIII.

(Volume III)

237 NT: Um amigo íntimo de Sêneca, provavelmente um parente, que morreu no ano 63 por comer cogumelos envenenados.

Sêneca dedicou a Sereno três de seus

ensaios filosóficos: Sobre a Constância do Sábio, Sobre o ócio e Sobre a

tranquilidade da alma.

LXIV.

Sobre a tarefa do Filósofo

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Ontem você estava conosco.

Você pode reclamar se eu disse “ontem” meramente.

É por isso que acrescentei “conosco”. Pois, no

que me diz respeito, você está sempre comigo.

Certos amigos

haviam aparecido, em cuja conta um fogo um pouco mais brilhante foi

colocado, não o tipo que geralmente explode das chaminés da

cozinha dos ricos para grande susto dos bombeiros, mas a fumaça

moderada que significa que os convidados chegaram.

2. A nossa conversa decorreu em vários temas, como é natural em

um jantar.

Não perseguiu nenhuma corrente de pensamento até o

final, mas saltou de um tópico para outro.

Então, lemos para nós um

livro de Quinto Séxtio, o Velho.

238 Ele é um grande homem, se tem alguma confiança na minha opinião, e também um verdadeiro estoico,

embora ele mesmo o negue.

3. Oh Deuses, que força e espírito se encontra nele! Este não é o

caso de todos os filósofos, há alguns homens de nome ilustre cujos

escritos não têm qualquer vigor.

Eles estabelecem regras, eles

argumentam e eles discutem; eles não inspiram o espírito

simplesmente porque eles não têm espírito.

Mas quando você ler

Séxtio você dirá: “Ele está vivo, ele é forte, ele é livre, ele é mais do

que um homem, ele me enche de uma confiança poderosa em mim

mesmo ao fechar seu livro! ” 4. Eu vou admitir a você o estado de espírito em que estou quando

leio suas obras: quero desafiar todos os perigos, quero gritar: “Por

que me faz esperar? Fortuna, entre no ringue, eis que estou pronto

para ti! ” Meu ânimo fica idêntico ao espírito de um homem que

procura onde pode fazer prova de si mesmo, onde ele possa

demonstrar o seu valor:

E se inquietando ao meio dos rebanhos não-guerreiros, ele

reza

Algum javali listado pode cruzar seu caminho, ou então

Um leão fulvo que espreita abaixo das colinas.

Spumantemque dari pecora inter inertia votis

Optat aprum aut fulvum descendere monte leonem.

5. Quero algo para suplantar, algo em que possa testar minha

resistência.

Pois esta é outra qualidade notável que Séxtio possui:

ele lhe mostrará a grandeza da vida feliz e mesmo assim não o fará

desesperar-se por alcançá-la. Você vai entender que ela está alta,

mas que é acessível para aquele que tem a vontade de buscá-la.

6. E a própria virtude terá o mesmo efeito sobre você, de fazê-lo

admirá-la e ainda assim esperar alcançá-la. Em meu próprio caso, de qualquer modo, a própria contemplação da sabedoria toma muito

do meu tempo.

Olho para ela com perplexidade, assim como às

vezes olho para o próprio firmamento, tanto que muitas vezes vejo

como se eu o visse pela primeira vez.

7. Por isso adoro as descobertas da sabedoria e seus

descobridores, pois receber, por assim dizer, a herança de muitos

predecessores é uma delícia.

Foi para mim que eles guardaram este

tesouro, era para mim que eles trabalhavam.

Mas devemos

desempenhar o papel de um cuidadoso chefe de família, devemos

aumentar o que herdamos.

Esta herança passará de mim para os

meus descendentes maior do que antes.

Muito ainda resta por fazer

e muito permanecerá por ser feito e aquele que nascerá em mil

séculos não será impedido de acrescentar algo mais.

8. Mas mesmo que os velhos mestres tenham descoberto tudo, uma

coisa será sempre nova, a aplicação e o estudo científico e

classificação das descobertas feitas por outros.

Suponha que

prescrições foram transmitidas para nós para a cura dos olhos.

Não

há necessidade de minha busca por outras além dessa, mas por

tudo isso, essas prescrições devem ser adaptadas à doença

particular e ao estágio particular da doença.

Use esta prescrição para aliviar a granulação das pálpebras, esta para reduzir o inchaço

das pálpebras, aquela para evitar dor súbita ou uma onda de

lágrimas, esta outra para aguçar a visão.

Em seguida, combine estas

várias prescrições, preste atenção no momento certo de sua

aplicação e forneça o tratamento adequado em cada caso.

As curas

para o espírito também foram descobertas pelos antigos, mas é

nossa tarefa descobrir o método e o tempo de tratamento.

9. Nossos predecessores trabalharam muito melhor, mas não

resolveram o problema.

Eles merecem respeito e, todavia, deveriam

ser adorados com um ritual divino.

Por que não deveriam existir

estátuas de grandes homens para incendiar meu entusiasmo e

comemorar seus aniversários? Por que não devo cumprimentá-los

sempre com respeito e honra? A reverência que devo a meus

próprios professores, devo em medida semelhante aos professores

da raça humana, a fonte de onde os começos de tais grandes

bênçãos fluíram.

10. Se eu me encontrar com um cônsul ou um pretor, eu lhe pagarei

toda a honra que o seu cargo de honra é acostumado a receber: Vou saltar do cavalo, descobrir a cabeça e ceder o caminho.

O que,

então? Devo consentir na minha alma com menos do que as mais

altas marcas de respeito a Marco Catão, o Ancião e o Jovem, Lélio

o Sábio, Sócrates e Platão, Zenão e Cleantes? Ser-me-á possível

pensar neles sem as maiores provas de respeito e admiração? Eu os

adoro em verdade e sempre me ergo para honrar nomes tão nobres.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

238 Quinto Séxtio, o Velho (Quinti Sextii Patris - c. 70 a.C.) foi um filósofo cujas ideias combinavam o pitagorismo com o estoicismo.

Suas pregações são

frequentemente citadas por Sêneca.

Ver Carta LIV.

239 Trecho de Eneida, de Virgílio.

LXV.

Sobre a primeira causa

(Deus/Logos)

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Eu dividi meu dia ontem com a falta de saúde; ela reivindicou para

si todo o período antes do meio-dia, à tarde, porém, cedeu.

Eu

primeiro testei meu espírito lendo então, quando a leitura foi

possível, ousei fazer mais exigências ao espírito, ou talvez eu diria, fazer mais concessões a ele.

Escrevi um pouco e com mais

concentração do que o habitual, porque estou lutando com um

assunto difícil e não quero ser derrubado.

No meio disto, alguns

amigos me visitaram com o propósito de empregar força e de me

conter, como se eu fosse um doente que se entregasse a algum

excesso.

2. Assim, a conversa substituiu a escrita e desta conversa vou

comunicar-lhe o tema que ainda é objeto de debate, pois nós o

designamos árbitro.

Você tem uma tarefa mais árdua em suas mãos

do que imagina, pois a argumentação é tripla.

240 Nossos filósofos estoicos, como você sabe, declaram que há duas coisas no universo

que são a fonte de tudo: a causa e a matéria.

Matéria jaz lenta, uma

substância pronta para qualquer uso, mas certa de permanecer

desempregada, se ninguém a coloca em movimento.

A causa, no

entanto, pelo que queremos dizer a razão, molda a matéria e a

transforma em qualquer direção que deseja, produzindo assim vários

resultados concretos.

Consequentemente, deve haver, no caso de

cada coisa, aquilo de que é feita e, em seguida, um agente pelo qual

ela é feita.

O primeiro é o seu material, este último a sua causa.

3. Toda arte não é senão imitação da natureza portanto, deixe-me aplicar essas declarações de princípios gerais às coisas que devem

ser feitas pelo homem.

Uma estátua, por exemplo, necessitou de

matéria a ser tratada pelas mãos do artista e teve um artista que

deu forma a matéria.

Assim, no caso da estátua, o material era de

bronze, a causa era o trabalhador.

E assim acontece com todas as

coisas, elas consistem daquilo com que são feitas e do criador.

4. Os estoicos acreditam em uma única causa – o criador.

Mas

Aristóteles pensa que a palavra “causa” pode ser usada de três

maneiras: “A primeira causa”, diz ele, “é a matéria real, sem a qual

nada pode ser criado.

A segunda é o operário.

A terceira é a forma,

que está gravada em cada obra, uma estátua, por exemplo.

” Esta

última é o que Aristóteles chama de eidos.

241 “Há, também, ” diz ele,

“uma quarta, o propósito do trabalho como um todo, da obra

acabada.”

5. Agora vou mostrar-lhe o que esta última significa.

Bronze é a

“primeira causa” da estátua, pois nunca poderia ter sido feita a

menos que houvesse algo em que pudesse ser moldada.

A “segunda

causa” é o artista, pois sem as mãos hábeis de um trabalhador o

bronze não poderia ter sido moldado para os contornos da estátua.

A “terceira causa” é a forma, na medida em que a nossa estátua

nunca poderia ser chamada de “O Portador da Lança” ou “O Garoto

Prendendo seu Cabelo” caso não tivesse esta forma especial

estampada sobre ela.

A “quarta causa” é o propósito do trabalho.

Pois, se este propósito não existisse, a estátua não teria sido feita.

6. Agora, qual é esse propósito? É o que atraiu o artista? O que ele

seguiu quando ele fez a estátua? Pode ter sido dinheiro, se a fez

para venda; ou renome, se tem trabalhado para a reputação; ou a

religião, se a forjou como um presente para um templo.

Portanto,

esta também é uma causa contribuindo para a realização da estátua.

Ou você acha que devemos evitar incluir, entre as causas de uma

coisa que foi feita, esse elemento sem o qual a coisa em questão

não teria sido feita?

7. A estes quatro, Platão acrescenta uma quinta causa, a matriz que

ele mesmo chama de “ideia”; pois é isso que o artista olhou quando

criou a obra que decidira realizar.

Agora, não faz diferença se ele

tem esse padrão fora de si mesmo, que ele pudesse dirigir seu olhar,

ou dentro de si mesmo, concebido e colocado lá por si mesmo.

Deus

tem dentro de si estes padrões de todas as coisas e sua mente

compreende as harmonias e as medidas da totalidade das coisas que devem ser realizadas.

Ele está cheio dessas formas que Platão

chama de “ideias” – imperecíveis, imutáveis, não sujeitas à

decadência.

E portanto, embora os homens morram, a própria

humanidade, ou a ideia de homem, segundo a qual o homem é

moldado, permanece e não sofre mudança, embora os homens

labutem e pereçam.

8. Consequentemente, há cinco causas, como diz Platão: o material,

o agente, a forma, o modelo e o fim em vista.

Por último vem o

resultado de todos estes, o produto acabado.

Assim como no caso

da estátua, para voltar à figura com a qual começamos, o material é

o bronze, o agente é o artista, a forma é o que o artista pretende

representar, o modelo é o padrão copiado pelo agente, o fim em

vista é o propósito na mente do criador e, finalmente, o resultado de

tudo isso é a própria estátua.

9. O universo também, na opinião de Platão, possui todos esses

elementos.

O agente é a divindade; a matéria-prima, a matéria

propriamente dita; a forma, o contorno e a disposição do mundo

visível.

O modelo é sem dúvida o arquétipo segundo o qual a

divindade fez esta grande e mais bela criação.

10. O propósito é seu objetivo ao fazê-lo. Você pergunta qual é o propósito de Deus? É bondade.

Platão, pelo menos, diz: “Qual foi a

razão da divindade para criar o mundo? Deus é bom e nenhuma

pessoa boa é invejosa de algo que é bom.

Por isso, Deus fez dele o

melhor mundo possível”. 243 Transmita sua opinião, então, ó juiz; declare quem lhe parece dizer o que é mais verdadeiro e não quem

diz o que é absolutamente verdadeiro.

Pois fazer isso está tão além

da nossa compreensão quanto a própria verdade.

11. Essa multidão de causas, definida por Aristóteles e Platão, ou é

demasiado vasta, ou é demasiado restrita.

Pois se eles consideram

como “causas” de um objeto que deve ser feito tudo sem o qual o

objeto não pode ser feito, eles nomearam muito poucos.

O tempo

deve ser incluído entre as causas, pois nada pode ser feito sem

tempo.

Eles também devem incluir lugar, pois se não houver lugar

onde uma coisa possa ser feita, ela não será feita.

E movimento

também, nada é feito ou destruído sem movimento.

Não há arte sem

movimento, nenhuma mudança de qualquer tipo.

12. Agora, no entanto, estou procurando a primeira, a causa geral,

isso deveria ser simples, na medida em que a matéria também é

simples.

Perguntamos qual é a causa? É certamente a Razão

Criativa, em outras palavras, Deus.

Pois aqueles elementos a que você se refere não são uma grande série de causas independentes;

todos dependem de um só, e essa será a causa criadora, a causa

eficiente.

13. Você sustenta que a forma é uma causa? Isto é somente o que o

artista carimba em seu trabalho, é parte de uma causa, mas não a

causa toda.

Nem o modelo é uma causa, mas um instrumento

indispensável da causa.

Seu modelo é tão indispensável ao artista

como o cinzel ou a lixa, sem estes, a arte não pode fazer nenhum

progresso.

Mas, por tudo isso, essas coisas não são partes da arte,

nem causas dela.

14. “Então”, talvez você diga, “o propósito do artista, o que o leva a

se comprometer a criar algo, é a causa”. Pode ser uma causa, não

é, no entanto, a causa eficiente, mas apenas uma causa acessória.

Mas há inúmeras causas acessórias.

O que estamos discutindo é a

causa geral.

Ora, a declaração de Platão e de Aristóteles não está

de acordo com suas acuidades mentais usuais, quando sustentam

que todo o universo, a obra perfeitamente trabalhada, é uma causa.

Pois há uma grande diferença entre um trabalho e a causa de um

trabalho.

15. Dê a sua opinião ou, como é mais fácil em casos deste tipo, declare que o assunto não está claro e exija outra audiência.

Mas

você vai responder: “Que prazer você tem de desperdiçar seu

tempo nesses problemas, que não o aliviam de nenhuma de suas

emoções, não derrotando nenhum de seus desejos?” No que me diz

respeito, trato-os e discuto-os como assuntos que contribuem

grandemente para acalmar o espírito, e eu me estudo primeiro, e

depois o mundo em torno de mim.

16. E nem mesmo agora, como você pensa, estou desperdiçando

meu tempo.

Pois todas estas questões, desde que não sejam

cortadas e despedaçadas em tais refinamentos não rentáveis,

elevam e iluminam a alma, que é presa por um fardo pesado e

deseja ser libertada e voltar aos elementos de que foi uma vez parte.

Pois este nosso corpo é um peso sobre a alma e é seu castigo.

Sob

o peso desta carga a alma é esmagada e está em cativeiro, a

menos que a filosofia venha em sua assistência e ofereça-lhe tomar

coragem nova, contemplando o universo e transformando coisas

terrenas em coisas divinas.

Lá tem sua liberdade, lá pode vagar

amplamente, entretanto, escapa da prisão em que está presa e

renova a sua vida no firmamento.

17. Assim como os trabalhadores qualificados, que se empenham em alguma obra delicada que cansa seus olhos pelo esforço se a luz que

eles têm é sovina ou incerta, ao saírem para o ar livre e em algum

parque dedicado à recreação do povo deleitam seus olhos na

generosa luz do dia, 244 assim a alma, aprisionada como foi nesta casa sombria e escurecida, procura o céu aberto sempre que pode e

na contemplação do universo, encontra o descanso.

18. O sábio, aquele que procura sabedoria, está intimamente ligado

ao seu corpo, mas a melhor parte de mim mesmo está liberta e

concentra seus pensamentos em coisas elevadas.

Ligado, por assim

dizer, ao seu juramento de lealdade, ele considera o período da vida

como seu termo de serviço.

É tal seu caráter que ele não ama nem

odeia a vida, ele suporta uma sina mortal, embora saiba que um

destino maior está guardado para ele.

19. Você me proíbe de contemplar o universo? Você me obriga a me

afastar do todo e me restringir a uma parte? Não devo perguntar

quais são os primórdios de todas as coisas, quem moldou o

universo, quem tomou o conjunto confuso e conglomerado de matéria

e a separou em suas partes? Não posso perguntar quem é o Mestre

Construtor deste universo, como o poderoso volume foi trazido sob o

controle da lei e da ordem, quem reuniu os átomos dispersos, quem separou os elementos desordenados e atribuiu uma forma exterior

aos elementos que estavam num vasto amálgama disforme? De

onde veio toda a expansão de luz? E se é fogo ou mesmo mais

brilhante do que o fogo?

20. Não devo fazer essas perguntas? Devo ignorar as alturas de

onde eu desci? Se vou ver este mundo só uma vez ou nascer muitas

vezes? Qual é o meu destino depois? Que morada aguarda minha

alma em sua libertação das leis da escravidão entre os homens?

Você me proíbe de ter um quinhão do céu? Em outras palavras, você

me manda viver cabisbaixo?

21. Não, eu estou acima de tal existência, eu nasci para um destino

maior do que para ser um mero objeto do meu corpo e eu considero

este corpo como nada, mas uma corrente que restringe minha

liberdade.

Portanto, eu o ofereço como uma espécie de para-

choques à Fortuna e não permitirei que nenhum ferimento penetre

minha alma.

Pois meu corpo é a única parte de mim que pode sofrer

lesões.

Nesta morada, que está exposta ao risco, minha alma vive

livre.

22. Nunca esta carne me levará a sentir medo ou a assumir qualquer

falsa aparência que seja indigna de um homem bom.

Nunca vou mentir para honrar este pequeno corpo.

Quando me parecer

apropriado, romperei minha ligação com ele.

E, no momento em que

estivermos unidos, nossa aliança não será, no entanto, uma de

igualdade.

A alma trará todas as querelas diante de seu próprio

tribunal.

Desprezar nossos corpos é liberdade certa.

23. Retornando ao nosso assunto, esta liberdade será grandemente

ajudada pela contemplação do que estávamos falando há pouco.

Todas as coisas são feitas de matéria e do espírito da divindade.

A

divindade controla a matéria, que a engloba e a segue como seu guia

e líder.

E aquele que cria, em outras palavras, a divindade, é mais

poderoso e precioso do que a matéria, que é submetida a ação da

divindade.

24. O lugar da divindade no universo corresponde à relação da alma

com o homem.

O mundo material corresponde ao nosso corpo

mortal, portanto, o inferior serve o mais elevado.

Sejamos corajosos

diante dos perigos.

Não temamos injustiças, nem feridas, nem

amarras, nem pobreza.

E o que é a morte? Ou é o termo final ou um

processo de mudança! 246 Não tenho medo de deixar de existir; é o mesmo que não ter começado.

Nem me acovardo de mudar para outro estado porque eu, sob nenhuma circunstância, estarei tão

constrangido como estou agora.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

240 O problema das causas é sucessivamente discutido pelas teses do estoicismo (§§ 2-3), de Aristóteles (§§ 4-6) e de Platão (§§ 7-10).

241 Derivação da palavra grega, – ιδεῖν, “contemplar”. Para uma discussão das ideias de Platão, aquelas “essências independentes, separadas, auto existentes, perfeitas e eternas” veja República VI. e VII.

242 NT: Ver carta LVIII

243 NT: Ver Platão, Timeu,

244 De acordo com os estoicos, a alma, que consistia em fogo ou sopro e era parte da essência divina, subia após a morte ao éter e tornava-se uma com as estrelas.

Sêneca em outro texto ( Consolatio ad Marciam) afirma que a alma passa por uma espécie de processo de purificação – uma visão que pode ter influenciado

o pensamento cristão.

As almas do bem, os estoicos mantinham, estavam

destinadas a durar até o fim do mundo, as almas más, a serem extinguidas antes desse tempo.

Ver Consolação a Márcia.

245 O estudo dessa classe de problemas era de extremo interesse à Sêneca.

Ver prefácio do livro I das Naturales Quaestiones.

246 Não se trata de uma indecisão de Sêneca ou um mal falso ecletismo, a questão é apenas a obediência a um princípio da pedagogia estoica que

aconselhava a não contrariar frontalmente as convicções prévias dos discípulos, mas partindo destas, levá-los aos poucos às posições da Escola.

Bônus

Espero que tenha gostado das cartas deste volume e que continue a

leitura dos próximos volumes, que contêm algumas das minhas

cartas preferidas.

Nas páginas seguintes está a primeira carta

do Volume II, aproveite.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Obras filosóficas de Sêneca:

Cartas de um Estoico, Vol I ( Epistulae morales ad Lucilium)

Cartas de um Estoico, Vol II

Cartas de um Estoico, Vol III

Sobre a Ira ( De Ira)

Consolação a Márcia ( Ad Marciam, De consolatione)

Consolação a Minha Mãe Hélvia ( Ad Helviam matrem, De consolatione)

Consolação a Políbio ( De Consolatione ad Polybium)

Sobre a Brevidade da vida( De Brevitate Vitae)

Da Clemência ( De Clementia) Sobre Constância do sábio ( De Constantia Sapientis)

A Vida Feliz ( De Vita Beata)

Sobre os Benefícios ( De Beneficiis)

Sobre a Tranquilidade da alma ( De Tranquillitate Animi)

Sobre o Ócio ( De Otio)

Sobre a Providência Divina ( De Providentia) Sobre a Superstição ( De Superstitione) perdida, citada por

Santo Agostinho.

Biografia de Sêneca

Sêneca, Vida e Filosofia por Francis Holland.

Obras Filosóficas

Meditações de Marco Aurélio

Discurso da Servidão Voluntária por Étienne de La Boétie

Fascismo e Democracia por George Orwell

A Vida Intelectual por Antonin-Dalmace Sertillanges

A Arte de ter Razão por Arthur Schopenhauer

Estoicismo, Guia Definitivo por St. George Stock Ciropédia por Xenofonte

Utopia por Thomas More

Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres por Diógenes Laércio

Andar a Pé por Henry David Thoreau

Carta a Meneceu sobre a felicidade por Epicuro

Epicuro, Cartas e Princípios por Epicuro

O Dever do Advogado por Ruy Barbosa

Os Sermões por Padre António Vieira

LXVI.

Sobre vários aspectos da

virtude

Saudações de Sêneca a Lucílio.

1. Acabei de ver meu ex-colega de escola, Clarano, pela primeira vez

em muitos anos.

Você não precisa esperar que eu acrescente que

ele é um homem velho.

Mas asseguro-lhe que o encontrei são em

espírito e robusto, embora ele esteja lutando com um corpo frágil e

fraco.

Pois a Natureza agiu de forma injusta quando lhe deu um

pobre domicílio para uma alma tão rara.

Ou talvez foi porque ela

queria nos provar que uma mente absolutamente forte e feliz pode

estar escondida sob qualquer exterior.

Seja como for, Clarano supera todos esses obstáculos e, por desprezar seu próprio corpo, chegou

a um estágio onde ele pode desprezar outras coisas também.

2. O poeta que cantou:

Valor mostra mais agradável em uma forma que é justa

gratior et pulchro veniens e corpore virtus.

está, na minha opinião, enganado.

Pois a virtude não precisa de nada

para compensá-la, é sua própria glória e santifica o corpo em que

habita.

De qualquer modo, comecei a considerar Clarano sob uma luz

diferente: ele parece-me simpático e bem construído tanto em corpo

como na mente.

3. Assim como um grande homem pode nascer em um casebre,

pode também uma linda e grande alma nascer em um corpo feio e

insignificante.

Por esta razão a natureza parece criar alguns homens

deste selo com o objetivo de provar que a virtude nasce em qualquer

lugar.

Se tivesse sido possível produzir almas puras e nuas,

desprovidas de corpo, ela o teria feito.

Como é, a natureza faz uma

coisa ainda maior, pois ela produz certos homens que, embora

impedidos em seus corpos, ainda assim rompem a obstrução de

qualquer obstáculo.

4. Creio que Clarano foi produzido como um exemplo, para que possamos entender que a alma não é desfigurada pela feiura do

corpo, mas pelo contrário, que o corpo é embelezado pela beleza da

alma.

Agora, apesar de Clarano e eu termos passado muito poucos

dias juntos, tivemos muitas conversas, as quais vou em seguida

verter e transmitir a você.

5. No primeiro dia investigamos esse problema: como todos os bens

podem ser iguais sendo tríplice a respectiva natureza? 248 Pois alguns deles, de acordo com os nossos princípios filosóficos, são primários,

como a alegria, a paz e o bem-estar de um país.

Outros são de

segunda ordem, moldados de um material infeliz, como a resistência

ao sofrimento e o autocontrole durante uma doença grave.

Rezaremos abertamente pelos bens da primeira classe; para a

segunda classe, oraremos somente se a necessidade surgir.

Há

ainda uma terceira variedade como, por exemplo, um andar

modesto, um semblante calmo e honesto, e um comportamento que

se adapte ao homem de sabedoria.

6. Agora, como podem estes tipos de bens serem iguais quando os

comparamos, se você conceder que devemos orar por um e evitar o

outro? Se fizermos distinções entre eles, devemos retornar ao Sumo

Bem e considerar qual é a sua natureza: a alma que olha para a verdade, que é hábil no que deve ser buscado e no que deve ser

evitado, estabelecendo padrões de valor não de acordo com a

opinião, mas de acordo com a natureza, uma alma que penetra o

mundo inteiro e dirige seu olhar contemplativo sobre todos os seus

fenômenos, prestando atenção estrita aos pensamentos e ações,

igualmente grande e vigorosa, superior às dificuldades e as lisonjas,

não cedendo a nenhum dos extremos da Fortuna, acima de todas as

bênçãos e aflições, absolutamente linda, perfeitamente equipada

com graça, bem como com força, saudável e vigorosa,

imperturbável, nunca consternada, uma alma que força alguma pode

vergar ou destruir, uma que o acaso não pode exaltar nem deprimir –

uma alma como esta é a própria personificação da virtude.

7. Esta seria sua aparência externa, se viesse sob um único aspecto

e mostrasse uma vez só toda a sua integridade.

Mas há muitos

aspectos disso.

Desdobram-se de acordo com a vida e ações; mas

a própria virtude não se torna menor ou maior.

Pois o Sumo Bem não

pode diminuir nem a virtude retroceder.

Em vez disso, a virtude é

transformada, agora em uma qualidade e depois em outra,

moldando-se de acordo com a função que está desempenhando.

8. Tudo o que ela toca leva à semelhança consigo mesma e tinge com sua própria cor.

Adorna nossas ações, nossas amizades e, às

vezes, casas inteiras onde entrou e pôs em ordem pela harmonia.

Seja o que for que tenha tocado, imediatamente torna-o amável,

notável, admirável.

Portanto, o poder e a grandeza da virtude não

podem elevar-se a alturas maiores, porque o incremento é negado

àquilo que é superlativamente grande.

Você não encontrará nada

mais reto do que o reto, nada mais verdadeiro do que a verdade e

nada mais moderado do que a moderação.

9. Toda virtude é ilimitada, pois limites dependem de medições

definidas.

A constância não pode avançar mais do que a fidelidade, a

veracidade ou a lealdade.

O que pode ser acrescentado ao que é

perfeito? Nem se pode acrescentar nada à virtude pois, se alguma

coisa puder ser acrescentada a ela, seria necessário que ela tivesse

alguma imperfeição.

Honra, também, não permite adição, pois é

honrado por causa das mesmas qualidades que mencionei.

E então?

Você acha que a correção, a justiça, a legalidade, também não

pertencem ao mesmo tipo e que elas são mantidas dentro de limites

fixos? A capacidade de melhorar é a prova de que uma coisa

ainda é imperfeita.

10. O bem, em todos os casos, está sujeito a essas mesmas leis.

O interesse privado e o interesse público estão juntos; na verdade, é

tão impossível separá-los quanto separar o louvável do desejável.

Portanto, as virtudes são mutuamente iguais e assim são as obras

da virtude e todos os homens que são tão afortunados de possuir

essas virtudes.

11. Mas, como as virtudes das plantas e dos animais são perecíveis,

são também frágeis, passageiras e incertas.

Elas brotam e elas

afundam novamente e por isso não são avaliadas ao mesmo valor,

mas às virtudes humanas apenas uma regra se aplica.

Pois a razão

correta é única e de um só tipo.

Nada é mais divino do que o divino

ou mais celestial do que o celestial.

12. As coisas mortais decaem, caem, são desgastadas, crescem,

são esgotadas e reabastecidas.

Assim, no caso delas, em vista da

incerteza de sua Fortuna, há desigualdade; mas das coisas divinas, a

natureza é única.

A razão, entretanto, não é nada mais do que uma

porção do espírito divino colocado em um corpo humano.

Se a razão

é divina e o bem nunca carece de razão, então o bem é sempre

divino.

E além disso, não há distinção entre as coisas divinas.

Consequentemente também não existe nenhuma distinção entre

bens.

Daí resulta que a alegria e uma corajosa e obstinada resistência à tortura são bens equivalentes, pois em ambas situações

há a mesma grandeza de alma; descontraída e alegre em um caso e

combativa e pronta para a ação no outro.

13. O quê? Você não acha que a virtude daquele que bravamente

ataca a fortaleza do inimigo é igual a daquele que sofre um cerco

com a maior paciência? Houve grandeza em Cipião quando seu

comando pôs cerco a Numância e o cingiu de tal forma que obrigou

homens até então invencíveis à autodestruição.

Mas grandes

também são as almas dos defensores sitiados ao perceberem que

não está realmente cercado quem é livre para morrer e, por isso

mesmo, morrem abraçados à liberdade.

249 Do mesmo modo, as

outras virtudes também são iguais entre si: tranquilidade,

simplicidade, generosidade, constância, equanimidade, resistência.

Porque subjacente a todas elas há uma única virtude, a qual

proporciona à alma a retidão e a constância de propósitos.

14. “O quê então”, você diz, “não há diferença entre a alegria e a

obstinada resistência à dor?” De forma alguma, não em relação às

próprias virtudes, muito grande, no entanto, nas circunstâncias em

que uma dessas duas virtudes é exibida.

Em um caso, há um

relaxamento natural e afrouxamento da alma, no outro há uma dor não natural.

Daí que estas circunstâncias, entre as quais uma grande

distinção pode ser estabelecida, pertencem à categoria de coisas

indiferentes, mas a virtude mostrada em cada caso é igual.

15. A virtude não é alterada pela questão com a qual trata.

Se a

matéria é dura e teimosa, não piora a virtude, se agradável e alegre, não a torna melhor.

Portanto, a virtude permanece necessariamente

igual.

Pois, em cada caso, o que se faz é feito com igual retidão,

com igual sabedoria e com igual honra.

Assim, os estados de

bondade envolvidos são iguais e é impossível para um homem

ultrapassar esses estados de bondade, por conduzir-se melhor, seja

um homem em sua alegria, ou o outro em meio a seu sofrimento.

E

dois bens, quando nenhum deles pode ser melhor que o outro, são

iguais.

16. Pois se as coisas que são extrínsecas à virtude podem diminuir

ou aumentar a virtude, então o que é honroso deixa de ser o único

bem.

Se você aceitar isso, a honra perece completamente.

E por

que? Deixe-me dizer-lhe: é porque nenhum ato é honrado quando é

feito por um agente involuntário, quando é obrigatório.

Cada ato

honorável é voluntário.

Misture-o com relutância, queixas, covardia ou

medo e ele perde sua melhor característica: auto aprovação.

O que não é livre não pode ser honrado, pois medo significa escravidão.

17. O bem moral está totalmente livre da ansiedade e é calmo, se

alguma vez objeta, lamenta ou considera qualquer coisa como um

mal, torna-se sujeito a perturbação e começa a chafurdar em meio a

grande confusão.

Pois, de um lado, a aparência de correção o atrai,

por outro, a suspeita do mal o arrasta para trás, portanto, quando

um homem está prestes a fazer algo honorável ele não deve

considerar quaisquer obstáculos como infortúnios, embora os

considere como inconvenientes, mas ele deve querer fazer a ação e

fazê-la de boa vontade.

Pois todo ato virtuoso é feito sem ordens ou

coação; é puro e não contém mistura de mal.

18. Eu sei o que você pode me responder neste momento: “Você

está tentando fazer-me acreditar que não importa se um homem

sente a alegria ou se encontra-se sob tortura e esgota seu

torturador? ” Poderia dizer em resposta: “Epicuro também sustenta

que o sábio, embora esteja sendo queimado no touro de Fálaris, clamará: é agradável e não me preocupa em absoluto”. Por que

você precisa se admirar, se eu afirmo que aquele que repousa num

banquete e a vítima que resiste firmemente à tortura possuem bens iguais, quando Epicuro mantém uma coisa que é mais difícil de

acreditar, ou seja, que é agradável ser assado desta maneira?

19. Mas a resposta que eu dou é que há grande diferença entre

alegria e dor; se me pedem para escolher, vou procurar a primeira e

evitar a última.

A primeira está de acordo com a natureza, a segunda

é contrária a ela.

Enquanto são classificadas por este padrão, há um

grande abismo entre elas; mas quando se trata de uma questão da

virtude envolvida, a virtude em cada caso é a mesma, quer venha

através da alegria ou através da tristeza.

20. A vexação, a dor e outros inconvenientes não têm

consequências, pois são vencidos pela virtude.

Assim como o brilho

do sol escurece todas as luzes menores, também a virtude, por sua

própria grandeza, quebra e abranda todas as dores, aborrecimentos

e erros.

Onde quer que seu brilho chegue, todas as luzes que brilham

sem a ajuda da virtude são extintas e os inconvenientes, quando

entram em contato com a virtude, não desempenham um papel mais

importante do que uma nuvem de tempestade no mar.

21. Isto pode ser provado para você pelo fato de que o bom homem

apressar-se-á sem hesitação a qualquer ação nobre.

Mesmo que

seja confrontado com o carrasco, o torturador e o pelourinho, ele persistirá, não quanto ao que ele deve sofrer, mas quanto ao que

deve fazer, desempenhando tão prontamente uma ação honrosa

quanto se estivesse na presença de um homem bom; ele considerará

vantajoso para si mesmo, seguro e propício.

E ele manterá o mesmo

ponto de vista sobre uma ação honrosa, ainda que seja carregada de

tristeza e dificuldades, como sobre um homem de bem que é pobre,

doente ou desaproveitado no exílio.

22. Agora, compare um homem de bem extremamente rico com um

homem que não tem nada, exceto que em si mesmo tem todas as

coisas: eles serão igualmente bons, embora experimentem Fortuna

desigual.

Este mesmo padrão, como tenho observado, deve ser

aplicado tanto às coisas quanto aos homens.

A virtude é tão louvável

se ela habita num corpo sadio e livre, como se em alguém que está

doente ou em escravidão.

23. Portanto, quanto à sua própria virtude, não a louvará mais se a

Fortuna a favorecer concedendo-lhe um corpo sadio, do que se a

Fortuna lhe der um corpo que é mutilado em algum membro, pois

isso significaria classificar inferiormente um mestre porque ele está

vestido como um escravo.

Pois todas aquelas coisas sobre as quais

a Fortuna tem influência - bens materiais, dinheiro, posses, posição - são fracas, inconstantes, propensas a perecer e de posse incerta.

Por outro lado, as obras da virtude são livres e insubmissas, nem

mais dignas de serem procuradas quando a Fortuna as trata com

bondade, nem menos dignas quando alguma adversidade pesa sobre

elas.

24. A amizade, no caso dos homens, corresponde à desejabilidade,

no caso das coisas.

Você não gostaria, eu imagino, de amar um bom

homem, se ele fosse rico, mais do que se fosse pobre, e não amaria

uma pessoa forte e musculosa mais do que uma pessoa delgada e

de constituição delicada.

Assim, nem procurará nem amará uma

coisa boa que seja divertida e tranquila mais do que uma que é cheia

de perplexidade e labuta.

25. Ou, se você fizer isso, você vai, no caso de dois homens

igualmente bons, gostar mais de quem é limpo e bem-asseado do

que daquele que é sujo e despenteado.

Você chegaria ao ponto de

se importar mais com um homem bom que é são em todos os seus

membros e sem defeito, do que com alguém que é fraco ou cego.

Gradualmente sua exigência alcançaria tal ponto que, de dois

homens igualmente justos e prudentes, você escolheria aquele que

tem cabelos longos e ondulados! Sempre que a virtude em cada um é igual, a desigualdade em seus outros atributos não é aparente.

Pois todas as outras coisas não são essenciais, mas apenas

acessórios.

26. Qualquer homem julgaria seus filhos de modo tão injusto a fim de

se preferir mais um filho saudável do que um doente, ou a um filho

alto, de estatura incomum, mais do que a outro de pouca ou de baixa

estatura? Os animais selvagens não mostram nenhum favoritismo

entre sua prole; eles se deitam para amamentar todos igualmente.

Aves fazem a distribuição justa de seus alimentos.

Ulisses apressa-

se de volta às rochas de sua Ítaca tão ansiosamente quanto

Agamenon acelera até as majestosas muralhas de Micenas.

Porque

nenhum homem ama a sua terra natal porque ela é grande, ele a

ama porque é sua.

27. E qual é o propósito de tudo isso? Que você saiba que a virtude

considera todas as suas obras sob a mesma luz, como se fossem

seus filhos, mostrando a mesma bondade a todos e ainda mais

profunda bondade àqueles que encontram dificuldades.

Pois mesmo

os pais inclinam-se com mais afeição aos filhos por quem sentem

piedade.

A virtude, também, não necessariamente ama mais

profundamente aquelas de suas obras que vê em problemas e sob pesados fardos, mas, como bons pais, ela lhes dá mais de seus

cuidados de acolhimento.

28. Por que nenhum bem é maior do que qualquer outro bem? É

porque nada pode ser mais apropriado do que aquele que é

apropriado e nada mais nivelado do que aquilo que está nivelado.

De

duas coisas iguais a uma terceira você não poderá dizer que uma

delas é "mais igual" do que a outra! Por isso mesmo nada pode

haver de mais moral do que a própria moralidade.

29. Assim, se todas as virtudes são iguais por natureza, as três

variedades de bens são iguais.

Isto é o que quero dizer: há uma

igualdade entre sentir alegria com autocontrole e sofrer dor com

autocontrole.

A alegria em um caso não ultrapassa no outro a

firmeza da alma que afoga o gemido quando está nas garras do

torturador; são desejáveis os bens do primeiro tipo, enquanto os do

segundo são dignos de admiração e, em cada caso, não são menos

iguais, porque qualquer inconveniente atribuído a este último é

compensado pelas qualidades do bem, que é muito maior.

30. Qualquer homem que os julgue desiguais está se afastando das

próprias virtudes e está examinando meras exterioridades.

Os bens

verdadeiros têm o mesmo peso e o mesmo volume.

O tipo espúrio contém muito vazio, quando são pesados, percebemos sua

deficiência embora pareçam imponentes e grandiosos ao olhar.

31. Sim, meu caro Lucílio, o bem que a verdadeira razão aprova é

sólido e eterno, fortalece o espírito e exalta-o, para que ele esteja sempre nas alturas.

Mas as coisas que são irrefletidamente

elogiadas e são bens na opinião da multidão meramente nos enchem

de alegria vazia.

E, novamente, aquelas coisas que são temidas

como se fossem males apenas inspiram ansiedade na mente dos

homens, pois a mente é perturbada pela aparência do perigo, assim

como os animais também o são perturbados.

32. Portanto, é sem razão que ambas as coisas distraiam e piquem

o espírito: um não é digno de alegria nem o outro de medo.

Somente

a razão é imutável e se apega a suas decisões.

Pois a razão não é

escrava dos sentidos, mas uma governante sobre eles.

A razão é

igual à razão, como uma linha reta para outra; portanto a virtude

também é igual à virtude.

A virtude não é nada mais do que razão

correta.

Todas as virtudes são razões.

As razões são razões, se são

razões certas.

Se elas estão certas, elas também são iguais.

33. Como a razão é, assim também são as ações; portanto, todas

as ações são iguais.

Pois, uma vez que se assemelham à razão, também se assemelham umas às outras.

Além disso, considero que

as ações são iguais entre si, na medida em que são ações honradas

e corretas.

Haverá, naturalmente, grandes diferenças de acordo com

a variação do material, como se torna agora mais amplo e depois

mais estreito, agora glorioso e depois inferior, agora múltiplo no

alcance e depois limitado.

No entanto, o que é melhor em todos

estes casos é igual; eles são todos honrados.

34. Da mesma forma, todos os homens bons, na medida em que são

bons, são iguais.

Há, de fato, diferenças de idade, um é mais velho,

outro mais jovem; de constituição física, uns são belos, outros feios;

de condições de vida, este homem é rico, aquele homem é pobre;

este é influente, poderoso e conhecido pelas cidades e povos,

aquele homem é desconhecido para a grande maioria e anônimo.

Mas todos, em relação àquilo que importa – serem homens de bem

– são iguais.

35. Os sentidos não decidem sobre coisas boas e más, eles não

sabem o que é útil e o que não é útil.

251 Eles não podem registrar sua opinião a menos que sejam confrontados com um fato.

Eles não

podem ver o futuro nem se lembrar do passado e eles não sabem o

que resulta do que.

Mas é a partir desse conhecimento que uma sequência e sucessão de ações é tecida e uma unidade de vida é

criada, uma unidade que prosseguirá em um curso reto.

A razão,

portanto, é o juiz do bem e do mal, o que é estrangeiro e externo, ela

considera como escória e o que não é nem bom nem mau, ela julga

como apenas acessório, insignificante e trivial.

Pois todo o seu bem

reside na alma.

36. Mas há certos bens que a razão considera primordiais, aos quais

ela se dirige deliberadamente.

Estes são, por exemplo, a vitória,

filhos honestos e o bem-estar da pátria.

Alguns outros considera

secundários, estes se tornam manifestos apenas na adversidade,

por exemplo, a equanimidade em suportar uma doença grave ou

exílio.

Certos bens são indiferentes, estes não são mais de acordo

com a natureza do que contrários à natureza, como, por exemplo, um

andar discreto e uma postura decente em uma cadeira.

Pois sentar é

um ato que não é menos de acordo com a natureza do que ficar em

pé ou andar.

37. Os dois tipos de bens que são de ordem superior são diferentes:

os primários são de acordo com a natureza, como a alegria derivada

do comportamento obediente de seus filhos e do bem-estar de seu

país.

Os secundários são contrários à natureza, como a força moral em resistir à tortura ou na aceitação da sede quando a doença torna

os órgãos vitais febris.

38. “O quê então”, você diz; “alguma coisa que é contrária à

natureza pode ser um bem?” Claro que não, mas aquela em que

esse bem eleva-se a sua origem é por vezes contrária à natureza.

Por estarem feridos, esvaindo-se sobre uma fogueira, aflitos com má

saúde, tais coisas são contrárias à natureza; mas é de acordo com a

natureza que um homem preserve uma alma indomável em meio a

tais aflições.

39. Para explicar brevemente o meu pensamento, o material com o

qual o bem se relaciona às vezes é contrário à natureza, mas um

bem em si mesmo nunca é contrário, pois nenhum bem existe sem

razão e a razão está de acordo com a natureza.

“O que, então”,

você pergunta, “é a razão? ” É seguir a natureza.

“E o que”, você diz,

“é o maior bem que o homem pode possuir? ” É conduzir-se de

acordo com o que a natureza deseja.

40. “Não há dúvida”, diz o opositor, “que a paz proporciona mais

felicidade quando não é atacada do que quando é recuperada a

custo de grande matança.

Também não há dúvida de que a saúde que não foi comprometida, oferece mais felicidade do que a saúde

que foi restituída à solidez por meio da força, por assim dizer, e

pela resistência ao sofrimento, depois de doenças graves que

ameaçaram a vida em si. E, da mesma forma, não há dúvida de

que a alegria é um bem maior do que a luta de uma alma para

suportar até o fim os tormentos das feridas ou da tortura”.

41. De modo algum, nada mais falso! Pois coisas que resultam do

risco admitem ampla distinção, uma vez que são avaliadas de acordo

com sua utilidade aos olhos daqueles que as experimentam, mas em

relação aos bens, o único ponto a ser considerado é se eles estão

de acordo com a natureza.

E isso é igual no caso de todos os bens.

Quando em uma reunião do senado nós votamos em favor da

proposta de alguém, não pode ser dito “A. está mais de acordo com

a proposta do que B. ” Todos votam pela mesma proposta.

Eu faço a

mesma declaração com respeito às virtudes, todas elas estão de

acordo com a natureza; e eu o faço em relação aos bens igualmente,

estão todos de acordo com a natureza.

42. Um homem morre jovem, outro na velhice e outro ainda na

infância, tendo desfrutado nada mais do que um simples vislumbre na vida.

Todos eles foram igualmente sujeitos à morte, embora a morte

tenha permitido a um avançar mais ao longo do caminho da vida,

tenha cortado a vida do segundo em sua flor e quebrado a vida do

terceiro em seu início.

43. Alguns recebem sua sentença na mesa do jantar.

Outros

prolongam seu sono na morte.

Alguns são eliminados durante

conjunção carnal.

Agora, compare essas pessoas com aquelas que

foram perfuradas pela espada ou levadas à morte por cobras ou

esmagadas em um desabamento ou torturadas até a morte pela

torção prolongada de seus tendões.

Algumas dessas partidas podem

ser consideradas melhores, outras piores; mas o ato de morrer é

igual em tudo.

Os métodos de acabar com a vida são diferentes;

mas o fim é um e o mesmo.

A morte não tem graus maiores ou

menores, pois tem o mesmo limite em todos os casos, o fim da vida.

44. A mesma coisa é verdade, asseguro-lhe, em relação aos bens.

Você encontrará um em circunstâncias de puro prazer, outro em meio

a tristeza e amargura.

Uma pessoa controla bem os favores da

Fortuna, a outra supera seus ataques.

Cada um é igualmente um

bem, embora um viaje em uma estrada plana e fácil e o outro, em

uma estrada áspera.

E o fim de todos eles é o mesmo: eles são bens, eles são dignos de louvor, eles acompanham a virtude e a

razão.

A virtude faz iguais entre si todas as coisas que toca.

45. Você não precisa duvidar que este é um dos nossos princípios;

encontramos nos trabalhos de Epicuro dois bens, dos quais é

composto o seu Bem Supremo ou bem-aventurança, isto é, um corpo

livre de dor e uma alma livre de perturbação.

252 Estes bens, se

estiverem completos, não aumentam, pois como pode o que é

completo aumentar? O corpo é, suponhamos, livre da dor, que

aumento pode haver a essa ausência de dor? A alma é serena e

calma, que aumento pode haver para esta tranquilidade?

46. Assim como o tempo bom, purificado no mais puro brilho, não

admite um grau ainda maior de clareza; também um homem, quando

cuida de seu corpo e de sua alma, tecendo a textura de seu bem de

ambos, tem condição perfeita e atingiu a meta de suas orações se

não há comoção em sua alma ou dor em seu corpo.

Quaisquer que

sejam os encantos que receba em relação a estas duas coisas não

aumentam o seu Supremo Bem; eles simplesmente condimentam-no,

por assim dizer, e acrescentam tempero a ele.

Pois o bem absoluto

da natureza do homem fica satisfeito com a paz no corpo e a paz na

alma.

47. Posso mostrar-lhe neste momento nos escritos de Epicuro uma

lista graduada dos bens, muito semelhante com a lista da nossa

própria escola.

Pois há algumas coisas, ele declara, que prefere

receber, tais como descanso corporal livre de qualquer inconveniente

e relaxamento da alma enquanto se deleita na contemplação de seus

próprios bens.

E há outras coisas que, embora preferisse que não

acontecessem, mesmo assim elogia e aprova, por exemplo, o tipo de

resignação, em momentos de má saúde e sofrimento grave, os quais

Epicuro exibiu naquele último e mais abençoado dia de sua vida.

Pois

ele nos diz que teve que suportar a excruciante agonia de uma

bexiga doente e de um estômago ulcerado, sofrimento tão aguçado

que não permitiria aumento da dor; “E ainda,” ele disse, “aquele dia

não foi menos feliz.” 253 E nenhum homem pode passar tal dia em felicidade a menos que possua o Bem Supremo.

48. Portanto, encontramos, até mesmo em Epicuro, bens que seriam

melhor não experimentar que, no entanto, porque circunstâncias

assim o decidem, devem ser acolhidos e aprovados e colocados ao

nível dos bens mais elevados.

Não podemos dizer que o bem que

preencheu uma vida feliz, o bem pelo qual Epicuro deu graças nas

últimas palavras que pronunciou, não é igual ao maior.

49. Permita-me, excelente Lucílio, pronunciar uma palavra ainda mais

ousada: se qualquer mercadoria pudesse ser maior do que outras,

eu preferiria aquelas que parecem acres às que são brandas e

sedutoras, e as declararia maiores.

Pois é uma conquista maior

superar as barreiras do caminho do que manter a alegria dentro dos

limites estreitos.

50. Exige o mesmo uso da razão, estou plenamente consciente, um

homem suportar a prosperidade bem e também suportar a desgraça

corajosamente.

O homem que dorme em frente às muralhas sem

medo de perigo quando nenhum inimigo ataca o acampamento pode

ser tão corajoso quanto o homem que, quando os tendões de suas

pernas são cortados, se levanta de joelhos e não solta suas armas.

Mas é para o soldado manchado de sangue e que retorna da frente,

que os homens clamam: “Bem feito, herói!” E por isso, eu devo

conceder maior louvor aos bens que foram julgados e mostraram

coragem e que lutaram contra a Fortuna.

51. Devo hesitar em dar maior elogio à mão mutilada e seca de

Múcio do que à mão inofensiva do homem mais corajoso do mundo?

Lá estava Múcio, 254 desprezando o inimigo e desprezando o fogo e observando sua mão enquanto pingava sangue sobre o fogo no altar de seu inimigo, até que Porsena, invejando a fama do herói a quem

ele impingiu o castigo, ordenou que o fogo fosse removido contra a

vontade de sua vítima.

52. Por que não devo considerar este bem entre os bens primários e

julgá-lo como muito maior do que aqueles outros bens que são

desacompanhados de perigo e não foram testados pela Fortuna?

Pois é uma coisa mais rara superar um inimigo com uma mão

perdida do que com uma mão armada.

E então? Você diz, “você

deseja esse bem para si mesmo?” Claro que sim.

Pois esta é uma

coisa que um homem não pode alcançar a menos que também a

possa desejar.

53. Deveria eu desejar, em vez disso, que me permitam esticar os

meus membros para que os meus escravos façam massagens, ou

que uma mulher, ou um travesti efeminado, puxe as articulações dos

meus dedos? Não posso deixar de acreditar que Múcio teve mais

sorte porque manipulou as chamas tão calmamente como se

estivesse estendendo a mão para o massagista.

Ele havia aniquilado

todos os seus erros anteriores, terminou a guerra desarmado e mutilado e, com aquele toco de uma mão, ele conquistou dois reis.

Mantenha-se Forte.

Mantenha-se Bem.

Notas:

247 NT: Trecho de Eneida, de Virgílio, V, 334. O sentido da palavra “virtus” no texto de Virgílio não é virtude, mas sim coragem física, valor.

248 Sêneca não está falando aqui das três virtudes genéricas (físicas, éticas, lógicas), nem dos três tipos de bens (baseados na vantagem corporal) que foram classificados pela escola peripatética; Ele só está falando de três tipos de circunstâncias sob as quais o bem pode se manifestar.

E no § 36 e seguintes ele

mostra que considera apenas as duas primeiras classes como bens reais.

249 NT: O exército de Cipião montou dois acampamentos e construiu uma muralha

de circunvalação à volta da cidade espanhola com sete torres a partir das quais seus arqueiros podiam atirar por cima da muralha numantina.

Ele também represou

o pântano vizinho e criou um lago entre a muralha da cidade e sua própria muralha.

Para proteger seus acampamentos, Cipião construiu também muralhas

exteriores (cinco no total). Para completar o cerco, Cipião isolou a cidade do rio Douro: nos pontos onde o rio entrava e saía da cidade, pares de torres foram construídas e, entre os pares, cabos com lâminas foram estendidos através do rio

para evitar a passagem de barcos e nadadores.

250 Touro de Fálaris, foi uma das mais cruéis máquinas de tortura e execução, cujo invento é atribuído a Fálaris, tirano de Agrigento.

O aparelho era uma esfinge

de bronze oca na forma de um touro mugindo, com duas aberturas, no dorso e na

parte frontal localizada na boca.

Após colocada a vítima em seu interior, a entrada

da esfinge era fechada e posta sobre uma fogueira.

À medida que a temperatura

aumentava no interior do Touro, o ar ficava escasso e o executado procuraria meios para respirar, recorrendo ao orifício na extremidade do canal.

Os gritos exaustivos do executado saíam pela boca do Touro, fazendo parecer que a esfinge

estava viva.

251 Aqui, Sêneca está lembrando Lucílio, como muitas vezes faz nas cartas anteriores, que a evidência dos sentidos é apenas um degrau para ideias

superiores – um princípio do epicurismo.

252 NT: Ver Epicuro, Cartas e Princípios

253 NT: Ver Diógenes Laércio, Vidas e doutrinas dos filósofos ilustres, livro X.

254 Caio Múcio Cévola (em latim: Gaius Mucius Scaevola). Logo depois da fundação da República Romana, Roma se viu rapidamente sob a ameaça etrusca

representada por Lar Porsena.

Depois de rechaçar um primeiro ataque, os romanos se refugiaram atrás das muralhas da cidade e Porsena iniciou um cerco.

Conforme o cerco se prolongou, a fome começou a assolar a população romana e

Múcio, um jovem patrício, decidiu se oferecer para invadir sorrateiramente o acampamento inimigo para assassinar Porsena.

Disfarçado, Múcio invadiu o

acampamento inimigo e se aproximou de uma multidão que se apinhava na frente

do tribunal de Porsena.

Porém, como ele nunca tinha visto o rei, ele se equivoca e

assassina uma pessoa diferente.

Imediatamente preso, foi levado perante o rei, que

o interrogou.

Longe de se intimidar, Múcio respondeu às perguntas e se identificou

como um cidadão romano disposto a assassiná-lo. Para demonstrar seu propósito

e castigar seu próprio erro, Múcio colocou sua mão direita no fogo de um braseiro

aceso e disse: “Veja, veja que coisa irrelevante é o corpo para os que não aspiram

mais do que a glória!”. Surpreso e impressionado pela cena, o rei ordenou que Múcio fosse libertado.

Como reconhecimento, Múcio confessa que trezentos jovens

romanos haviam jurado, assim como ele, estar prontos a sacrificar- se para matá-lo. Aterrorizado por esta revelação, Porsena teria baixado suas armas e enviado embaixadores a Roma.

Document Outline  Louvor  Prefácio da segunda edição  Introdução  Sobre a tradução  Sobre o autor  I. Sobre aproveitar o tempo  II. Sobre a falta de foco na leitura  III.

Sobre a verdadeira e a falsa amizade  IV. Sobre os terrores da morte  V. Sobre a virtude do filósofo  VI. Sobre compartilhar conhecimento  VII.

Sobre multidões  VIII.

Sobre o isolamento do filósofo  IX. Sobre filosofia e amizade  X. Sobre viver para si mesmo  XI. Sobre o rubor da modéstia  XII.

Sobre a velhice  XIII.

Sobre medos infundados  XIV.

Sobre as razões para se retirar do mundo  XV. Sobre força bruta e cérebros  XVI.

Sobre filosofia, o guia da vida  XVII.

Sobre filosofia e riquezas  XVIII.

Sobre festivais e jejum  XIX.

Sobre materialismo e retiro  XX. Sobre praticar o que se prega  XXI.

Sobre o reconhecimento que meus escritos lhe trarão  XXII.

Sobre a futilidade de meias medidas  XXIII.

Sobre a verdadeira alegria que vem da filosofia  XXIV.

Sobre o desprezo pela morte  XXV.

Sobre a mudança  XXVI.

Sobre a velhice e a morte XXVII.

Sobre o bem que permanece XXVIII.

Sobre viajar como cura para o descontentamento XXIX.

Sobre evitar ajudar os não interessados XXX.

Sobre conquistar o conquistador (a morte) XXXI.

Sobre o canto da sereia XXXII.

Sobre progresso XXXIII.

Sobre a futilidade de aprender axiomas XXXIV.

Sobre um aluno promissor XXXV.

Sobre a amizade entre mentes semelhantes XXXVI.

Sobre o valor da aposentadoria XXXVII.

Sobre a lealdade à virtude XXXVIII.

Sobre o ensinamento tranquilo XXXIX.

Sobre aspirações nobres XL. Sobre o estilo apropriado para o discurso de um filósofo XLI.

Sobre o Deus dentro de nós XLII.

Sobre valores XLIII.

Sobre a relatividade da fama XLIV.

Sobre filosofia e pedigrees XLV.

Sobre argumentação sofística XLVI.

Sobre um novo livro de Lucílio.

XLVII.

Sobre mestre e escravo XLVIII.

Sobre trocadilhos como indignos ao filósofo XLIX.

Sobre a brevidade da vida L. Sobre nossa cegueira e sua cura LI. Sobre Baiae e a moral LII.

Escolhendo nossos professores LIII.

Sobre as falhas do espírito LIV.

Sobre asma e morte LV. Sobre a Vila de Vácia LVI.

Sobre silêncio e estudo LVII.

Sobre as provações de viagem LVIII.

Sobre ser, existir e eutanásia LIX.

Sobre prazer e alegria LX. Sobre orações prejudiciais LXI.

Sobre encontrar a morte alegremente LXII.

Sobre boa companhia LXIII.

Sobre sofrimento por amigos perdidos LXIV.

Sobre a tarefa do Filósofo LXV.

Sobre a primeira causa (Deus/Logos) Bônus LXVI.

Sobre vários aspectos da virtude